20/07/2002
Número - 268

ARQUIVO

Opinião Acadêmica

O SIGNIFICADO DA OBRA DE GILBERTO FREYRE PARA A ANTROPOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Gilberto Velho


       Não tenho a pretensão de esgotar nesse texto toda a contribuição de Gilberto Freyre para o desenvolvimento da Antropologia. Quero salientar, todavia, algumas dimensões de seu trabalho, que considero, historicamente, cruciais e que mantêm ainda hoje um caráter inovador. Gilberto Freyre, como mostrou Sebastião Vila Nova (1998), estudou e teve contato, durante sua estadia nos Estados Unidos, com os grupos mais destacados da ciência social daquele país. Numa época em que as fronteiras disciplinares e departamentais eram mais fluidas, teve acesso não só à antropologia e história de Colúmbia, mas também à sociologia de Chicago, associada à antropologia no mesmo departamento, até o final dos anos vinte.

       Essa relativa fluidez permitia e estimulava o florescimento de debates interdisciplinares, com implicações para toda a área que classificamos atualmente como Ciências Sociais ou até, de modo mais amplo, para as humanidades em geral. A inteligência norte-americana do final do século XIX e primeiras décadas do século XX era fortemente marcada pelo darwinismo, ao mesmo tempo que alguns de seus importantes expoentes professavam ou vinham de famílias de religião protestante, como Albion Small e George H. Mead, figuras fundamentais da Escola de Chicago (Bulmer, 1984 e Joas, 1997). Essa combinação de evolucionismo e religiosidade, com todos os conflitos, teve consideráveis implicações para o desenvolvimento de uma atitude e postura de reforma social. Mas é, sobretudo, no pragmatismo, com suas diferentes ênfases e correntes, que vai se encontrar a principal tendência do pensamento social norte-americano da época. Intelectuais do porte de William James e John Dewey assumiram um papel proeminente e liderança notável. O seu impacto nas ciências sociais foi decisivo, estabelecendo um campo de discussão para filósofos, sociólogos, psicólogos e educadores, entre outros. Portanto, durante a permanência de Gilberto Freyre em Colúmbia, os Estados Unidos viviam um período de grande criatividade na área das ciências humanas, tendo como um de seus focos principais a temática indivíduo e sociedade. Seja sob o ponto de vista da interação social seja sob o ponto de vista de cultura e personalidade, produzia-se um volume de trabalhos e idéias que constituíram-se em importantes subsídios para a obra de Gilberto Freyre que soube digerí-los e elaborá-los no decorrer de sua carreira, contribuindo, decisivamente, por sua vez, para esse campo de debates.

       Como intelectual universalista, bebeu em várias fontes, na antropologia britânica, na escola sociológica francesa e no pensamento social e filosófico alemão, além da ciência social norte-americana, produzindo, assim, um perfil singular. A conjuntura nos Estados Unidos pós-primeira grande guerra apresentava essa característica de ser favorável à convivência e encontro de várias tradições intelectuais. O contato com a Europa era freqüente e intenso, com intercâmbio permanente desde o final da Guerra Civil. Esse processo foi se acentuando, envolvendo não só intelectuais, mas variados setores da elite, preocupados com uma cultura cosmopolita e sofisticada (Simon, 1998). Sabemos que Gilberto Freyre já tinha um perfil intelectual se delineando quando parte para Nova Iorque, mas lá, ainda muito jovem, teve oportunidade de ampliar, significativamente, seu quadro de referências, tornando-se um sintetizador e um inovador. A cultura e suas relações com a personalidade individual, certamente, foi um dos eixos fundamentais da construção de seu trabalho. Antropólogos contemporâneos seus como Edward Sapir, Ruth Benedict e Margaret Mead, influenciados, mais ou menos diretamente, por Franz Boas, desenvolveram estudos e reflexões sobre esse tema. Cabe, no entanto, a Freyre, um lugar de particular destaque, devido à ousadia de sua interpretação do Brasil e dos brasileiros. Os trabalhos do grupo de Colúmbia, ligados ao que veio a ser conhecido como Escola de Personalidade e Cultura, até os anos trinta tinham como referência principal sociedades tribais, tradicionais e de pequena escala, como nos estudos de Margaret Mead na Nova Guiné e de Ruth Benedict com índios norte-americanos.

