14/05/2004
Número - 368

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

AOS NEURÓTICOS, UM NOVO PASSO DE DANÇA

Sandra Beck da Silva Etges


        Na leitura psicanalítica a neurose compreende, em princípio, a histeria e a obsessividade. Estas possuem em comum o "sonho com a perversão", ou seja, o sonho com a possibilidade de se desejar sem nenhum limite, o que é tido, ali, moralmente, como proibido. Elas criam a ficção de transgredir esta proibição mantendo a ilusão de que exista um objeto consistente que possa satisfazer o desejo plenamente, mas que estaria fora de seu alcance. É aquela célebre estória: se tiver um namorado, e/ou um marido, se me separar, se tiver um filho, um novo trabalho, um carro ou uma nova casa, vou ser mais feliz. Isso tudo, evidentemente, vai depender do tipo da neurose e da fantasia imaginária que ali se estabelecer.

       Sabe-se que a ilusão egóica dos neuróticos os impede de ocupar um lugar amoroso e, portanto, a suposta "felicidade". Exemplo disto é a reportagem da mídia que comenta a atual classe média européia e norte-americana. Ali se diz que elas nunca tiveram tantos bens materiais, tantas condições de ensino, saúde e sobrevida e, paradoxalmente, o índice de bem-estar e felicidade diminuiu. Parece tratar-se (lá a religiosidade é filtrada pela ética política) da opção pela culpa por não haver penúria, tão comum aos "neuróticos", como uma espécie de retomada pós-moderna da medieval "lei da usura".

       Ora, a neurose obsessiva configura a requisição pela morte e a aversão ao desejo. Então, a obsessividade passa a supor que viver é transgredir a morte, melancolizando sua vida, renunciando ao desejo, e se colocando no lugar de servo, como se fosse um mero expectador da própria vida, ou seja, ali se faz de conta que a vida é "vivida" como se fosse a de um personagem "morto" onde, por abrir-se mão do próprio desejo, receia-se viver, porque viver seria morrer a cada dia.

       Já a neurose histérica configura a intensa necessidade de ser desejado e a aversão à morte, já que na histeria receia-se que aquilo que se deseja possa ser tido como "loucura". Coloca-se ali o desejo de potência em primeiro plano para "compensar" o ódio à morte, e a angústia sobrevêm sempre diante de uma possibilidade de perda ou de morte.

       Como, então, ser feliz se a histeria confunde "ser desejado" com (haver) amor e a obsessividade confunde "dar lugar ao próprio desejo", com possibilidade de morte?

       Então, este "sonho com a perversão" nada mais seria do que um apelo egóico instalado no nível do ego ideal, conseqüência da necessidade de se atribuir um sentido obrigatório às demandas próprias do ideal paterno se transmitido imaginariamente.

       Assim sendo, em termos clínicos, há que se operar um "desapego" ao ego, ou seja, há que se operar o luto e, utilizando-se das palavras de Lacan; "o luto da criança que se teria sido na fantasia dos pais", para que se possa, então, ocupar um lugar desejante e singular perante o mundo.

       Portanto, cabe a cada sujeito buscar o seu gozo particularizado, que não seria o ideal que os pais tinham sobre ele e sim, indo ao encontro do que lhe falta e, porque já perdido com a criança que foi um dia, nunca encontrado, resta-lhe ir em busca da sua fantasia, ao passar por momentos de unhimilich (sentir-se um estrangeiro inclusive para si mesmo), como ilustra muito bem o filme "Encontros e Desencontros" da Sofia Coppola. Lá, aquele "ilustre personagem" e aquela "garota impotente e angustiada" porque não desejada, ambos americanos que, casualmente, se encontram em Tóquio, conseguem-se entender para além do espaço do sentido, do desejo e do sexo, ou seja, numa outra referência e num outro compasso, onde, face à estranheza da vida naquele país, conseguem desconstituir sentidos obrigatórios e encontrar "faíscas", índices de novas referências, que vão configurando uma nova dimensão para as suas vidas, que não a servidão, a impotência, e a semelhança, e sim o reconhecimento da diferença como uma nova experiência humana.

       Concluindo, para superar a neurose histérica é necessário poder renunciar ao desejo de potência e, para superar a neurose obsessiva é necessário poder renunciar à obrigação de servidão ao desejo para que, despindo-se da roupagem egóica, possa-se conseguir, como ouvi outro dia, um novo passo de dança, uma dança singular, que possibilite vir a ocupar, simplesmente, os lugares de Homem e de uma Mulher, ou seja, buscar a razão de seu gozo para além do imaginário do sexo.


SANDRA BECK DA SILVA ETGES é psicanalista - Membro do Centro de Estudos Lacaneanos
(CEL - RS)
Site do CEL: www.celacan.com.br