11/06/2004
Número - 372

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

OS IMPASSES FREUDIANOS E A LEITURA NO CAMPO LACANIANO
QUE APONTAM FIODOR DOSTOIEVSKI COMO FONTE LITERÁRIA DO
CONCEITO PSICANALÍTICO DE MANIA.

Valéria Pires


       Preliminarmente percebe-se mais uma vez a ocorrência do saber literário como fonte conceitual da clínica psicanalítica. Isto nos remete, de saída, às relações conceituais e discursivas sobre Psicanálise e Literatura; e, neste sentido fazemos nossas as palavras de Antonio Sérgio Mendonça:

" Se Freud sempre se interessou pela obra-de-arte, a idéia do belo (ao contrário de Hegel e Kant) o deixava contudo, indiferente, assim como a história das formas, pode-se concluir que se em Freud, como nos indicou o próprio Lacan, vai-se tentar "encontrar a função que teve na criação o fantasma original... quando ele estuda Leonardo da Vinci", é no próprio autor invocado (Lacan) que iremos encontrar a "lituraterre" (a terra litoral do literal literário) como o território do poético... Nesse momento reduz o ato poético a uma letra que, composta pela miragem da dissimulação imaginária, instaura o significado e, ao mesmo tempo, tenta apagar o lugar de analista ocupado pelo texto, atribuindo-o ao leitor o lugar de analisando."

[ MENDONÇA, ANTONIO SÉRGIO - PSICANÁLISE E LITERATURA - O ATO POÉTICO PP. 68 / 69]

       Estabelecida esta conclusão, dela se infere que não só o texto ocupa o lugar de analista de uma transmissão, mas também que a Literatura, assim como as Artes Plásticas (escultura e pintura), tem servido de fonte conceitual para o discurso psicanalítico. Assim, iremos observar na letra lacaniana a consideração de Leonardo da Vinci, Don Juan e Joyce, por exemplo, como fontes dos conceitos psicanalíticos de sublimação, heterossexualidade e sintoma.

       Senão vejamos:

"Leonardo da Vinci foi ele próprio objeto de uma idealização, senão de uma sublimação, que começou durante sua vida, e que tende a fazer dele uma espécie de gênio universal e, além disso, precursor espantoso do pensamento moderno "

[LACAN, Jacques - O SEMINÁRIO, LIVRO 4, RELAÇÃO DE OBJETO P. 448]



" Lacan, então, vai diferenciá-lo ( Don Juan, conforme a relação de objeto) da sublimação em Leonardo da Vinci que foi o ícone imagético do Humanismo novilatino e da circularidade quinhentista, no nível da experimentação, sendo o "homem de ação" do espírito objetivo ... E isto porque, Don Juan, por não se angustiar com, nem angustiar as mulheres, pode representar (para elas) a necessidade, própria da castração, de se transmitir a verdade não toda, em ficção por metáfora, desde que, para isto se estivesse referido ao lugar de objeto a, quando tomado como legado ( por ser semblante) heterossexual de função paterna "

[ MENDONÇA, ANTONIO SÉRGIO - A TRANSMISSÃO - LACAN: DA MAGIA À PSICANÁLISE - P. 125 (DO ORIGINAL)]



" O avesso sintomático é encontrado em Joyce, santo-homem designado por Lacan como (santificação do sintoma)... "

[ MENDONÇA, ANTONIO SÉRGIO - PSICANÁLISE E LITERATURA - O ATO POÉTICO P. 69]

       Este mesmo tipo de relação conceitual será encontrado face à obra literária de Dostoievski. Ali, no sentido de Freud, configuraram-se as relações, como já demonstramos, entre obsessão e culpabilidade enquanto um marco fantasmático. Mas, assim como o campo lacaniano retomou e reconsiderou contribuições freudianas, (vide Hans, onde para Freud tratava-se da relação fobia/neurose e para Lacan da relação entre fobia/perversão), encontraremos a leitura de Dostoievski como fonte do conceito psicanalítico de mania a partir, sobretudo, das considerações emitidas nos trabalhos de Antonio Sergio Mendonça e Sandra Beck da Silva Etges. Mas antes, nos reportaremos, conforme a citação que segue, à explicitação no pensamento de Lacan de relação: Hans, fobia, perversão.

