06/07/2002
Número - 266

ARQUIVO

Opinião Acadêmica

PIERRE BOURDIEU - SOCIÓLOGO E CIDADÃO ENGAJADO

Olivier Dabène


       "O gosto dos outros", de Agnès Joui. Quando este filme saiu na França, pensei recomendá-lo aos meus alunos que tinham alguma resistência em se lançar à leitura das obras, de fato às vezes árduas, do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Com prazer eu recomendaria hoje ao público brasileiro que visse esse filme, não apenas para passar um bom momento, mas também para se familiarizar com um certo olhar sociológico sobre as sociedades.

       "O gosto dos outros" efetivamente põe em cena a atração, a inveja, a curiosidade que podem exercer as referências e práticas culturais dos "outros", e também as dificuldades de se enfrentar certas barreiras sociais e as incompreensões que suscitam estratégias de identificação com grupos aos quais um indivíduo não pertence.

       Publicando em 1979 La distinction. Critique sociale et jugement [A distinção. Crítica social e julgamento], Pierre Bourdieu tinha um projeto intelectual similar. Sua ambição era fundar as bases de uma sociologia do gosto, pois o gosto, de acordo com ele, era "um dos riscos mais vitais das lutas cujo lugar é o campo da classe dominante e o campo de produção cultural".

       Noutras palavras, o gosto, a relação com a cultura, são a expressão de inserção numa classe. E se trata de um indicador ainda mais interessante porque não é objeto de nenhum ensino na escola e porque escapa, assim, ao circuito clássico de reprodução das estratificações sociais. O gosto é um indicador muito mais interessante que o capital econômico para que se captem as sutilezas dos posicionamentos na escala social.

       Para explicitar as relações entre as características econômicas e sociais de uma classe e seu estilo de vida, Bourdieu utiliza o conceito do habitus. O habitus é uma "matriz de percepções e de ações", ou seja, é um sistema que permite ao mesmo tempo "produzir práticas" e "diferenciar e apreciar essas práticas".

       É sem dúvida quando analisa os habitus da pequena burguesia que Bourdieu lança suas análises mais convincentes. Ele opõe com efeito a um etos burguês, feito de naturalidade, de desenvoltura, de graça, de elegância e de liberdade, um etos pequeno-burguês, centrado na restrição, no rigor, no dever.

       A pequena burguesia é o mundo dos "chamados ainda não eleitos". É um espaço social que está marcado pela incerteza, um conjunto de lugares de passagem, com as trajetórias ascendentes e descendentes, nos quais se dá, por conseguinte, muita importância ao estatuto e às representações desse estatuto. Mais do que qualquer outra categoria social, a pequena burguesia busca constantemente produzir "distinção", graças a seu "gosto", para diferenciar-se das categorias populares e se aproximar da burguesia.

       Mas a sociologia do gosto, da cultura, da educação e da pequena burguesia representa apenas uma pequena parte da obra de Bourdieu. Uma das mais interessantes, do meu ponto de vista, , mas certamente não a mais conhecida.

       Pierre Bourdieu foi de fato também etnólogo, em seu Béarn natal e na Argélia. Foi um excelente epistemólogo, perguntando-se sobre a possível neutralidade axiológica do sociólogo.

       Em Le métier de socioloque [O trabalho de sociólogo] (1968), ele incentiva o sociólogo a manter uma postura exigente aliando a observação dos fenômenos sociais à reflexão sobre a observação desses fenômenos. É o que ele chama de "objetivação participante". A Sociologia deve refletir sobre todos os fenômenos sociais, mas sua tarefa primeira deve ser a análise social das condições de enunciação do discurso sociológico.

       Desde os anos 80, Pierre Bourdieu ficou conhecido do grande público principalmente por seu engajamento político. Do apoio ao projeto de candidatura do ator cômico Coluche às eleições presidenciais de 1981 às lutas contra a globalização em 2001, Bourdieu esteve freqüentemente na primeira página dos jornais. Por essa razão, é interessante debruçar-se sobre alguns aspectos de suas análises políticas, as quais servem de alicerce a seu engajamento intelectual. Vou evocar duas delas rapidamente.

