13/07/2002
Número - 267

ARQUIVO

Opinião Acadêmica

O DESENCONTRO DO SER E DO LUGAR:
A MIGRAÇÃO NORDESTINA PARA SÃO PAULO

Helenilda Cavalcanti


Resumo:

       Os jovens estão sendo expulsos do lugar onde nasceram. Duas vezes expulsos de sua terra: uma, quando seus antepassados perderam as terras com a mudança da economia no campo; e outra vez expulsos do local de origem, sendo induzidos a migrar em busca de sobrevivência. Assim tem acontecido com o povoado de São Severino "dos Macacos", em Gravatá, PE. Uma população divida entre o interior de Pernambuco e a periferia de São Paulo. Neste trabalho, analiso o processo de desenraizamento dos jovens em sua pluralidade de significados. Com a migração a raiz principal se destruiu em sua extremidade: nela vem se enxertar uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagram um novo processo. A mistura do tradicional com o moderno gera um processo de segregação e de hibridação que vai fazer parte da vida do migrante.

Palavras Chaves: migração, nordeste do Brasil, desenraizamento, hibridação.


Introdução

       A migração dos nordestinos para São Paulo não é uma história recente. Antes da primeira metade do século XIX, o êxodo rural dos nordestinos inicialmente, alimentou a ordem da industrialização paulista. Enquanto o processo de crescimento capitalista se estendia no País, a condição desse emigrante e imigrante refletia a diferença de conjuntura do momento e do lugar das regiões fornecedoras e receptoras de migração. De modo geral, as condições criadoras de deslocamentos das populações da região do Nordeste submetidas a uma situação-limite prendem-se ao contexto das relações desiguais de desenvolvimento entre as regiões/estados. Entrementes, a despeito de São Paulo ter sido imaginado como o lugar dos "possíveis" para uma parte dessa população, atualmente, já ocorrem mudanças na ordem dos deslocamentos, indicadas pelas migrações de pequena duração e pelo retorno do imigrante à cidade de origem (Moura, 1999).

       A migração e suas variações significam, um tipo de transferência de mão-de-obra de uma região para outra, e continuam a agir seguindo a mesma lógica que já presidira às formas anteriores de emigração e imigração, ampliada, hoje, numa escala de economia global. Em todos os casos, no passado, e especialmente no momento atual, as razões declaradas pelos migrantes para se deslocarem, recaem na busca de trabalho. Se a migração é desenraizante, o desemprego é um desenraizamento em processo.

       Neste artigo, proponho-me a estudar o processo de desenraizamento da experiência do migrante na pluralidade de significados que o tema suscita nos dias atuais. Há um conceito comum divulgado pelos cientistas sociais de que o migrante é um ser sem raízes: "O migrante perde a paisagem natal, a roça, as águas, as matas, a caça, a lenha, os animais, a casa, os vizinhos, as festas, a sua maneira de vestir, o entoado nativo de falar, de viver, de louvar a Deus... Suas múltiplas raízes se partem. Na cidade a sua fala é chamada 'código restrito' pelos lingüístas, seu jeito de viver, 'carência cultural,' sua religião, crendice ou folclore. Seria justo pensar a cultura de um povo migrante em termos de desenraizamento"(Bosi,1983,p.405). Dentro desse enfoque, o desenraizamento configura-se como o desencontro do ser naquilo que lhe é dado tradicionalmente como substancial para pertencer a um grupo social. Na mesma linha de pensamento, o enraizamento seria "a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir. O indivíduo tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro" (Weil,1979, p.347).

       Vale igualmente aqui refletir sobre a possibilidade de um outro discurso que se superpõe ou supera o discurso do enraizamento. Falo do desejo do indivíduo "querer ser outro".

