25/08/2001

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Opinião Acadêmica

SENTIDO DE EXISTÊNCIA E A GESTÃO PÚBLICA

Ricardo Bezerra Cavalcanti Vieira


"Não falo só da paz entre os povos, mas da paz que reina
na cidade interior que formo comigo mesmo e com meu próximo."
Gabriel Marcel


       Primeiramente, precisamos definir o termo ética neste trabalho, o qual não se confunde com o termo moral. Ética é um saber que considera a singularidade, que não tem por objeto as idéias morais justificadas, enquanto Moral é cultural com base em tradições, costumes e valores consolidados pela sociedade e oficialmente aceitos ou não. Embora freqüentemente tomados como sinônimos ou confundidos na literatura, são empregados neste estudo como de naturezas distintas, posto que Ética seria de origem filosófica em contraste com a origem cultural da Moral: a primeira considerando as particularidades e, a segunda, considerando as singularidades.

       O poder devastador da moderna tecnologia se estende hoje por todos os lugares. Muitos guiam e controlam as decisões sobre o uso desse poder. Uma boa decisão pode beneficiar milhões e uma que não seja ética pode impedir até que se tenha um futuro digno.

       Há centenas de anos atrás, a humanidade tinha menos poder de destruição. Os desastres estavam restritos ao mundo físico, como vulcões ou terremotos. Neste século, julgamentos éticos têm produzido devastação como a que ocorreu com o cargueiro Valdez da Exxon ou a liberação de radioatividade em Chernobyl, ou ainda a cumplicidade de todo um povo no genocídio infligido aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Não estão envolvidos apenas lideres nacionais, mas pessoas em todos os níveis, que detêm, hoje, algum tipo de poder, que nos impacta direta ou indiretamente.

       Devemos nos perguntar se compreendemos que a ética tem conseqüências e que nossas ações impactam muito além do horizonte que nossos olhos podem alcançar. As decisões éticas se baseiam nos mais altos valores morais? Ou são simplesmente movidas por auto-interesse? Os seres humanos precisam agir eticamente, isto é, de forma responsável, considerando não somente resultados, mas conseqüências. Estamos enredados no mundo, estamos misturados nele. O Sujeito e o Objeto não podem ser pensados de forma dissociada. Diferentemente do método para a ciência, que seria o caminho a se seguir para atingir um objetivo, para a Fenomenologia seria a não-intervenção no acontecer, que nos exige uma postura engajada, a intencionalidade se realiza na reflexão.

       Essa postura de ser situado revela minha identificação com a Fenomenologia, o que contribuiu para refletir sobre as questões éticas. A palavra «fenomenologia» (Phänomenologie) tornou-se conhecida corno termo que assinala uma postura filosófica preconizada por Edmund Husserl (1859-1938). A Fenomenologia é um movimento deste século e se dedica a descrever as estruturas da experiência como se apresentam à consciência, sem o recurso da teoria, dedução ou pressupostos de outras disciplinas.

       Compreende-se a concepção fenomenológica de Husserl como tentativa de resgatar o significado original da filosofia que, em determinado período na Grécia, definiu sua tarefa dentro da dicotomia opinião (doxa) e verdade (epísteme). O ser humano, em sua vida pré-filosófica, possui conhecimentos. Ele sabe de uma ou outra forma das coisas, porém determinado por uma perspectiva específica do contexto em que vive e guiado pelos fins úteis que persegue. Este conhecimento limitado pelas circunstâncias e pelos interesses momentâneos é «opinião (doxa)». A filosofia, não como uma teoria mas como um estilo de vida, começa a aparecer quando a preocupação da filosofia atenta para suas limitações pelas circunstâncias e se abre para uma investigação imparcial daquilo que aparece (fenômeno). O que interessa agora não é mais o objeto em relação a esta ou àquela circunstância, e tampouco em relação a este ou àquele interesse particular, mas sim o fenômeno (das Erscheinende) enquanto fenômeno (als Erscheinendes).

       A razão para transgredir a esfera da limitação dos interesses limitados, e elevar-se a uma forma abrangente de ver as coisas é a decisão de assumir responsabilidade em relação à vida como um todo, e não apenas para com os interesses da vida ou da ciência em dado momento concreto, ou seja, o "logon didonai". Assim, o homem se põe a procurar as verdadeiras razões daquilo que é, assumindo definitivamente a responsabilidade (Letztverantwortung) para com a sua existência, como diz Husserl. Fenomenologia é, portanto, a intenção de transgredir constantemente a doxa para chegar a episteme.