       Em período de campanha eleitoral no Brasil e de debates sobre as pesquisas de opinião, é útil rememorar um antigo texto que causou certo transtorno no espírito dos especialistas em política.

       Foi por ocasião de suas antigas reflexões sobre o ensino , que Bourdieu, fiel a seu método, interrogou-se sobre os instrumentos de observação das realidades sociais, notadamente as pesquisas de opinião.

       Numa conferência proferida em janeiro de 1972, Bourdieu se debruça sobre a validade das pesquisas de opinião, ou antes pretende "chegar a uma análise vigorosa e fundada nas pesquisas de opinião".

       Assim, preocupa-se em reexaminar três postulados:

       "Primeiramente, toda pesquisa de opinião supõe que todo mundo possa ter uma opinião, noutras palavras, que a produção de uma opinião está ao alcance de todos. Com o risco de esbarrar num sentimento ingenuamente democrático, constatarei esse primeiro postulado.

       Segundo postulado: supõe-se que todas as opiniões se equivalham; acho que se pode demonstrar que não é nada disso e que o fato de acumular opiniões que não têm de modo algum a mesma força real gera uma distorção muito profunda.

       Terceiro postulado implícito: o simples fato de fazer a mesma pergunta a todo mundo encontra-se implicado na hipótese de que há um consenso sobre os problemas, ou seja, que há um acordo sobre as perguntas que merecem ser feitas".

       De acordo com Bourdieu, a opinião pública é um artefato e as pesquisas são instrumentos políticos das quais é prudente desconfiar. Existe uma opinião que ele qualifica como "mobilizada", a das elites e dos grupos de pressão que não se saberia confundir com "disposições". Essas "disposições" não se convertem necessariamente em "opiniões" e é conveniente, para tomar a medida desse disparate, interessar-se pelos "sem respostas" nas pesquisas.

       Criticou-se muito Bourdieu pelo fato de não ter-se suficientemente voltado aos métodos e resultados da sociologia eleitoral que, apesar de tudo, nos anos 70, começavam a estar em condições de "prever" os resultados de uma eleição assim que se fechavam as urnas.

       Mas aquele artigo teve o grande mérito de acalmar os ânimos de todos os que viam nas pesquisas um instrumento científico irrepreensível e a panacéia em matéria de governabilidade democrática.

       A análise das pesquisas constituiu para Bourdieu uma primeira etapa no reexame de certos lugares-comuns da análise de nossas democracias. Num artigo de 1981, ele vai muito mais longe abordando a problemática da representação política sob o ângulo da alternativa que se apresenta aos cidadãos "da demissão na abstenção ou do despojamento pela delegação" .

       De imediato, ele considera a representação como uma ficção que não oferece lugar a uma autêntica participação política.

       Por que essa visão negativa (delegação = despojamento)? Porque existe nas nossas sociedades uma divisão do trabalho político que se opera em detrimento dos profanos (despojados) e em prol dos profissionais da política.

       A representação política está bem no centro da vida política em nossas democracias e esta é antes de tudo uma luta, essencialmente simbólica, pela conquista de posição de poderes. A partir daí, "toda análise da luta política deve colocar em seu fundamento os determinantes econômicos e sociais da divisão do trabalho político". Em outros termos, todos os mecanismos sociais que tendem a produzir e reproduzir o corte entre "agentes politicamente ativos" e "agentes políticos passivos" (expressão de Max Weber). E a representação política é justamente um desses mecanismos: é o que Bourdieu procura provar.