"... e, do Hans freudiano, por dizê-lo explicitamente fetichista enquanto morfose "

[ MENDONÇA, ANTONIO SÉRGIO - A TRANSMISSÃO - LACAN: DA MAGIA À PSICANÁLISE - P. 125 (DO ORIGINAL)]

       Neste trabalho procuramos reconstituir a reconsideração da questão psicanalítica encontrada pelo texto de Fiodor Dostoievski - Os Irmãos Karamazovi. Assim, em 1998, ao colocar a questão que desenvolveu depois em 2002, Antonio Sergio Mendonça afirma:

"... A mania torna-se, pois, uma "exposição" para além da câmara secreta, é a própria degradação social auto-requisitada, porque o que há de melancólico nesta estrutura é que o ato masoquista é requisitado pelo sujeito, é a auto-punição, daí, também, a aparência do fantasma obsessivo (foram, sem dúvida, estas duas últimas conclusões que levaram Freud em Dostoievski, vida e obra a supor ali a presença melancolizante do fantasma obsessivo). Tanto Dostoievski quanto seu alter ego Dimitri se desinteressam da requisição viril, tornando-se o autor, aparentemente, místico mas, o seu gozo, na realidade, era com o lugar degradado...
Ele se torna aquilo que Hegel chamou de indivíduo, alguém que sequer participa da luta entre as duas consciências (de si e para si) ; seja para ocupar o lugar de vitorioso, seja para ocupar a servidão. É alguém que se predestina a uma servidão imanente... mas, indivíduo é aquele que abre mão disso, sequer luta, tanto que Hegel chega a dizer "vamos deixá-lo viver a sua vida." Se é que isto é vida, só se esta for o oposto da comédia grega (Aristofanes) onde Lacan localiza o que Freud chamou de "pequenos prazeres"


[MENDONÇA, Antonio Sergio - A TRANSMISSÃO - SOB O SIGNO DA DEGRADAÇÃO - P. 228]

       Já, como dissemos, em seu texto conclusivo em 2002 o autor citado afirmará que:

"Assim visto, este lugar de excremento designa o objeto degradado por ser, por suposição, idêntico ao de assassino do Pai, no caso Hamletiano, podendo ainda, como em Dostoievski, fazer a suposição, graças à punição auto-requerida da fantasia de parricídio, de ele ser o próprio assassino do Pai, " um parricida bovárico" que não se é, um Outro que não se é. Assim posta, a mania, então, provoca uma transformação do ponto de vista do masoquismo erógeno que ainda se abate sobre uma estrutura melancólica... Pois, na mania realiza-se o objeto " morto", outrora Real, transformando-se o mesmo em degradado, ou seja, "morto em vida"... Além disto, o masoquismo erógeno, daí derivado, estabelece o gozo particularizado do maníaco que, para tal, incorporou pulsionalmente, como obrigatório, o lugar de excremento, não havendo nem renúncia, nem luto, nem privação, e sim a tradução imaginária deste lugar, dado por um objeto simbólico, com o valor de ato: o assassinato paterno, cujo sentido imaginário manifesta não a paixão pela penúria na forma de miséria (como na melancolia), e sim a paixão humilhante pela degradação humana, que é própria e se dará sempre no nível da desvalorização fálica, sexual e social do maníaco. Do mesmo modo que o fetichista suturava o "horror da castração"... o maníaco sutura o "horror da fantasia de parricídio", sinônimo para ele de uma necessária suspensão da castração, constituindo-se, como objeto degradado, vendo-se como seu suposto autor e, no caso de Dostoievski, autor de um crime que não cometeu..."

