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Opinião Acadêmica
O
TRIUNFO (POSSÍVEL) DO RACISMO MENTAL:
Dos
Processos de Exclusão: a Drogadicção
Ernesto Söhnle Junior
Resumo
O presente artigo pretende introduzir um conhecimento
relativo à origem estrutural e à inserção social do fenômeno da drogadicção,
no que este se articula à questão da segregação. Para tal, lançou mão da
psicanálise extensiva, enquanto abordagem que possibilitou o “mapeamento” do
modo de ser deste tema, como um “sintoma na cultura”, buscando pensar as
condições psíquicas e sociais dos processos de exclusão, tanto auto como
hetero-referidos. Procedimento que lhe permitiu qualificar as relações entre a
drogadicção e o binômio psicose-perversão. Mesmo porque, a hetero-hostilidade
– aguçada em face do liame social que a drogadicção pode estabelecer com a
“ordem paralela” da criminalidade – produz, como resposta, por parte da
sociedade, a disseminação de preconceitos que podem se configurar, enquanto
novas formas de “racismo”, no sentido figurado do termo, por fazerem incidir
sobre a figura do usuário/drogadicto o binômio segregação/agressividade.
Com o
intuito reflexivo de aqui introduzir pontos de vista sobre o tema, começaremos
por dizer que o saber clínico e a realidade imaginária da sociedade atual
indicam uma acentuada transformação social, que nos tem levado ao
reconhecimento de uma nova “modalização” dos laços sociais. Esta tem revelado
a incidência de procedimentos comportamentais auto e hetero-hostis, como, por
exemplo, as manifestações delinqüenciais homicidas que – supostamente
imotivadas e constantemente anunciadas pela mídia televisiva –, são, por
vezes, atribuídas ao uso compulsivo de substâncias psicoativas, lícitas ou
não. Estas ocorrências, contudo, parecem estar provocando, como resposta, por
parte da sociedade, não o recomendável encaminhamento de medidas
clínico-sociais, mas a disseminação de preconceitos que podem se configurar,
enquanto novas formas de racismo, no sentido metafórico do termo,(1)
por fazerem incidir sobre a figura do usuário/drogadicto o binômio
segregação/agressividade.
Neste sentido, foi em 1967, no “Discurso de encerramento das
Jornadas sobre as psicoses na criança”, que Jacques Lacan chamou-nos a
atenção para um dos problemas cruciais de nossa época, “visto que ela é a
primeira a ter que sentir a recolocação em questão de todas as estruturas
sociais pelo progresso da ciência”. O que teríamos “pela frente e sempre de
maneira mais premente: a segregação”.(2)
E, Lacan, ao fazer uma “referência explícita ao caráter ‘traumático’ da
segregação”,(3)
como uma forma de “exclusão”, sendo racista, por ser psicótico, não importando
aí o álibi que for levantado como “palavra de ordem”, pode nos dizer, dois
anos depois, que: “O Racismo vinha do futuro”. Dessa forma, ele associou a
segregação ao tema da psicose, também por nos indicar que suas
“palavras-chave” conduzem à “palavra-plena”, fonte do fundamentalismo
psicótico, que supõe dizer toda a verdade, a partir do Real. Ou seja, a
“palavra-plena” seria ali o “argumento” da radicalidade, enquanto certeza
advinda de uma lei natural, com valor de obrigação “homossexual”(4)
de igualdade. Assim, pelo primado da intolerância, tudo que não for concebido
de acordo com esta verdade natural é rejeitado, primeiro na forma de
preconceito, depois como ato (perverso) de exclusão propriamente dito. Logo,
se a segregação é um efeito que pode incluir, do ponto de vista do imaginário
sócio-cultural, o preconceito, por outro lado, do ponto de vista psíquico, a
segregação implicará, como efeito, na exclusão. E a exclusão, por sua vez,
poderá ter dois matizes: a “exclusão social”, que é da ordem do não
reconhecimento da alteridade e da semelhança, portanto, eqüivale ao que Lacan
nos anos 30 definiu como psicose, e a “exclusão psíquica” que é a dita
“exclusão da inclusão”, conforme sua tese de doutoramento sobre Aimée – “Da
psicose paranóica em suas relações com a personalidade”(5)–
que trata do efeito auto-hostil da auto-exclusão psíquica.
Isso porque o paranóico se auto-exclui ou exclui aqueles que não
tomarem parte no segredo mortal e delirante portado pelo A (Outro não
Castrado) e emanado do mandato de um Pai Real Severo. Neste sentido, de acordo
com “O Seminário, Livro III, As Psicoses(6)
o tema da Verworfen (lugar do excluído) ali referido à reconsideração
conceitual da questão do “Homem dos Lobos”, aponta o S(A), sujeito do delírio,
enquanto duplo especular do Outro (não-castrado). Ou ainda, no primeiro caso
(exclusão social), “teríamos a neutralidade e/ou a indiferença para com o
semelhante quando imageticamente tomado; isto é, lá ter-se-ia a obrigatória
ausência da egoicidade narcísica”.(7)
Mas, também, “Os Complexos Familiares” e a sua tese de doutoramento (já
referida), relacionam-se, sobretudo, no segundo caso, àquilo que Lacan
sublinha como sendo a característica principal das psicoses, seu traço comum:
a colocação da Morte, enquanto equivalente à demanda de Amor, no lugar do
Gozo. E, por falar em exclusão social, o tema da drogadicção é
objeto de uma reapropriação massiva, por parte de inúmeros discursos que
contribuem para efetuar uma montagem deformante do imaginário social.
Discursos estes que podem se “colar” tanto no gozo mortal dos drogadictos,
como nas formas ineficazes, e mesmo segregacionistas, de se fazer frente à
questão da drogadicção, que muitos segmentos da sociedade adotam.