       Este acontecimento de "querer ser outro, ou de "maneiras de passar ao outro"(Certeau, 1994), pode ser associado à analogia feita com a experiência da criança ao perceber ser outro corpo que não o da mãe(Lacan, 1998). Nesse sentido, o ato de mover-se para fora, para além da experiência matricial e conservando essa mesma experiência como fundo, para permitir ao sujeito ausentar-se e voltar, inaugura a possibilidade de espaço e de uma localização do sujeito. Semelhante à criança no espelho que reconhece ser um, mas não é senão o outro, uma imagem com a qual se identifica. É o processo dessa captação espacial que vai inscrever a passagem ao outro como a lei do ser e do lugar (Certeau, 1998). Ser outro e passar ao outro, é "algo que se inicia da pessoa consigo mesma, sendo ampliado pelos desdobramentos do indivíduo com a realidade, com seus efeitos nos espaços públicos e privados, dentro dos quais o indivíduo inaugura suas práticas de ser e de ter um lugar"(Certeau, 1998). De modo metafórico, a condição de enraizamento na pobreza incomoda aquele que deseja sair, que deseja superar-se ou sobrelevar o que foi traçado para si pela sociedade e cultura. A imagem de "querer ser outro" parece falar aí de uma figura da modernidade e dos procedimentos para lidar com os lugares que vão sendo perdidos ou substituídos.

       Ademais, o enraizamento não se constitui tão-somente de uma ideação do passado ou um futuro utópico compartilhado. Além de uma participação real, ativa e natural numa coletividade, o indivíduo encontra diversos espaços diferenciados dentro de sua própria cultura, com os quais ele se articula, constrói e reconstrói permanentemente referências para si e para o outro. Ademais, na disjunção enraizado x desenraizado, há uma complexidade que está para lá da perda de potencialidade de uma cultura em relação a outra, principalmente quando se trata de entender o migrante no confronto com diferentes culturas num mundo com tendência à globalização. Praticamente, não existem mais cult uras puras. O mundo da humanidade constitui um total de processos múltiplos interconectados, e os esforços para decompor em partes esta totalidade, que logo não pode ser rearmada, falseiam a realidade ( Wolf).

       De modo geral, a humanidade encontra-se num momento de trânsito dentro do qual são cruzados tempos e espaços diversos. Há uma produção de imagens complexas da diferença e da identidade, do que está dentro e do que está fora, do incluído e do excluído(Bhabha,1994). Em todos há um senso de desorientação do ser e do que ter. Nos espaços in-between, estão sendo elaboradas estratégias de auto proteção - particular ou coletiva - que podem dar início a novos sinais de identidade, de orientação da sociedade, ou podem estar mostrando a perplexidade de um ciclo histórico. O migrante, nesse espaço in-between, experimenta inúmeros conflitos, violência e intolerância. Suas respostas têm sido o clamor pelo respeito, apontam a destituição de uma ética e a necessidade de negociação da convivência com a diferença.

       O migrante saído dos recônditos longínquos do interior empreende uma aventura na cidade moderna, na qual a experiência intersubjetiva e coletiva do desenraizamento impõe significados dinâmicos e complexos. Nesse encontro com o tradicional e o moderno, há uma desterritorialização dos processos simbólicos, uma quebra das coleções organizadas pelos sistemas culturais com novas ressignificações e redimensionamentos dos objetos, coisas e comportamentos, mas não sem a presença de conflitos. A mistura do tradicional com o moderno tanto implica processos de segregação como de hibridação entre os diversos setores da sociedade e seus sistemas simbólicos. O híbrido se expande, dando lugar a um gênero impuro, que acompanha o migrante(Cancline,1998).

       Tomo aqui a metáfora de um rizoma para tratar as metamorfoses que ocorrem nos indivíduos que se deslocam de um lugar para outro nos interstícios da sociedade, inventando o cotidiano com mil maneiras de caça não-autorizada. Num certo sentido, essa idéia aproxima-se da perspectiva de Certeau(1994), quando ele aponta uma criatividade oculta num intricado de astúcias silenciosas, sutis e eficazes, pelas quais o homem ordinário cria para si mesmo uma maneira de viver da melhor forma possível a ordem social imposta e a violência das coisas (Certeau, 1994). Na condição de migrante, a raiz principal de sustentação do indivíduo se fragmenta: vem enxertar-se nela uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagam um novo processo(Delleuse e Guattari). Esses novos percursos falam de algo que se inicia na pessoa em si mesma, ampliado nos desdobramentos do indivíduo frente à realidade, produzindo impacto na subjetividade e nas respostas à vida privada e pública.

