20/04/2001

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OPINIÃO ACADÊMICA

Opinião Acadêmica

A IMPRENSA GLOBAL E SUA LINGUAGEM

Artigo publicado na ORDEM / DESORDEM - Revista Acadêmica de Comunicação da PUC MINAS
- Pontifício Universidade Católica de Minas Gerais - número 13 páginas 72-80

Ana Maria Rodrigues de Oliveira


Resumo: O objetivo deste trabalho é refletir sobre as mudanças que vêm ocorrendo neste final de século a partir do fenômeno da globalização, com reflexos imediatos sobre a Comunicação. Inseridos na aldeia global - e como sujeitos primordiais - os meios de comunicação têm aumentado seu alcance a partir das novas tecnologias. Mas, apesar deste progresso, sua linguagem está muito comprometida: ela mais expressa o mundo virtual do que o real. Especialmente a televisão tem contribuído para que quase tudo se torne representação, simulacro. Preocupada com a informação imediata, instantânea, a mídia em geral afasta progressivamente a figura do narrador. Com isso, perdem-se os relatos vivos, as histórias interessantes. Em meio à euforia com os avanços tecnológicos, que criam novas possibilidades, não se pode perder de vista a noção de que eles são apenas fontes potencializadoras de mudança. A sociedade, com sua cultura, ainda é o grande agente da História.


0 mundo globalizado

       Várias expressões descrevem as profundas mudanças que estão ocorrendo neste final de século e que vão atravessar o próximo: "primeira revolução mundial", "terceira onda", "sociedade informática", "aldeia global".
São metáforas que tentam explicar uma realidade ainda não totalmente decodificada pelas Ciências Sociais. Afinal, estamos vivendo sob o signo das avançadas tecnologias, de uma aparente desmitificação e democratização do consumo a grandes parcelas da população, uma rápida transmissão de informações e conhecimentos.
Neste contexto, a mídia tem papel primordial. A sua grande rede - a publicidade, a televisão, os jornais, o rádio - somada a recursos como fax, computador, dissolve fronteiras, agiliza os mercados, generaliza o consumo. Promove o redimensionamento de espaços e tempos. Neste clima, multiplicam-se as metáforas, imagens, figuras, parábolas e alegorias para dar conta do que está acontecendo, das surpresas inimaginadas.
Octávio Ianni traduz bem esta situação: "As metáforas parecem florescer quando os modos de ser, agir, pensar e fabular mais ou menos sedimentados sentem-se abalados". (Ianni, 1995, p. 15)

       A verdade é que a terra se tornou mundo. 0 globo não é mais apenas um conglomerado de nações, sociedades nacionais, estados-nações, com suas relações de interdependência, dependência, colonialismo, bilateralismo, multilateralismo. Também o centro do mundo não é mais voltado só ao indivíduo ou a categorias como povo, classe, grupo, minoria, maioria, opinião pública. Embora elas continuem a ser muito reais e inquestionáveis, já não são hegemônicas, isto é, preponderantes. Foram substituídas, real ou formalmente, pela sociedade global.
Isto cria um novo desafio à Sociologia. Mesmo a Economia e a Política continuam a apoiar-se em princípios referentes à sociedade nacional. Para a economia, o padrão de mercado continua a ser o nacional; para a ciência política, a referência é o Estado-nação. Nesta perspectiva, o "mundo", na sua inteireza, escapa à própria análise conceitual.

       0 conceito de sociedade global não é novo. Ele foi cunhado em 1950 por G. Gurvitch para tentar explicar os fenômenos sociais totais que englobam e ultrapassam os grupos, as classes sociais e até mesmo os Estados. Segundo Gurvitch, a sociedade global seria "um macrocosmo dos macrocosmos sociais", possuindo uma originalidade e uma vida própria.
Outros autores tentam trabalhar esta idéia, embora às vezes recaiam na concepção de sistema. Mrilbert Moore, em "Sociologia global: o mundo como um sistema singular", publicado em 1966, diz que o mundo tornou-se um "super sistema, englobando outros sistemas menores, em tamanho e complexidade". 0 problema é que a teoria do sistema mundial se concentra enfaticamente nas influências econômicas e não explica, satisfatoriamente, fenômenos como a ascensão do Estado-nação. A esfera da política é vista como mera extensão da infra-estrutura econômica.