Para tal,
a imagem social que se cria do drogadicto serve, apenas, para ilustrar e/ou
dissimular o posicionamento moralista que reduz a experiência adicta, ora à
“fraqueza de caráter” e à conseqüente criminalidade, ora à lógica, também
excludente, porque “patologizante”, da “determinação genética” da
químico-dependência. A mídia, em sua impostura, manipulando a diluição de
suposto saber científico, restabelece, semanticamente o preconceito. Deste
modo, além de chamar o drogadicto, por força de suas estratégias
mercadológicas, que se utilizam do terrorismo do noticiário, de “viciado”, deu
para, implicitamente, fazê-lo em nome da ideologização, tão em moda, da dita
ciência genética. Mal disfarçam o outrora nazista ideal de eugenia, que,
aliás, era, também, comum ao pai de Scherber... Ou teremos a suposição de que
o “homossexualismo”, de fato o “homo-erotismo”, seria evidenciado nos filhos
mais novos de mães de prole numerosa, delírio que não resiste à contra-prova
por emanar de “ocorrência viciada”; e aí, seria fácil, bastaria que se
evitasse tal gene incômodo, assim como se supõe fazer, um dia, com o “gene” do
alcoolismo... Mas voltando ao drogadicto, observaremos que do mesmo modo que
os excessos biologistas do neodarwinismo levaram, ao final do século XIX, a
ideologização da ciência aos braços do preconceito; o geneticismo organicista
poderá gerar o mesmo em nosso século XXI. Basta que se observe o abuso, que em
seu nome, a mídia propaga sobre o tema da “depressão”. Sabe-se que a
psicanálise, no que se refere à Melancolia – este é o seu verdadeiro nome,
basta que se consulte o exemplar trabalho de Rita F. Mendonça intitulado: “Depressão: estrutura psíquica ou efeito
comportamental”,(8)
em que este conceito, por ela defendido desde Freud, é diferente da “tristeza”
(um sentimento próprio do ocaso da paixão romântica) – vê a depressão como um
mero efeito comportamental. Por esta razão, evita-se, para a tristeza dos
laboratórios, a terapêutica medicamentosa tão ao gosto da psiquiatria. Pois a
psicanálise, que, desde Freud, em a “Análise Leiga”, não é um saber
médico, não está a serviço dos interesses mercadológicos dos laboratórios.
Porém, quanto à causa da Melancolia “et pour cause” do comportamento
“depressivo”, o saber psicanalítico difere das ilusões do geneticismo atual,
pois vê ali uma causalidade psíquica, a saber, o desmentido da falicidade
provocado pela perda, supostamente irrecuperável de objeto amoroso. Contudo, o
que há de principal neste comentário estará no fato de se dar curso à ilusão
de uma eugenia possível a ser efetivada pelo procedimento supostamente
reparador ou pela medicação terapêutica que assim agiria. Mas, o que de fato
temos encontrado é que, a pretexto da cura de seus efeitos, enquanto a
reparação eugênica (esta versão pós-moderna do “Lobo da Estepe” nazista) não
vem, criamos uma “legião” de “viciados” em “drogas legais”. O anti-depressivo(9)
torna-se, então, mais um capítulo do “suicídio lento” e “não-violento”, em
seus casos extremados, a pretexto da calibragem da serotonina e da
noradrenalina... É “FANTÁSTICO”, mesmo!
Mais ainda, neste mesmo contexto, o decantado valor atribuído
à suposição de aprimoramento permanente da chamada “identidade genética”,
derivada do projeto “genoma humano”, por mais sofisticado que nos possa
parecer, é o herdeiro do ideário higiênico-pedagógico dos movimentos higienistas/eugenistas, bem como de seu correlato psiquiátrico expresso na
prática moral das “ligas de higiene mental”, só que atualizado à lógica do
pensamento virtual. Pois, conforme trabalho intitulado “Sanear
para integrar: a cruzada higienista de Monteiro Lobato”,(10)
entendemos que, no Brasil, as teorias higiênicas e eugênicas foram conjugadas,
no bojo de um projeto político de redenção da suposta “identidade nacional”, a
partir da cientificização de um binômio que apontava, pelo lado sanificador,
para a erradicação das pestilências, para a boa alimentação, para a abstenção
de substâncias tóxicas, em suma, para “a correta” educação no que concerne aos
hábitos de vida. Sua face eugenista, apoiada nos conhecimentos acumulados, até
então, sobre reprodução humana, apostava na regeneração física e moral do povo
brasileiro.
De qualquer forma, quando impossibilidades como o educar e
sua versão tardia, o cientificizar, se hiperdeterminam ao governar, na
persistente suposição de “suturar” o impossível do Real, surge a ilusão
semântica de um modelo de homem, de sociedade e/ou de identidade psicofísica
expressa nos mais variados álibis retóricos que servem apenas para fundamentar
o preconceito que se desdobra socialmente, por efeito perverso, no ato de
excluir propriamente dito. Raciocínio este, muito bem ilustrado em uma
passagem de “A Cura da Fealdade”, de Renato Kehl, destacado precursor da causa
eugenista no Brasil:
“Parte
respeitavel da população rural e mesmo urbana, traz impressa, indelevelmente,
evidentes signaes de degeneração, tomados erroeamente, como caracteres
anthropologicos da raça. Foram as doenças que crearam o ‘caboclo degenerado’
que na literatura indigena se cognominou ‘Jeca Tatú’. Este felizmente, não
representa senão a caricatura grotesca do brasileiro cacogenizado, fadado a
desapparecer, para dar logar ao verdadeiro typo nacional, forte, robusto e
perfeito, quando a instrucção e a hygiene fizerem o milagre da regeneração
nacional”.(11)
Portanto, se no passado estes segmentos da medicina,
propalavam, além da higiene das paixões, a consecução do ideal eugênico, pelo
aprimoramento racial, o geneticismo de versão pós-industrial continua
apostando na primazia dos caracteres genéticos e no suposto peso de uma
hereditariedade biológica. Assim, guardadas as devidas proporções, quaisquer
semelhanças entre as possíveis conseqüências destas concepções e os efeitos
perversos que se gestaram no “Ovo da Serpente” nazista, tão bem apresentados no
discurso fílmico por Bergmam (1977), não seriam mera coincidência.
