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Opinião Acadêmica

VELHICE, "A IDADE DO LUTO":
UMA RESPOSTA NECESSÁRIA À MELANCOLIZAÇÃO.

Lea Z. Fernandes Signori


       Preliminarmente, devemos considerar que biologicamente a velhice é uma etapa da vida, que se caracteriza pelo declínio da força física, e pela degeneração gradual do organismo, mesmo na época atual onde a intervenção médica e as condições sanitárias têm retardado o dito "envelhecimento". E isto é o oposto do que ocorre na dita "juventude", onde se mostram modificações biológicas, inclusive de caráter sexual, como um anúncio precoce da possibilidade da morte, daí o apelo egóico do jovem ao "moderno", ao "up to date", como uma forma de renegação deste fato, mas, se trata de uma entrada na dita "idade adulta". Já a velhice se torna, sem dúvida, o anúncio da premência da morte. Se a juventude trás a presença obrigatória da falicidade, ela, contudo, revoga, ou seja, afasta parcialmente, a evidência da morte, a velhice trará a suposição de decadência desta falicidade, ainda que tenham "inventado" o "viagra".

       Então, toda vez que, existir uma modificação biológica inalienável, isto é, psicanaliticamente um efeito orgânico imaginário do real e leva a um efeito traumático e se tem um enfraquecimento do simbólico, o que se dá, por causas diversas, tanto na "juventude", quanto na "velhice". Agora quando este efeito traumático, que pode ser, em princípio, foraclusivo, por gerar o enfraquecimento do simbólico vem hiperdeterminado à premência da morte, a morte deixa de ser uma possibilidade longínqua e sua evidência presente se acentua, evidenciando uma configuração, por vezes, delirante. Em sujeitos que recorreram ao longo da vida à sublimação, artistas e cientistas, por exemplo, este anúncio traumático e, possivelmente, foraclusivo, é de uma certa forma suprido pela ilusão da imortalidade, ilusão de serem conhecidos, até por aqueles que não o conheceram em vida. Porém, o efeito na maioria dos idosos que tiveram, e ainda têm, uma vida produtiva e estruturada, que estabeleceram vínculos mais ou menos estáveis com a família, essa evidência traumática, no mínimo, vai ter valor de "tiquê", isto é, de "encontro faltoso" com o real, a que se segue a repetição, neurotizando, por "unheimlisch" (duplo) a evidência da morte, que é vista, então, como a proximidade do que até este momento era longínquo. Isso vai gerar a angustia, cujo efeito neurótico é a melancolização. E aí não se pode generalizar tal evento, mas sim, saber como foi estruturada a vida psíquica daquele idoso.

       O quadro de angústia é extremamente comum na fenomenologia da velhice, o que gera, como se disse, efeitos melancólicos, e esse é o efeito nostálgico dominante na velhice: é a lembrança dos tempos bons e supostos que não voltam mais. Porém, se a velhice apresentar, em determinado sujeito, um quadro de exclusão, de degradação, enfim, um quadro que mostre aquilo que os americanos chamam de "perdedor", que mostre uma vida que não se justificou, e isto pela retórica de algum possível insucesso, de alguma impossível estabilidade, de uma vida que se justificou apenas como um manual de eterna sobrevivência , o efeito foraclusivo gerado ali poderá provocar algo mais do que este simples binômio angustia e melancolia. Pois, ao convocar a premência da morte, ele poderá gerar efeitos devastadores. E aí teremos que a dita "velhice" irá começar a apresentar óbvios quadros delirantes de feição psicótica, que são, por vezes, agravados por situações de deficiências neurológicas. Tais eventos são, também, comuns na velhice, criando uma dúvida sobre o limite hiperdeterminado entre as questões psíquicas e as neurológicas. A provocação dessas situações de afetação neurológica é que poderá fazer com que haja uma perda da potencialidade, inclusive da atividade mental, da inteligência verbal, já que ela foi propiciada por fato não gerado na velhice, mas, antes, mas também pode ser que ocorram apenas quadros clínicos neurológicos ou cardíacos por razões orgânicas, ex. a.v.c , enfarto etc. Mas, à exceção destes casos, tipicamente orgânicos, o que se encontra é uma possível depreciação da vida sexual e psíquica, que é gerada pela instalação de um quadro foraclusivo melancólico e/ou de angústia.

