01/06/2001

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Opinião Acadêmica

NOEL ROSA - UM PARADIGMA NA MODERNA MPB

Marcos Antonio de Azevedo
 

       A obra do compositor Noel de Medeiros Rosa ocupa um lugar central no território da música popular brasileira, após mais de 60 anos de sua morte. É um fato inusitado, porque no campo da cultura de massa, onde teve inserida as suas músicas, apenas costuma-se trabalhar com fenômenos imediatos e efêmeros; as composições, os nomes dos compositores e cantores, desaparecem do cenário musical com facilidade. A indústria da cultura só abre a guarda para o entretenimento.

       O que se produz de cultura no país, encontra mais possibilidades de preservação e memória, quando está ligado diretamente à elite, dentro de instâncias legitimadoras como a academia, revistas e livros acadêmicos e espaço crítico em colunas de jornais etc. O modernismo é um exemplo claro disso. A maioria de seus componentes e realizadores, tinha origem na classe média alta, inclusive os participantes da Semana de 22, em São Paulo. O seu crítico, de maior expressão, na época, Paulo Prado, foi um típico "nobre" são paulino. A origem dos autores não diminui em nada a vocação e o talento, mas sem dúvida ajuda a preservar a produção literária, em termos de memória. E mesmo críticas contundentes sofridas pelos componente, a polêmica gerada em torno da Semana e das idéias, acabaram somando a favor.

       Noel Rosa fez parte da época de ouro (1) da MPB, dos anos 30, integrando uma geração formada por uma verdadeira constelação de cantores e compositores como: Ari Barroso, Cartola, Lamartine Babo, Vadico, Braguinha, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres, Mário Reis, Francisco Alves, Araci de Almeida, Marília Batista, Assis Valente, Custódio Mesquita, Orestes Barbosa, Wilson Batista, Almirante, Carmem Miranda, Pixinguinha, Radamés Gnattali e outros, que de maneira fragmentada e individual, trouxeram para a música popular a modernidade, em forma de composições, letras, canto e arranjo. Mas não houve "semana" e muito menos "manifestos", e são raros os estudos e pesquisas envolvendo este período e os autores. A perenidade de algumas músicas como Com que Roupa, Se Você Jurar, Serra da Boa Esperança, Camisa Listrada, Na Baixa do Sapateiro, Pastorinhas, Aquarela do Brasil e inúmeras outras, além dos nomes dos compositores e cantores como Mário Reis, Orlando Silva e Araci de Almeida, que vieram a influenciar profundamente o modo de cantar no Brasil; se deve à memória popular, ao carnaval, ao disco e ao rádio.

       No caso específico de Noel Rosa, nascido em 1910 e falecido em 1937, o que impressiona, de imediato, no estudo de sua obra, é o grande número de composições de indiscutível qualidade, produzidas num período curto; seu sucesso logo aos vinte anos e sua morte prematura aos vinte seis anos e meio.

       É notável a sua versatilidade e atuação como violonista, cantor e improvisador em diferentes campos como o rádio, casas noturnas, teatros, cinema, carnaval, festas, e sua larga produção atendendo a inúmeros cantores, compondo até "anúncios cantados" (2), por exemplo para a loja O Dragão da Rua Larga. Vale registrar também, a trilha sonora para o filme "Cidade Mulher", a paródia-bufa "O Barbeiro de Niterói" e a revista radiofônica "A Noiva do Condutor". O seu lado de pesquisador de sambas, também é digno de nota, quando peregrinou pela Mangueira, Estácio, Oswaldo Cruz e Madureira, até Irajá, descobrindo sambas e estudando o gênero; tornando-se um dos responsáveis por trazer o samba do morro para o asfalto.

       Mas o que vem deixar uma marca indelével e definitiva na música popular brasileira, é o corte que sua obra provocou quando veio romper com a tradição verborrágica do parnasianismo retumbante, deixando o passadismo na poeira, com sua ironia corrosiva e o seu humor cáustico. Assim, ele traz para o campo da MPB importantes conquistas no âmbito da modernidade, já fixas na literatura, artes plásticas e música erudita. A mais importante delas, que vem a romper definitivamente com o cânone clássico, do iluminismo da razão, é que o homem na obra de Noel é sujeito e objeto; e não, apenas uma representação. A marca do inconsciente na obra é notável, porque os personagens noelinos têm um perfil psicológico, apresentando angústias, paixões e obsessões. Em algumas de suas letras, que são verdadeiras "crônicas musicais", comparecem muitos personagens comuns da vida brasileira (costureiras, prestamistas, prontos, malandros, garçons, agiotas, operários, ricos, dançarinas), os objetos e coisas que compõem a realidade moderna, os novos costumes e moralidade; enfim, a modernidade com suas máquinas, tecnologia, espaço público e a velocidade.