Mesmo
porque, se “em todos os tempos, tem havido quem queira ‘melhorar’ os homens; é
a essa tentativa que chamamos moral. Mas sob essa palavra ‘moral’ escondem-se
todas as tendências mais diversas”.
(12) Assim, desde a supremacia das práticas inquisitórias até a admissão da
“verdade objetiva”, que foi gradualmente incorporada pelos procedimentos
sociais e ditos científicos, as manifestações comportamentais tidas como
“patológicas” sempre se deparam com abordagens de sentido moralista, que
pretendiam refrear o “gozo da besta” que habitava o homem. Portanto, do ponto
de vista da tradição histórica, a fonte deste(s) discurso(s) de cunho moral,
seja ele prometaico ou reformador (pedagógico e/ou social), sempre esteve mais
ou menos relacionado à concepção religiosa – devotada ao melhoramento do
“espírito do mundo” – a única que, em seu jogo, por vezes, ilusório e
delirante, acena com a felicidade eterna, quando e principalmente condicionada
à renúncia das paixões.
Neste
sentido, concordamos que:
“por esta razão, Lacan irá
constatar que o Real de que a Psicanálise deve dar conta é, paradoxalmente, ‘o
que não anda’, e, por isto, fora ela, todos os outros discursos anteriormente
citados [o educar, o governar, o psicanalisar e mesmo o discurso da ciência],
apostam na reversão das impossibilidades, mesmo a religião, ela é a
impossibilidade tida [apresentada] como possível, por oferecer um sentido a
tudo, secretando e secretariando o sentido para além da duração da vida
humana, e, recentemente, ao mudar sua posição face à ciência, ela não a
condena mais à inexistência, como pretendia fazê-lo nos tempos da Inquisição,
por negação repressiva da evidência científica, negação do direito ao juízo de
existência, ela passou a se colocar no preciso lugar do único discurso capaz
de acomodar a angústia que afeta e/ou é provocada pela ciência”.(13)
Em função disso, podemos considerar que o apelo místico,
mítico e institucional operado historicamente pela Religião vem recortar o
social pelo delirante. Delirante porque a Religião procura sempre dar um
sentido absoluto e “meta-universal” para todas as coisas, encontrando,
conforme palavras de Lacan, “uma correspondência de tudo com tudo. Inclusive é
sua função”.
(14)
E Freud, também, fez referência a isto, quando nos apresentou um resumo do que
poderia ser considerado “a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma
proteção contra o sofrimento, através de um remodelamento delirante da
realidade”,(15) sob a forma acabada que assumiu a ideação religiosa na civilização ocidental,
senão vejamos:
“Tudo que acontece nesse mundo constitui expressão das
intenções de uma inteligência superior para conosco, inteligência que, ao
final, embora seus caminhos e desvios sejam difíceis de acompanhar, ordena
tudo para o melhor – isto é, torna-o desfrutável para nós. [...] essa visão
anuncia que as mesmas leis morais que nossas civilizações estabeleceram,
governam também o universo inteiro, com a única diferença de serem mantidas
por uma corte suprema de justiça incomparavelmente mais poderosa e
harmoniosa.”(16)
Diante da superestimação de tais proposições, Freud foi
levado a concluir que estas crenças são ilusões que poderiam ser comparadas “–
se considerarmos de forma apropriada as diferenças psicológicas – a delírios”.(17)
Ou, nas palavras do próprio Lacan, quando este nos fala –
ao retomar, em 1974, na “Entrevista coletiva com o Dr. Lacan”, o tema
do “Discurso de Roma” proferido em 1953 –, dos recursos inimagináveis
de que dispõe a Religião para apaziguar os corações e as mentes:
“E no que se refere a sentido, conhecem bastante. São
capazes de dar um sentido, pode-se dizer, verdadeiramente a qualquer coisa, um
sentido à vida humana por exemplo. Estão formados para isso. Desde o começo
tudo o que é religião consiste em dar um sentido às coisas que outrora eram as
coisas naturais. [...] A religião, digo-lhe eu, é feita para isso, é feita
para curar os homens, quer dizer, para que eles não se dêem conta do que não
anda”.(18)
Se este
saber se configura como prometaico desde sua origem, quais seriam seus
possíveis efeitos? A religião, para acomodar a angústia dos homens, tem um
lugar específico. Senão vejamos:>
“... a religião tem um
discurso que não só torna a origem [divina] do sentido secreto, sendo o
mistério, ou não revelável, ou por vezes, um segredo a ser revelado apenas
para os iniciados, mas também que segrega o sentido que lhe soa como
herético, sob a alegação de que não está contido no sentido original de suas
escrituras, e isto, sem dúvida, aponta para o racismo mental [tal
procedimento pode também ser realizado em nome de qualquer cientificismo de
época], responsável pela condenação das heresias em nome de secretariar,
fazer-se porta-voz, no mundo dos homens [agostiniano], de Deus, assim sendo,
seu mistério, pelo menos na religião do papado, de Roma, para Lacan a
‘verdadeira religião’, remete-nos, por ser mediatizado, à santidade,
[eterna] lógica iniciática de tabus, segredos, pecados e revelações”.(19)
Por isso
também Lacan nos disse: “a psicanálise não triunfará sobre a religião; a
religião é indestrutível. A psicanálise não triunfará: sobreviverá ou não”.(20)
Resta à psicanálise, portanto, apenas sobreviver ou não, porque,
conforme Mendonça, a Religião também converte a impossibilidade e o
mal-estar dela proveniente no mais confortável dos sentidos para o homem: o
da vida eterna. E o seu mistério, por exemplo, na religião de Roma, dita por
Lacan, a “verdadeira religião”, porque a sua santidade é mediatizável no
presente, apresenta uma lógica iniciática de segredos, tabus, pecados e
revelações. Por isso, “não nos causa surpresa o fato da religião como um
todo e, especialmente, da verdadeira religião, a do papado de Roma, ter(em)
sobrevivido a tudo”.(21)
É
oportuno, neste ponto, (re)lembrar o que Jacques Lacan chama de a
“verdadeira religião” e diferenciá-la do que ele chama de “falsas
religiões”. A seu juízo, a verdadeira religião é a religião cristã por ser a
única que estabelece uma intermediação simbólica entre Deus e os homens
através de um porta-voz. Só ela tem um Deus mediador, traduzível no
presente. Porque ela encontra uma saída simbólica ao colocar um 2º Moisés
hebreu, conforme o freudiano “Moisés e o Monoteísmo”,(22)
como aquele que, em nome de Deus, diz: “não matarás”. Essa mediação, que se
chama de “religare”, torna possível transmitir o Espírito Santo do
Pai ao Homem por intermédio de seu filho.(23)
Isso porque o filho, em “pureza”, também se fez homem. É isso que a
diferencia das chamadas “falsas religiões” que possuem um “Deus Natural” não
simbolizável, nem mediatizável no presente. Ou seja, um Deus impossível de
ser representado por idéias, imagens e/ou palavras. Logo, se este Deus é não
mediatizável, não se tem acesso a ele. Então, as chamadas “falsas
religiões”, quando praticadas ao pé da letra, em seus princípios
fundamentalistas, apresentam como impossível o acesso ao segredo de Deus,
que é, por sinal, um Deus severo cujos efeitos só são referenciáveis no
futuro, isto é, em existências posteriores, que se iniciam após a morte.