       Para a análise dessas questões, utilizo a experiência de um grupo de jovens migrantes nordestinos(em torno de18 a 35 anos), trabalhadores rurais, que se deslocou do povoado de São Severino, município de Gravatá, Pernambuco, para Pirituba, periferia de São Paulo. As observações sobre esse grupo social fazem parte de uma pesquisa maior realizada no período de 1995 a 1997, cujo objetivo era estudar o imaginário dessa população com relação às suas práticas de saída da pobreza(Cavalcanti, 1999). Uma população dividida entre o interior de Pernambuco e a periferia de São Paulo. Dois grupos e um só povo: os que ficam e os que saem. Duas faces de uma mesma realidade entrecortada por gerações e experiências diversas. Esse movimento para fora exige a aquisição de novos conhecimentos e reformulação da própria identidade; o movimento para ficar exige formas penetrantes de resistência. São, portanto, dois movimentos que absorvem significados diversos, cujas explicações saem das experiências e do vivido das pessoas.

       Os jovens do povoado de São Severino "dos Macacos" foram duas vezes desenraizados: uma, quando seus antepassados perderam as terras com a mudança da economia no campo; e outra vez, ao serem obrigados a migrar em busca de trabalho. Migrar e ainda outros componentes da migração, como a migração de retorno e a circularidade do "ir e vir" de retornados, são táticas encontradas pela população estudada para sair da pobreza. Ao falar em saída da pobreza, refiro-me aos numerosos movimentos cheios de tensão desenvolvidos pelos indivíduos para lidarem com as condições reais de sua existência. Condições entre as quais se devem contar as características adquiridas, as deformações impostas pelo modo de trabalho e de vida e que vão definir uma situação de necessidade e de qualidade da tensão e do desenraizamento.

       As condições dos agricultores sem-terra e sem contrato empregatício dos moradores de São Severino impõem essa tensão. Levados a deslocamentos constantes, tendo que deixar para trás família, amigos e tudo mais que é querido e desejado, muitos moradores de São Severino têm repetido essa herança social da migração presente na vida de inúmeros nordestinos. Essa característica forte para o deslocamento não é uma simples relação com os prováveis ancestrais: os vaqueiros pioneiros que se serviam dos brejos como refúgio para suas paradas de descanso e que tinham vários pousos enraizados, ou que tenha origem em algum hábito dos índios de nação Cariri, habitantes daqueles brejos, que já foram há muito tempo tangidos da localidade, deixando algumas marcas entre os novos habitantes do brejo. É muito mais do que isso.

       Sob sua forma mais plena, essa condição de indivíduos itinerantes, indo buscar sobrevivência em lugares múltiplos, exprime uma situação na sociedade e contém um esforço para superá-la. Nesse sentido, a migração em si é indicadora não só da sociedade e das relações de força entre regiões, mas também é, fundamentalmente, reveladora dos dilemas e conflitos subjetivos a que está afeito todo aquele que se desloca. O migrante sai de um universo cultural recebido por herança ao nascer em direção a outro em que é confrontado com o que lhe foi dado a priori. Entre o sair e o chegar, ocorre um processo duplo que vai falar das ilusões dos emigrantes ao sofrimento do imigrante que atravessa a fronteira do estabelecido e do desconhecido.

       Sem ter gleba de terra para produzir, mesmo de forma marginal, a sua própria sobrevivência, sem poder acumular nenhum bem a não ser dispor de sua própria força de trabalho, empregando-a em uma atividade ocasional que não tem muitas vezes razão de ser, o trabalhador rural jovem vê-se vagando pelo campo sem função estável e precisa. A maioria procura com muita astúcia vencer essa condição de desenraizados.

A migração como um "rito de passagem"

       A migração constitui um processo seletivo e diferenciado, interligado com as transformações sociais e estruturais da sociedade das áreas de origem e receptora de migrantes. Desse modo, o migrante não representa uma amostra aleatória da população de origem, sendo também diferenciado nas áreas receptoras. Presume-se que as pessoas com características distintas reagem de forma diferenciada às condições positivas ou negativas presentes no local de origem ou no local de destino (Moura, 1999). Em linhas gerais, os jovens em idade de força de trabalho ativa, estando em condição desfavorável no lugar de origem, são os mais propensos a sair. A migração é mais forte em certas etapas do ciclo da vida - nas idades de entrada na faixa econômica ativa, nas idades de contrair matrimônio e de gerar filhos, etc. -, de modo que essas condições afetam, por uma série de razões, a tendência a migrar de certos segmentos da população classificada por sexo e grupos etários (Moura, 1999).