       O posicionamento ético assumido exige responsabilidade não somente por nossos atos, mas pelas conseqüências de nossas ações. Somos parte do mundo. Construímos o mundo participando com ele e não fora dele. O pesquisador deve ser responsável perante os partícipes do projeto, perante os que de forma direta ou indiretamente são impactados por este.

       No passado, pensávamos que eficiência - definida como a capacidade de fazer alguma coisa de forma correta, e pertencente à esfera técnico-administrativa, constituindo um dos objetivos das empresas, efetivamente relevante para o ser humano - bastasse para justificar a existência das organizações. Da mesma forma, quando pensamos na eficácia, capacidade de fazer com que a coisa certa seja feita, pertencente à dimensão econômico-financeira, também de extrema relevância para o homem e um outro objetivo das empresas, no entanto insuficiente para fornecer uma explicação sobre o sentido de ser das organizações.

       As dificuldades relativas à eficácia ou à eficiência não são "privilégios" das empresas públicas, por conta das descontinuidades administrativas que impedem o pleno desenvolvimento dos projetos, pois ocorre igualmente nas empresas privadas, com graves reflexos negativos sobre a sociedade. É preciso que a gestão passe a incluir a conseqüência, não mais reduzindo suas preocupações aos resultados. Com a tomada de consciência desse impacto, necessidade há sobre o critério de efetividade que, como parte constituinte de uma dimensão sócio-politica-estratégica, ainda não consegue dar o sentido mais profundo às ações, o que somente se dará quando, tivermos em conta a dimensão filosófica da gestão, ou seja, o objetivo do ser-em-comum. Somente levando em conta o seu sentido subjetivo e intersubjetivo, é que poderemos pensar que essas dimensões compõem o critério de relevância do ser do humano, a dimensão do homem concreto, quando objetivo fim último será o ser do humano.

       E neste contexto que a Ética, está implicada a toda ação humana e, por esta razão, é vital para a realidade social. Todo homem possui um senso ético, uma espécie de "consciência moral", estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas.

       Por conseguinte, os comportamentos humanos são sempre classificáveis sob a ótica do certo e errado, do bem e do mal, segundo o padrão de valores vigentes nas sociedades. Embora relacionadas com o agir individual, essas classificações como vemos, sempre têm relação com as matrizes culturais que prevalecem em determinadas sociedades e contextos históricos.

       A ética está relacionada à opção, ao desejo de realizar a vida, mantendo com os outros relações justas. Normalmente, está relacionada às idéias de bem e virtude, enquanto valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa co-existência plena e feliz.

       O homem é um ser-ao-mundo, que s6 realiza sua existência no encontro com outros homens, sendo que, todas as suas ações e decisões afetam as outras pessoas. Nesta convivência, nesta coexistência, naturalmente há que existir regras que coordenem e harmonizem essas relações. Estas regras, no seio de um grupo qualquer, indicam os limites em relação aos quais podemos medir as nossas possibilidades e os limites a que devemos nos submeter. São os códigos culturais que nos obrigam, mas ao mesmo tempo nos protegem.


RICARDO BEZERRA CAVALCANTI VIEIRA
Professor Universitário, Sociólogo, Economista, Doutorando em Filosofia pela UGF, Mestre em Administração Pública pela FGV e Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea pela UERJ.
ricardobezerra@uol.com.br

Referências Bibliográficas:
- Brown, M.: Ética nos Negócios. Rio: Makron Books 1968.
- Cohen, D.: "Consciência Limpa", in: Revista Exame, 1999.
- Costa, J.: A Ética e o Espelho da Cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
- Creagan, James: A Ética no Mundo da Empresa. Rio de Janeiro: Livraria Pioneira Editora, 1991.
- Sennett, R: A Corrosão do Caráter - conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.
- Donaldson, Thomas; Werhane Patricia: Ethical Issues in Business: A philosophical approach. New York: Prentice-Hall, 1988.
- Toffler, B: Ética no Trabalho. São Paulo: Makson Books, 1993.
- Vasquez, Adolfo Sanches: Ética. Tradução de João Dell'Anna. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 4a edição, 1980.