As fronteiras se abrem

       Entre todas as metáforas, a expressão mais usada na área da Comunicação é aldeia global. Ela sugere que, afinal, formou-se a comunidade mundial, concretizada através das possibilidades e realizações da comunicação, informação e fabulação abertas pela eletrônica. Indica, também, que estão em curso a harmonização e a homogeneização progressivas. Aí destaca-se a noção de comunidade mundial, mundo sem fronteiras. Não podemos deixar de levar em conta que, de alguma maneira, permanecem conflitos.
Da mesma maneira, do ponto de vista econômico, a idéia de "fábrica global" sugere uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo além de todas as fronteiras. Toda economia nacional torna-se província da economia global. 0 modo capitalista de produção entra em uma época propriamente global e não apenas internacional ou multinacional. Assim, o mercado, as forças produtivas, a nova divisão internacional do trabalho, a reprodução ampliada do capital desenvolvem-se em escala mundial.

       Províncias, nações e regiões são atravessadas e articuladas por sistemas de informação e comunicação agilizados pela eletrônica. Na aldeia global, empacotam-se as informações, além, das mercadorias convencionais. Estas são fabricadas e comercializadas em escala mundial. São consumidas como mercadorias.
McLuhan (2973) lembra que, antigamente, invadiam-se os mercados estrangeiros com mercadorias. Hoje culturas inteiras são invadidas com pacotes de informações, entretenimentos e idéias.

       Em decorrência das tecnologias oriundas da eletrônica e da informática, os meios de Comunicação adquirem maiores recursos, maior dinamismo e alcances muito mais distantes. Eles rompem ou ultrapassam fronteiras, culturas, idiomas, religiões; em poucos anos, a partir da segunda metade do século XX, a indústria cultural revolucionou o mundo da cultura, transformando o imaginário de todo o mundo.
Formou-se uma cultura de massa mundial, tanto pelas produções locais e nacionais, como pelas criações em escala mundial: produções musicais, cinematográficas, teatrais, lançadas diretamente no mundo como signos mundiais ou da mundialização.
Na aldeia global, a mídia eletrônica prevalece como um poderoso instrumento de comunicação, informação, compreensão, explicação e imaginação sobre o que ocorre no mundo. Segundo Ianni, juntamente com a imprensa escrita, a mídia eletrônica passa a desempenhar o singular papel de intelectual orgânico (na concepção de Gramsci, o agente da vontade coletiva transformadora) dos centros mundiais de poder, dos grupos dirigentes das classes dominantes.

       Ainda que ela seja mediatizada, influenciada, questionada ou assimilada em âmbito local, nacional e regional, aos poucos a mídia adquire o caráter de um singular e insólito intelectual orgânico, articulado às organizações e empresas transnacionais predominantes nas estruturas de dominação política e econômica mundiais.
Mas a mídia global não é monolítica. Ela é influenciada por injunções locais, nacionais e regionais, como também por divergências políticas, culturais, religiosas. Compõe-se de empresas, corporações e conglomerados competindo nos mercados, disputando clientes, públicos, extratos sociais. Sob este aspecto, a mídia expressa muito do que vai pelo mundo, na onda da integração e fragmentação, das diversidades e desigualdades, dos conflitos e acomodações.

       Simultaneamente, no entanto, uma parte da mídia opera em consonância com centros de poder de alcance mundial. Está acoplada às organizações e empresas transnacionais. A Walt Disney é hoje a supergigante do setor. Ela é proprietária da rede ABC de televisão, da Walt Disney Pictures, mantém negócios de vídeo, uma sociedade com três telefônicas regionais, etc. A General Electric é dona de seis grandes emissoras de televisão nos Estados Unidos, dos canais de cabo CNBC e America's Talking. A japonesa Sony é proprietária da Columbia Pictures, da Tristar Pictures e de uma produtora de vídeo. (Estado de Minas, 1" Caderno, P. 26).
0 jornalista e estudioso da mídia norte-anmericana, Ben Bagdikian, prevê que, até o fim deste século, de cinco a dez corporações gigantes vão controlar a maioria de importantes jornais, revistas, editoras de livros, estações de rádio, empresas cinematográficas, produtoras de videocassetes e discos no mundo.
Adquirindo alcance global, a indústria cultural transformou-se num poderoso setor de produção, no sentido de produção de mercadoria e lucro. Ela emprega milhares de intelectuais dos mais diferentes campos do conhecimento, transfigura o jornalista, o escritor, o locutor, o âncora, o técnico de som, o cenógrafo. Simultaneamente, produz e reproduz signos, símbolos, imagens, sons, formas, cores, movimentos.

