13/04/2001

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OPINIÃO ACADÊMICA

Opinião Acadêmica

Refletindo o Multiculturalismo e suas Implicações na Escola

Cheila Szuchmacher Huf


Resumo: Sou filha de imigrantes, por parte materna descendo da Rússia e paterna, da Polônia. Meus pais fugiram para o Brasil devido à perseguições étnicas sofridas nestes países.
Sou judia e nasci no Brasil, país que possui uma diversidade cultural bastante acentuada. Por pertencer a um grupo que faz parte desta diversidade e por estar vinculada à educação, atuando como professora, decidi fazer esta breve reflexão sobre o multiculturalismo e suas implicações no cotidiano escolar.
Leciono Hebraico numa escola comunitária brasileira judaica. Tive, nos últimos anos, o privilégio de atuar como Professora substituta da Faculdade de Letras (português/hebraico) das Universidades UFRJ e UERJ. No âmbito acadêmico tive contato com alunos das mais diversas religiões, sendo que alguns deles, por motivação religiosa, pretendiam estudar a língua hebraica para poderem ler o Antigo Testamento no “original”. Na Universidade pude me relacionar com pessoas que optaram por estudar o hebraico e que com as quais, diariamente, realizávamos um intercâmbio de idéias -- alguns deles me ensinavam sobre o Novo Testamento - uma experiência bastante enriquecedora em todos os sentidos, tendo me tornado amiga pessoal de alguns alunos, como também pude ampliar meu universo de conhecimento.
Com relação à escola que trabalho há mais de doze anos, Colégio Talmud Torah Hertzlia, tenho um outro tipo de vivência muito enriquecedora também. Nessa escola comunitária lido com a diversidade cultural porque muitos alunos têm algum parente próximo de uma outra religião. As crianças se mostram interessadas na língua e cultura hebraica e ao mesmo tempo colocam suas experiências como participantes de uma realidade diferente. Neste espaço, sinto-me responsável por colocar em prática o respeito às diferenças religiosas. Procuro discutir com o grupo questões como democracia, solidariedade e ética. Como educadores, devemos estar atentos a questões que envolvem valores e, de uma forma mais constante, dialogar com nossos alunos, tornando aos poucos temas como este indispensáveis ao cotidiano escolar.
Quando aluna do Curso de Mestrado em Educação e Desenvolvimento Humano na UNESA, tive a oportunidade de ler textos e participar de discussões que me inspiraram e me encorajaram para escrever algumas reflexões sobre o multiculturalismo e suas implicações na escola.


Encarando a Diversidade

       O mundo contemporâneo nos leva a refletir sobre questões presentes no nosso cotidiano como a globalização, mundialização e até a planetarização. Todos estes conceitos modernos vêm invadindo as sociedades mais complexas, atingindo de hábitos a sistemas financeiros, em países ligados à rede digital.
“Com a constituição da rede digital e o desdobramento dos seus usos tal como imaginamos aqui, televisão, cinema, imprensa escrita, informática e telecomunicações veriam suas fronteiras se dissolverem quase que totalmente, em proveito da circulação, da mestiçagem, e da metamorfose das interfaces em um mesmo território cosmopolita.” (Lévy,1996,p.113)

       Tendo em vista que a diversidade cultural, que sempre existiu, se torna mais evidente na sociedade atual, faz-se necessário que a escola esteja atenta à proposta de trabalhar com um tema tão complexo, o multiculturalismo.

       Paradoxalmente, em um mundo que vem rompendo as fronteiras, nota-se a necessidade do ser humano de identificar-se com um grupo, no qual o sentido de isolamento pertencente ao macro vá se diluindo e dê conforto aos indivíduos que mantém uma identidade cultural, uma tradição e uma história que lhes permita pertencer a esta nova realidade sendo sujeitos atuantes neste processo:
“A sociedade globalizada é, por sua vez, instável; nela o sujeito-ator perde protagonismo e não encontra figuras emblemáticas com as quais se identificar, em companhia dos outros, além de beber as mesmas bebidas ou assistir aos mesmos filmes. Se compartilharmos cada vez menos significados, as comunidades de vida podem tender à fragmentação e a considerarem-se cada vez mais autônomas em relação umas às outras (Berger e Lukmann,1997,p.63), ficando como as únicas que resguardam seus membros da crise de sentido.” (Sacristán,1999,p.193)