[MENDONÇA, Antonio Sergio - A TRANSMISSÃO - MANIA ( CONFORME SUPOSTAMENTE, HAMLET E DOSTOIEVSKI) - PP. 107 / 108 / 109]

       Já o trabalho de Sandra Beck Etges da Silva apresentou uma concepção análoga e, teve como fontes os trabalhos, já assinalados, de Antonio Sergio Mendonça e de Serge André - A Impostura Perversa:

"A mania é uma estrutura clínica singular sobre a qual temos, relativamente, pouca bibliografia. Serge André; em A Impostura Perversa, é um dos poucos que se dispôs a escrever sobre a Mania e aqui lhe acrescentamos os ensinamentos do texto, sobre o mesmo tema, de Antonio Sergio Mendonça em A clínica em Lacan... Foi Serge André, em A Impostura Perversa, que levantou a hipótese de que Hamlet, como toda questão obsessiva, contém a possibilidade de configuração maníaca, repetindo-se o exemplo de Dostoievski; bastando, para isso, que Hamlet não interrompesse (por solicitação da vingança paterna) a identificação a Cláudio como falo Imaginário da mãe;... Ele estaria, também, se identificando ao objeto degradado moralmente que assassinou seu pai, e, no lugar de uma neurose, teríamos a recusa e o desmentido da servidão referente à figura do Pai, e o conseqüente lugar metonímico de degradado porque sobredeterminado ao lugar de assassino desse Pai...
O exibicionismo do maníaco é verbal, sua degradação é cumulativamente moral e social, porque ele apresenta como impostura o lugar de um "falastrão" degradado porque supõe, como na leitura de Os irmãos Karamazovi de Dostoievski, feita por Freud, que matou o pai que jamais matou. Segundo Antonio Sergio Mendonça, "Dostoievski escreveu esse romance não para sublimar (o parricídio) mas para convencer a si e a todos que praticou o parricídio e, assim, apesar de, em certo momento, ser considerado o mais importante escritor russo, atribuiu o lugar de Pai Real do Czar, passando a cultuá-lo misticamente, vestindo-se como "um beato", não se importando de ser "traído" pela mulher, e se desmoralizando também por dívidas de jogo" ... "


[BECK, Sandra. A TRANSMISSÃO - MANIA OU "PAIXÃO PELA DEGRADAÇÃO". PP. 175 / 176 / 177]

       Desta maneira fica estabelecida, a nossa leitura, a partir de Serge Andre, Sandra Etges e Antonio Sergio Mendonça, da consideração da questão maníaca em e a partir do romance de Dostoievski.

       Será isto que em seguida procuramos aprofundar, estabelecendo uma contra forma com o que é aposto no Hamlet Shakesperiano. Comecemos por citar Serge Andre, pois este autor refere-se em sua obra não só à distinção entre mania e melancolia, mas também aos possíveis vínculos deste tema com a questão Hamletiana. Portanto, antes de abordarmos o conceito de mania na obra de Serge Andre, faz-se necessário trabalharmos algumas contribuições referentes ao estatuto clínico das perversões, neste reproduzimos, parafraseando, até porque já citamos em demasia, os argumentos teóricos - clínicos que Sandra Beck Etges da Silva expõe em seu trabalho publicado no CEL / RS ( boletim interno ) intitulado: A Clinica em Lacan. Lá se diz que:

       A contribuição teórico- clínica do ensino de Jacques Lacan ao estudo das Perversões tem sua origem na reconsideração e incorporação do conceito freudiano de Renegação, sinônimo de Verleugnung. Assim, Verleugnung, além de significar recuso e/ou repúdio da castração, como Freud a conceituara, passa a cogitar, também, com Lacan, do desmentido da figura paterna, seja do Pai Simbólico ou das modalidades de Pai Imaginário enquanto Ideal, Pai Servil ou Pai Potente.

       Sendo assim, se o desmentido desse Pai Real privador do desejo abater-se sobre o Pai Ideal, teremos a Fobia; se incidir, sobre o Pai Simbólico teremos a Perversidade; e caso incida sobre o Pai Servil, sob forma de "fraude materna", teremos a mania; e como recusa do Pai Potente, teremos o Fetichismo.

       No âmbito clínico das Perversões, do ponto de vista do campo Lacaneano (campo do gozo), se incluirá: o Fetichismo e a Fobia. Será Serge Andre, em A Impostura Perversa, que cogitará da mania neste mesmo campo.

       O Fetichismo é o grande exemplo da ocorrência da renegação na obra de Freud, em O Homem da Glande. O objeto-fetiche é sempre um substituto para um pênis específico e muito especial que fora importante na infância mas, posteriormente, renegado.

