27/04/2001

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Opinião Acadêmica

OS NOVOS PARADIGMAS DO ENSINO

Artigo publicado na ENSAIOS - Revista Acadêmica de Comunicação Social do
Centro Universitário Augusto Motta - Rio de Janeiro
número 01 páginas 16-19

Solange Senna


       A partir de 1850 nossos paradigmas mudaram radicalmente com Darwin e sua teoria da evolução das espécies, com Einsten e a relatividade, com Freud e a psicanálise, com Marx e seu modelo político, com Hegel e a síntese do pensamento ocidental. Essas mudanças vieram acompanhadas de um avanço tecnológico, que teve inicio com a Revolução Industrial e se aceleraram com os meios de comunicação, fazendo-nos chegar, nesta virada de milênio, a um verdadeiro furacão de informações, descobertas e novos horizontes, em todos os campos do saber, o que não nos deixa outra alternativa: temos que assimilar essa nova percepção e visão do mundo com a conseqüente mudança de pensamento e ação. Só que não viemos assimilando esses saberes que emergiram há 150 anos e nosso arcabouço de pensabilidade está defasado e obsoleto.

       Se acrescentarmos a isso, as macromudanças advindas da globalização, das novas tecnologias e da informatização perceberemos que nossa forma de "ensinar " e aprender, isto é, o transmitir conhecimentos e o estar aberto para ouvir e rearrumar o mundo, interno e externo, está perigando de cair num vácuo, o que acarretaria nas próximas gerações ou uma fuga para um tecnicismo massificante ou para uma alienação histérica, quando, todos reunidos, cinicamente, vamos fingir que somos o que deveras gostaríamos de ser. Porque é de ser e não de ter que trata a educação.

       Visto pelo lado positivo. estamos vivendo um momento empolgante na esfera do conhecimento e das possibilidades de transformações.

       Do lado negativo temos que perceber que não há mais espaço para o autoritarismo, o douto saber, o ensino erudito de fórmulas e conceitos fechados.

       Estamos vivendo a era da incerteza, da teoria do caos, dos paradoxos, do saber compartilhado, da participação de todos com suas diferenças, não há uma verdade fechada, acabada, cartesiana, totêmica, somos ambivalentes. e a física comprova: a matéria (da qual somos feitos) é instável.

       É o que Edgard Morin chama de pensamento multidimensional ou pensamento complexo em seu livro 0 Método, que se opõe ao pensamento fragmentado. Temos, segundo Morin, que incorporar problemas poéticos, éticos, estéticos e políticos. Como? Numa reforma a longo prazo que tem na utopia o seu alicerce. Nós educadores não somos técnicos, somos humanistas e precisamos entender utopia como a possibilidade de contribuirmos para um mundo melhor.

       Estamos ensinando matérias separadas umas das outras, com idéias e filosofias que não são aprofundadas e não se elaboram as ligações. A crise, é bom lembrar, é profunda. E krísis significa momento de decisão.

       "Temos que instaurar o diálogo entre a ordem e a desordem ." (Alfredo Pena-Veja, Entre o todo e as partes).

       Nossos referenciais, modelos e padrões já deveriam ter mudado; o mundo que percebemos e no qual vivemos e atuamos não existe. Essa sensação de perda cria, além da perplexidade, angústia, porque inconscientemente sabemos que esse modelo político econômico-financeiro vai desabar, que essa busca de "status" e de prazer, essa voracidade intensa e inconsciente leva ao vazio existencial, não tem sustentação, não tem eixo, nem interno, nem externo, não tem valores éticos fundamentais.