Este Deus, que é invocado nas formas delirantes de messianismo e/ou no
fanatismo camito-semita em conflito pela posse da “terra prometida”, se
aproxima do Pai Real quando Severo, que foi destacado pelo histórico Moisés
egípcio, tanto quanto aquele que autoriza a intolerância fundamentalista, em
nome de qualquer Lei Natural, requisitando a morte como “vendetta”.
Vide a motivação foraclusiva, de efeito perverso, do auto-sacrifício de
cunho “ideológico/religioso”, realizado pelo “homem-bomba”, enquanto certeza
de acesso, no “post-mortem”, à “verdade” de Alá (+ um palácio com 70
virgens).
Em todo caso, podemos reconhecer que essa saturação de
sentido, própria do delírio interpretativo operado historicamente pela
Religião, principalmente por aquelas que Lacan chama de “falsas religiões”,
a coloca no lado da megalomania. Mas, mesmo a “verdadeira religião”, para
ele, a religião cristã de Roma, através de seu apelo místico segredando o
mistério, o segredo do sentido, segrega tudo mais que não for pertinente a
aquele sentido. É aí que a Religião vai se presentificar por laços
perversos, vide os crimes contra a vida praticados na Inquisição Medieval.
Assim, na história dos genocídios, sabemos que Torquemada, “cristão-novo”
que era, na qualidade de inquisidor-mor da Espanha, assassinou,
relativamente(24) mais judeus que Hitler e/ou Stálin porque, conforme Mendonça,(25)
ocupou ali o lugar de representante, tal qual o 1º Moisés egípcio, de um A
(Outro não-castrado). Isso porque, no medievo, cultuou-se, de forma
hetero-hostil, a morte como o destino das heresias. Neste sentido se diz que
a questão da Religião é triunfar, pois, diante do dilema dos mestres,
“Vencer ou morrer”, ela conjuga obrigatoriamente: “Vencer ou Vencer”.
Pela mesma razão, Lacan também nos disse, na entrevista de 1974, que a chave
do futuro é da Religião porque ela visa o triunfo acima de todas as coisas,
ou seja, promete a vida eterna, a salvação. Sendo que, na década anterior,
como já referido, ele nos disse que o racismo viria do futuro... portanto,
já veio...
É importante ainda, do ponto de vista da
auto-exclusão psíquica, que se compreenda, de forma precisa, a “modalização”
auto e hetero-hostil dos laços sociais na atualidade. Para isso teremos que
nos reportar às teses lacaneanas expostas também nos “Escritos” sobre
a origem da agressividade. Logo, para se considerar a agressividade em suas
“modalizações” auto e hetero-dirigidas, “basta compreender o Estádio do
Espelho como uma identificação [egóica], [...], ou seja, trata-se da
transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem, o que é
indicado pelo uso, na teoria, do antigo termo imago”.(26)
Lacan então irá articular esta origem
egóica da agressividade à suposição, característica de sua conceituação dos
anos 30, onde uma identificação homeomórfica leva à exclusão e/ou à
indiferença para com o registro imagético de outrem, e então, por relacionar
à tal conceituação a “imago do corpo despedaçado”, nos mostrará a incidência
da agressividade egóica, quando psicótica, nos valores eletivos próprios das
tendências agressivas do Ego. Estes se localizam nas imagens de “castração,
emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, eventração, devoração,
explosão do corpo”. Em seguida Lacan irá articular este elenco imagético à
questão do corpo despedaçado, por serem imagens que agrupou “pessoalmente
sob a rubrica, que de fato parece estrutural, de imagos do corpo
despedaçado”,(27) incluindo-as numa “série de estados significativos da personalidade que são
as psicoses...”(28)
E, por confirmar, como sede da agressividade, um ego “natural” – o mesmo
que, por analogia com Prometeu (cf. Minotaure), irá ver como próprio
da origem paranóica do conhecimento humano – Lacan, ao nos dizer que a
tendência à morte é “vivida pelo homem como objeto de um ‘apetite’, [...]
realidade que a análise faz aparecer em todos os níveis do psiquismo”,(29)
indicará a vinculação desse “apetite”, pré-pulsão oral, ao “suicídio lento”
através da identificação homeomórfica com o corpo despedaçado. Deste modo,
ao fazer esta determinação por identificação imagética, de caráter
homeomórfico, à memória do corpo despedaçado, seu pensamento nos remete à
psicose na origem da agressividade egóica, mas também, no mínimo como
efeito, à agressividade auto e hetero-dirigidas (melancolização e/ou
assassinato) próprias da ação perversa.
