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Opinião Acadêmica

PRÉVERT E O SURREALISMO

Valentim Facioli


       Esta breve apresentação espera contar, desde logo, com a boa vontade, e talvez o beneplácito dos leitores, tendo em vista que seu autor está muito longe de ser um especialista na obra de Jacques Prévert, não sendo nem mesmo formado em língua e literatura francesas. Assim, esta exposição é apenas uma tentativa de um professor de literatura brasileira. Mas um professor que conheceu desde cedo a contribuição decisiva que a França proporcionou a este país, especialmente no que aqui há de melhor da cultura letrada, do pensamento, das artes e sobretudo da literatura. É uma história antiga, que vem da França Antártica do século XVI e chega aos dias de hoje. E como Jacques Prévert é nosso contemporâneo e o tema que trataremos é da mais absoluta contemporaneidade, tentaremos aproximar França e Brasil através de um ângulo particular e polêmico, aproveitando o mote do poema "La lessive", que poderia ser traduzido em português por "A lixívia", mas foi traduzido, muito inventivamente, aliás, por Silviano Santiago, na única coletânea de Prévert em nossa língua, por "Roupa suja".

       A escolha desse poema, como mote, roteiro e eixo desta exposição, evidentemente não é casual, mas pensada com a intenção de evitar que a retomada de discussão nestas condições da atualidade da periferia brasileira sobre o Surrealismo não se consuma simplesmente como uma situação curiosa e pitoresca. Digo isso porque o poema de Prévert, a meu juízo, põe em tensão uma das energias mais poderosas e corrosivas do alto modernismo, como fonte e realização da herança crucial do Surrealismo no âmbito do HUMOR NEGRO. Aspecto, diga-se, a que, por qualquer que seja o motivo, a crítica francesa não tem dado suficiente ênfase, apesar da inclusão de um fragmento do célebre poema de Prévert "Tentative de description d´un dîner de têtes à Paris-France" na Anthologie de l´humour noir, organizada por André Breton.

       Prévert, a bem da verdade, é um mestre da ironia, do humor, da paródia, de diferentes técnicas comuns no alto modernismo, sendo também um realizador poderoso de textos de humor negro, entre os melhores produzidos na poesia francesa e européia. E "Roupa suja" está entre os melhores dos melhores, podendo ser articulado com o humor negro produzido em textos brasileiros de diferentes épocas, mas em especial no século XX.

       Como é mais ou menos amplamente conhecido dos leitores e admiradores de Prévert e do Surrealismo, sabe-se que o artista integrou o núcleo da corrente de André Breton entre os anos de 1925 e 1929. Há referências algo pitorescas a respeito da aproximação e adesão de Prévert ao grupo já então liderado por Breton. Apesar de pitorescas devem ser verdadeiras, pois repetidas por quase todos os conhecedores. Assim, a profunda impressão que lhe teria causado o quadro de Giorgio de Chirico "Le cerveau de l' enfant" o teria levado a solicitar a Michel Leiris para ser apresentado ao grupo, tendo conhecido Breton no segundo semestre de 1925 e passando em seguida a residir no célebre número 54 da rua do Château, com Marcel Duhamel e outros, local que se tornou uma espécie de "sede informal" dos surrealistas naqueles anos.

       Seria, talvez, embora conceitualmente pouco rigoroso, produto do "acaso objetivo" - ponto teórico tão importante para o Surrealismo - a invenção por Prévert do jogo poético chamado "le cadavre exquis", criação coletiva de puro acaso, no qual um membro participante desconhecia o que o outro havia escrito, podendo isso gerar um curto poema ou um texto mais longo. Neste ponto gostaria de fazer um parêntese sobre a tradução do termo exquis para o português, que se vem consagrando, como "delicado"; parece-me que essa tradução atenua muito o sentido mais forte do francês e seria preferível "cadáver delicioso", que tem sua dose de humor negro, ironia e corrosão, mais consentâneos com o espírito surrealista. Em todo caso, talvez eu esteja enganado, já que especialistas em tradução insistem na outra fórmula.

       Tornando à relação de Prévert com o grupo surrealista, sabe-se também, embora pareça outra anedota pitoresca, que ele teria se enfurecido com Benjamin Péret certa vez em que este andou dando uns tiros a esmo pela rua; ao mesmo tempo aprovou e apoiou as injúrias de Péret contra um padre. Também é certo que a posição anticlerical e de desprezo completo pela Igreja institucionalizada parece ter permanecido viva e ativa em toda a vida de Prévert. Muitos de seus poemas que o digam...