       Para Fritjof Capra "os nossos paradigmas são sistêmicos, afetam-nos de maneira geral e absoluta, o que implica uma transformação total do nosso modo de ser e de agir". Não é possível isolar qualquer coisa em si mesmo, porque tudo está conectado ao resto do Universo, nossa visão tem que ser no mínimo planetária. ecológica, sistêmica, baseada na concepção do homem como ser integrado, criativo, interdependente e consequentemente participante de grupos criativos, solidários e gestores de seus próprios destinos. Capra aponta cinco pressupostos básicos, que deverão orientar o pensamento científico daqui por diante: 1) Da fragmentação para a totalidade; 2) Da estrutura para o processo: 3) Da ciência objetiva para a epistêmica (essa nova abordagem reconhece outras dimensões, além da racionalidade objetiva, trazendo para a discussão, no campo da ciência, temas antes negados por ela, tais como : o imaginário, a intuição e os aspectos mágicos); 4) Da construção metafórica em blocos para o conceito de rede; 5) Da verdade absoluta para a descrição aproximada.

       E o que nós educadores temos que fazer?

       Comunicação total, absoluta, irrestrita.

       É a "matéria" que nos une. Walter Poyares em O Carisma da Comunicação Humana nos chama a atenção para o "fato de que a comunicação é um perpétuo prodígio ". Nesse universo a busca pela comunicação é um desafio. Quem é o aluno, como ele recebe o que o professor fala? Informamos, ou deformamos? Como estabelecer uma troca humana de conhecimentos e de vontade de ultrapassar nossos limites? Como sermos generosos, como compartilhar dores, alegrias, dúvidas, descobertas e não eliminarmos a privacidade?

       Como fazer para que a mídia não nos soterre com sua velocidade de informações e imagens sintéticas que nos estilhaçam e fragmentam? Só vejo um caminho : ficar dentro do olho do furacão.

       Isto é, ter um eixo próprio, recolhimento, visão do todo, silêncio, seleção, discernimento, o velho conhece-te a ti mesmo, decifra-te/me ou te devoro.

       Além de incorporar os novos paradigmas temos que nos antecipar para os desafios de um futuro acelerado que já está batendo no nosso nariz. Inventar uma nova ordem, nova ordenação, novos tipos de organização, de salas de aula (por que não em espaços abertos?). em locais onde se faz o que falamos teoricamente.

       Como preparar o pesquisador para receber o jovem? A maioria deles com mentalidade de adolescentes, uma minoria com um "amadurecimento" precoce forçado por obrigações financeiras ou por um casamento que Ihes traz uma sobrecarga de obrigações estressantes.

       Não é o professor sozinho ou a Universidade que têm que fazer um esforço, é uma decisão estratégica de salvação do homem que se espera para as novas décadas : inteligente, criativo, integrado, que saiba pensar, decidir, fazer escolhas saudáveis e eficaz.

       Gertrude Stein pouco antes de morrer perguntou à sua companheira de vida inteira: "qual é a resposta?" Ao que ela retrucou : " qual é a pergunta?"

       0 professor é um mero transmissor de informações? Consegue fazer dessas informações uma ordenação que leva ao conhecimento? Ele faz as ligações necessárias, pessoais, interpessoais, acadêmicas? Isso exige tempo, reflexão e troca entre grupos interdisciplinares. Onde está esse espaço/tempo?

       Como mudar essa mentalidade individualista de competição para a cooperação? Como levar isso para os alunos? Como lidar com os conceitos de avaliação? Avaliar vem do latim valere, ser digno. Essa dignidade vem de um processo de integração que passa pelo conhecimento acadêmico, pelo auto-conhecimento, pela ética, pelo tempo livre para lazer, por salários que permitam chegar a isso, e principalmente pela saúde física e mental, que no momento está dilacerada pela luta diária e insana, e pelo trabalho escravizante para somente sobreviver.

       0 que queremos para nós? Aonde queremos chegar, individual e coletivamente?


Solange Senna é Mestre em Comunicação pela UFRJ. Pós-Graduada pela FGV em Administração de Projetos Culturais. Graduada em Comunicação pela UFRJ e Professora da ESPM-Rio.


Referências Bibliográficas
PEREIRA, Ma. José de L .de B. e FONSECA, João Gabriel M. - Faces da decisão: as mudanças de paradigmas e o poder da decisão. São Paulo, Makron Books, 1997.
PENA-VEGA, Alfredo. - Da reforma do pensamento à era das redes. Artigo publicado no Jornal O Globo, em 15 de setembro de 1998, sobre Pensamento Complexo.