Logo, se o efeito auto-hostil, da chamada
auto-exclusão psíquica, faz com que o drogadicto passe a gozar com a
possibilidade de sua própria morte, é estruturalmente plausível, devido ao
liame social que estabelece com a “ordem paralela” da criminalidade, que o
ato masoquista incida, também, sobre outrem. Ou melhor, é possível que a
psicose apresente, enquanto conseqüência, um efeito perverso. De fato, as
“guerras” do narcotráfico, entre falanges rivais pelo controle de um
território, sempre encontram justificativa na “alucinação verbal”, que
preenche a significação inacabada do delírio com alibis retóricos, que
apostam no princípio perverso-taliônico da “vendetta”. Aspecto que
também vem adquirindo visibilidade na mídia, a partir do procedimento
hetero-hostil adotado por certas “tribalizações urbanas” que, em suas
variantes xenófobas e racistas, por exemplo, os “Fliegen Scheiss” e
os “Skin Head”, assumiram uma retórica nacionalista (neo-nazista), de
conteúdo delirante, seja ele moral, eugênico e/ou econômico, como
justificativa social do ato perverso dirigido, principalmente, contra as
ditas “minorias”, que, aliás, seriam os verdadeiros terceiros excluídos;
vide a perseguição sofrida pelos “homossexuais”, “moradores de rua”,
drogadictos, “trabalhadores do sexo” e demais trabalhadores estrangeiros
(migrantes das mais variadas etnias), organizada por grupos nacionalistas
e/ou de extrema direita que proliferam em todas as partes do globo. De forma
geral, o assassínio de outrem praticado por estas “facções” é motivado pela
onipotência mimetizante do grupo, que se supõe “virtuosamente” escolhido
pela severidade de um A (Outro não-castrado), como expressão do principio
paranóico da “natureza eleita e/ou superior” que rege todos os procedimentos
“fundamentalistas”, racistas e segregacionistas.
Mas, em
relação ao registro da drogadicção propriamente dito, como já referido, se
irá levantar a hipótese, que é plausível após a reflexão lacaneana sobre a
psicose, de que há na afetação originária do drogadicto, a forma auto-hostil
de um gozo para com a morte.
Mesmo
porque, conforme Charles Melman, em “Alcoolismo, delinqüência e
toxicomania”, será na relação do sujeito com seu objeto que se
encontrará o registro mortal desta questão, ou seja, “o que se busca é,
evidentemente, a abolição da existência, ainda que seja uma abolição
transitória, momentânea. E sabemos qual é a busca de um extremo quanto a
esta abolição, quer dizer, a busca da morte”.(30)
Contudo,
faz-se necessária a preclusão do “desmame”, em função do “apetite”, para
que, diante da foraclusão do significante Nome-do-Pai, a droga seja adotada
como via de “gozo com a morte”, ou, nos termos da medicina organiscista,
crie “dependência física”, ou, nos termos da moral do senso comum, “vicie”.
Pois sabe-se que muitas pessoas, possivelmente a maioria, experimenta e/ou
utiliza drogas, eventualmente, pelas mais diversas razões egóicas, mas não
se torna um drogadicto de fato.
Todavia, o tema da drogadicção despertou
nosso interesse não só devido aos desafios encontrados no campo clínico mas
também pela amplitude dos efeitos objetivados na experiência social
cotidiana. Porque, pode se falar em sintoma na cultura, isto quando a
drogadicção for “inscrita, mesmo que nas entrelinhas, de forma não
explícita, não articulada como tal, no discurso que é o discurso dominante
de uma sociedade em uma dada época”.(31)
Tem-se,
então a articulação, graças à abolição da pulsão de morte,(32)
e também em virtude do culto prazeroso ao “Bem Supremo”, da
hiperdeterminação entre o que Lacan nos apontou e o que Freud, já em 1911,
havia denominado de “Princípio do Prazer”.
Neste sentido, é elucidativo confrontarmos os efeitos deste
discurso social adicto, encabeçado pelo “Princípio do Prazer”, com o que nos
antecipou, nos anos 30, o mestre de Paris n’ “Os Complexos
Familiares”. Ali, segundo Lacan, foi nos dito e já o citamos, que
a tendência à morte é vivida pelo homem como objeto de um “apetite”. Lacan,
então, irá concluir daí que tal tendência psíquica leva-nos também à
ancestralidade do “desmame”, ao dizer que é o apetite que se revela em
“suicídios muito especiais que se caracterizam como ‘não-violentos’, ao
mesmo tempo que aí aparece a forma oral do complexo: [...] envenenamento
lento de certas toxicômanias pela boca...”. Sendo que a escuta “desses casos
mostra que, em seu abandono à morte, o sujeito procura reencontrar a imago
[ancestral] da mãe”.(33)
Assim,
em face da reflexão lacaneana sobre a impressão deixada no psiquismo por
esta imago ancestral, podemos considerar o “apetite” como preclusivo em
relação ao “desmame”, porque a identificação homeomórfica com o seio
despedaçado remete à ficção mortal da Coisa (das Ding), revestida da
imago, também, despedaçada de mãe ancestral. E, no momento em que isso é
fixado no psiquismo há uma foraclusão prévia do Nome-do-Pai e de sua
conseqüência que é o Outro (), como Desejo de Mãe, pois a aceitação do desmame
seria equivalente a uma separação do imaginário do Desejo de Mãe. Do
contrário, quando nos deparamos com o apetite no lugar do desmame, devido à
recusa deste, por efeito de trauma, podemos observar, conforme “Os
Complexos Familiares”, o estabelecimento de uma tendência à ruína
psíquica que aponta sempre para o encontro com a morte. Ou ainda, depois de
ocorrida a fixação no seio despedaçado e não no seio como primeiro objeto
fálico oferecido ao falante, ocorre, também, a fixação na mãe ancestral
despedaçada, que evoca a memória da morte e o encontro progressivo com esta,
daí o dito “suicídio lento” e não a “alteridade” do Desejo de Mãe, tomada
como porta-voz do Nome-do-Pai. Seria esta intervenção simbólica, enquanto
Não-do-Pai, que convocaria a “diferença”, reduzida depois à dimensão
imaginária do “semelhante”(34)
Mas, em seu lugar, a preclusão do “desmame” instala a Verworfen, isto
é, estabelece o lugar de excluído, que é o lugar de sujeito do delírio,
S(A), onde o que foi recusado pelo simbólico – porque no lugar do desmame,
da castração e da inclusão no sintoma parental, se fixou o “apetite” –,
volta no Real, sempre no mesmo lugar.