       No caso dos jovens agricultores de São Severino, o primeiro deslocamento inaugura um "rito de passagem." Ele serve para marcar o desligamento dos pais, da família nuclear, ou mesmo da comunidade de origem, em função da aspiração de se tornarem 'autônomos.' Ainda que no lugar de destino haja a presença de parentes ou amigos conterrâneos, o corte simbólico da raiz é realizado pela migração, inaugurando a possibilidade de conquista da independência, trazida pela imagem da adoção de novos valores e de mudança na vida dos jovens. Essa expectativa de um futuro mais promissor fora do lugar de origem é alimentada desde a infância. Essa expectativa já revela a presença de elementos de fora dentro do corpo coletivo do povoado, e as interconexões com diversas culturas, seja pelos meios de comunicação televisivos, seja pela intensa presença de notícias daqueles que saíram, ou daqueles que vão e voltam num circuito de migração de retorno.

       Há um ciclo de mudanças registrado no cotidiano das famílias e da comunidade, que a criança acompanha atentamente. Essas mudanças, como mudar do rural para o urbano, mudar de dieta, mudar de trabalho, acontecem sem que as pessoas possam ter consciência de como ocorrem e do por que estão sendo obrigados a passar por elas. Existe a dificuldade de construir seqüências acabadas, principalmente para as famílias mais jovens do povoado que trabalham no 'alugado'; dificuldade de elaborar percepções e acumular experiências, como ocorria com os antigos do lugar, em que o resultado de vê-las concluídas proporcionava integração para outras etapas. O trabalho no campo encontra-se fragmentado e os agricultores destituídos de terra.

       Percebi que as crianças de São Severino vão elaborando saídas do lugar onde vivem como que se preparando para esse "rito de passagem". São respostas ao cenário de preocupações dos pais e dos jovens que não conseguem trabalho na região. É importante aqui saber como o povoado entende o conceito de ser criança em meio à participação e à solidariedade dela na vida do trabalho em família, e como o tratamento do infante recebido na relação familiar facilita o "rito de passagem", a entrada no trabalho e a preparação da saída do jovem do lugar de origem.

       Antes de mais nada, o conceito de criança é constituído dentro de cada cultura de acordo com o modo como diferentes sociedades organizam a reprodução dos seus bens materiais e não-materiais da vida e do trabalho (Ariès, 1981). Segundo Phillipe Ariès, em algumas sociedades, a criança é considerada o centro das atenções do mundo dos adultos; em outras, os cuidados são poucos, sendo a criança entregue ao processo mais "natural" da vida, como pode ser ilustrado no depoimento de um chefe de família de São Severino, ao comparar a diferença de tratamento da criança na cidade em relação ao campo:

       "As pessoas lá [na cidade] vivem bem diferente daqui . As famílias são diferentes. [Como?] É o seguinte... os meninos daqui de criancinha ... quando começa a andar... que já sabe pegar e comer com a mão dele, que já sabe comer...então, a gente já não vai ficar preocupado pra dar comida pra aquela criança. Então, nós bota pra ela comer sozinha... e, se quiser comer coma, se não quiser, ela se vire... E, lá, [ na cidade] tem um sistema. Lá, até um garoto com dez anos, tem aquela mãe perto, tem aquele negócio... tem aquele sistema de levar pra mesa com carinho... se acordar, tomar um banho, escovar os dentes... tratar e fazer... Então, é outro sistema. E aqui na roça, não existe isso. Aqui na roça, quando começa a andar, já leva uma enxadinha pequenininha pra começar a trabalhar, pra já começar a limpar um pé de mato...começar a limpar um terreiro, uma coisa... Os meus filhos têm uma enxadinha. Uma enxadinha com um cabinho curtinho, com dois palmos, três... Aí a gente vai dar à criança de cinco a seis anos e vai ver qual é o lado que ela vai trabalhar. Vai ver se é o lado direito ou esquerdo que ela pega na enxada. Porque se puxar a enxada ... se botar a mão direita na frente, é trabalhador... se botar a esquerda, é preguiçoso! Aqui a gente conhece assim... É... é... Aqui, na região da gente, é assim... E, então no Grupo Escolar... aqui, na região da gente, quando o garoto aprende a assinar o nome dele, já é melhor que todo mundo. Já tá certo. O pai aqui não tem capacidade [condição] de botar pra outro canto longe... Então, assinou o nome, já tá pronto. Se eu pudesse... todos os meus filhos viviam no estudo. Eu nunca tive estudo... Meu professor foi o chão" ( Santo, 47 anos, agricultor ).

