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Opinião Acadêmica

UM INSTRUMENTO DECISIVO PARA O PAÍS

Rogério Cezar de Cerqueira Leite


Já há contribuição para a expansão do conhecimento no Brasil, mas não há aproveitamento econômico desse conhecimento.

       Colhemos durante o primeiro semestre deste ano na imprensa brasileira uma série de notícias sobre incubadeiras de empresas de base tecnológica. A USP amplia para 73 o número de vagas para empresas de base tecnológica em sua incubadora. O Sebrae ampliará para 120 o número de incubadeiras que receberão seu apoio. A Unicamp cria uma incubadora - Incamp - com espaço inicialmente previsto para oito unidades empresariais. O Softex-Campinas aumenta para dez o número de incubadas. A prefeitura de Campinas, por meio da Ciatec, companhia de apoio a empresas emergentes de base tecnológica, diploma as primeiras 16 empresas incubadas que em conjunto compreendem um faturamento de R$ 18 milhões para 2001 e um quadro de empregados de mais que 300 pessoas. Somente nos Estados Unidos, mais que 600 organizações desse tipo já foram instaladas. Na Europa, outro tanto é registrado. Há 12 anos a incubadora de Cingapura tornou-se modelo para todo o Oriente. No Brasil já existem cerca de 135 incubadoras de base tecnológica ou não, com 1.100 empresas e 5 mil postos de trabalho. A conclusão que se extrai dessa proliferação de organismos semelhantes nos últimos 20 anos parece inexorável. Incubadeiras de base tecnológica constituem hoje instrumento decisivo para o desenvolvimento econômico de um país.

       Há 25 anos não havia uma única incubadeira no mundo quando a primeira delas foi implantada na Unicamp. É claro que não foi ela o exemplo seguido em todo o planeta. Muito provavelmente foram situações correntes em muitos locais que espontaneamente induziram às mesmas reflexões e soluções. Essa eclosão simultânea universal só pode ser compreendida se as condições que a propiciaram também tivessem sido estabelecidas ou amadurecidas inopinada e universalmente. É também significativo o fato de que foi exatamente à mesma época que surgiu o conceito de pólo ou parque tecnológico, ou seja, da justaposição de um conjunto de empresas de base tecnológica associadas a uma universidade ou instituição de pesquisas.

       Foi também no Brasil, em torno da Unicamp, que em 1975 foi concebido o primeiro tecnopolo planejado do globo. É claro que acontecimentos espontâneos dessa natureza já existiam, notadamente os denominados Vale do Silício, em torno da Universidade de Stanford, Rota 128, nas imediações do MIT, ambos nos EUA, e o complexo de Grenoble, na França.

       Em algumas universidades americanas, apoio a empresas nascentes já era informalmente oferecido. Professores e alunos de pós-graduação se associavam em torno de projetos que, amadurecidos, se tornavam produtos de interesse comercial. Por vezes o início de pequenas produções ocorria nas bancadas e oficinas da própria universidade. Essas empresas não apenas se beneficiavam de um apoio material, mas, antes de tudo, do convívio de um ambiente de reflexão e de inovação e dessa integração intelectual resultaram não apenas algumas das grandes empresas do setor eletrônico, como também agregados empresariais imbatíveis do porte do Vale do Silício (10 mil empresas) e Rota 128.

       Todavia, esse modelo não poderia ser seguido em universidades brasileiras, onde o ranço conservador da mediocridade se transvestia em moralidade. "Dinheiro público não pode servir o interesse privado." Não se percebia que criar uma empresa é criar riqueza e esta é um bem social.

       Pois bem, foi para conciliar o liberalismo criativo da bem-sucedida universidade de vanguarda americana com os preconceitos conservadores da Unicamp que foram concebidas a Codetec, companhia privada que atuaria como fábrica de tecnologia, e a Ciatec, que implantaria o parque tecnológico adjacente à Unicamp. E a Codetec incluiu em seu projeto arquitetônico aquela que seria a primeira incubadeira de empresas nascentes do mundo, com oito "baias". Dessa instituição nasceram algumas empresas pioneiras no Brasil, por exemplo, a Nova Data, especializada em minicomputadores; a Termoquipe, pioneira em gaseificação de madeira; a Cryometal, em equipamentos de baixa temperatura, etc. Entretanto, o retrocesso de administrações subseqüentes da Unicamp acabou prevalecendo. A Codetec teve de se retirar do campus e interromper sua atuação como administradora de incubadora.

       Todavia, o que nos interessa nesta exposição é o reconhecimento de que as duas mais bem-sucedidas inovações institucionais da nossa era, no setor tecnológico, decorrem de uma mesma idéia-mãe, ou seja, de que empreendimentos em iniciativas intensivas em tecnologia se beneficiam enormemente de trocas intelectuais informais propiciadas pela proximidade física, entre entidades e indivíduos.

       Esse princípio fundamental, o de fertilização cruzada intelectual, gerou uma série de estratégias, além daquelas mais óbvias referentes a incubadoras de base tecnológica e tecnopolos. O exemplo de Sukuba, no Japão, onde se situa um grande número de instituições de pesquisas científicas, é um exemplo de sucesso de concentração de unidades homólogas. Porém, algumas das mais bem-sucedidas estratégias são as híbridas, em que se justapõem em um mesmo espaço físico universidades, instituições de pesquisas diversas e empresas de base tecnológica.

       O Brasil, de acordo com o relatório 2001, sobre o Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, mostra uma incongruência entre o volume de produção científica e a escassez de inovações. Ou seja, no Brasil já há contribuição para a expansão do conhecimento, mas não há aproveitamento econômico desse conhecimento. Em contraste, nos EUA, Japão e países da Comunidade Européia há uma relativa coerência entre avanço científico e tecnológico. Há, possivelmente, uma multiplicidade de razões para esse descompasso observado no Brasil. O mais óbvio é o fato de que a produção de bens no Brasil é dominada por filiais de empresas estrangeiras (ditas multinacionais) que concentram em seus países de origem suas atividades de pesquisas e apenas transferem instituições para suas filiais no Brasil. Com isso, a empresa brasileira fornecedora também se restringe com freqüência, em sua produção, a projetos ("blue prints") elaborados nas matrizes de seus clientes. Ou seja, o Brasil não inova porque não tem o que fazer com a inovação.

       Esse círculo vicioso tem de ser rompido de alguma forma se quisermos tornar o Brasil competitivo em um mundo globalizado. E incubadoras e parques tecnológicos talvez sejam o mais promissor instrumento para atingir esse propósito.


Rogério Cezar de Cerqueira Leite é físico, professor emérito da Unicamp.