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Opinião Acadêmica

A SINGULARIDADE DA OBRA DE LACAN

Maria Alice Timm de Souza


       Nossa proposta seria, neste breve escrito, tentar responder, ainda que insuficientemente, em que consiste a singularidade a que se refere nosso título.

       Sabe-se que, contemporaneamente, não se pode mais ignorar a obra de Lacan, e isso não só no âmbito da Psicanálise, mas também no âmbito de outros campos do saber, como a filosofia, a epistemologia, a lingüística, a antropologia, a topologia. Por outro lado, temos esta singularidade comparecendo na Psicanálise Intensiva exercida por aqueles analistas que se denominam “lacan”, cabendo, neste momento, a pergunta: o que significaria, precisamente, ser lacaneano? E ainda: por que o lacanismo ocupa, na atualidade, um lugar de tanta evidência em relação àquilo que Freud denominou de “peste”, a saber, a própria Psicanálise, provocando ao mesmo tempo tanto amor e tanto ódio, principalmente sob a forma da “rejeição fascinada” herdada de Sartre?

       Deve-se começar dizendo que ser lacaneano significa, basicamente, ser fiel ao estilo de Lacan. Este estilo se hiperdetermina, obrigatoriamente, à questão teórica que se encontra subjacente a toda clínica psicanalítica, assim como à dívida conceitual contraída para com Freud “O inconsciente é de Lacan, Freud apenas fundou um campo matêmico”, que tem como desdobramento outro dito: “Eu sou o único freudiano, caberá a vocês serem lacaneanos”.

       Mas, se Freud teve como estilo a associação livre, o estilo de escuta de Lacan encontra suporte em um conceito que, que mesmo tendo sido tão intensamente elaborado, vem sendo muito mal compreendido, sobretudo pela confusão estabelecida entre tempo lógico - eis o estilo de Lacan - e sessões curtas. Ora, o tempo lógico não tem a ver nem com sessões curtas, nem com sessões longas, caracterizando-se justamente pelo contrário disto, ou seja, não se tratará, em uma sessão de análise, de um tempo cronológico, e sim, do respeito à emergência significante advinda do inconsciente. Portanto, com o tempo lógico, Lacan libertou o inconsciente das medidas de preço, tempo e número de sessões, estabelecendo então que a escuta do inconsciente não tem um valor fixo, mas sim, o preço simbólico que determinado analisando deve pagar pelo seu desejo, que, de última, é impagável, já que a dívida não é imaginária, faturável pelo dinheiro, mas simbólica, para com o significado de elaboração posterior ao "fim" objetivo da sessão, o que demonstra que ela, na realidade, não termina quando o analista esta razurável pelo relógio.

       Isto significa que existem momentos de corte que são muito precisos e que o analista precisará intervir sem hesitação nestes momentos, que serão estabelecidos a partir do reconhecimento prévio da estrutura clínica em questão. Disto conclui-se, portanto, que para um analista intervir corretamente será condição sine qua non o diagnóstico clínico, porque a psicanálise lacaneana se caracteriza por cada tipo de estrutura clínica corresponde uma determinada escuta e intervenção, que se incluem na função denominada O Desejo do Analista. Ou seja: o Desejo do Analista se manifestará de diferentes maneiras conforme a estrutura clínica, podendo manifestar-se como Silêncio e/ou como Interpretação. Porém, não se pode confundir o Silêncio do Analista, enquanto conceito, com o analista manter-se simplesmente "mudo", mas sim, com o silenciar frente à manifestação da fantasia, para que esta possa ser reconstituída. Por outro lado, isto não quer dizer que as intervenções do analista serão sempre as mesmas em relação à análise de um mesmo analisando, mas sim, que as suas intervenções se encontrarão na direta dependência das emergências significantes produzidas naquela análise, que, por sua vez, deverão ser reconhecidas prontamente. Mas, para que os significante emerjam, é preciso que o analista possa fazer o devido acossamento, esquivando-se de dar sentido ao dito do analisando e restringindo-se a “escutar o dito que resta esquecido no mais além do que se ouve” (LACAN, L'Etourdit).

       Sendo assim, para que isso se dê desta forma, é preciso que o analista lacaneano, em sua formação, se refira irredutivelmente à indissociabilidade teórico-clínica advogada por Lacan, o que significará dar conta de três instâncias simultaneamente:

      - a formação teórica propriamente dita, por onde se manifesta a relação do analista com a transferência de trabalho, isto é, com a mestria, transmissora que é da psicanálise e das obras de Freud e Lacan;

- a análise pessoal, onde o analista é analisando, porque, segundo Lacan, não se é analista o tempo todo: ali, tratar-se-á, como em qualquer outra análise, de dar conta da sua (própria) relação com o gozo e com o Real e da angústia daí advinda;

- e, primordialmente, para um analista, da sua análise da resistência.

