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Opinião Acadêmica

CANUDÓLOGOS EM AÇÃO

Sérgio Guerra


       Um dos fatos históricos mais marcantes do País, a Guerra de Canudos, ganha uma nova leitura. Os professores Manoel Neto e Roberto Dantas lançaram o livro «Os Intelectuais e Canudos: o discurso contemporâneo».
O livro é resultado de um projeto de pesquisa no campo da história oral desenvolvido pelo CEEC, órgão suplementar da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que estimula estudos voltados para o semi-árido baiano. Esta é a primeira de uma série de três publicações realizadas a partir de depoimentos de acadêmicos, pesquisadores, escritores, estudiosos, artistas e intelectuais com trabalhos em torno da temática Canudos. Desse volume, dedicado ao mestre José Calasans,o maior especialista brasileiro em Canudos, participam autores representativos de múltiplas linguagens artísticas.


       Pelo elenco que apresenta o livro Os Intelectuais e Canudos: o discurso contemporâneo - História Oral Temática(1), organizado por Manoel Neto e Roberto Dantas, com a colaboração de José Carlos Pinheiro e prefácio de Luitigarde Oliveira Cavalcanti Barros, já podemos antever o festival de criações culturais que se anuncia. Ao enumerarmos apenas as qualificações deste plantel de fina linhagem, cujas múltiplas atividades se unificam pela fixação na temática do Bello Monte, como prefiro chamar a cidadela em pauta, por respeito aos seus sonhadores, me oponho ao termo já bastante conhecido, diríamos quase clássico, popular e inegavelmente consagrado pela repressão: Canudos(2).

       Assim, sem muita demora, pois acreditamos que o simples enunciado dos títulos dos depoimentos coletados, extraídos dos relatos publicados, levará aos apaixonados pelo tema à leitura das entrevistas, enumeramos os seus autores e acrescentamos apenas algumas informações complementares acerca de suas atividades e experiências: «O sertanejo gosta de padre e gosta de artista, do jagunço»(3), do professor, historiador, compositor, músico, cantor e serrinhense, Fábio Paes; «O quadro não pode morrer», do seu pintor(4), do artista plástico e, provavelmente, autor da maior coleção de quadros e desenhos sobre a temática euclydiana e médico, por incrível que pareça, Trípoli Gaudenzi; «Quando vou para o sertão é como se saísse da terra para outro planeta», do escritor, jornalista, poeta e publicitário Oleone Coelho Fontes; «Eu penso que o acontecimento em Canudos é diferente de tudo que se relatou sobre o que aconteceu em Canudos», do fotógrafo, videoasta, laureado internacionalmente, e produtor cultural, Antonio Olavo; «O açude não serviu, senão para tentar fazer as pessoas que queriam conhecer a história de Canudos esquecer a história de Canudos», do canudense, advogado, escritor e grande memorialista Eldon Canário e, finalmente, porém nunca por último, «Sou jaguncinha nova na área», da professora e escritora Lizir Arcanjo.

       Considerando esta seleção de artistas de diversos ramos, poderíamos sugerir que esta denominação talvez fosse melhor do que intelectuais, para identificar o início da série, pois não desmerece e sim melhor os qualifica, potencializando sua classificação. Todavia, como gosta de dizer Antonio Olavo, quando criticado por um viés que tenha adotado em algumas de suas produções - «o trabalho é meu e eu boto quem eu quero», o que não impede de dar a minha opinião, aceita ou não.

       Gostaríamos de destacar a importância que este início da série representa, em primeiro lugar, porque evita que Manoel Neto e Roberto Dantas entrem para o folclore dos «autores que nunca publicam nada», tão comum entre os canudólogos, em especial, e entre os intelectuais baianos, em geral. Por outro lado, nos anima a possibilidade de ter valiosas reflexões sobre os episódios de Bello Monte, expressos em depoimentos que acreditamos sejam bastante comoventes, pois o tema sempre desperta paixões adormecidas e nos oferece a perspectiva de que é «jaguncinha nova na área».

       E por fim, como já se anuncia para além dos intelectuais e artistas de fora ou do lado de «cá»(5) como gosta de dizer o professor José Calasans, aguardamos ansiosos as falas dos descendentes dos sobreviventes, daqueles que efetivamente estavam «lá»(6), na feliz expressão de E.P. Thompson.


Sérgio Guerra é professor de História da rede pública estadual, da Uneb/Ceec (Centro de Estudos Euclides da Cunha) e da UCSal.

NOTAS

1 - Os Intelectuais e Canudos: o discurso contemporâneo. História Oral Temática. Manoel Neto e Roberto Dantas. Colaboração José Carlos Pinheiro. Universidade do Estado da Bahia. Salvador, 2001. Prefácio Luitigarde Oliveira Cavalcanti Barros.

2 - Apesar de correr o risco de parecer pretensioso, acreditamos que, para quem quiser conhecer melhor esta discussão, vale a pena conhecer nosso livrinho Canudos versus Bello Monte: Universos em confronto. Salvador: Uneb, 2000.

3 - Estamos aqui usando este termo na perspectiva que o professor José Calasans, o grande estudioso e patriarca dos estudos canudenses, usa para se referir carinhosamente, quando comenta um evento em que se encontram reunidos todos os seus descendentes estudiosos de Canudos/Bello Monte.

4 - Único título que não é da lavra do entrevistado pois, apesar de citado por Trípoli Gaudenzi, é uma frase do pintor Alfonso Lafita, como esclarecem os organizadores em nota, já no Sumário.

5 - Vide o livro do autor.

6 - Idem.