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Opinião Acadêmica

O FILÉ DA EDUCAÇÃO

Cheila Szuchmacher Huf


Este artigo foi escrito após uma pesquisa de mestrado realizada no Colégio Talmud torah Hertzlia. Desta forma gostaria de agradecer toda colaboração que recebi da equipe pedagógica e da atual diretoria.

O contexto

       A realidade contemporânea aponta para questões emergentes no contexto das novas tecnologias e da educação. Dentro desta nova concepção de mundo, o papel da escola deve ser transformado; devemos estar atentos à interação entre escola e os meios de comunicação, à informática e as línguas estrangeiras.

       A possibilidade de levarmos para dentro do ambiente escolar toda esta tecnologia, permitirá que os alunos adquiram conhecimentos, retendo-os mais facilmente. Segundo Lévy (1996,p.40): «Quanto mais ativamente uma pessoa participar da aquisição de um conhecimento, mais ela irá integrar e reter aquilo que aprender».

       Na verdade, a escola deve permanecer conectada com o mundo. De acordo com Lévy (1996), toda esta transformação tecnológica contribui para o rompimento das fronteiras, tornando o mundo um território cosmopolita.

       Conforme referido anteriormente, nos deparamos com este grande desafio, que é o de colocar a escola no caminho da modernidade. Este desafio leva à reflexão sobre as questões que envolvem os recursos tecnológicos dentro do contexto educacional.

       Tendo em vista esta nova realidade, onde a disponibilidade de informações em tempo real é uma grande oportunidade para o ambiente escolar, torna-se indispensável aos agentes que participam da escola, refletir e avaliar continuamente sobre benefícios e riscos que envolvem o uso das novas tecnologias de informação sem critérios e objetivos bem definidos.

       Destacando outro aspecto, percebemos a importância de pensarmos nos alunos, atendendo à sua diversidade. Precisamos de uma escola que respeite cada aluno, no sentido de desenvolver suas potencialidades, respeitando suas possibilidades. De acordo com Gardner (1995,p.16): «nem todas as pessoas têm os mesmos interesses e habilidades; nem todos aprendem da mesma maneira».

       Nesta linha de raciocínio, a escola atual deve estar voltada para o indivíduo, respeitando seus desejos, interesses, sua história de vida, suas possibilidades; como também estimulando sua criatividade, espírito crítico, atitudes reflexivas e transformadoras.

«A lógica individual do sujeito, que o panorama da diversidade exibe (de ritmos de aprendizagem, de motivos, de significados, de contextos, etc.), não se adapta a uma organização complexa para o conjunto que atende a padronização. (...) A obrigatoriedade efetiva da educação implica a organização de um mundo complexo de diversidades individuais. (...) Possibilitar a consideração da singularidade só é factível flexibilizando as instituições e os seus métodos, para que a autonomia do sujeito possa ser expressa.» (Sacristán, 1999, p.166)

       Cada aluno tem seu próprio tempo no processo de construção do conhecimento. Nesta linha de pensamento, a postura do educador deve ser dinâmica e reflexiva, no sentido de trazer para o ambiente escolar alternativas democráticas que permitam aos estudantes escolherem seus caminhos na produção do conhecimento.

       No sentido de esclarecer o que foi citado, podemos apresentar um exemplo: uma professora de ciências, ao lançar um conteúdo como o corpo humano, poderá oferecer diversas alternativas de trabalho para a turma. Ou seja, um grupo de alunos poderá optar por trabalhar no computador, outro com desafios preparados pela professora, outros com jogos referentes ao conceito estudado, outros fora da sala de aula, onde também é possível construir ambientes específicos e outros ainda com o livro didático.

       Diante deste exemplo, surgem algumas reflexões sobre as tarefas diversificadas propostas no ambiente escolar, como também sobre a postura do corpo docente, da comunidade e dos alunos diante das mesmas.

       Tendo em vista a educação como instrumento do desenvolvimento humano, é indispensável pensar o sujeito e sua inserção no social. Frigotto (1999), nos ajuda a refletir sobre o papel da escola, criando alternativas nas salas de aula, de tal forma que, trabalhando com as multiplicidades, tenhamos a possibilidade de formar um cidadão autônomo e participativo na construção do conhecimento e de uma sociedade mais justa.

       Dentro de uma perspectiva histórica, onde as escolas brasileiras refletem e reproduzem a supremacia das classes dominantes, é fundamental refletirmos sobre o papel da escola na formação dos indivíduos. Desta forma, a escola deve estar comprometida na formação de um cidadão crítico e criativo que contribua de forma positiva e consciente para sua comunidade.

       Seria ingenuidade imaginarmos uma educação que não fosse reprodutora, porém, ao reproduzir a cultura vigente, cabe à escola promover um espaço aberto para que haja produção cultural, como também um movimento dinâmico que impulsiona os indivíduos para o futuro. Sacristán (1999) adverte que não há educação sem reprodução, no sentido de que todos os homens têm sua história e trazem consigo o legado cultural.