       Esta novidade foi introduzida por Lacan, uma vez que, para Freud, era o analisando que resistia. Na nova concepção psicanalítica, o analisando passou a se defender através de formações reativas ou de transferência negativa, o que pode provocar, então, no analista, a resistência. Esta fará com que este analista resista precisamente a ocupar o seu lugar enquanto analista. Portanto, o analista não é uma pessoa, que se colocaria subjetivamente, mas um lugar, que é análogo àquele do objeto A, ou seja, o lugar de objeto causa de desejo, lugar que aponta para a falta constitutiva do sujeito e que é suportado pelo seu (do analista) desejo de máxima diferença, o que pode levar à identificação com a singularidade sintomática daquele sujeito. Por outro lado, o lugar de analista é um lugar de suspensão, referido que é à renegação. Isto se dá porque a dita neutralidade analítica se refere à neutralidade do significante, que, por sua vez, não tem sentido algum, advém do Real e tem por função representar um $ para outro significante. Por esta razão, os significantes não se relacionam entre si, o que faz com que o analista deva se abster, renegatoriamente, suspensivamente, de qualquer juízo, seja de atribuição, seja de existência, acerca de qualquer material produzido em análise. Porém, é sabido que isto é consideravelmente difícil, uma vez que não se tem como prever as afetações que se sofrerá com as diferentes formas de comparecimento do Real em seus efeitos, sob a forma de gozo, dos analisandos. Será este o momento de entrada em cena da análise da resistência, que gerará a recomposição desta. Este é um ponto tão importante da formação de um analista lacaneano, que Lacan chegou a chamar a análise da resistência de “verdadeira análise”, uma vez que, sem ela, análise alguma pode ter lugar.

       Portanto, será a partir de um preciso diagnóstico e, a partir daí, de uma intervenção específica, que uma análise acontecerá, dirigida sempre pelo Real e pelo gozo advindo deste sob a forma de masoquismo e nunca pelo analista, a quem caberá apenas escutar este gozo e dar conta da sua própria afetação para que esta análise ande e que este analisando, atravessado por determinada estruturalidade clínica, possa se “mancar” em alguma medida daquilo que o constitui como sujeito em relação à vida. Ou seja: ao contrário do que às vezes se ouve, inclusive em meios supostamente preparados tecnicamente, de que fazer diagnóstico atrapalha a escuta, ou ainda, que não se deve “rotular” os pacientes através do diagnóstico, é preciso, sim, fazer um diagnóstico muito preciso, porque será a partir dele que o analista poderá intervir com a sua única ferramenta de trabalho: a palavra, seja para silenciá-la, seja para explicitá-la, seja para equivocá-la, seja para afirmá-la.

       E, retomando a última questão proposta em nossa introdução, deve-se lembrar que, tanto a Psicanálise, como o lacanismo em si, têm um lugar social de desacomodação, isto é, de causar incômodo, e isto justamente por não se propor a “tapar buracos”, leia-se “tapar a angústia”. Mas, ao contrário, através da escuta desta, levar o sujeito a conviver com as suas divisões e disjunções subjetivas de uma outra forma e, aí, sim, num só-depois sintomático, poder aliviar-se dela, não mais fazendo de conta que ela não existe ou tentando adequar-se comportamentalmente para dar conta do sofrimento daí advindo, ou ainda, fazendo uso de recursos medicamentosos para supri-la, mas olhando-a nos olhos, com o filtro da análise. Ou seja: tratar-se-á, em última instância, de acatar o impossível daquilo que é impossível, e de aceitar o possível que comparece como efeito dessa impossibilidade.

       Então, por tudo o que foi dito acima, evidencia-se que seguir o estilo de Lacan significa relacionar-se com a Psicanálise de forma a respeitar a ética que lhe é própria, que é a ética do desejo, portada tragicamente por Antígona. Será esta ética que obrigará o analista que fizer jus a este lugar, a referir-se continuamente a estas três instâncias indispensáveis a sua formação: a questão teórico-conceitual, a análise pessoal e a análise da resistência.


MARIA ALICE TIMM DE SOUZA é Membro-Analista do Centro de Estudos Lacaneanos (CEL) - Instituição Psicanalítica/RS e membro da Comissão Editorial do CEL/RS.
* Este artigo foi baseado na palestra proferida na Associação Médica de Bento Gonçalves/RS, sob os auspícios do Núcleo de Psicologia de Bento Gonçalves, em 16/03/2002.