20/04/2002
Número - 255

ARQUIVO

Opinião Acadêmica

A MEIA IDADE DA IDADE MÉDIA

Nelly Labère


"A Idade Média oferece um quadro bizarro, que parece ser o produto de uma imaginação poderosa, mas desregrada"
Chateuabriand, Histoire de France.

       A quem busca obter uma definição de Idade Média, o Robert, dicionário usual da língua francesa, oferece uma definição bem pouco substancial. Assim, a Idade Média seria aquele "período compreendido entre a Antigüidade e os tempos modernos, tradicionalmente limitado pela queda do Império Romano do Ocidente (476) e a tomada de Constantinopla (1453)". Definição histórica, pois, limitada por duas datas sujeitas ao debate e oferecendo ao beócio, preocupado em completar sua cultura, pouca matéria para reflexão. Se seguirmos um pouco nossas investigações, é forçoso constatar que ainda o discurso se situa numa forma de incapacidade de produzir uma reflexão diferente da moral e estabelece um julgamento de valor pouco propenso a suscitar o interesse pela Idade Média. Assim, num manual de 1946[1] , destinado a estudantes e pretendendo ser obra pedagógica, a Idade Média é definida como o período em que "a força reina mais que o espírito ou a beleza; o estado de guerra é quase constante; encontra-se o belo por instinto mais do que a ele se chega por esforço (pois) as obras são prolixas, confusas, ora ingênuas, ora pedantes e complicadas, ora grosseiras - belas apenas por acidente".

       O quadro é sombrio. A descrição, pouco elogiosa. O leitor é repelido antes mesmo de ter começado. Eis que um capítulo sobre o Renascimento lhe promete os faustos e os esplendores de um estado em construção, de uma língua francesa em via de elaboração... O anátema está lançado sobre a Idade Média e sobre dez séculos de história e de literatura. Assim como diz o Robert, pode-se passar aos "tempos modernos" e fazer abstração de um período tanto mal conhecido quanto desconhecido.

       No entanto, seria passar em silêncio dez séculos de rupturas, de continuidades, de mutações e transformações. Se é inútil querer traçar aqui a história daquele milênio, parece, não obstante, necessário repensar algumas concepções esquemáticas e redutoras. Com efeito, do século V ao XV, limites geralmente admitidos para designar a Idade Média, numerosos acontecimentos se desenrolaram. Para o público, eles se resumem freqüentemente à época das Cruzadas e das catedrais, época precedida por alguns séculos de barbárie e seguida de alguns desastres da guerra dos Cem Anos. Mas a análise não pode ficar aí. O que é preciso primeiro repensar, é que o próprio termo de Idade Média é perigoso, até falacioso, já que pretende cobrir um período de mil anos pelo simples recurso semântico de um termo composto a posteriori.

Uma terminologia a redefinir:

       "Idade Média" é a adaptação do latim da Renascença medium aevum (1604), assim como em inglês "middle age", em alemão "mitte lalter", em italiano "medioevo", em espanhol "edad media", o português "idade média".

       Vemos aparecer a noção e a expressão "Idade Média" já no fim da era medieval. Os primeiros autores a empregar a expressão hesitam entre "Meio Tempo" e "Idade Média" para traduzir as expressões forjadas pelos sábios humanistas, tais como media tempestas (em Giovanni Andrea em 1409), media aetas (1518) e media antiquitas. Mas a terminologia "Idade Média" só se impõe dois séculos mais tarde, no final do século XVII, difundia pelos trabalhos de Horn de Leyde et de Cellarius. Por volta de 1800, ela cai no domínio público, o que não ajuda muito a precisar-lhe o sentido e vai de par com um interesse renovado por esse período caído no esquecimento; enquanto os textos mais conhecidos dão lugar a edições populares, os eruditos se ocupam em estudar e editar manuscritos perguntando-se sobre a identidade histórica e literária daquele milênio.

       No entanto, a expressão "Idade Média", difundindo-se e generalizando-se, apenas fixa e valida um perigo semântico que está em sua própria origem. Primeiro ela leva a reduzir um milênio a uma denominação, dando a ilusão de unidade, de homogeneidade tanto histórica quanto literária. Fala-se dos séculos XVI, XVII, XVIII, do XIX, do XX e logo do XXI fazendo coexistir com esses períodos os mil anos da Idade Média. O segundo problema veiculado por essa terminologia é mais insidioso e constrói um sistema de representação mental da ordem do julgamento depreciativo. Com efeito, empregar o adjetivo "médio" remete aos qualificativos "transitório, intermediário, mediano". Daí um convite a ouvir "Idade Média" como passarela, espaço, momento separando dois outros estados ou períodos. Ora, ao nos referirmos a um recorte histórico convencional, o que a "Idade Média" separa é um primeiro período, a Antigüidade como berço das origens, e um segundo período, o século XVI, concebido como um renascimento. Mas falar de Renascimento para qualificar o século XVI significa considerar que houve um primeiro "nascimento", depois uma "morte" para que tenha necessariamente havido um "renascimento". A aplicação à cronologia histórica vai por si: o nascimento, é a Antigüidade. A morte, é a Idade Média. O Renascimento, é o século XVI. Desde então, a Idade Média, pelo semantismo mortífero que veicula, constrói uma representação de si mesma condicionada por sua própria denominação. A Idade Média aparece assim como um milênio de sono, de adormecimento, de morte intelectual e cultural. Assim, não é anódino constatar que uma boa parte dos usuários da língua francesa empregue de modo errôneo, no lugar do qualificativo "medievo", o que é "moyennageux" (medieval) para designar "o que se refere à Idade Média". Ora, o adjetivo "medieval" implica freqüentemente um julgamento um pouco pejorativo e remonta ao que é vetusto e retrógrado.

       Esse erro de vocabulário assim como a implicação semântica de "Idade Média" não são tão insignificantes quanto parecem. Com efeito, testemunham, pelos próprios sentidos a que induzem, uma certa visão histórica que concebe o progresso para a modernidade como uma conquista e marcha para a humanidade. Esse topos é obvia e largamente enganoso e perigoso.

       Não explica, não demonstra, não justifica. No entanto, ele assegura e serena desenhando perspectivas de uma evolução e pondo sentido e signo onde talvez estes não existam. Muitas vezes representada como o lugar de enfrentamentos, dos combates e das guerras, pondo em cena um povo crente mas ignorante, um senhor reinando soberano num espaço despedaçado em províncias e não sobre um Estado, a Idade Média é o cenário onde a vida se limita a algumas tentativas e só faz prefigurar a renascença vindoura das letras. As produções de massa a que nos remete a sociedade de hoje atestam também uma visão certamente caricatural, porém não isenta de sentido. De fato, aparece, por exemplo, nas produções cinematográficas visando a um largo público, a Idade Média assimilada a uma coloração emblemática no sentido amplo do termo. Assim, o cromatismo que é utilizado se reduz a algumas cores primárias onde o preto, o vermelho e o branco dominam. Preto da morte. Vermelho do sangue, da violência e da paixão. Branco da pureza e da virgindade. O casal Eros/ Thanatos se inscreve nessa pintura ficcional da Idade Média como um retorno a origens históricas, lingüísticas mas também impulsivas. O mito aflora numa construção fantasmagórica e evolucionista que põe na linha de fundo o famoso, emblemático e não menos mítico Progresso.

Uma Idade Média no presente

       Se o emprego absoluto de Progresso como evolução da humanidade para um termo ideal pertence ao século XVIII[2] e é anacrônico para a Idade Média, resta que esta última não está isenta do que se poderia qualificar hoje como "evoluções". A lista seria muito longa e não poderia decerto pretender ser exaustiva. Mas cada um pode dar-se conta, em seu cotidiano, das ligações, certamente tênues mas reais, que nossa época entretém com algumas imagens da Idade Média. Se não se trata de interações sistemáticas e sim de detalhes que podem servir de ecos deformados, o convite à reflexão está presente e deve conduzir a um olhar renovado pela ausência de sistematismos a priori e de estereótipos. Do interesse científico ao passar de olhos lúdico, a referência pode atuar analogicamente. É nisso que as mais ínfimas práticas do cotidiano podem se revelar significativas nessa relação real, ainda que alterada, da Idade Média. Língua francesa, invenção da imprensa, artes da mesa, traçado de ruas, representações iconográficas, onomástica, arquitetura romana e gótica: tais são os exemplos que ilustram essas ligações complexas e que testemunham uma Idade Média no presente.

       Desde então, a Idade Média poderia talvez se definir apesar de tudo como uma meia idade. Se não é meio no sentido de passável, medíocre, ela é certamente um meio, um instrumento, uma força para se repensar nossa história e aquela de nossa sociedade.


Nelly Labère é Pesquisadora em Letras Modernas na Universidade de Paris IV - Sorbonne.
Texto traduzido por: Mônica Cristina Corrêa

NOTAS

1- EMILE Abry, AUDIC Charles & CROUZET Paul, Histoire Illustrée de la Littérature Française, Paris, Didier, 1946, 2 vols, vol 1, cap.1, p.4.
2- Ainda aqui, seria interessante estudar a denominação do século XVIII como "século das luzes" e ver em que o termo "progresso" se inscreve nessa visão de uma história em curso para um ideal.