       Vê-se, então, que o tempo de ser criança pode ser mais longo ou mais curto, isto é, restrito aos primeiros anos de vida. Portanto, a "temporalidade" considerada para ser criança vai depender menos dos compêndios demarcados pela psicologia, que da necessidade em garantir a reprodução imediata da existência. No povoado, as famílias mais antigas delimitam pelo menos dois períodos na vida da criança daquela região, o que a obriga a fazer um esforço próprio para atender às exigências do seu ambiente cultural, no que se refere às práticas no trabalho: a faixa etária que corresponde à meninice, em torno dos sete aos dez anos; e a outra faixa, caracterizada pelo fim da meninice, em torno dos treze anos.

       Na escola, a conquista está focada em conseguir assinar o nome: "Assinou o nome, já tá pronto!" A criança já conseguiu superar a lacuna encontrada nos pais. O prosseguimento dos estudos vai ser adiado em função do trabalho para ajudar a família, ou mesmo para se preparar a fim de assumir o trabalho com tarefas mais exigentes e de maior responsabilidade. É nesta fase, por volta dos treze anos, correspondente à fase do início da adolescência, que ocorrem mudanças fundamentais na vida do jovem em relação ao trabalho e em relação à sua autonomia. Se o indivíduo consegue seguir o percurso regular dos acontecimentos da vida que a convivência na família no campo lhe oferece, o vínculo com a mãe/família começa a ficar mais fraco e ele/ela se torna menos dependente. Nessa fase, as práticas dirigidas à atividade do campo fazem aumentar os requisitos para o trabalho remunerado. Muitos jovens nessa idade já contribuem com certo pecúlio para o orçamento da família. É de se esperar que, por essa razão, eles sejam também introduzidos e aceitos no mundo dos adultos. Muitos até acompanham ou observam os adultos nos jogos de azar e experimentam com eles o sabor da bebida e das conversas mais picantes. Alguns jovens, nessa faixa etária, já podem usar instrumento de trabalho, a foice e a faca (peixeira), além de, naturalmente, a enxada. Foi nessa fase, por exemplo, em torno dos treze anos, que seu Severino Estácio, outro chefe de família do povoado, diz ter começado a criar um "talentozinho" e se sentir com "mais força" para deixar o convívio familiar em busca de saídas para a sua vida; e Santo, o protagonista do depoimento acima, diz ter aprendido a noção do valor do dinheiro. A rigidez citada acima dirige-se mais fortemente à realidade dos mais antigos[avós] do povoado, embora seja encontrada nas famílias mais jovens. Em geral, os mais jovens já fazem uma crítica ao tratamento mais austero dos antigos em relação às crianças. O próprio embate dos antigos [avós]com respeito ao comportamento dos pais e jovens, no povoado (a vista grossa de alguns pais quando os filhos chegam em casa com algum objeto diferente; a bebida entre adolescentes e a algazarra nas vendas e bodegas à noite, por exemplo), já revela também a mudança na formação dos jovens. As manifestações de desagrado das professoras do grupo escolar do povoado, do ciclo básico, a respeito da indisciplina dos alunos e da falta de consideração destes para com os mais velhos, vêm somar-se às queixas dos antigos sobre a orientação que as crianças recebem em seu ambiente familiar.

       Todo esse contexto em que as queixas estão apoiadas traduz um cenário de inquietação quanto ao futuro das pessoas do povoado, principalmente dos jovens. Do lado dos antigos, parece assinalar uma perda do espanto e da reflexão guiada por um lastro de valores morais, que de um modo ou de outro ajudavam os jovens de outra época a terem uma orientação.

       No que se refere aos pais da segunda geração, existe o desejo de equilibrar a rigidez dos antigos [avós] em função das novas necessidades dos jovens. Todavia, a maioria não sabe em que valores se apoiar para agir frente às mudanças e à vida sobrecarregada de frustrações e estresse de toda ordem. Por exemplo, as mães não têm com quem deixar os filhos quando se deslocam para o trabalho mais distante. As crianças ficam em casa sozinhas ou soltas no povoado, na companhia de outras crianças. Por sua vez, a frustração no trabalho, ou de não ter trabalho, por parte dos chefes de família, facilita o desterro na bebida e as agressões dentro de casa e entre vizinhos, aumentando a insegurança e a ansiedade das crianças e dos jovens.