       Para isso propõe a noção de campo, notadamente aqui de campo político. O campo é um espaço em que se organizam relações de poder e de dominação. O campo político é o lugar em que se organiza a competição em torno do controle do aparelho do Estado. O campo é também um mercado, e Bourdieu propõe ainda descrever a vida política segundo a lógica da oferta e da procura: "o campo político é o lugar onde são gerados, na concorrência entre os agentes que ali estão engajados, produtos políticos, problemas, programas, análises, comentários, conceitos, acontecimentos, entre os quais os cidadãos ordinários, reduzidos ao estatuto de 'consumidores', devem escolher". Vê-se que esses produtos oferecidos são essencialmente simbólicos. Desde então se põe o problema da competência dos cidadãos para poder comprar esses produtos, para ter acesso a esse mercado, isto é, para poder entrar no campo político. A representação na democracia deveria ser isso: a possibilidade para qualquer cidadão de fazer-se eleger, portanto de ter acesso a um campo político. Ora, isso não é o que acontece: há uma divisão do trabalho político, isto é, um monopólio exercido pelos profissionais da política.

       Os cidadãos não têm nem o tempo livre nem o capital cultural suficiente para participar da vida política. Há portanto um lado da demanda, uma lógica quase censitária, na medida em que o acesso aos produtos depende da posse de um capital cultural. Além do mais, há, do lado da oferta, uma lógica oligopolista, na medida em que a produção é controlada por um pequeno grupo de profissionais da política.

       Outro aspecto da autodenominação do campo político: as competências dos homens políticos. "Nada é menos natural que o modo de pensar e de agir que é exigido para a participação no campo político".

       Há uma aprendizagem para ser aceito no campo. É preciso adquirir um saber específico (teorias, problemáticas, conceitos, tradições históricas, dados econômicos, etc.), mas também uma certa linguagem, uma certa retórica, um certo sentido de antecipação. Sobretudo, é preciso provar que se domina "a lógica imanente do campo político", que se está submetido "aos valores, às hierarquias e às censuras inerentes a esse campo ou à forma específica que suas obrigações e seus controles revestem no seio de cada partido". Noutros termos, as regras e o espírito do jogo. "Não há nada que seja mais absolutamente exigido pelo jogo político que a adesão fundamental ao próprio jogo". Há entre os políticos "um contrato tácito que está implicado no fato de participar desse jogo, de reconhecê-lo pelo próprio fato de que vale a pena ser jogado".

       E o Bourdieu sociólogo se une aí ao Bourdieu cidadão engajado. Pois no momento em que desenvolve esse pensamento, ele apóia o ator cômico Coluche na tentativa de se apresentar às eleições presidenciais de 1981. Coluche é um candidato que se recusa a levar a sério o jogo político e vê que lhe recusam o acesso ao campo político: incapaz de reunir assinaturas de eleitos necessárias à apresentação de uma candidatura, ele renuncia.

       Vários anos depois, um livro como A miséria do mundo [Vozes] (1993), é também o ponto de junção entre os percursos de sociólogo e daquele cidadão engajado, revoltado contra os efeitos nefastos de uma certa globalização. Aí o sociólogo se limita, de maneira muito sutil, a transcrever as entrevistas que deixam ver os fenômenos sociais. Como se estes, na sua gravidade, merecessem simplesmente ser desnudados.

       Ao final, Bourdieu construiu uma verdadeira escola de sociologia, no cruzamento das tradições marxista e weberiana, cujos métodos e resultados fizeram, fazem e farão objeto de debates apaixonados, como deve ser. Mas é principalmente à coerência de um percurso intelectual que eu gostaria de prestar homenagem. Bourdieu soube exercer esse Métier de sociologue, ao qual destinava uma missão que alguns julgaram impossível: observar, observar-se observando e objetivar sua participação no objeto observado. Bourdieu sustentou com rigor e elegância os engajamentos que tinha em 1968, outro ano simbólico, em Le métier de sociologue. O professor no Collège de France permanecerá um modelo e uma fonte de inspiração.


Olivier Dabène é Professor Doutor de Sociologia Política no Instituto de Estudos Políticos de Aix-en-Provence. Desde setembro de 2000, ocupa o cargo de Adido Cultural no Consulado Geral da França em São Paulo