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Opinião Acadêmica

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CRIMES EM FAMÍLIA DESDE CAIM E ABEL

Tânia Baumhardt


       Diante dos freqüentes crimes familiares noticiados pela mídia percebemos que não temos dado a devida importância às advertências que nos são feitas pela Psicanálise.

       Desde os anos 30, Jacques Lacan já denunciava a decadência da imago paterna e seus dois efeitos possíveis: perversão ou psicose. E quando nos deparamos com a psicose com efeito perverso nos mostramos surpresos! No entanto não há nada de novo nisto, até porque o século XVIII nos ensinou que sob o manto da inocência escondia-se "o Kant com Sade".

       Portanto, basta nos lembrarmos do bíblico ódio de Caim por Abel pela única razão de se julgar preterido, por ser Abel o filho preferido do Deus pai. E também do sacrifício de Abrahão, que mataria o filho "por amor a Deus", o que foi convertido ao "cordeiro" expiatório e está na origem simbólica do mito da "circuncisão".

       Porém, talvez estejamos denegando e/ou renegando um fato que abala as nossas ilusões de imortalidade corporal, e isto numa referência ao que Freud já mencionava em 1915, em seu texto "Nós e a Morte", ao nos advertir sobre o que fazemos face à morte. Ou talvez, não queiramos abrir mão destas ilusões a respeito das quais Freud nos advertiu, em especial o governar e o ensinar, e esta seria a única explicação plausível para que fiquemos prisioneiros dos "borderlines" e dos "bipolares" psiquiátricos em vez de prestarmos atenção aos efeitos já denunciados, principalmente na transmissão do sintoma parental, relativos à decadência da imago e/ou função paterna.

       E se consultarmos os "Complexos Familiares" (Lacan, anos 30) ou a carta que Lacan escreveu a Jenny Aubry ( cf. Revista Ornicar), veremos que ali se fala de intrusão, e cogitando-se de "Verworfen" (foraclusão do Nome do Pai), poder-se-á falar de "intrusão psicótica".

       Todavia, caso a Metáfora Paterna e a função legiferante dela derivada decaírem, juntamente com os limites sobre o desejo que lhe são próprios, em seu lugar virão ou o desejo anônimo ( perversão) ou a não nomeação de sujeitos (psicose), que se tornam, por foraclusão, delirantes, pois Lacan, nos Escritos (1966), cogita, também, dos efeitos egóicos (perversos) da psicose.

       Assim sendo, o que pareceria um funcionamento irregular, por vezes desajustado da estrutura familiar, revelaria apenas "o que de verdade há" sobre o funcionamento regular daquele tipo de estrutura familiar. Este raciocínio o psicanalista croata Slavoj Zizek, lacaneano, aplica aos sintomas sociais, ou seja, ali se explicita o risco de, por impostura perversa ou foraclusão psicótica, reintroduzir-se o culto banal ao homicídio apesar do "Não Matarás" bíblico e edípico.

       Antes que nos esqueçamos, veremos que, a decadência legiferante da imago paterna não dependerá de retóricas pedagógicas adequadas ou não, tais como a adoção deste ou daquele tipo de diálogo, mas sim da dificuldade perene de se reconhecer que há Castração (do pai). E isto não quer dizer que os diálogos devam ser abolidos, e sim que eles não substituem a exclusão da função paterna. E aqui se trata justamente de afirmar a importância da transmissão simbólica da paternidade, o que se dá na infância, para que se possa produzir falicidade e desejo, e com isto os limites de Lei, que é o que irá proporcionar as condições de distinção entre deveres, direitos e desejos.


TÂNIA BAUMHARDT é psicanalista e analista membro do Centro de Estudos Lacaneanos - CEL.
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