       A obra de Noel serve, e segue, como paradigma até os dias atuais, atravessando décadas, influenciando e assombrando gerações de compositores, cantores e arranjadores. Vale citar a proximidade, por exemplo, de Último Desejo: Nosso amor que eu não esqueço/ E que teve seu começo/ Numa festa de São João/ Morre hoje sem foguete/ Sem retrato e sem bilhete/ Sem luar sem violão (...), com "Latim Lover" de João Bosco e Aldir Blanc:
Nos dissemos que o começo
É sempre, sempre inesquecível
E no entanto meu amor
Que coisa incrível
Esqueci nosso começo inesquecível
(...)

(...) As lembranças
Acompanham até o fim o latim lover
Que hoje morre
Sem revólver, sem ciúme e sem remédio
De tédio

       É inevitável, também, a aproximação entre Pra que Mentir: Pra que mentir/ Se tu ainda não tens esse dom/ De saber iludir ?/ Pra que mentir/ Se tu ainda não tens/ A malícia de toda mulher ? Com Dom de Iludir, de Caetano Veloso:
Não me venha falar
Na Malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor
E a delícia de ser o que é
(...)

       No samba de Noel esta á presente um dos seus "motes" preferidos: a mentira (a falsidade da mulher), que serve, até, como fio condutor da obra.

       As "coisas do Brasil" são também valorizadas, em um nacionalismo sem xenofobia e singular, uma das marcas do modernismo no país e dos sambas do compositor. O seu amor pela cultura pátria, e principalmente, pela língua portuguesa do Brasil, leva-o a produzir críticas ferrenhas às influências dos modismos importados. Neste panorama o samba ocupa o epicentro. Vale conferir, a seguir, o trecho de Não tem Tradução:
(...) tudo aquilo que o malandro pronuncia
com voz macia
É brasileiro , já passou de português

       A propagação de seu trabalho não se deve a um projeto de marketing específico, envolvendo qualquer estratégia. Depois de sua morte Almirante tendo a certeza da pujança da obra, criou um programa de rádio (No tempo de Noel) e fez dezenas de palestras tratando de Noel e MPB. Em relação às gravações, quem retoma a obra de compositor é a cantora Araci de Almeida, que grava os primeiros discos duplos da história da fonografia no Brasil; registrando várias composições inéditas.

       E por último, destacam-se as suas crônicas musicais, quando constrói um "capítulo da história" do Brasil trazendo para os sambas e canções os costumes, as ações e hábitos dos personagens da vida no país. Além de ser o autor mais tratou da cidade do Rio de janeiro, homenageando muitos bairros, com destaque especial para Vila Isabel e a campeã de citações nas letras, a Penha. Um abordagem tão vultosa só vem a encontrar paralelo, hoje, na prosa dos contos de autores como Rubem Fonseca, por exemplo, no conto O balão fantasma, do livro "O Buraco na Parede", onde ele invariavelmente situa seus personagens nas ruas e bairros da cidade, mostrando conhecimento preciso de sua geografia. Já Noel com suas "crônicas", reconstrói o espaço-tempo dos anos 30, com toda a riqueza e heterogeneidade que envolve a história da época.

       Noel Rosa vem a ser um paradigma no panorama MPB, como um letrista profissional pioneiro. Um dos responsáveis pelo advento da modernidade neste campo, e também pela nobreza com que tratou o samba, ajudando a projetá-lo com o gênero de primeira grandeza. Além de ser um cronista musical que tratou a cidade e seus habitantes de forma singular, ajudando a construir o perfil poético de quem chamamos ,hoje, de carioca e lançar a pedra fundamental da MPB "moderna" no século XX.

Notas
1- MELLO, Zuza Homem de e SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo. Expressão usada pelos autores, para dar conta da questão: "A música popular brasileira tem a sua primeira grande fase no período 1929/1945. É a chamada ‘época de ouro’, em que se profissionaliza, e vive uma de suas etapas mais férteis e estabelece padrões que vigorarão pelo resto século". página 85.
2- Hoje chamado de "jingle".


MARCO ANTONIO DE AZEVEDO é Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário
mazevedo@ccard.com.br

Referências Bibliográficas
1- ANDRADE, Oswald de. Utopia Antropofágica - manifestos e teses. Rio de Janeiro: Globo, 1992.
2- ALMIRANTE. No tempo de Noel. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.
3- CALDEIRA, Jorge. Noel Rosa - de costas para o mar. São Paulo: Brasiliense: 1982.
4- MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos. Noel Rosa, uma biografia. Brasília: Universidade de Brasília, 1990.
5- MELLO, Zuza Homem de e SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo. São Paulo: Editora 34, 1998.
6- TATIT, Luiz. O cancionista, composições de canção no Brasil. São Paulo: Edusp, 1997.
7- VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar e UFRJ, 1999.