14/12/2002
Número - 290

ARQUIVO

Opinião Acadêmica

A DIVERSIDADE E O ENSINO DE COMUNICAÇÃO NA METRÓPOLE E NO INTERIOR

Wagner Sales Ribeiro


       Ao aceitar dar aulas de produção publicitária em rádio numa cidade do interior do Espírito Santo jamais imaginaria que teria problemas culturais provocados por diferenças regionais midiáticas. Recorri a arquétipos do meu meio social e profissional, que não tinham nenhuma relação com a cidade onde me encontrava, para superar barreiras que poderiam surgir no aprendizado de estudantes do curso de Comunicação Social.

       Em 23 anos de atuação em Comunicação Social sempre estive ligado ao ambiente urbano do Rio de Janeiro. Primeiro em jornais da região metropolitana, depois emissora de rádio e TV da capital e faculdades do setor. As informações que tinha sobre o surgimento de novos cursos de ensino superior eram esparsas e fragmentadas.

       Este artigo trata dos problemas advindos do choque do urbano e do interior num ambiente voltado para o ensino e a pesquisa em todas as áreas do conhecimento, especialmente na publicidade. Verifica questões relacionadas à identidade a partir da sala de aula que acabam transcendendo o ambiente universitário. Talvez o entendimento do problema esteja ligado à educação como disciplina e não à Comunicação. Mesmo assim caminhamos na direção dos estudos culturais - uma invenção britânica - para tentar compreender e avançar na discussão tendo como parâmetro a Comunicação Social.

       Os estudos culturais Emergiram a partir de três textos no final dos anos 50: Richard Hoggart com The Uses of Literacy (1957), Raymond Williams com Cultura and Society (1958) e E. P. Thompson com The Making of the English Working-Class (1963). [1]

       Atribui-se aos Estudos Culturais a tentativa de adaptar gestão e representação, especialmente num sentido cultural. Enquanto Hogart, numa visão marxista, dava ênfase nos aspectos culturais da luta de classes e apela à minoria séria, Williams pregava que "o valor das práticas culturais não é inerente nelas ou nos grupos que as praticam; o valor mais propriamente, é uma função das relações de dominação e subordinação entre os diversos grupos que constituem a sociedade". (Yudice, 1993, p.310).[2]

       Williams tem uma contribuição teórica importante para os estudos culturais a partir de Culture and society. Seu olhar diferenciado sobre a história literária aponta que a cultura é uma categoria-chave que conecta tanto a análise literária quanto à investigação social. A intensificação no avanço do debate contemporâneo sobre o impacto cultural dos meios massivos fica clara a partir de seu livro The long revolution(1962). Nele, Williams mostra um certo pessimismo em relação à cultura popular e aos próprios mediuns.

       Thompson, por sua vez, partilhava da visão marxista de Williams. Além disso, pode-se dizer que ele influencia o desenvolvimento da história social britânica, de dentro da tradição marxista. Ambos afirmavam que cultura era uma rede vivida de práticas e relações que constituíam a vida cotidiana dentro da qual o papel do indivíduo estava em primeiro plano. Thompson entendia cultura como uma luta entre modos de vida diferentes.

       A partir de Thompson talvez seja possível entender a questão do choque cultural em questão tomando como base realidades diferentes quando se discutem em sala de aula problemas atrelados à mídia local. Trabalhar com produtos de comunicação para os diversos públicos da região metropolitana do Rio de Janeiro é absolutamente diferente do que se impor o mesmo modelo para pessoas que sempre viveram e trabalharam em Cachoeiro de Itapemirim e região, no sul capixaba. São realidades diversas que apresentam semelhanças apenas na utilização de formatos. Esses padrões não são uma via de mão dupla, pelo contrário emanam do grande centro para o interior.

       Ao se examinar a questão sob o ponto de vista dos Estudos Culturais depara-se com um ponto importante: a identidade. O termo vem de idem (versão latina do grego tó autò, "o mesmo"), que resulta do latim escolástico em identitas, caracterizado pela permanência do objeto, único e idêntico a si mesmo apesar das pressões de transformação interna e externa. No caso de Cachoeiro de Itapemirim, o choque acontece no nível de atendimento das prioridades e do emprego dos formatos. Enquanto no Rio eles são usados sob a égide do profissionalismo na outra cidade os padrões são absolutamente diversos que mereceriam estudos à parte.