       Considerando que na sociedade pós-moderna o conhecimento se torna cada vez mais valorizado, participar da luta pela universalização do ensino significa estar de acordo com os ideais de justiça, igualdade e democracia.

       Com a atual política neoliberal, o Estado deixa de ter responsabilidade pelos direitos básicos do cidadão, deixando os serviços básicos como saúde, educação, habitação e transporte diante do controle do mercado. Desta forma, se torna ainda mais difícil aos desfavorecidos terem seus direitos de cidadãos garantidos.

       Tendo em mente a emergente necessidade de mudança, uma escola comunitária e de filosofia judaica, Colégio Talmud Torah Hertzlia, vem junto com outros colégios da comunidade, passando por um processo de reformulação e transformação em suas modalidades de ensinar.

       As escolas judaicas do Rio de Janeiro são ligadas a uma instituição que se chama Vaad Hachinuch, que trata das questões referentes à educação das escolas de filosofia judaica.

       Apoiadas por esta instituição, as escolas promovem reforma curricular que começou com um curso realizado na Universidade de Tel-Aviv, em janeiro de 1999. Todos que participaram: professores, orientadores, coordenadores e diretores, tiveram a oportunidade de estudar como também de conhecer algumas escolas.

       O Ministério da Educação de Israel vêm adotando desde 1973, um projeto por eles chamado de Educação para a Diversidade. Sendo Israel um país que recebe imigrantes do mundo inteiro, berço de três religiões; islamismo, cristianismo e judaísmo, houve empenho em perceber a educação, respeitando não somente as diferentes possibilidades e ritmos de cada aluno, como também as diferentes culturas e religiões. A relação dialógica entre as culturas é fundamental quando se pressupõe a educação numa sociedade democrática.

       Ao participarmos do curso e das visitas, nos deparamos com escolas que trabalham com o mesmo projeto, porém, com características muito centradamente diferentes. Torna-se evidente nesta concepção de educação, que não somente os alunos têm diferentes possibilidades, também os professores têm estilos e características diversificadas.

       Percebendo o alto índice de repetência escolar, os pesquisadores envolvidos no projeto ofereceram ao Ministério de Educação e Cultura uma sugestão inicial ao programa de pesquisa e ação. Depois de três anos como projeto experimental, o Ministério da Educação e Cultura de Israel ofereceu o programa para todas as escolas do país. Atualmente, 70% das escolas israelenses, optaram por adotar esta proposta pedagógica.

       A Educação para a Diversidade é uma concepção que reconhece a diferença entre os estudantes, reconhece o pluralismo cultural e social e acredita que a função da escola é de atender estas diferenças através da adequação do ambiente educativo às necessidades dos alunos e aos objetivos do programa de estudos.

       Sob este prisma, o aluno se torna centro do processo educativo, possibilitando que tenha o ritmo de estudo e desenvolvimento adequado a si mesmo, oferecendo-lhe objetivos pedagógicos, culturais e pessoais de acordo com suas possibilidades, tendências e necessidades através de sua participação ativa no processo, e garantindo seu progresso como indivíduo e como membro do grupo.

       A Educação para a Diversidade enfoca o progresso dos alunos em suas características: cognitivas, sociais e pessoais. Desta forma, seu objetivo é possibilitar que os alunos aprendam cultivando a autonomia e estimulando suas potencialidades para trabalhar em equipe, respeitando o próximo.

       Dentro desta concepção de educação, não há mais espaço para a concepção tradicional de ensino, onde todos os alunos recebem os mesmos conteúdos da mesma forma como se a turma de alunos fosse homogênea. De acordo com esta nova concepção é necessário reconhecer a heterogeneidade existente em cada sala de aula.

«(...) existe a variedade de razões que impulsionam a cada um de nós a agir e as diferenças entre os seres humanos. Apelar aos sujeitos envolve encontrar uma quase infinita variedade em qualquer de suas dimensões.» (Sacristán,1999,p.34)

       O princípio orientador da aplicação da Educação para a Diversidade é adequar a escola para que cada estudante desenvolva ao máximo seus potenciais, não valorizando apenas os que têm habilidades lógico-matemática e lingüista, mas sim as possibilidades diferentes de cada aluno: artísticas, psicomotoras e interativas entre outras.

       Para alcançar esta adequação, propõe-se articular estratégias de ensino, aprendizagem e avaliação diversificadas e flexíveis, que incluem a criação de um ambiente pedagógico rico e variado, através de uma nova cultura escolar, pedagógica e social. Este ambiente pedagógico promove a flexibilidade de um programa de estudos que contém a diferenciação entre objetivos comuns a todos e objetivos pessoais adequados aos diferentes estudantes, o progresso dos processos de ensino, às tendências e preferências dos alunos, a utilização de uma larga variedade de técnicas, métodos e recursos, a flexibilidade do tempo de estudo e âmbitos de aprendizagem, o desenvolvimento de critérios e meios de avaliação e a colaboração do aluno nos diferentes processos.