       De acordo com Sacristán (1999) o homem é capaz de transformar a sociedade tendo como base a história de sua própria civilização, seu desenvolvimento, contradições e identidade cultural. Cabe à escola como instituição que produz e reproduz nossa sociedade, trazer para seu cotidiano o exercício de cidadania consciente face a diversidade cultural:
“Mudar mentalidades, superar o preconceito e combater atitudes discriminatórias são finalidades que envolvem lidar com valores de reconhecimento e respeito mútuo, o que é tarefa para a sociedade como um todo. A escola tem um papel crucial a desempenhar neste processo. Em primeiro lugar porque é espaço em que pode se dar à convivência entre crianças de origens e nível sócioeconômico diferentes, com costumes e dogmas religiosos diferentes daqueles que cada um conhece, com visões de mundo diversas daquelas que compartilha em família. Em segundo, porque é um dos lugares onde são ensinadas as regras do espaço público para o convívio democrático com a diferença. Em terceiro lugar, porque a escola apresenta à criança conhecimentos sistematizados sobre o país e o mundo.”(PCN,2000,p.23)

       A sociedade comprometida com a luta pela escola democrática, deve levar em conta os valores que estão sendo veiculados pela mesma participando ativamente da escola no sentido de poder contribuir para um novo paradigma.

       Morin (1999) nos esclarece o quanto o pensamento complexo é necessário para darmos conta de questões que fora de um contexto histórico não teriam o menor sentido. Diante desta idéia temos a possibilidade de ultrapassarmos a rigidez, partindo para uma relação dialógica do conhecimento.

       Seria inválido pensarmos em qualquer tipo de transformação nas escolas sem nos preocuparmos com a formação dos professores. Quando nos assumimos como professores temos que ter preparo para que em situações de preconceito no cotidiano escolar, tenhamos a possibilidade e a lucidez de discutir e até de reverter a negação ao que é diferente a partir do que entendemos como compreensão, ética e solidariedade.

       Sendo a escola provedora de um conhecimento institucionalizado seu efeito democratizante se torna fundamental já que vivemos numa sociedade letrada e todos que não possuem estes conhecimentos acabam vivendo à margem da sociedade e tendo poucos instrumentos para lutarem pelos seus direitos de cidadãos. É necessário que como agentes deste processo, estejamos engajados nos aspectos pertinentes à produção dos conhecimentos necessários para a dignidade, reconhecimento e valorização de cada indivíduo:
“A identidade cultural apela para o conhecimento e reconhecimento de que alguém é membro ou possui características próprias de um grupo cultural, com a conseqüente conotação emocional de sentir-se como tal; tonalidade afetiva que pode ser de satisfação, de orgulho, de desconforto ou até de rejeição, conforme o caso. A identidade cultural é condição que alguém atribui a si próprio ou que lhe é atribuída ou reconhecida.”(Sacristán,1999,p.191)

       Atualmente, já se admite falar e até conhecer melhor as diversidades existentes em cada aluno. Se pretendemos romper com atitudes autoritárias tornando a escola um ambiente democrático, precisamos permitir que cada aluno se expresse livremente, pois a democracia passa necessariamente pelo respeito às diferenças. Como nos esclarece Fischmann:
“E as responsabilidades que temos, como educadores, de preservar essa diversidade, garantindo a identidade de cada tradição e promovendo a solidariedade, tarefa intransferível da educação.” (Fischmann,1999,p.112)

       A escola que realmente procura ter uma postura democrática de ensino e está preocupada com a formação do futuro cidadão tem como um de seus desafios desenvolver uma reflexão consciente sobre a realidade, no sentido de poder transfomá-lo e reconstruí-lo constantemente:
“Há um aspecto capital da evolução transdisciplinar da educação: reconhecer a si mesmo na face do outro. Trata-se de um aprendizado permanente, que deve começar na mais tenra infância e continuar por toda a vida. A atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional permiti-nos-á, então, aprofundar mais a nossa própria cultura, defender melhor nossos interesses nacionais, respeitar mais nossas próprias convicções religiosas ou políticas. A unidade aberta e a pluraridade complexa, como em todos os campos da Natureza e do conhecimento, não são antagônicas.” (http://perso.club-internet.fr)

       Então, se preocupados em reconhecer e respeitar as diferenças, é indispensável rever o currículo e também estar atento aos livros didáticos que muitas vezes reforçam preconceitos ou situações preconceituosas, como ao colocar os índios e os negros de forma caricatural. Avaliar estes livros é um ato político que nos permite questionar visões e conceitos que muitas vezes só interessam a uma determinada camada de nossa sociedade.
“Certos saberes transmitidos pela escola são, sem dúvida, pretextos para fabricar hierarquias de excelência, para selecionar e para atribuir colocações em uma sociedade meritocrática.” (Perrenoud,2000,p.71)