       Por último, as crianças e os jovens, em seus movimentos, brincadeiras e falas, deixam explícito o peso desse mal-estar coletivo que particularmente as atinge. Com razão, eles sentem a necessidade de transgredir as regras, refutando a realidade das contradições na qual foram jogados, não zelando pela escola, apresentando comportamento indisciplinado e falta de consideração para com os mais velhos, por exemplo. As crianças inconformadas com o horizonte de pobreza dos pais pensam conseguir oportunidades melhores para conquistar um futuro diferente. Algumas já sabem ler e até já ensinam as mães a assinarem o nome. Com isso, elas sentem que podem mudar a condição de cidadania de um dos genitores, ajudando a diminuir a vergonha do uso da assinatura pela impressão digital, em geral realizada diante de uma multidão curiosa.

       Diante do estranho, olham de esguelha, usam algumas vezes de mímica para se comunicar entre si e irrompem com algum dito engraçado ou espirituoso cortando as conversas, quando possível. Os mais velhos fazem grupinhos fechados e separados de meninos e meninas, tecendo, no interior dos seus pares, segredos, rivalidades e preferências,. Nas conversas com algumas crianças do povoado, pude observar como elas expõem sua percepção do mundo no qual vivem. Assistem aos adultos muitas vezes serem empurrados de encontro à vida, num conflito de todos contra todos, transfigurando-se precocemente em adultos desprovidos de autonomia e liberdade. Elas narram sem rodeios os conflitos do ambiente e querem fugir deles, imaginando um lugar onde possam realizar seus possíveis.

       "... [Por quê você acha importante aprender a ler e escrever?] Pra não ter que assinar o nome com o dedo. Tenho vergonha... Vou ensinar a minha mãe a ler e escrever... Ela não sabe. Só quem sabe é meu pai. Eu quero aprender a ler pra ir pra São Paulo, pra junto do meu irmão. [O que você quer ser quando crescer?] Quero ser professora. Gosto de ensinar. [ Você brinca de ser professora?] Brinco. [Como você brinca?] Chamo as minhas amigas... passo lição. Quando eu for professora e as criança não obedecer, eu meto a régua! [Mas que professora braba, heim?] [Risos]" [Joseane, 8 anos, filha de Santo].

       "[E você, o que deseja ser quando crescer?] Eu quero ser cozinheira. [Por quê?] Ah!... pra ficar forte! Pra cozinhar nas casa de rico... [Por quê?] Porque tem dinheiro... Compra roupa... compra sapato... anda bonita... 'arranja namorado'[ Grita um garoto da roda dos meninos] [Risos] [ E você acha que ganha dinheiro?] Ganha. [Você está na escola?] Estou. [Seu pai e sua mãe sabem ler?] Meu pai sabe e minha mãe não sabe." [Damiana, 7 anos, filha de Terezinha, neta de seu Severino Estácio].

       "... [Quatro meninos mais afastados do grupo das meninas gritam: 'Eu quero ser polícia'. Pergunto :Por quê? [Responde Nilton, de 12 anos] Pra prender assassino... quem rouba... [Você que ser polícia aqui em São Severino?] Não... Quero ser polícia em São Paulo. [Por que em São Paulo?] Um lugar que dá pra viver... [E como é o lugar que dá para se viver?] Um lugar sem bagunça... que tem emprego... [E aqui é um lugar que tem bagunça?] Bagunça dos bebo. Dos bebos que brigam ... mulé toma faca de home aqui... As mulé aqui são mais braba que os home. [Risos] As mulé grita mais que os home. [Pergunto: E os homens?] Os home chega em casa bebo, aí, as mulé desculhamba eles. [Riem] Desculhamba...[Você sabe ler?]
Não.
[Seu pai e sua mãe sabem ler?] Meu pai sabe um pouco. A minha mãe, não sabe, não.
" [Nilton, 12 anos. ].

       O que está presente acima nos depoimentos das crianças lembra um processo inicial de desenraizamento que vai sendo implementado no cruzamento com novas situações que induzem as famílias jovens do povoado, em conexão com seus pares que migraram, à mudança freqüente dos vínculos tradicionais: terra, trabalho, sobrevivência e família. Aí já pode ser percebida a coexistência de múltiplas lógicas num espaço rural interconectado com o ambiente moderno da cidade mediado por aqueles que migraram. Quem voltou da migração, traz na sua fala, em suas maletas, nos adornos da vestimenta, nas tatuagens nos braços, nos eletrodomésticos - rádio, aparelho de som -, impressões da 'modernidade' que invadem o povoado como "fantasmagorias" (Benjamin,1994.)[ ]. O fantasmagórico esconde, na maioria das vezes, o sentimento de frustração da busca para sair da pobreza.

       O "rito de passagem" da saída do jovem do lugar de origem questiona as pretensões do tradicionalismo dos costumes e das condutas herdadas. Os jovens e os antigos do lugar vivem esse confronto com diferentes influências que passam a reorientar, na heterogeneidade, as condições presentes dos indivíduos.

Migrar é buscar sair da pobreza

       Os jovens de São Severiono foram como que "destribalizados" para sobreviverem, tomando muito deles destinos diferentes. Acostumados a logo cedo a irem atrás do que fazer, avaliam a frustração atual de não conseguirem trabalho e a expectativa se projeta noutro lugar. O lugar onde moram é também avaliado nessa tomada de decisão de sair: tanto do ponto de vista de suas alternativas de trabalho e de sobrevivência, quanto do naco de liberdade que pode oferecer. Além disso, o fato de a sociedade manter um comportamento alheio à vida comum dos trabalhadores do campo, deixando-o à mercê de sua sorte - sem escola, treinamento profissional, informação, lazer -, o sair cedo para ganhar a vida é pensado como um modo de compensar esse descaso, levando o jovem a adquirir novas experiências. Nessa expectativa, o migrante tem em si mesmo a sua própria garantia e, a cada dia, ele renova a sua condição de sobrevivência.

"Nessas caminhadas aprendi...aprendi a fazer... a fazer de tudo."

       O jovem sem professor, sem mestre, descobre no encontro com as forças da exclusão um jeito de sobreviver e de se incluir no sistema. Quanto menos recursos ele tem à sua disposição, mais utiliza todo o seu arsenal de memória, de imaginação, de saber dos conhecimentos particulares. Por meio de gestos, comportamentos, maneiras de falar e dizer, de fazer uso de um "tato lógico", aprendido dentro de sua cultura e na interação com outros grupos, ele tenta ultrapassar os limites criados para a sua conformação. Não há um cálculo certo, por meio de informações, para agir dessa ou daquela maneira. O jovem migrante, que tenta escapar silenciosamente da ordem imposta, não tem previsão de como vai agir. Tudo depende das circunstâncias, a partir das quais as oportunidades são criadas e os possíveis vislumbrados.

       A qualidade do vínculo que o migrante vai estabelecer com o seu grupo receptor, até certo ponto está influenciada pelas características das relações objetais que o indivíduo tem antes da migração e pelas características das relações objetais que recebe frente ao novo grupo. É importante entender as motivações externas e internas, junto com as expectativas que influenciam na decisão do indivíduo ou grupo de migrar. É sabido que as condições externas influenciam substancialmente as condições internas para o indivíduo enfrentar a migração. Reciprocamente, frente às mesmas condições externas, a personalidade prévia do indivíduo, suas características psicológicas predominantes e seu momento vital determinam a qualidade da migração. Por exemplo, uma situação de crise pessoal(ou coletiva) pode provocar uma migração, mas, por sua vez, pode originar novas crises. Na migração, surgem muitas reações emocionais interligadas. Frente ao grupo de pertença, os sentimentos do migrante podem ser de libertação, culpa, perda, etc. E no grupo frente a ele, podem ocorrer sentimentos de pena, culpa, inveja, etc. Por fim, quanto ao novo grupo, esse pode receber o migrante como um intruso, com desprezo e desconfiança, ou com graus variáveis de aceitação e esperança(Grinberg e Grinberg, 1984).

       Foram citados pelos jovens como apoios importantes, no primeiro estágio da migração, a presença de parentes e amigos para recebê-los, as informações para contatos para o trabalho, para arranjar moradia e a transmissão dos novos códigos de convivência no lugar.

       Assim, o indivíduo que migra precisa de um "espaço potencial"(Winnocot, 1972), isto é, daquele espaço que lhe possibilite a transição entre o lugar de origem, representado pelo objeto materno, e o novo mundo externo. É possível que, por essa razão, exista a necessidade de o migrante se apegar ao grupo e preservar no novo ambiente as condições para que a sua herança cultural não seja de todo esvaziada. Esse "espaço potencial" outorga ao migrante a possibilidade de viver a migração como um "jogo". Se o indivíduo fracassa na criação desse "espaço potencial", produz-se uma ruptura na relação de continuidade da base de sustentação do ambiente e das condições internas do indivíduo. Essa ruptura pode ser comparada à ausência prolongada do objeto necessitado pela criança, que traz como conseqüência a perda da capacidade de simbolização e a necessidade de recorrer a defesas mais primitivas(Grinberg, Grinberg, 1972). O migrante, em situação de privação, com a perda prolongada de objetos confiáveis no ambiente, também sofre uma diminuição de sua capacidade de produzir e criar.