       As inúmeras tensões vividas pelo grupo surrealista levam à exclusão de Artaud e Soupault e pouco depois ao ingresso de alguns no Partido comunista, onde permaneceram por cerca de dois anos, em militância marginalizada, desconfiada e pouco confortável. Prévert, conquanto referido como comunista por alguns de seus amigos, preferiu não participar dessa politização partidária direta do grupo surrealista. Em 1929 ocorreu o que se costuma chamar, talvez por analogia irônica com a grande derrocada do capitalismo dos Estados Unidos, "a crise de 29", culminando com a divisão do grupo surrealista, dividido entre os que ficaram, por assim dizer, pró Breton e os que ficaram contra Breton, denunciado por "autoritarismo". Não é o caso de historiar aqui os problemas envolvidos nessa crise, cujo resultado, além da aludida divisão, foi a redação e publicação por André Breton do "Segundo Manifesto", saído em dezembro de 1929. Prévert alinhou nessa ocasião entre os adversários da posição de Breton e afastou-se do grupo, divulgando com outros dissidentes, o célebre panfleto Un cadavre, no interior do qual Prévert assinava a "Mort d'un Monsieur", texto de denúncia e sátira contra Breton. Mas este, em diferentes oportunidades, posteriormente, lamentou o afastamento definitivo de Prévert, assinalando que ele trilhava "caminho próprio", e, aparentemente, respeitando essa decisão, incluindo-o na Anthologie como um dos mestres do humor negro da moderna poesia francesa.

       Embora resumindo com tanta ligeireza esses acontecimentos, pode-se, sem exagero, dizer que esses quase cinco anos de estreita convivência com o grupo surrealista marcaram definitivamente a personalidade, as posições e a obra de Prévert. Talvez também pelo fato de que se tratou de um período de formação intelectual e de intensa atividade criativa, embora sem publicação de livros (Paroles só saiu pela primeira vez em 1946), diferentemente de Breton, Aragon, Éluard, Péret e outros.

       Seria desnecessário salientar, mas não resisto a indicar brevemente, reiterando, que Prévert, artista de múltiplas atividades, no teatro, no cinema, na música, na poesia, mobilizou quase todo o arsenal de recursos do alto modernismo em sua produção. Mas insisto em que a ironia, a paródia, o humor negro, as técnicas da chamada enumeração caótica, a ruptura dos gêneros, a alta concepção do amor, da poesia e da liberdade, a notação do cotidiano alienado e absurdo do homem urbano moderno, a dificuldade enorme de reconhecer sentido para a vida humana e seu destino, nas condições desta modernidade, o embate permanente contra as divisões sociais de classes, contra as instituições opressoras, o estado, a família, as religiões, a burocracia, a pátria e seus mitos desumanizadores, a razão produtora de absurdo e barbárie; enfim, um conjunto que é, evidentemente, comum com as posições do Surrealismo, embora haja outras teorizações surrealistas a que Prévert parece ter-se mantido distante e indiferente. Nesses casos conviria sempre manter o benefício da dúvida, pois só o exame mais cuidadoso de sua vasta e diversificada produção esclareceria certa distância ou não com diferentes manifestações surrealistas.

       Passemos ao poema "A roupa suja", integrante do livro Paroles, publicado em 1946, embora diversos textos do livro tivessem publicação em revistas desde pelo menos 1931. O poema longo e narrativo, em versos livres e brancos, não está dividido em estrofes. Segundo técnica utilizada também em outros escritos, "A roupa suja" parece querer ilustrar, ironicamente, o provérbio segundo o qual "roupa suja se lava em casa", segundo uma versão sórdida e cínica da pequena burguesia burocrática francesa (e européia e internacional...). O provérbio, como frase feita, sabedoria ossificada, fragmento mítico cristalizado, lógica absurda, mas que se quer imune à contestação, parece conter virtualidades bárbaras, obscurantistas e perigosas, de uma anti-humanidade e incivilizadas em nome e defesa de um moralismo rastaqüera e francamente irracional. Aplicável a situações cotidianas, que podem ser inocentes, presta-se também, e especialmente, o provérbio, a "justificar" ou "legitimar" aquelas atitudes humanas que tentam ocultar dos outros os atos mais reprováveis e desumanizadores mais ou menos comuns a muitos dos homens.

       Lavar roupa suja apenas em casa é algo que nos preserva do olhar público, mas não pode ocultar de todo o que fizemos de sórdido e reprovável. Tomado numa direção mais ampla, pode ser revelador do modo de constituir da moral burguesa, da separação entre o público e o privado, da defesa insana das aparências, da formação de relações sociais fundadas na hipocrisia e no cinismo, em defesa de falsos valores morais e que justificaria o lado sórdido, absurdo e insensato de uma sociedade repressiva e desumanizada, que nega sobretudo a vida e suas possibilidades.

       O poema começa exclamativo e escandalizado, para se fazer mais persuasivo:

Oh! o cheiro terrível e surpreendente da carne que morre
É verão e no entanto as folhas das árvores do jardim
Caem e morrem como se fosse outono...