       A importância de Casa-Grande & Senzala, com suas origens na tese defendida em Colúmbia, nos inícios dos anos vinte, foi, no quadro do desenvolvimento da Antropologia, ter tido como objeto uma sociedade complexa moderno-contemporânea. Podemos identificar várias razões que concorrem para isso. O interesse e cultura históricos do autor, alimentados, especialmente, pelo conhecimento da história do Brasil e de Portugal e por uma familiaridade com o pensamento social europeu, levam-no a analisar a sociedade brasileira, como um todo, numa visão dinâmica de transformação e de processo. Assim complementam-se as abordagens sincrônica e diacrônica, embora a primeira tenha a proeminência da marca antropológica. Com essa perspectiva, privilegiou a construção de modelo interpretativo de caráter mais geral a partir, no entanto, de pesquisas de fontes, documentos, entrevistas e observação etnográfica. Suas hipóteses são baseadas em dados variados e preciosos, obtidos através do olhar de um observador e intérprete possuidor de poderoso aparato teórico-conceitual. Particularmente importantes são as histórias da vida, as cartas, os diários e os depoimentos que confirmam a importância das biografias e trajetórias individuais para a compreensão dos modos de ser, paradigmas e projetos. Certamente seu conhecimento da Escola de Chicago foi também importante nesse caminho (Thomas e Znaniecki, 1918).

       A preocupação com a mudança social afirmase na investigação dos universos de parentesco, redes familiares e de alianças, diante das transformações da sociedade tradicional. A habitação, a alimentação, o vestuário, a mobília, as técnicas do corpo, as práticas sexuais, os sentimentos são expressão de uma cultura e, por sua vez, atuam de volta, reinventando-a, permanentemente. Assim, o cotidiano é objeto privilegiado, como locus de continuidade e também de mudança. Trata-se, portanto, de um culturalismo dinâmico, oposto a qualquer idéia de imobilismo social. Os agentes são os indivíduos, não como mônadas, mas como membros atuantes de redes e grupos sociais. Creio que, diretamente, ou através da escola de Chicago, com R. Park, W. I. Thomas etc. Freyre retoma com originalidade o pensamento de G. Simmel.

       O grande pensador alemão foi uma das maiores influências na sociologia norte-americana. Acredito serem muito fortes as afinidades de Freyre com a sua obra, principalmente no que se refere à temática indivíduo e sociedade e à questão da subjetividade. A partir daí, encontramos a elaboração de reflexões que estão no limite entre uma antropologia cultural e uma psicologia social. O estudo das relações raciais, das relações entre gêneros e gerações traz essa característica marcante de juntar processos sociais com trajetórias individuais, antecipando, por exemplo, o trabalho de Hans Gerth e C. Wright Mills (1954) e enriquecendo a produção da Escola de Personalidade e Cultura. O interesse e cultura literários de Freyre, certamente, contribuíram também para a sua preocupação estético-afetiva com personagens. As leituras nas literaturas de línguas portuguesa, francesa e inglesa influenciaram-no de modo decisivo. Portanto, a preocupação com a singularidade e, simultaneamente, com o significado sociológico da experiência individual é uma das principais contribuições de Freyre para a antropologia contemporânea. A sua perspectiva histórica, voltada para o processo social, amplia também o escopo de sua teoria da cultura. A valorização da heterogeneidade sócio-cultural brasileira permite-lhe estar atento e valorizar o fenômeno da reciprocidade e das trocas socioculturais.

       Não se tratava de desconhecer contradições e conflitos, mas de vê-los como dimensão da vida social, aparecendo tanto na sociedade como um todo, como nas próprias trajetórias individuais, aproximando-o de Simmel (1964 e 1971). Finalmente, sem esgotar, repito, sua notável contribuição, quero ressaltar a lição de sua prosa, clara e cativante, expressão de um espírito sofisticado, que busca comunicar-se com os seus leitores, sem espantá-los pelo hermetismo ou pelo tédio.


Gilberto Velho é Antropólogo do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e da Universidade Federal do Rio de Janeiro
gvelho@alternex.com.br

Bibliografia

1 - BULMER, Martin. The Chicago School of Sociology: institutionalization, diversity and the rise of sociological research. Chicago: The University of Chicago Press, 1984.
2 - GERTH, Hans; MILLS, C. Wright. Character and social structure: the psychology of social institutions. London: Routledge & K. Paul, 1954.
3 - JOAS, Hans. G.H. Mead: a contemporary re-examination of his thought. Cambridge, The MIT Press, 1997.
4 - SIMMEL, Georg. Conflict. New York: Free, 1964.
5 - SIMON, Linda. Genuine Reality: a life of William James. New York: Harcourt Brace Company, 1998.
6 - THOMAS, William I.; ZNANIECKI, F. The Polish Peasant in Europe and America. Boston: Badger, 1918.
VILA NOVA, Sebastião. Donald Pierson e a Escola de Chicago na sociologia brasileira: entre humanistas e messiânicos. Lisboa: Veja, 1998.