0 produto global e sua linguagem

       Os estudos sobre a imprensa internacional têm tratado este processo de concentração na mídia como uma via de mão única. Dentro da perspectiva do imperialismo cultural, as grandes nações estariam por trás da exploração dos países periféricos. Essa visão predominou durante as discussões e as ações desenvolvidas na Unesco nos anos 70 e 80, que culminaram com a divulgação do famoso Relatório MacBride e a proposta da Nomic - Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação.
Mas, na opinião do sociólogo Ortiz (1994), este processo é mais complexo. Devido à magnitude do mercado global e da competição entre as empresas, que se acirrou nos anos 80 e 90, as fusões das grandes empresas de comunicação resultam como uma forma de maximização dos lucros. Independentemente de suas fidelidades nacionais, as grandes corporações se juntam para melhor administrar suas políticas, repetindo as transformações ocorridas nos níveis tecnológico e econômico.
A tendência à oligopolização desvenda uma dimensão diversa da fragmentação. Concentração significa controle. A consequência disso é que meios de Comunicação como as agências transnacionais de notícias, sendo instâncias mundiais de cultura, definem padrões de legitimidade social.

       No âmbito da aldeia global, relembra Ianni, tudo tende a tornar-se representação estilizada, realidade pasteurizada, simulacro, virtual. 0 mundo que aparece na mídia tem muito de um mundo virtual, que existe em abstrato e por si, em si. Muitas vezes tem apenas uma remota ressonância do que poderiam ser os acontecimentos, as configurações e os movimentos da sociedade, em nível local, nacional, regional ou global.
Um exemplo que justifica este argumento é a cobertura da Guerra do Golfo, em 1991. Os fatos transmitidos pela televisão mais pareciam uma representação do real que o real em si mesmo. 0 enfoque se concentrava na "precisão cirúrgica" dos mísseis dos países "aliados", ou em alvos bombardeados. Poucas vezes se viam militares em combate, ou a população civil iraquiana. Vez ou outra, apareciam gansos pintados de óleo que havia derramado nas águas do Golfo, não se sabe se dos bombardeiros norte-americanos ou dos navios iraquianos. As cenas pareciam montagens.

       Segundo Ianni, "toda realidade mais ou menos complexa, problemática ou não, sempre se traduz em representação, imagens, metáforas, parábolas e alegorias, assim como as descrições e interpretações". (Ianni, 1995, p. 104).
Na cobertura da guerra, a imprensa escrita desempenhou um melhor papel do que a mídia eletrônica. A Grande Imprensa brasileira, de modo geral, preocupou-se em informar e interpretar, dando maiores subsídios ao leitor. A "Folha de S. Paulo" fez cadernos especiais sobre a questão do Islamismo e o Iraque.

       Outros exemplos de cobertura referem-se ao período da Guerra Fria, entre 1446 e 1989, em que a mídia freqüentemente construía uma visão de mundo bipolarizada, maniqueísta. 0 capitalismo e o socialismo eram contrapostos em termos de "mundo livre e mundo totalitário", "democracia e comunismo", "reino do bem e do mal". Com a queda do Muro de Berlim em 1989, o que prevaleceu foi a idéia de uma "nova ordem econômica mundial", "fim da história", "fim da geografia". Para Ianni, "é assim que a metáfora da mão invisível, idealizada pelo liberalismo clássico nos horizontes do Estado/nação, ressurge idealizada pelo neoliberalismo nos horizontes da globalização". (Ianni, 1995,p. 106).

       Nesse sentido, a mídia adquire e expande sua influência no imaginário de muitos, da grande maioria. Ela detém amplo controle sobre o modo pelo qual os fatos importantes ou secundários, locais, nacionais, regionais ou mundiais, reais ou imaginários difundem-se pelo mundo, influenciando mentes e corações. Pode transfigurar o real em virtual, da mesma maneira que o virtual em real.
Esse intelectual orgânico de alcance mundial fala, escreve e pensa principalmente em inglês. A despeito de suas conotações ainda imperialistas, quando se trata de interesses norte-americanos, britânicos, canadenses e de outras nações pertencentes à comunidade britânica ou à geoeconomia norte-americana, é inegável que o inglês se lança como uma espécie de jargão universal.
É o idioma por excelência da aldeia global tecida pelas técnicas da eletrônica, pelos intercâmbios mercantis, pela ordem econômica formada pelo neoliberalismo e pelas redes da indústria cultural mundializada. Destes, o principal tecido é inegavelmente o mercado, a mercantilização universal, no sentido de que tudo tende a ser mercantilizado, produzido e consumido como mercadoria.