       Identifica em seguida a origem desse cheiro de carne: "vem da casa onde mora o senhor Edmond/ chefe de família/ chefe de seção". Narrando a atividade da família pequeno burguesa do sr. Edmond, lavando numa tina grande toda a roupa suja, física, moral e simbólica, enquanto "repete a sua fórmula favorita/ Roupa suja se lava é em casa". São enumeradas atividades físicas e simbólicas, ameaçadoras e constitutivas da moral desse sr. Edmond e sua família, preparatórias do drama patético e ridículo:

e toda a família cacareja horrores e vergonhas
treme e escova e esfrega e escova

       Só quem tudo estranha e "bem queria se mandar" é o gato de estimação, com o "coração cortado", "mas a porta está fechada a cadeado", e ele "vomita/ o pobre pedacinho de coração/ que na véspera tinha comido".

       Logo o poema passa a enumerar, em caos aparente, os ícones, e signos, e sinais e imagens, que formam o ranço ideológico da moral pequeno-burguesa, tudo flutuando na água da tina. É o material que, de fato, precisaria ser lavado. A irrupção do humor negro de mistura com o grotesco, dá-se quando "o gatinho põe as patas nos ouvidos" para não ouvir o choro da "moça da casa", que "está nua" e "tem uma mancha suja" e está sofrendo as violências do pai, que lhe bate na cabeça com uma "escova de piaçava": "o pai lhe dá juízo". Ela é mergulhada na tina, "ela sangra/ berra". Assinale-se que o gato representa um observador demoníaco, espantado com o que se passa, mas humanizado porque alheio e estranho ao que está sendo lavado na grande tina: a mancha moral, consubstanciada na moça da família, grávida, que "não quer dizer o nome do pai" do "filho natural", e que está sendo obrigada a abortar ali mesmo. A moça chora e berra, o pai apenas "berra e repete" que "Nada transpire desta casa, honra da família honra do pai honra do filho honra do papagaio Espírito Santo".

       A moça é pisoteada até a morte na grande tina por toda a família, assistida pela avó, o gato estranho e piedoso, e o papagaio chamado Espírito Santo, que apóia a ação, numa imitação grotesca e absurda da "vindima da família, a vindima da honra", confundindo-se sangue e morte com preparação do vinho.

A moça da casa morre
lá no fundo...
na superfície
glóbulos de sabão explodem
glóbulos brancos
glóbulos pálidos
cor de filho de Maria
e num pedaço de sabão
um chato escapa com os filhotes

       Satisfeito de tudo, o pai de família e chefe de seção sai, vestido adequadamente para suas funções, cumprimenta o subchefe na praça do "governo do cantão", e o poema termina assim:

Os pés do chefe de família estão vermelhos
Mas os sapatos estão bem engraxados
Mais vale despertar inveja do que piedade.

       Certamente o poema mereceria uma análise mais apurada, o que não comporta esta exposição. Mas a violência de seu humor negro, mostra-se um magnífico exemplo da intensidade subversiva, libertadora e catártica dessa categoria teorizada por Breton, com base em Hegel e Freud, e utilizada na literatura desde há muito tempo. Modo de assumir o nojo da vida, arma de combate contra a moral hipócrita, contra o saber ossificado da tradição imóvel encarnada pelo provérbio, o conformismo. Ato político-poético de indignação e fúria contra o mundo alienado e alienante, verdadeira revolta superior do espírito, como queria Breton, e que não se confunde com qualquer humor cômico, o gracejo, a piada, a blague.

       Gostaríamos de assinalar que o negro desse humor relaciona-se com a simbologia alquímica, nada tendo a ver com qualquer referência étnica ou africana, alheio também à sátira moralizante e afirmando-se ainda como antídoto contra o sentimentalismo. No dizer do escritor português Manuel João Gomes:

Uma forma de riso incontível que explode no meio do trágico e do patético.(...) Rir passou a ser um ato perigoso, mas libertador, um ato de indignação e fúria contra a tal lógica, a tal razão, a tal verdade instituída".

       E, finalmente, o funcionamento político-poético e retórico do humor negro, - no poema de Prévert em defesa do amor e da vida contra a moral e a religião hipócritas - demanda principalmente um pacto de leitura que supõe um leitor muito atento e muito crítico, copartícipe da mesma revolta superior do espírito, numa situação de verdadeira cumplicidade na "révolte contre le sordide des apparences, comme une protestation contre l´insignifiance du réel", numa concepção empenhadamente revolucionária, cujo efeito catártico último constitui uma função compensadora de sonho e utopia. Ou, no dizer de Marc Eigeldinger, sobre Huysmans, mas que se aplica bem a Prévert e ao poema aqui tratado:

«L'humour huysmansien, en reposent sur la description volontairement noire et violente du réel, du quotidien, implique la participation du lecteur et s'adresse à sa faculté d'en déchiffrer le sens à partir des suggestions du texte. L'auteur se retranche derrière l'écran de son pessimisme, s'efface devant son projet de sorte que l'humour devient l'instrument d'une médication subtile, astucieuse, dont le lecteur a pour tâche de découvrir la fonction cathartique".


VALENTIM FACIOLI, professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo