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Opinião Acadêmica

O CASAMENTO EM A COMÉDIA HUMANA

Heloisa Costa


Este texto é uma análise do casamento na obra de Balzac. Há ainda uma comparação do valor dessa instituição na obra do romancista José de Alencar.

       O tema de minha pesquisa é o casamento, uma das principais temáticas de A Comédia Humana: os contratos, o papel dos tabeliães e as representações sociais de cada personagem no centro de uma sociedade em transformação. Em minha exposição abordarei três pontos.

       Em primeiro lugar, o tema do casamento em A Comédia Humana, em seguida alguns elementos de análise e de interpretação de O Contrato de casamento e finalmente alguns aspectos comparativos com a obra Senhora, de José de Alencar, romance da literatura brasileira. Trata-se de uma abordagem temática, tendo em vista que essa análise comparativa põe em evidência o estudo do tema através das personagens e da definição do contrato propriamente dita.

       Em A Comédia Humana, o casamento aparece como uma testemunha privilegiada das mudanças que marcam a vida e o contexto social em transformação. É a sociedade do século 19 que põe face a face os valores burgueses e os valores da aristocracia decadente. O poder do dinheiro desempenha um papel decisivo na definição dos contratos de casamento da época, bem como o poder das mulheres e dos homens diante das leis que o regem.

       Ariette Michel, em seu livro O Casamento na obra de Honoré de Balzac, afirma o seguinte: "É no casamento que todas as molas da vida individual e social são colocadas em jogo. Indo ao encontro da natureza, da lei e da política, da religião, o casamento remete à sociologia, à história e à moral, à poesia e à religião. (...)

       Em A Comédia Humana, vários romances suscitam o tema, ao mesmo tempo em que o desenvolvem de uma maneira diferente em cada obra. (...)

       Em O Contrato de Casamento, de 1835, obra que é o objeto de meu estudo, Balzac põe em evidência a grande comédia da definição do contrato, onde interesses sociais e individuais estão em luta. O dinheiro é o motor dessa transação e vê-se instaurar uma atmosfera onde a personalidade de cada um esconde-se atrás de uma máscara, para não revelar suas verdadeiras intenções.

       A definição do contrato põe face a face as personagens do romance. De um lado, Paulo de Manerville e seu tabelião Mathias, representantes da nobreza decadente e de uma sociedade tradicional e, de outro, Nathalie Evangélista, de origem espanhola, com seu tabelião Solonnet, representantes da burguesia, exclusivamente buscando a ascensão social através do casamento. (...)

       Em O Contrato de Casamento, em um determinado momento, a narrativa é interrompida e o objetivo da obra é claramente explicitada. O tema desse estudo não está na transição do rapaz para o estado de homem casado, pintura que, amplamente composta, não deixaria de ter a atração que a tempestade dentro de nossos sentimentos confere às coisas mais vulgares da vida. Os acontecimentos e as idéias que conduziram ao casamento de Paulo de Manerville com Mademoiselle Evangélista são uma introdução à obra, unicamente destinada a retraçar a grande comédia que precede a vida conjugal (...) é a discussão provocada por todos os contratos de casamento em todas as famílias nobres ou burguesas.

       Essa introdução faz, portanto, parte das primeiras páginas do romance. A apresentação da personagem Paulo de Manerville é feita a partir de sua origem aristocrática, cujos valores harmonizam-se perfeitamente com a sociedade. Seu pai decadente, econômico, avaro e mesquinho sabe administrar seus bens, contando com a ajuda e a inteligência de Mathias, um honesto escrevente de cartório. Em Bordeaux, essa família é respeitada e, depois da morte do Senhor de Manerville, toda a sociedade cuida de encontrar uma mulher para o jovem Paul. (...)

       Ingênuo, doce, elegante, Paul de Manerville é chamado de Flor de ervilha, flor delicada, flor humana, metáfora relacionada à sua personalidade, seu caráter, sua maneira de viver. (...)

       Na verdade, a dor do personagem traduz-se em um conflito entre seus valores românticos e idealizados, à espera de uma mulher sempre atenta a quem ele poderia tranqüilamente confiar seus negócios e seus segredos e a guerra do casamento nesse contexto social. Em várias passagens do texto o casamento é definido como um complô, um negócio, uma batalha, no qual é necessário estabelecer as forças de cada partido, a posição dos corpos beligerantes e o terreno no qual devem manobrar.