       Poderá ocorrer também, um efeito ora melancólico, ora maníaco que se dará quando na velhice, principalmente a asilada, a vida perder a razão fálica de ser, ou seja, a vida perder sua razão de ser. Aí a recorrência a procedimentos auto-hostis, como os da melancolia poderão ocorrer, bem como a também recorrência a quadros de degradação física e/ou moral, maníacos, portanto. Isso porque a velhice ali se tornará "um fardo", ou meramente a confirmação de um estado de exclusão, do "terá sido", ou seja, do que teria ocorrido ao longo de uma vida, e assim a premência da morte não traria senão a confirmação desse quadro de segregação, de "verworfen", de exclusão. O "remédio" contra isto, será sempre narcísico, será sempre necessária a provocação, difícil do ponto de vista do narcisismo secundário e imaginário, egoicamente ligado a padrões sociais e auto-eróticos de beleza, produzir-se, do ponto de vista da especularidad, esta "reparação". Mas também, poderão ocorrer outras formas de valorização narcísica, que seriam provocadas pelas formas de reconhecimento que tendem a gerar também um auto-reconhecimento, ou seja, a identificação com uma "gestalt" produtiva (física, sexual ou intelectualmente) que vise à evitação deste quadro. Mas, se for "inclusive" criado um quadro de "sobrevivência digna", um quadro de atividades que demonstrem interesse e reconhecimento pessoal e social, não se minimizará, mas suprirá essa face imaginária de "enfraquecimento" do simbólico, e isto por esse jogo de "méconaissance", de reconhecimento, de evitação. Assim sendo, uma internação na velhice, por exemplo, pode ter os efeitos traumáticos provocadores de quadros de angústia, que gerem melancolização, de quadros de desagregação psicótica que são os mais comuns, e esses quadros poderão ou não já ter aparecido na infância (constituição do simbólico) na adolescência (reconfiguração do simbólico), mas vão ser impossíveis de dissimular se ocorrerem na velhice.

       Tudo isto são possibilidades que poderão ocorrer ou não na velhice, com efeitos sempre diferenciados. Assim, uma velhice produtiva que for vivenciada na estrutura familiar, em princípio, tem mais meios de evitação deste quadro do que a velhice vivenciada, por exemplo, numa instituição asilar. No caso de asilamento, fica mais aparente e não se tem como evitar no cotidiano:

a) o anúncio premente da morte:
b) a morte quando inoculada, de forma figurada, pela decadência mental, sexual e biológica, o que gera a decadência de aptidões que, por sua vez, geram dificuldades de sobrevivência. Portanto, essa invasão de real no imaginário, é no mínimo da ordem da angústia e isto se não for configurado um quadro mais sério (por exemplo, mal de Alzheimer) de desagregação neurológica.

       E como a psicanálise poderia contribuir para a necessária refalicização?
Promovendo o luto desta melancolização, e isto tanto a nível de psicanálise intensiva (consultório) quanto a nível extensivo (instituições asilares, enquanto , ações sociais). E o analista deverá fazer com que o idoso se reinteresse por algo de fálico, para dar sentido ao resto de seus dias. Pois diz-nos, textualmente, Freud, que sempre haverá "vida sexual" nesta idade, só que singularizada, o que vem sendo revitalizado e prolongado atualmente pela ciência médica. Mas, como existe uma possibilidade de "enfraquecimento do simbólico", o analista tem que provocar a identificação a um novo "leit motiv", a um novo meio de vida. Embora o seu paciente não tenha mais a mesma aptidão para fazer as coisas, como anteriormente as fazia, ou seja, com a mesma intensidade, ele poderá manter o mesmo interesse e isto é o que deve ser trabalhado, reconfigurando as suas limitações. Assim, qual na passagem da infância para a adolescência, deverá ocorrer, também na velhice, a necessidade de resposta psíquica para que sejam vivenciadas outras situações. Deve-se responder de uma outra forma ao mundo para sobreviver com dignidade e não abrir mão de seu desejo. Se a infância inocula, e a juventude reconfigura e/ou confirma a referência simbólica contida no sintoma parental e nas identificações e essas duas coisas estruturam a idade adulta, contudo, nenhuma das três estrutura a velhice, e sim, as suas ausências. Então o idoso recorre, "proustianamente", ao tempo perdido, falando da infância e da juventude como uma forma de minimizar sua angústia face "à evidência premente da morte". Assim sendo, a velhice imaginariamente significará a proximidade do fim, por isso o analista deverá se colocar como sintoma e deixar que "pinte" ali a possibilidade do idoso se identificar sempre com algo produtivo, com algo glorificante, com algo valorativo, para que ele reaprenda a viver com suas limitações, e substitua suas impossibilidades e impotências por novos significantes e continue dando assim um sentido a sua vida. A velhice, sem dúvida, trará um valor traumático, como a menopausa na mulher e a andropausa no homem. E não se trata de fingir que nada disto aconteceu, e sim de que esta falta tem que ser re-simbolizada. Não se pode fazer luto da velhice, e sim da melancolização na velhice , tem-se que fazer luto é da infância, para que se possa fazer luto dessa potencialidade perdida. Fazer luto é metaforizar, é, portanto, colocar outras imagens significantes, pessoas, coisas, situações e interesses naquele lugar discursivo.

       Tais procedimentos se adotados tornarão esta idade, quando chegar, ainda também fálica, ainda apta para a vida cotidiana, para o "convívio social", evitando-se, assim, a melancolização que, até então, parecia ser o destino inevitável, na melhor das hipóteses, deste "outono" da vida. Mas ela deverá, isto sim, ser o destino de uma vida dedicada aos "seus pequenos e cotidianos prazeres", pois como ensinou Freud: "Prepara-te para a morte, se quiseres viver".


LEA Z. FERNANDES SIGNORI, é Psicanalista do CEL/RS, POA, Diretora-Secretária da Instituição, Supervisora Clínica do CEL/ Comunidade, Caxias do Sul, e Presidente do Lar da Velhice S. Fco. de Assis, Caxias do Sul.