       0 sociólogo peruano Rafael Roncagliolo chama a atenção para o surgimento do "global supermarket", ao qual a "comunicação comercial" se dirige em nome da aldeia global. Um exemplo interessante foi dado por um reporter da "Gazeta Mercantil", que observava, em Curitiba, um jovem calçando tênis Adidas, ouvindo um walkman Sony, dirigindo uma moto Honda, com um relógio Cásio no pulso. A mesma imagem poderia ser vista em Tóquio, Nova Iorque ou Bonn.
De acordo com o jornalista AImeida (1989), a estruturação no sistema mundial da informação e comunicação contribui para compor o apoio logístico necessário à penetração da corporação global e de seus produtos. Trata-se do fim do mundo comercial multinacional e da corporação multinacional que, ao operar em numerosos países, ajustava-se a certas características locais. A corporação global opera com constância resoluta, por isso o preço é relativamente baixo como se a maior parte do mundo fosse única entidade idêntica: ela faz e vende as mesmas coisas sempre da mesma maneira, em todos os lugares.

       Nos meios de comunicação, a geração instantânea de imagens via satélite, a massificação dos computadores e o sistema laser criaram as condições básicas para a globalização paulatina de publicações impressas, do rádio e da televisão. 0 velho modelo baseado principalmente na ação das agências mundiais de notícias em cada país parece estar condenado à convivência com a penetração gradual, parcial ou total da grande imprensa internacional.
Em um país como o Brasil, a imprensa de circulação nacional compõe suas páginas de informação internacional combinando matérias de alguns correspondentes próprios, das agências de notícias e reprodução, freqüentemente simultânea com a sua publicação no órgão de origem, de artigos do The New York Times, The Wall Street Journal, Le Monde etc.
Apesar da vinculação do Brasil com o Terceiro Mundo, a sua Grande Imprensa mantém os correspondentes nas capitais de países do Primeiro Mundo.

0 narrador está esquecido

       A reprodução simultânea de artigos - e até páginas inteiras - de jornais estrangeiros ocorre no Brasil, na Tailândia, nos EUA, na África do Sul, produzindo uma homogeneização da notícia.
Em setembro de 1994, durante a crise no Haiti, tivemos a oportunidade de observar o material reproduzido em nossos jornais do The New York Times, Washington Poste Newsweek. Percebemos uma repetição de fontes como o Pentágono, a Casa Branca, as Forças Armadas norte-americanas. Poucas vezes foram entrevistadas as autoridades haitianas (os militares golpistas e o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide), o que nos fez pensar que os leitores deste material, espalhados por outros países, receberam uma informação tendente a um lado: os EUA.

       A desinformação (intencional) é um aspecto. Um outro ponto que pode ser ressaltado na imprensa global é a ausência da figura do narrador, embora Benjamin (1994) nos lembre que quem viaja tem muito o que contar. Será que os correspondentes dos nossos jornais não teriam estórias interessantes a nos contar? Por que a imprensa global não conta estórias sobre as maravilhas contidas nos palácios da índia, ou sobre a vida do agricultor chinês no momento em que seu país é a primeira economia do mundo?
Segundo Benjamin, o narrador não está de fato presente entre nós em sua atualidade viva. Ele é algo distante e que se distancia ainda mais, porque a arte de narrar está em extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente.

       Também está em extinção a sabedoria - o lado épico da verdade, o incomum, o extraordinário. E esse processo vem de longe. Na realidade - diz o autor - esse processo, que expulsa gradualmente a narrativa da esfera do discurso vivo e ao mesmo tempo dá uma nova beleza ao que está desaparecendo, tem se desenvolvido concomitantemente com toda evolução secular das forças produtivas.
Benjamin acredita que a consolidação da burguesia, que tem na imprensa um dos instrumentos mais importantes, traz junto uma forma de comunicação que nunca havia influenciado decisivamente a forma épica, embora suas origens sejam antigas: a informação. Ela é estranha e ameaçadora à narrativa.

       Hoje, o saber que vem de longe encontra menos ouvintes que a informação sobre acontecimentos próximos. A cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. No entanto, somos pobres em estórias surpreendentes. Enquanto a narrativa pode sobreviver por muito tempo, a informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento.
"Guerra é assim", reportagem produzida pelo jornalista Ribeiro, em Realidade, é um exemplo de narrativa sobre a guerra do Vietnã, em que o repórter se mistura ao escritor, o profissional ao cidadão comum. Durante cerca de 30 dias em que Ribeiro permaneceu no Sudeste Asiático, ele produziu um relato vivo, emocionante sobre as causas da guerra, os sentimentos da população e a vida de um estrangeiro num país em conflito.