       Então, no Fetichismo, é necessário haver uma zona erógena consistente mais uma descoberta anexa, um mais gozar, para haver a constituição do objeto-fetiche que, segundo Freud, seria um substituto da suposta falta do pênis na mãe e, portanto, estará sempre sobre determinada ao horror à castração (ou seja, à rejeição de uma ausência sexual anatômica: a do suposto pênis materno) e à anulação da lei edípica universal, que proíbe incesto. O fetichista constrói um "monumento" consistente (conforme expressão do próprio Freud) para si próprio, para que não ocorra com ele a amputação peniana que, por suposição sua, ocorrera com a mãe por ação de um Pai Privador. Para Lacan, o Fetichismo, além de significar recusa e/ou repúdio da castração, é, também, um desmentido do Pai Potente Ideal pela ação privadora do Pai Real, e tem como conseqüência a suspensão da castração e de seus efeitos. Os efeitos da castração são o inconsciente e a neurose. Logo, se há fetichismo, há a suspensão do inconsciente, há o trancafiamento do Superego e, consequente, anulação da lei do Pai. O Fetichismo também, se caracteriza pelo desmentido do Pai.

       Lacan contribui para a clínica das perversões fazendo uma leitura diferenciada da feita por Freud sobre Hans. Freud diagnosticou Hans como neurose. Para Lacan, no entanto, o que singularizaria Hans seria o fato de ele ter sido fetichizado por uma mãe castrante em cumplicidade com sua avó paterna e, por isso, Hans, para Lacan, passa a ser clinicamente uma modalidade singular de fetichismo que é a Fobia, onde a aversão ao Pai Real não consegue ser simbolizada e, por isso, toma a forma ambivalente de temor castrante da mãe, deslocado para o significante "cavalo", e ele, Hans, é constituído como fetiche dessa mãe.

       A fobia, em Hans, ocorre em função do desmentido do Pai Ideal. Logo, a Fobia é o avesso da castração, onde a aversão à angústia (sinônimo de Fobia) toma o lugar da angústia de castração e, conforme Lacan, Fobia é, assim, " a sentinela avançada contra a angústia".

       Aqui podemos destacar, nitidamente, a diferença entre a fobia em Hans e o fetichista, ou seja, o fetichista coloca a mãe como castrada e, por identificação, teme, perder seu pênis elegendo um "objeto fetiche" no lugar da suposta castração. Já, Hans é colocado, pela mãe, (fetichista) neste lugar e não pode perder o que não adquiriu.

       A mania é uma estrutura clínica singular sobre a qual temos, relativamente, pouca bibliografia. Serge André em A Impostura Perversa, é um dos poucos que se dispôs a escrever sobre a Mania, e aqui lhe acrescentamos os ensinamentos do texto de Sandra Etges, supervisionados pelo doutor Antonio Sérgio Mendonça.