       De modo geral, a migração impõe aos indivíduos a necessidade de mudar o modo de ver os mundos interno e externo, ressurgindo daí novos valores que vão orientá-los a se organizarem no novo ambiente. O convívio com pessoas que já se estruturaram no lugar, passando ao migrante códigos de comportamento e informações, a confiança estabelecida entre o recém-chegado e a comunidade que o recebeu, podem ajudar o migrante a perder o medo do desconhecido. O interior dos jovens está sobrecarregado de medos, anseios, desconfiança, reserva para viver a nova ordem social.

       A vida na cidade exige que o migrante se submeta a uma mudança radical e complexa de hábitos, envolvendo a reformulação dos seus sinais vitais utilizados para tornar inteligível o seu mundo no campo e suas relações com o pequeno mundo familiar e de vizinhança no povoado. Alguns não conseguem suportar a pressão da mudança, então retornam ao campo.

       Portanto, contar com a cooperação do grupo de amigos e parentes significa dispor de um mecanismo de segurança fundamental para viver como grupo em terra desconhecida. Quem recebe ajuda, de certo modo acumula compromissos de reciprocidade. A cadeia de solidariedade e reciprocidade, mesmo que não seja simétrica, isto é, quando se espera do mesmo indivíduo uma retribuição pela ajuda prestada, é espalhada pelos diferentes graus de parentesco e proximidade da vizinhança, garantindo os indivíduos na adversidade. Cada um procura fazer suas escolhas na rede de solidariedade, mas existe uma liderança que toma a iniciativa em propor ajuda, receber os recém-chegados e proteger mais os membros do grupo migrante.

       Seria precipitação dizer que, em decorrência da miséria no campo, a mudança para a cidade e o desemprego em atividades urbanas, mesmo em se tratando de atividades não-qualificadas, significam ascensão para o migrante. Os migrantes mais antigos encontraram uma conjuntura mais favorável no mercado de trabalho, e sobreviveram a um processo duro de seleção que a maioria dos migrantes jovens, mais recentes, não conseguiram superar, retornando ao lugar de origem. Os migrantes mais antigos costumam fazer uso de racionalizações para encobrirem a dor do desenraizamento, mesmo quando conseguem estruturar-se no trabalho. Afirmo que são os filhos dos migrantes mais antigos, a terceira geração, aqueles que conseguem sentir-se mais enraizados na terra que seus pais escolheram para migrar.

       Depois de um tempo na cidade, os jovens que voltam não conseguem mais adaptar-se ao trabalho tradicional da agricultura no campo ou ao trabalho 'alugado' de tarefas no campo. Ao dispor de documentação, carteira de trabalho, registro de identidade e alguma experiência prática em atividades de construção civil, no ramo da metalurgia, ou de prestação de serviços, os jovens voltam com o propósito de não mais seguirem a atividade de agricultor. Ainda que morem no campo, preferem trabalhar em tarefas fora da agricultura.

Considerações Finais

       No ato de migrar, encontro incerteza em relação ao paradigma de que o mundo urbano impõe a sua força antropofágica sobre o migrante, sem que nesse espaço o migrante não se alimente. Na cidade ocorre um cruzamento com etnias, classes, mas também cruzamentos socioculturais, em que o tradicional e o moderno se misturam. Nessa hibridação, o indivíduo tem configurado o seu desenraizamento. A compreensão do impacto do desenraizamento depende de como o migrante elaborou suas perdas e da posição que se situa em relação ao acesso a bens e serviços oferecidos pela sociedade.


Helenilda Cavalcanti é pesquisadora do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco & Doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo - USP

Notas:
- Fantasmagórico é todo produto cultural que hesita ainda um pouco antes de ser absorvido como uma mercadoria pura e simples. Cada produto novo que rivaliza com uma arte antiga assume durante algum tempo a forma da fantasmagoria. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: Um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. Editora Brasiliense, 3a edição, 1994, p. 126.


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