       Seguem-se alguns trechos desta narrativa viva: Às 5 da manhã, no aeroporto da capital da Índia, a recepcionista da Air France veio ao meu encontro: É o senhor que vai para o Vietnã? É. E o senhor não tem medo? Bem... Regressamos a Saigon, porque temos hoje uma visita ao recolhimento da órfãs da Associação de Mulheres Vietnamitas... Uma, chorando numa pequena rede, me chama atenção... Nós a chamamos Ngá, que quer dizer marfim...
De repente, ganhando espaço, devagar mas implacável, veio a dor, uma dor aguda, sufocante, que me fazia suar aos borbotões. Gritei: Ajudem-me, ajudem-me. Preciso de morfina...

       Hamilton Ribeiro havia sido atingido pela explosão de uma mina, que o fez perder uma perna.
A revista Realidade, lançada em abril de 1966, tinha dentre seus objetivos formar opinião pública e levantar a discussão em torno de temas polêmicos. Através de um corpo competente de repórteres, ela realizou uma das experiências mais ricas do jornalismo brasileiro. As narrativas contidas em suas páginas têm um conteúdo que não se exaure. A cada vez que são lidas, nos suscitam novas reações e emoções.
Por que a imprensa da aldeia global não poderia repetir este feito? Durante o seminário "0 papel do jornal - edição 95", realizado em Belo Horizonte, o jornalista Ruy Xavier, editor de política de O Estado de S. Paulo lembrou que a marca do jornalismo impresso é a investigação É ela que distingue o jornal da televisão: as empresas jornalísticas não têm investido muito no jornalismo investigativo, porque ele nem sempre dá frutos imediatos. Uma apuração completa pode demandar meses e exige que se tenha um quadro maior de repórteres para que uns possam substituir os outros.
Interessadas no lucro imediato, geralmente elas preferem divulgar a notícia que dá menos trabalho de apurar". (Xavier, 1 995)

       0 teórico da Comunicação, Mattelart (1994), nos chama atenção sobre um aspecto positivo da globalização: de que modo o imperativo técnico pode guiar a mudança social. Com o avanço das tecnologias, foi possível transmitir parte da guerra do Vietnã ao público norte-americano. Da sala de casa, as famílias podiam avaliar os efeitos do conflito. A audiência deixou de ser espectadora passiva para converter-se em sujeito participante. Da divulgação do episódio surgiram protestos contra a guerra e um movimento da sociedade contrário à ação de seu país.

Colocar a técnica no devido lugar

       Nas sociedades modernas, as relações sociais são deslocadas dos contextos territoriais de interação e se reestruturam por meio de extensões indefinidas de tempo-espaço.
Os homens se desterritorializam, favorecendo uma organização racional de suas vidas. Uma mudança dessa natureza só pode se concretizar em uma sociedade cujo sistema técnico permite um controle do tempo e do espaço. Em outras palavras, a modernidade se materializa na técnica.
Mas, apesar deste papel central da técnica na vida moderna, achamos necessário não nos envolvermos no clima de euforia que predomina na literatura sobre os meios de Comunicação.
É comum ouvirmos afirmações do tipo "o mundo de amanhã será feito de satélites e de cabos", "a eletrônica mudará inteiramente o homem do futuro".

       Segundo Ortiz (1994), isto induz a uma interpretação de terminista da história, atribuindo-se à tecnologia uma capacidade sensacional. A relação entre técnica e civilização deve ser pensada de outra maneira. Se existe uma correspondência entre o desenvolvimento da técnica e cada formação social, ela não se resume a uma relação de causalidade.
A sociedade industrial não é produto imediato da ferramenta vapor, embora esta venha a constituir o substrato material de sua cultura. Também não existe uma oposição conceitual entre o comum e o diverso. A civilização muçulmana, por exemplo, somente se realiza na sua diversidade (sunitas, xiitas). Uma civilização promove um padrão cultural sem, com isto, implicar a uniformização de todos.

       Por outro lado, uma cultura mundializada pode ser pensada em termos de totalidade; como um conjunto extranacional de fenômenos sociais específicos e comuns a várias sociedades, já que uma cultura mundializada congrega, também, um Patteun - modelo cultural - que poderia ser qualificado de modernidade-mundo.
Sua amplitude envolve certamente outras manifestações, mas possui uma especificidade, fundando uma nova maneira de estar no mundo, estabelecendo novos valores e legitimações.
0 aparato tecnológico não é causa da mudança social, mas fonte potencializadora. Existe um caminhar da modernidade-mundo. Mais do que dizer que estamos na pós-modernidade, talvez seja mais correto afirmar que nos encontramos diante da "sobremodernidade", uma configuração social que se projeta para além da anterior, pois as mudanças sociais se dão a longo prazo.


Ana Maria Rodrigues de Oliveira é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e professora do departamento de Comunicação da PUC-Minas.

Referências Bibliográficas
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