       A utilização de modelos que supostamente deram certo pode ser entendida através do conceito de hegemonia. Moraes acentua que "ao examinar as tensões entre as forças sociais, estamos penetrando no campo das batalhas ideológicas pela conquista da hegemonia cultural. O domínio do imaginário coletivo funda-se na identidade de princípios com as comunidades de sentido, que forjam as linhas de influência em dada conjuntura". [3]

       Talvez a articulação entre global e local ajude a continuar caminhando no sentido de identidade que buscamos para entender o problema. Robin, citado por Hall, argumenta que ao lado da tendência em direção à homogeneização global, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da alteridade. Segundo o autor, há, juntamente com o impacto do "global", um novo interesse pelo "local".[4]

       Ao se manter na discussão sobre identidade é possível observar que os choques culturais acontecem, por exemplo, diante de estratégias que seriam condenáveis no grande centro, mas no interior são adotadas sem nenhum problema. Ainda no primeiro mês de aula um aluno revelou que a reportagem da emissora de rádio onde ele atuava era utilizada, entre uma tarefa e outra, para anunciar promoções do comércio local.

       No Rio de Janeiro ou em São Paulo, por exemplo, a estratégia é utilizada com objetivos claros de propaganda, sem que o suposto repórter tenha qualquer envolvimento com o noticiário. Algumas emissoras chegam a proibir seus profissionais de participarem de comerciais, sejam eles quais forem. De minha parte, a tática foi condenada. Expliquei que, apesar de tudo, a propaganda poderia causar problemas de credibilidade ao repórter devido a utilização deturpada da função social do jornalismo que é de esclarecer a população e estimular a sua natural propensão a evoluir.

       Talvez o entendimento mais amplo e profissional da notícia tenha me levado a condenar a estratégia comercial. Em Schudson, a explicação sociológica sobre a compreensão da notícia pode ajudar nossa posição. Para ele, a notícia "não é uma coleta de fatos que já existem; na verdade, como declarou Tuchman, os fatos são definidos organizacionalmente - fatos são "a informação pertinente coletada por métodos profissionalmente validados que especificam a relação entre o que é conhecido e como é conhecido… Nas notícias, a verificação dos fatos é tanto uma realização política quanto profissional."[5]

       De qualquer forma, o recurso a professores com experiência no fazer publicitário de outras metrópoles onde essas questões já foram aparentemente superadas há muito tempo, contribua para modificar comportamentos mdiáticos locais totalmente distantes das necessidades de uma sociedade com anseios de consumo global. Dessa forma, as diferenças e as distinções culturais, que até então definiam a identidade, ficam reduzidas a uma espécie de língua franca internacional ou de moeda global, em termos das quais todas as tradições específicas e todas as diferentes identidades podem ser traduzidas num fenômeno batizado por Hall por homogeneização cultural".


Wagner Sales Ribeiro - é Professor Mestre do Centro Universitário Augusto Motta e da Faculdade São Camillo, (FAFI), no Espírito Santo, Jornalista, publicitário e empresário de comunicação
E-mail para contato: Weapubly@aol.com


NOTAS

1 - RIBEIRO, Wagner Sales. All News na CBN: um estudo de caso. Dissertação de mestrado. Niterói:UFF, 2001.
2 - YUDICE, George. In PEREIRA, Carlos Alberto Messeder e FAUSTO NETO, Antonio (eds.) Comunicação e Cultura Contemporâneas. Rio de Janeiro: Notrya/Compós, 1993.
3 - MORAES, Denis de. Mídia tecnologia e poder. Rio de Janeiro: ECO/UFRJ, 1994.
4 - HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998).
5 - SCHUDSON, Michael. The sociology of news production revisited. In: CURRAN, James & GUREVITCH, Michael, eds. Mass media and society. New York: Edward Arnold, 1992. Cap. 7, p. 141-159.


BIBLIOGRAFIA:

1 - HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.
2 - MORAES, Denis de. Mídia tecnologia e poder. Rio de Janeiro: ECO/UFRJ, 1994.
3 - RIBEIRO, Wagner Sales. All News na CBN: um estudo de caso. Dissertação de mestrado. Niterói:UFF, 2001.
4 - SCHUDSON, Michael. The sociology of news production revisited. In: CURRAN, James & GUREVITCH, Michael, eds. Mass media and society. New York: Edward Arnold, 1992. Cap. 7, p. 141-159.
5 - YUDICE, George. In PEREIRA, Carlos Alberto Messeder e FAUSTO NETO, Antonio (eds.) Comunicação e Cultura Contemporânea. Rio de Janeiro: Notrya/Compós, 1993.