"Esta estrutura se forma pelo fato de que, por efeito de " fraude materno", o Pai Real Privador desmente o Pai Servil Imaginário, por isso que Freud a considerou próxima da obsessividade; mas aqui, não há sequer uma invasão fálica, há sim um desmentido daquele que postava a função fálica, por fraude perversa. Freud não previra a mania como estrutura clínica, daí a não percepção de que Dostóievski tratava-se também da configuração maníaca do desejo, já que ele evocava a degradação em vida. Freud observara ali uma mera questão obsessiva... A mania é uma estrutura complexa porque é constituída, em princípio, de "restos metonímicos" de três estruturas: nela, o ato masoquista incide sobre o sujeito, como na melancolia; nela tem-se a identificação ao objeto causa de desejo, objeto a, no lugar do Outro (A) como no fetichismo ( só que aqui, o objeto a não é a mãe e sim o objeto a destacado do Desejo de Mãe); nela tem-se, também, como na frustração obsessiva, a indicação de um lugar, por efeito da eclosão da "fraude materna", equivalente ao lugar de objeto Real, que na frustração é morto, e na mania é equivalente a degradação (morte em vida). O maníaco dá, a sua própria exposição, valor de fetiche, ele não é como o fóbico, fetiche de uma mãe castrante, ele não é como o fetichista, alguém que dá ao outro o lugar parcial e imaginário de fetiche, ele é, na realidade, uma espécie de "fetiche degradado de si mesmo", porque ele coloca como anexo á sua sexualização e socialização, o lugar de degradado, e isso é auto-referente, é auto-hostil. Na Mania, há portanto, a paixão pela degradação, ele ocupa o lugar literal de "morto em vida". Logo, foi Serge André, em A Impostura Perversa, que levantou a hipótese de que Hamlet, como toda a obsessividade, contém a possibilidade de configuração maníaca, repetindo-se o exemplo de Dostóievski; bastando , para isso, que Hamlet não interrompesse a identificação a Cláudio como Falo Imaginário da mãe , como objeto causa do desejo (objeto a ) do Desejo de Mãe. Ele estaria, também, se identificando ao objeto degradado moralmente que assassinou seu pai, e, no lugar da neurose, teríamos a recusa, o desmentido da servidão referente a figura do Pai, e o conseqüente lugar metonímico de degradado porque sobredeterminado ao lugar de assassino desse Pai. A Mania é, portanto, o oposto estrutural da frustração obsessiva que é a afirmação da servidão ao pedido de " vendetta" do fantasma paterno como Lacan, via Hegel, destacou em Hamlet e a Tragédia do Desejo (1959). Cabe salientar aqui que o personagem Hamlet serve para exemplificar diferentes estruturas clínicas, porque não é um caso clínico, é um drama que se apresenta como uma " placa giratória", onde se situa um desejo...
Consequentemente, na mania, a pulsão anal metonímica é literal, é tomada referencialmente no lugar da oblatividade obsessiva, isto é, no lugar do oferecimento do interior do corpo como dom ao Outro (A) própria do obsessivo. Ou seja, na mania, tem-se, literalmente, o excremento. Ele se mostra como excremento e goza com o lugar de "morto em vida".
Juntamente com o desmentido do Pai Servil e da literalização da oblatividade, tem-se a referência a anulação da fantasia obsessiva que se refere ao pai morto, Simbólico, pondo-se, neste lugar, "fraude materna". Assim, não se tem a servidão ao pedido de vingança do fantasma paterno decorrente da fantasia obsessiva, e sim, a degradação em seu lugar, a identificação com o lugar de assassino do pai desejado pela mãe e, portanto, seu cúmplice. Ele se coloca como o suposto autor do parricídio e se constitui no lugar do morto-objeto da Frustração, o objeto a , causa do desejo dessa mãe, no lugar do ideal de ego, e este se hiperdetermina ao efeito da junção degradação/morte, configurando um masoquismo erógeno, por ser fruto de cumplicidade parricida e sofrer rejeição, exclusão social e moral, o que também se diferencia dos lugares ausentes de ideal de ego I(A), e objeto a ocupados, respectivamente, pelo sujeito do delírio S(A) nas psicoses e pelo ego, objeto imaginário i(a) nas neuroses."


[BECK, Sandra. A TRANSMISSÃO, idem, ibidem, cit. Pp 176- 177.]

       Podemos acrescentar a estas conclusões de Serge Andre sobre a relação entre Hamlet/Dostoievski e a mania, duas elucidações a este respeito produzidas por Antonio Sergio Mendonça em seu trabalho de 1998:

a)"Hamlet cede sobre seu desejo a respeito de Ofélia, preserva a mãe como objeto amoroso, porque, ao pé da letra, deveria matá-la, após a morte de Cláudio, para cumprir a vingança paterna, mas atendendo ao requisito da mãe, se deixa matar, sob a cortina, com a própria adaga (por Cláudio) preferindo, nisto, o dilema dos escravos, preferindo morrer, isto porque recalcava a súplica " vendetta" psicótica do pai, literalmente um "Ghost" e ao mesmo tempo queria preservar a mãe. E ele, em certo momento, chega a tomar Cláudio como Falo imaginário para "só - depois" invectivar, já marcado pelo destino de morte preconizado pela mãe, contra o próprio Cláudio."
[MENDONÇA, Antonio Sergio - A TRANSMISSÃO - HAMLET E DOSTOIEVSKI: A OBSSESSIVIDADE E O FANTASMA DO PARRICÍDIO - PP. 226 / 227]