Assim
sendo, o caráter adicto do discurso maníaco da sociedade de consumo, pode
estar denunciando uma falha em nosso estilo de vida, ao confirmar o fracasso
da tentativa de suturar uma falta que deveria ser constituinte, desde sua
origem, não só em termos individuais, mas também coletivos. Falta esta que,
na realidade, não se suporta sem uma certa dor e/ou insatisfação pois:
“... a Coisa Freudiana [das
Ding] é um objeto para sempre perdido do Desejo e que provoca o fato de
haver, entre outras estruturas, o Inconsciente, por não haver,
paradoxalmente, objeto que satisfaça o desejo humano, por isto dito
histérico e insatisfeito, razão última, a seu juízo, de nosso mal-estar
civilizatório”.(35)
Mais ainda, é importante esclarecer que a
drogadicção enquanto um sintoma na cultura, não é abordável pela via
exclusiva da escuta clínica, pois convoca uma multiplicidade de fatores
externos ao consultório, não podendo, por isso, ser reduzida à chamada
“clínica de divã”. A droga se impõe como um tema extensivo, porque
“tratamento” de droga difere do alcoolismo ou tabagismo já que,
preliminarmente, o fumo e o álcool não são drogas ilícitas.
A droga, em seu caráter ilícito, é um objeto de suposta satisfação que
não pode ser adquirido pelas ditas “vias normais”, isto é, necessita ser
adquirido através de subterfúgios, de procedimentos clandestinos, ilegais,
em que o tráfico, por sua vez, serve como fonte de agenciamento para
outras tantas atividades criminosas. Porque a lógica disjuntiva da
dependência, seu gozo suicida, encontra complemento na perversão, ao ser
incorporada pelo paralelismo facínora dos “comandos criminosos”. Combinação
que vem produzindo, nas últimas décadas, efeitos de desagregação social
nunca vistos em âmbito nacional. O “negócio” do narcotráfico passou a ser o
meio da drogadicção fazer liame social perverso, ao se ligar ao controle,
pelo terror, das populações subalternas, operada na e pela favelização,
aproveitando-se da exclusão sócio-econômica e provocando, entre outros
procedimentos facínoras, a onda de seqüestros, o contrabando de armas, o “narco-terrorismo”,
a corrupção do Estado, a prostituição, a sevícia, etc. Fato que atesta,
preliminarmente, a qualificação deste procedimento no âmbito do que Lacan
denominou de “sujeito do prazer”, ou seja, no campo clínico do “sujeito
sem-nome”, dito sujeito do delírio, S(A), mas com evidentes conseqüências no
âmbito do perverso “sujeito patológico”, onde ocorre o “desejo anônimo”, com
seus efeitos de desagregação perversa existentes no nível extensivo do laço
social.
Nestes termos, um dos exemplos mais recentes de como se faz
“de Kant uma flor sádica”(36)
– aproveitando a referência feita por Lacan, na entrevista de outubro de
1974, ao seu artigo “Kant com Sade”(37),
mesmo que servindo de dado interno ao espetáculo, isto é, ao “show-business”
midiático e à manipulação oficial de uma “razão cínica”(38)
estadunidense –, é o do Talibã que, valendo-se dos ganhos derivados do “gozo
com a morte” dos “dependentes” de heroína do mundo inteiro, patrocinou o
exercício institucional da intolerância, da exclusão e da disseminação do
terror, através da imputação de “castigos” sobre todos aqueles tidos como
“infiéis” (heréticos), em nome da suposta e literal vontade de um Deus
severo. Além de oferecer suporte financeiro e territorial para a Al Qaeda,
organização consolidada em torno do saudita Osama bin Laden.
Especificamente, neste caso, a drogadicção, a Religião, o Governar e o
Educar se relacionam mutuamente, em seus princípios foraclusivos, os quais
se hiperdeterminam para desencadear, em escala local e mundial, uma série
crescente de efeitos perversos e perversistas, o que se aplica, também, à
constante invocação de Deus e/ou Alá, por parte de George W. Bush e/ou
Saddam Hussein, como justificativas “psicóticas” (fundamentalistas) para
praticar vingança racista do “11 de setembro” e a perversão da guerra.
Binômio Kant/Sade que pode também ser pensado, por analogia, com uma frase
do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor: “A ‘Mãe de todas as bombas’ irá
parir milhões de ‘homens-bomba’”,(39) numa referência explícita a superestimação de caráter megalômano dos EUA,
enquanto motivação delirante, que traz em seu bojo o germe da perversão
sistêmica.
Mas, se no exemplo anteriormente citado, a drogadicção e a
Religião se relacionam mutuamente, é em oposição à psicanálise. A
psicanálise, por se referir ao sintoma de, refere-se à interpretação
fundamentada na transferência, que se opõe ao delírio interpretativo, que é
megalômano.
Assim, em termos gerais, as conexões (inter)nacionais do
narcotráfico impõe, de forma tentacular, seu poder sobre os diversos
segmentos da sociedade através da ilegalidade de artifícios financeiros,
políticos e policiais, corrompendo a sociedade em suas bases. E os fatos tem
mostrado que, por vezes, terroristas (fundamentalistas, nacionalistas e/ou
de extrema esquerda) têm-se associado a traficantes, como no caso da
“conexão” colombiana do Sr. “Fernandinho Beira-Mar” com as FARC, colocando
em risco uma parcela considerável da população mundial. Este culto à
violência se funda no desrespeito a todo e qualquer fundamento ético que, em
psicanálise, é referente à Lei-do-Pai. Isso produz efeitos de desagregação
social que vão colocando em xeque, num amplo sentido, a manutenção da vida
em sociedade. Portanto, apesar da drogadicção repercutir como um sintoma
(clínico), para a cultura, ela não é um sintoma em si. Ela é um sintoma na
Cultura e a psicanálise intensiva, por si só, é ineficaz enquanto tal, tanto
para abordá-lo, quanto para dar-se conta de seus efeitos. Porque a questão
da droga envolve a família, a corrupção, o poder e a paranóia, como causas
sociais possíveis e a perversão, bem como a perversão facínora daí derivada,
como efeitos.