       O contraste das visões, dos valores, dos objetivos é marcado no texto desde o começo. Paul de Manerville e Henri de Marsay discutem sobre o casamento; Mathias, defensor dos interesses de Paul, opõe-se a Solonnet, tabelião dos Evangélista; o ideal de Paul, o casamento por amor opõe-se ao de Nathalie, que visa a ascensão social e uma vida luxuosa, o que causará a ruína de seu marido.

       O papel dos tabeliães na definição do contrato de casamento entre Paulo de Manerville e Nathalie Evangélista merece ser mencionado, pois trata-se da passagem mais longa e essencial do texto: a comédia representada pelos tabeliães.

       Uma das características do texto balzaquiano é a de ligar estreitamente a descrição física da personagem ao papel que desempenhará na narrativa. Assim, os dois tabeliães, representantes de mundos e de projetos diferentes, são introduzidos na obra a partir de suas descrições físicas. Isto revela suas personalidades e tudo o que representam socialmente. (...)

       Se, por um lado, Mathias, tabelião de Paul de Monerville, era ridículo, estranho em sua aparência, em compensação, seu espírito triunfara sobre a forma, as qualidades da alma venceram as esquisitices do corpo. Ele quer defender os interesses de seu cliente, como um segundo pai. A instituição do morgado, solução proposta por Mathias, visa evitar a ruína de Paul, mesmo que o tabelião não creia ser possível evitá-la.

       Por outro lado, Solonnet, com uma aparência volúvel, um tabelião que caminha com sua época, arrisca capitais, faz parte dessa batalha cujo objetivo é vencer o adversário. São dois mundos, duas realidades que se opõem. (...)

       Lendo Balzac, sente-se a progressão da narrativa como uma espécie de mosaico que vai se formando pouco a pouco, pois a cada aparição de um personagem vê-se desenhar seu perfil e sua integração no conjunto. Ele é comparado aos outros, considerando-se as semelhanças ou as diferenças. (...)

       Em O Contrato de Casamento, o fim é antecipado em todo o decorrer da leitura. Paul de Manerville casa-se com Nathalie e arruina-se por causa do luxo e da vida que leva sua esposa. No entanto, isto não o faz mudar seus valores. Arruinado, destruído, ele parte para a Índia com o intuito de refazer sua fortuna e sua vida junto à sua amada.

       É Henri de Marsay quem lhe envia uma carta, para contar-lhe aquilo que ele recusou-se a ver durante seu casamento com Nathalie. O caráter de sua mulher é revelado e seu amigo lhe propõe um plano, tendo em vista recuperar sua vida.

       Tal é a França, diz de Marsay, uma sociedade em transformação, onde o jogo social, o casamento por interesse, segundo os valores burgueses, está acima dos projetos idealistas e românticos. (...) Um olhar em direção da literatura brasileira aproximou-me de Senhora, uma grande obra de José de Alencar. Estabeleci um diálogo entre os dois textos, colocando face a face projetos diferentes em relação ao casamento. (...)

       O Contrato de Casamento e Senhora focalizam o tema do poder do dinheiro e das propriedades de cada parte. Os tabeliães, em Balzac, e o tutor de Aurélia Camargo, em José de Alencar, estabelecem os termos da transação, tornando os dotes parte integrante do contrato, bem como as cláusulas garantindo a transmissão de bens.

       Uma outra observação concerne o fim de cada romance. Se, em O Contrato de Casamento, trata-se de uma comédia ou antes de uma tragi-comédia (pois a influência das mudanças sociais torna a narrativa muito realista), Senhora põe em evidência o lado romântico, a união do casamento por amor e do casamento por dinheiro.

       Pode-se dizer que a análise desses dois romances é possível, já que Balzac e Alencar observam a sociedade em movimento, isto é, as relações sociais que se estabelecem a partir da definição de um contrato civil.

       Se tal é a França de Balzac, ressaltando o lado realista, tal é o Brasil de Alencar, onde o lado romântico é privilegiado.

       Para concluir, cito Antônio Cândido, professor da Universidade de São Paulo, em seu livro A Formação da Literatura Brasileira, para quem interpretar um texto é, em grande parte, utilizar nossa capacidade de livre arbítrio, na medida em que o texto é uma pluralidade de sentidos virtuais. Trata-se de escolher um entre vários.


HELOISA COSTA é Professora da Aliança Francesa de São Paulo e Coordenadora do Curso de Letras-Francês na Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)