       Dentro de uma perspectiva histórica, onde as escolas brasileiras refletem e reproduzem a supremacia das classes dominantes, é fundamental refletirmos sobre o papel da escola na formação dos indivíduos. Desta forma, a escola deve estar comprometida na formação de um cidadão crítico e criativo que contribua de forma positiva e consciente para sua comunidade.
“Com relação à discriminação, sabe-se que um de seus fundamentos psicológicos é o medo.(...) No pólo que discrimina, o medo se manifesta como reação ao desconhecido, visto como ameaçador. Quem tem a cor da pele diferente, ou fala de tradições - étnicas, religiosas, culturais - desconhecidas, confronta seu interlocutor com sua própria ignorância de mundos diferentes do seu. É a figura do”estranho”, do estrangeiro, que por escapar da apreensão comum, pode ser rotulado de “esquisito”.” (PCN,2000,p.49)

       Conhecendo os diferentes grupos étnicos, estudando e pesquisando sobre suas tradições, costumes, história, estaremos rompendo com a ignorância sobre o desconhecido e possibilitando a superação dos aspectos que muitas vezes acarretam atitudes preconceituosas:
“A tolerância e respeito com aquilo que é diferente é aceitável para aproximar-se da diversidade. Diante da diversidade evidente da multiculturalidade entre grupos e diante da variabilidade individual interna em cada um deles, a educação como um todo, e não só por meio das escolas, deve fomentar a atitude de tolerância e de abertura para com o outro.(...) A tolerância em sociedades democráticas, em geral, ainda quando são pluriculturais, aparece como a virtude por excelência, como pensam Berger e Luckman (1997,p.61), porque, graças a ela, os indivíduos podem viver juntos, estabelecer relações e ao mesmo tempo orientar sua existência em relação a valores diferentes.” (Sacristán,1999,p.181)

       Antropologicamente pensar no indivíduo, significa vinculá-lo a um grupo, sendo este portador de seus códigos, valores, tradições, costumes e a cultura contextual. Nesta perspectiva, a escola propicia o encontro destes indivíduos e possibilita trocas muito intensas.
“a aprendizagem nasce do encontro de pessoas diferentes. Cada uma delas é singular, única e, portanto, portadora, em parte do conhecimento, da cultura e da experiência coletiva das comunidades às quais pertence.” (Perrenoud,2000,p.74)

       Sob este prisma, a função da escola é de atender estas diferenças percebendo o aluno como centro do processo educativo. Pensamentos estereotipados devem dar lugar a um outro caminho, permeado pela tolerância, que possibilita o reconhecimento do outro na construção do conhecimento.

       Cabe à escola promover o desenvolvimento dos alunos nos aspectos: cognitivos, sociais e emocionais. Neste processo, tanto alunos como educadores se tornam responsáveis com relação aos objetivos a serem atingidos.

       Na verdade, faz-se necessário que a escola assuma o compromisso de oferecer todas as possibilidades para a formação de um indivíduo capaz de perceber, entender, analisar e criticar o mundo em que vive. Esta prática requer de nós educadores empenho e paciência.

Conclusão

       Não se pretende nestas últimas linhas encerrar qualquer reflexão sobre este tema que é pertinente a todos nós brasileiros, pois, todo esforço e comprometimento da sociedade como um todo e da escola, em particular, deve ser constante no sentido de contribuir cada vez mais para a construção de uma sociedade que respeite as diferenças.
“escola é o lugar não só de acolhimento das diferenças humanas e sociais encarnadas na diversidade de sua clientela, mas fundamentalmente o lugar a partir do se engendram novas diferenças, se instalam novas demandas, se criam novas apreensões sobre o mundo já conhecido. Em outras palavras, a escola é, por excelência, a instituição da alteridade, do estranhamento e da mestiçagem – marcas indeléveis da medida da transformabilidade da condição humana.” (Aquino,1998,p.138)

       Com certeza a escola que trabalhamos não é a escola ideal, porém, a partir destas reflexões temos a possibilidade de, passo a passo, caminharmos para a transformação da escola real.

       É necessário que reconheçamos as diferenças étnicas para compreendermos melhor cada grupo de indivíduos, porém, não podemos esquecer que antes de pertencermos a qualquer coletivo, somos todos seres humanos dignos de respeito e liberdade.


Cheila Szuchmacher Huf é professora e mestrada em Educação e Desenvolvimento Humano pela UNESA.
huf@marlin.com.br

Referências Bibliográficas
AQUINO , Julio Groppa . Diferenças e preconceito na escola : alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summos , 1998
LÉVY , Pierre . As Tecnologias da inteligência. São Paulo: Literatura S/C, 1996.
MINGUET , Pilar A . A construção do conhecimento na educação . Porto Alegre : Vozes, 1998.
MORIN , Edgar . O pensar complexo e a crise da modernidade . Rio de Janeiro : Garamond, 1999.
PERRENOUD , Philippe. Pedagogia diferenciada ; das intenções à ação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul , 2000.
SACRISTAN , J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Porto Alegre: Artes Médicas , 1999
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural: orientação sexual. Rio de Janeiro: DP&A , 2000.
TRINDADE , Azoilda Loretto . Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro : DP&A , 1999.