Contudo, o fato da Psicanálise Extensiva
explicitar a motivação egóica da agressividade, emanada de um “ego original”
(natural), bem como seus desdobramentos perversos, não pode servir de álibi
para que se acione socialmente o binômio segregação/agressividade, também,
de origem paranóica. De nada serve a purgação da vitimologia, se ela se
converte em pretexto para o direito paranóico de vingança da suposta vítima,
mesmo que travestido no “direito de justiça” que quer ver banida a
perversão. Isso seria denunciar um tipo de violência e compactuar com outro
bem ao estilo do “cristão novo”, onde os castigos inquisitoriais remetem à
vingança do cristão da catacumba. Portanto, ao mesmo tempo que se faz
necessário, elucidar as condições psíquicas e sociais do exercício da
agressividade egóica, faz-se também necessário alertar para o perigo de “vendetta”,
enquanto pretexto da “reparação das injustiças”, comportamento que, na
verdade, transforma a suposição de justiça em “linchamento moral”. Porque,
malgrado a pretensão de que tais procedimentos possam abolir a perversão
facínora e os efeitos “traumáticos” da “barbárie” social para sempre, o que
se evidencia é justamente o contrário: o reforço do ciclo de horror e morte.
Pois a disseminação social da violência (agressividade), em suas formas auto
e hetero-hostis, mesmo que justificada nos mais belos ideais de reparação
socio-morais do “bom-mocismo” psicótico, encontra, paradoxalmente, sua
genealogia inscrita nas situações de segregação/agressividade sejam elas de
cunho social, psíquico, “legal”, econômico, cultural, etc.. Assim, o
drogadicto, ao se engajar em situações que propagam a hetero-hostilidade,
provoca, como resposta da sociedade, reações de natureza segregacionista,
que fazem de sua imagem mais um episódio da história do racismo.
Ao contrário, se a sociedade, a exemplo de
Freud, apostasse em Eros, poderia reconhecer a diferença, por conciliar a
tolerância com o Heteros da discórdia, evitando assim a prática do racismo
(mental). Contudo, não é o que nos vem apresentando a mídia, que parece apostar
em notícias que exploram o impacto social, por um lado, do aspecto terrificante
das ações criminosas face à impotência das supostas vítimas e, por outro,
alimentando um imaginário social, cujas tensões agressivas “padronizadas”
explodem no ressentimento paranóico da turba, protagonista caótica de
linchamentos e/ou se polariza, nos atos “justiceiros”, premeditados por “anjos
exterminadores”, sempre dispostos a conjugar desejo com direito de matar (vide
as ações homicidas da Escuderia Detetive Le Coq no Rio de Janeiro
e em São Paulo). Contudo, no que toca a questão da drogadicção em toda
sua dimensão extensiva, não se trata de discriminar (segregar) o drogadicto,
o que não implica uma discriminalização “pseudoliberal” do consumo, conforme
as políticas de “redução de danos”, mas remete à “escuta” dessa busca gozoza
e letal por prazer que o drogadicto desenvolve, bem como das formas de
comparecimento desse gozo no social.
Em suma, abordar a drogadicção no momento
atual e “performático”, que é caracterizado inclusive pela falência das
instituições e pela progressiva desagregação do que existia de simbólico na
paternidade, requer a consideração dos enlaces sociais para além da
singularidade do consultório. Se a questão envolve, entre outras tantas, a
ação do Estado, da justiça, do mercado e da mídia, envolverá também a
família. Especialmente, em nossos dias, levando-se em conta aquilo que
Jacques Lacan apontou como sendo o “declínio social da imago paterna”, pois
ele irá vê-lo como um dos fatores que responde pela crescente vivência de
agressividade em que estão mergulhando as sociedades modernas. Por isso nos
dirá: “declínio condicionado pelo retorno de efeitos externos do progresso
social no indivíduo...”, mas também “...intimamente ligado à dialética da
família”.(40)
E família, para a psicanálise, não significa instituição
sócio-antropológica e/ou legal, muito menos mera vivência de transmissão
biológica, mas sim o lugar e o momento da transmissão do “sintoma parental”.(41)
Logo, a drogadicção também está associada ao declínio da função paterna
enquanto transmissora de uma herança subjetiva, ou seja, de um referencial
simbólico e amoroso capaz de oferecer a possibilidade desse sujeito afirmar
seu valor por outras vias que não a auto e hetero-exclusão familiar e social
da drogadicção. Portanto, como a origem da drogadicção poderá,
possivelmente, ser também buscada na gênese da psicose e esta, de acordo com
a psicanálise, é efeito da transmissão perversificada do sintoma familiar –
sendo afetada, aguçada e provocada por situações de desagregação social – o
drogadicto, ao se engajar em situações de exclusão, de caráter auto e
hetero-hostil, provoca, como resposta da sociedade, reações de caráter
segregacionista. Ou melhor, a hiperdeterminação entre auto-exclusão psíquica
e segregação social faz da imagem do drogadicto mais um capítulo da história
do racismo, que é, figuradamente, a estória das sucessivas segregações, das
excomunhões, do combate às heresias.