       Tantas inovações começaram com a capacitação de todos os que estão envolvidos no processo de mudança: professores, coordenadores, supervisores e diretores como também a participação efetiva da comunidade na escola.

       Nesta concepção de ensino, percebemos o aluno como um indivíduo capaz de desenvolver ao máximo suas potencialidades, e que através de um ambiente alternativo ele se permita ousar, solucionar desafios, criar, experimentar, pesquisar e desenvolver seus aspectos cognitivos, sociais e emocionais.

       A Educação para a Diversidade privilegia aspectos como o estudo através de pesquisas, tendo como instrumento as tecnologias de informação. Deste modo, se torna fundamental preparar o estudante para a vida na sociedade atual.

       Sob este ponto de vista, almeja-se contribuir na formação de um estudante autônomo e responsável. O professor deixa de ser o centro no processo pedagógico, tornando-se um orientador que na relação cotidiana de sala de aula, auxilia os alunos na busca como na produção do conhecimento.

       No que se refere às avaliações tradicionais do sistema de ensino, percebemos que nesta nova concepção não há mais espaços para as mesmas. Sendo assim, os alunos participam ativamente no processo de avaliação, acompanhando seu desenvolvimento, por intermédio de verificações dos resultados de estudo em folha de acompanhamento, auto-exame e outras técnicas.

«A informática e outras máquinas audiovisuais favorecem uma interação intermediária, pois confrontam o aluno com mecanismos programados pelo homem para lhe servir de parceiro. Papert (1981) fala do computador como uma máquina para pensar junto.» (Perreenoud,1999,p.112)

       Sob tal ótica, o objetivo da avaliação é o de perceber o aluno em relação ao seu próprio desenvolvimento. Neste momento, a utilização do computador é de grande valia tanto para professores como para os alunos.

       A avaliação não tem como objetivo classificar o aluno, nem tornar público os conteúdos que não foram alcançados, mas sim, possibilitar o reconhecimento das novas etapas que estão para ser conquistadas no desenvolvimento do aluno.

«Ir em direção a uma avaliação mais formativa é transformar consideravelmente as regras do jogo dentro de sala de aula. Em uma avaliação tradicional, o interesse do aluno é o de iludir, mascarar suas falhas e acentuar seus pontos fortes. O ofício do aluno consiste principalmente em desmontar as armadilhas colocadas pelo professor, decodificar suas expectativas, fazer escolhas econômicas durante a preparação e a realização das provas, saber negociar ajuda, correções mais favoráveis ou a anulação de uma prova mal-sucedida.» (Perrenoud,1999,p.151)

       Nosso grande desafio, em relação à implementação do programa de Educação para Diversidade no Brasil, era perceber e analisar criticamente as escolas israelenses, que já haviam implantado o programa, para não corrermos o risco de importarmos um modelo pronto de sucesso; mas sim, conhecer outra realidade, ampliando nossa visão de mundo, tendo em vista obter novos instrumentos que possibilitassem transformar nossa prática dentro das escolas que trabalhamos.

       Este projeto, adotado pelas escolas judaicas do Rio de Janeiro, desde o princípio de 1999, conta com o compromisso de pais, equipe escolar, alunos e todos os que estão envolvidos com a educação.

       No Brasil, o projeto recebeu o nome de P.I.E. - Programa de Inovação Educativa e de acordo com a pesquisa realizada na 1 série do Colégio Talmud Torah Hertzlia constatamos os novos paradigmas na educação.

Considerações finais

       Constatou-se a importância do PIE como um projeto político-pedagógico, num contexto democrático, oferecendo um rumo, uma direção para a comunidade escolar, não se restringindo somente a uma tentativa de mudança de um professor isolado em uma das classes do ensino fundamental. Com o apoio da direção o grupo de professores têm exercitado sua autonomia ao investir em práticas pedagógicas diversificadas que enriquecem o cotidiano escolar.

       O PIE oferece novos paradigmas para os educadores e sugere um repensar para o cotidiano escolar, proporcionando aos alunos um caminho espiral de sucesso na construção de sua autonomia, tornando-se mais crítico e responsável.


Cheila Szuchmacher Huf é professora e mestrada em Educação e Desenvolvimento Humano pela UNESA.
huf@marlin.com.br

Referências Bibliográficas:
- FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a crise do capitalismo real. São Paulo: Cortez, 1996.
- FRIGOTTO, Gaudêncio. A Produtividade da escola improdutiva. São Paulo: Cortez, 1999.
- GARDNER, Howard. Inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
- LÉVY, Pierre. As Tecnologias da inteligência. SP: Literatura S/C, 1996.
- PERRENOUD, Philippe. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens - entre duas lógicas. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
- PERRENOUD, Philippe. Pedagogia diferenciada: das intenções à ação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
- SACRISTÁN , J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1999.