22/06/2001

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Opinião Acadêmica

 

Opinião Acadêmica

A ESTETIZAÇÃO DO CORPO E O PADRÃO IDEAL DE BELO

Marcos Antonio de Azevedo


Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Augusto dos Anjos


       A estética do padrão ideal do corpo busca a forma do belo, tanto para fins utilitários quanto para sua lógica de representação social, como status e outros mecanismos identificatórios do ideal de ego (categoria empregada por Freud). Tal estetização é estilizada, de maneira geral, em segmentos, conforme traços étnicos, culturais e sociais, favoráveis à demanda localizada no mercado. O belo é imaginário enquanto significante destes segmentos, e como exemplo, podemos apontar o mito da eterna juventude, que se manifesta principalmente na tentativa de manter o corpo jovem através da alimentação específica, ginástica e regimes; tudo isso na obsessão em retardar o envelhecimento. A tentativa de imortalizar o corpo, acaba com as barreiras do espaço-tempo, no sentido físico, e reforça o culto ao antropocentrismo: a "verdade" deve passar pelo homem, que usa como suporte o tecnicismo, substituindo o psíquico pelo físico. Neste ponto as máquinas são como extensão do ser humano, no sentido de foco de observação e diagnóstico, como observa-se na medicina esportiva, na matematização da ciência, no performismo e até no congelamento de corpos, que aponta para a histérica tentativa de uma vida física eterna.

       O ideal de belo é um mito que sustenta-se, também, pelo uso de uma linguagem modística, ideal e padronizada, veiculada pelas mídias, através de novelas, filmes e telejornais, com jargão não só limitados à língua pátria. Um segmento deste processo pode ser observado em dezenas de palavras oriundas do inglês, estampadas em camisetas, embalagens, brinquedos, personagens dos quadrinhos e do cinema. Uma moda que é composta por ciclos modísticos abrangentes, e que tem na língua inglesa uma maneira de padronizar a comunicação no mercado, e não deixa de ser também uma forma de hegemonia e domínio cultural transnacional.

       Estamos, hoje, por exemplo, atravessando a era da magreza provocada e globalizada, ser gordo, apresentar barriga, pelancas, ou quaisquer glândulas adiposas é um crime capital. E para manter o consumidor sempre em forma, a indústria dos bens de consumo mundial lançou a moda do "natural", com várias linhas de produtos, passando pelo pão integral, refrigerantes "diet", adoçantes, e fez aumentar e escoar a produção de frangos e peixes; carnes brancas são muito melhores para a saúde. E a maioria destes produtos recebe um nome a partir da língua comercial e padronizada: o inglês.

       O papel da mídia neste processo é afetar os segmentos sociais, com sua pedagogia globalizante e todo um mundo de marcas institucionais, fazendo com que certas ações e movimentos comportamentais de fundo imaginário, não se limite a regiões ou guetos. É o caso do movimento punk, que teve sua origem no subúrbio da Inglaterra para depois ganhar mundo, num exemplo típico de mundialização e de atravessamento do conceito de classes sociais categorizado por Karl Marx; criou-se, inclusive uma linha de produtos, com destaque para as roupas negras, linguajar específico e uma linha previsível de comportamento, de como ser "punkeiro", com variantes e tudo, como no caso da "tribo dos carecas". A inter-relação entre segmentos da sociedade e seus costumes se entrecruzando, é muito comum. Um exemplo dessa realidade é a "cor" com toda sua mitologia, a questão do homossexualismo e do unissex. Estas atitudes e maneiras geram o desaparecimento do lugar do homem ou da mulher. Como exemplo apontamos o caso do homem depilado, que freqüenta salão de beleza, e da mulher que não se depila, ou ainda a mulher de terno (típica indumentária masculina), ou a que pratica halterofilismo desenvolvendo um físico masculinizado. Não há mais diferença na forma, torna-se difícil afirmar que a mulher é "isto", e o homem é "aquilo"; ambos podem ser várias coisas, existe um campo semântico de possibilidades.

       O traço fundamental da diferença desaparece, e só é belo o que demanda consumo, cuja procura é padronizada e organizada dentro de uma reprodução social, como é o caso da operação plástica. Esta prática com fins estéticos, que era exclusiva da mulher, encontra hoje, eco em vários segmentos sociais, envolvendo ambos os sexos e faixas etárias variadas. É notável o caso particular da Argentina, onde a prática da "operação" plástica virou moda, abarcando inclusive os setores mais pobres daquela sociedade que chegam a usar o plano de saúde, ou até a previdência no processo. Em Buenos Aires, esta moda contaminou, e pessoas que não tem defeito algum, se operam, algumas saem pelas ruas, ostentando os curativos como um verdadeiro troféu (citado por Beatriz Sarlo. Cenas da Vida Pós-Moderna.Cap.p.25).

       A "nova ordem do belo", num megaciclo da moda, ainda abrange as academias de ginástica, que esculpem o corpo desta ou daquela forma, criando um movimento internacional, onde a aparência física é um espetáculo em si, e já um traço de cultura global midiatizada. Um outro sintoma é o crescimento, desordenado dos shoppings em todas as grandes cidades do mundo ocidental, que vêm substituir a rua, com espaço público característico da modernidade, e instalar de vez o consumo como uma rotina obsessiva, nestes templos do hedonismo materialista.

       Um último elemento crucial nesta realidade é o design que afeta as sociedades, e que é elemento-chave nas campanhas de marketing pelo planeta, personificando-se no corpo, nos automóveis, nas roupas, na arquitetura e até na alimentação, como é o caso dos sanduíches (padrão americano) arranjados e bonitos. Este novo mundo que se formata para o terceiro milênio, segue com uma realidade de abismos econômicos e sociais, num paradoxo, onde os que não fazem parte da "sociedade de consumo" sobrevivem famintos, nas favelas, bairros de periferia, no nordeste seco, e até em continentes inteiros como a África, enquanto muitos dos que fazem parte da "sociedade de consumo" fazem dieta e vão "malhar" nas academias, e na opção pela magreza, perseguem o belo como a única saída para as angústias do dia a dia, e afastamento do mal-estar, numa tentativa vã de denegação da única certeza do ser humano: o perecimento.


MARCOS ANTONIO DE AZEVEDO é Mestre em Semiologia pela UFRJ e professor universitário.
mazevedo@ccard.com.br

Referências Bibliográficas
1- BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1981.
2- ECO, Umberto. A Estrutura Ausente. São Paulo: Perspectiva, 1991.
3- DORFLES, Gillo. A moda da moda. São Paulo: Edições 70, 1995.
4- FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
5- LIMA, Luiz Costa. Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
6- MENDONÇA, Antonio Sérgio e SÁ, Álvaro de. Saber e Melancolia. Porto Alegre: Antares e Cel, 1992.
7- SARLO, Beatriz. Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.