Por isto, mais do que incentivar a repressão do patriarcado, outrora
ligada à severidade da “moral e dos bons costumes”, ou a ilusão “modernosa”
dos novos tempos, inscrita nos termos do culto idólatra aos artefatos de
consumo, que vêm justificando, inclusive, a abolição da Lei, devemos
entender que é preciso transmitir Lei e Desejo à descendência (filia). Em
suma, se a sociedade não for capaz de oferecer nenhuma transcendência a sua
filiação, para além da suposição maníaca iluminada pelos holofotes de uma
impostura mercadológica, não é de se espantar o possível triunfo da
drogadicção, em seus efeitos perversos: o narcotráfico e a exclusão social
do racismo, dentre outros sintomas (sociais), sobre os escombros do que um
dia foi o projeto da própria cultura. Assim, do ponto de vista do drogadicto,
a consideração da drogadicção, enquanto um sintoma (social) na cultural,
implica a articulação de quatro procedimentos, que são:
1º) a
questão da agressividade egóica, por vezes, foraclusiva;
2º) a
fixação, via identificação imaginária, de caráter homeomórfico, com a imago
do “corpo despedaçado”, na constituição do “apetite”, hiperdeterminado ao
gozo com a morte, através do “suicídio lento”;
3º) a
falência da família, social e trasmissivamente como lugar de produção do
sintoma parental;
e 4º)
a sua inserção na perversão social, via identificação imaginária com a
agressividade egóica, por se constituir, extensivamente, num sintoma
(social) na cultura, onde se irá articular, através da função estratégica da
mídia (mercado), do poder paralelo da criminalidade e da corrupção do
Estado, ao triunfo perverso-paranóico do duo agressividade-segregação.
________
(1) Ao dizer, em 1969, que o “Racismo vinha do futuro” Lacan não só o indica como
o primado da intolerância, mas também, adverte-nos que a segregação, tema
psicótico, é composta do preconceito e da exclusão, assim se apresenta
primeiro como “heresia”, depois como “excomunhão”.
(7) MENDONÇA, A. S. A Genealogia do conceito de psicose no pensamento de Lacan.
Opinião Acadêmica, RJ, n.º 326, 2003. Disponível em:
www.riototal.com.br/coojornal/antoniosergio014.htm.
Acesso em: 02 ago.
2003.
(8) MENDONÇA, Rita Franci. Depressão: estrutura psíquica ou efeito comportamental.
Opinião Acadêmica, RJ, n.º 318, 2003.
Disponível em:
www.riototal.com.br/coojornal/ritamendonca.htm .
Acesso em: 08 jun. 2003.
(10)
SILVEIRA, Éder. Sanear para integrar: a cruzada higienista de Monteiro
Lobato. Texto apresentado ao Grupo de Pesquisa em Estudos Sociais e
Regionais da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Sta. Cruz do Sul, 2003
(cópia xerox).
(12)
NIETZSCHE, Friedrich. O Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Editora
Presença, 1973, p. 64.
(17)
FREUD, 1976 (1928), p. 44.
(18) LACAN, 2001, p. 13 et seq.
(23) Por isto o sentido hebraico de messias, masiach, o que vem de
Deus (no futuro), foi vertido via Aramaico, para o Grego e de lá para o Latim
Clássico (de Roma) como o “untado em óleo”, em oliveira. Depois assimilou-se,
a este campo semântico o sentido de ungido “untado em óleo de oliva”.
Será a cultura “moçárabe” (cultura mulçumana dominada no Ocidente ibérico e
francês) que a ampliará para o sentido próprio do Cristo, e assim, foi que
evoluiu de “untado em óleo de oliveira” para “untado em azeite”. Como se vê, a
religião do Religare, por via semântica, ocupou a principal cena do
intercâmbio cultural nas mentalidades Romana, Gótica, Moçarabe e Clássica
(Quinhentista). [conforme co-orientação de A. S. Mendonça realizada no dia 28
de janeiro de 2003, no Centro de Estudos Lacaneanos]
(24)
Sabe-se, conforme especial produzido pela Rede Estatal de Rádio e Televisão
(BBC), sobre o “Santo Ofício”, apresentado em 14 de dezembro de 2003 na TV
Cultura, que somente a Inquisição espanhola assassinou algo em torno de cinco
mil pessoas.
(28) Ibidem, p. 113.
(32) Se o masoquismo primordial, ao produzir o assassinato da Coisa, coloca a
libido no circuito pulsional, um dos efeitos disso, na 1ª identificação, seria
justamente a constituição da “pulsão de morte”, assim, denominada, porque em
sua origem estaria a morte da Coisa (das Ding). Já, o dito “instinto de
morte”, seria evocado caso Narciso visse, retroativamente no Espelho, na
própria imagem ancestral, a morte da Coisa.
(38) De acordo com Mendonça, o procedimento denominado “Razão Cínica” nada mais é
do que “um modo de se fazer o liame social da perversão, de esta se tornar uma
impostura, e Zizek irá vê-la como sendo a forma dissimulada e disseminada
daquilo que se poderia chamar de idolatria perversa [...] [uma agressividade
difícil de identificar] quando esta é dissimulada no ‘bom-mocismo’ que se
esconde nas ‘boas intenções’ político-morais. A agressividade ali se exerce na
medida em que se serve de pretexto moral para que se suprima do tecido social
uma série de procedimentos que, se praticado este ideal libertário, deveriam
estar ali. Sabe-se que a sociedade não poderá
existir, senão em mal-estar, e pelo menos dever-se-ia conseguir que se
abrigasse a única coisa que justifica qualquer democracia, ou seja, a
heterossexualidade da diferença”. (In: A Psicanálise, a Mídia e o Consumo.
Porto Alegre: Edições do CEL, 2003, p. 65-66.)
(39)
Jornal Nacional de 24 de maio de 2003, Rede Globo.
(41) “Sintoma” em psicanálise adquire um sentido diferente do sentido médico
atribuído ao termo. Sintoma na especificidade da cogitação psicanalítica
adquire valor de referência fálica singular, de nomeação primordial. E, o
Sinthome (Sintoma Fundamental) é, por sua vez, indispensável para a
estruturação do sujeito desejante.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ernesto Söhnle Junior é
Psicanalista, em formação no Centro de Estudos Lacaneanos, CEL/RS (www.celacan.com.br),
Mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul,
UNISC (dissertação com co-orientação do Prof. Dr. Antônio Sérgio Mendonça
da Universidade Federal Fluminense – UFF).
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