b)"Então, em vez de acontecer a clássica situação de obsessividade onde, oblativamente, toma-se o excremento como protocena da fantasia (que é como Freud lê Dostoievski), ou seja, se dá o oferecimento do interior do corpo como dom ao Outro, ele não toma a mãe como objeto a, como no caso do fetichismo ( tomar a mãe como objeto a do lugar de um Ideal de Ego); ele toma o que é o objeto a do desejo da mãe como tal, ao pé da letra, e o coloca no lugar que seria do Ideal de Ego, do I(A), e passa a ocupar este lugar de objeto a do DM, e portanto se identifica a Cláudio como Falo imaginário e mantém, por certo tempo, essa identificação em vigor. Só que com isso ele também se identifica com o assassino de seu pai e se identificar com o assassino de seu pai é tornar-se cúmplice deste assassinato, cumplicidade metonímica, o que é um pouco diferente de se deixar matar pelo assassino de seu pai. Se deixar matar, não por não querer vingá-lo, mas porque quando soube, momentaneamente não agiu e quando agiu cumpriu o destino de escravo prescrito pela mãe. Mas, na mania, esta. estrutura da frustração sofre a ação da Verleugnung e este objeto Real (originado da frustração) é da ordem da morte, e ali, também, funde-se o objeto a do fetichismo com o objeto Real da frustração, só que não é a mãe que é tomada como objeto a , mas o objeto que ela destaca como objeto a passa a ser literalmente um objeto a com valor de objeto Real, porque se a mãe era cúmplice desse lugar, o filho, ao ocupá-lo, tornar-se-á, também, cúmplice do assassino de seu pai e irá para o lugar próprio do assassino de seu pai, e este "jogo metonímico" revira o efeito melancólico da obsessividade e no lugar da paixão pela penúria (melancolia) tem-se a paixão pela degradação (mania). E ele não vai mais tomar o excremento como fantasia oblativa, ele vai para o lugar específico de excremento, de degradado, de resto, vai ser o excremento, fazendo de seu culto ao Pai-Real - o místico Czar - o seu ponto de enfraquecimento da requisição viril, já que suporta "traição" da esposa e veste-se como "louco" fazendo-se, também, motivo de "desconsideração social". Logo, por se identificar com o que seria equivalente ao assassino do pai, assassinato que ele acha que praticou, a fantasia de parricídio torna-se real, ele não acha que é Cláudio, ele toma o lugar deste. Só que é um pouco mais grave. Hamlet, no estudo de Serge André, é um maníaco, ao se identificar com Cláudio, ele não é Cláudio, e Dostóievski " incorpora" Cláudio, ele é o próprio assassino do pai. E a questão estruturai é que ele ocupa o lugar de um objeto a, notadamente Real, oriundo da frustração, com valor mortal, e faz a Verleugnung desmentir não o Pai-Potente, mas fez seu Pai-Real, o Czar de todas as Rússias desmentir o DM, que ocupava a função paterna na estrutura da frustração. Não é à toa que a analogia foi feita por Serge André com Hamlet: em Hamlet, para Lacan, vigora a frustração, daí tê-lo conotado como ( Tragédia do Desejo). "
[MENDONÇA, Antonio Sergio - A TRANSMISSÃO - SOB O SIGNO DA DEGRADAÇÃO - PP. 227 / 228]

       Pedimos desculpas, mas nos alongamos na citação porque queríamos, ali, demonstrar que a mania traz a requisição da degradação social e o que esta estrutura carrega de melancólico é que o próprio sujeito requisita o ato masoquista, é a auto-punição trazendo assim, a aparência de obsessividade.

       Embora Fiodor Dostoievski desloque sua requisição viril para o místico, o seu gozo se dá, na realidade, com o lugar de degradado.

       Segundo Antonio Sergio Mendonça, na obra citada a "saída" do maníaco é deixá-lo viver a própria mania, porque fazê-lo abrir mão dela, seria um ato cruel, e como ele não consegue produzir a morte, representando-a em delírio, como na psicose, produz a morte em sua própria vida e goza com isto, goza com a "morte em vida".

       Como diz Antonio Sergio Mendonça, gora não citado no texto de Sandra Etges, mas na íntegra:

"Não foi só Os irmãos karamazóvi que, como sublimação, não funcionou; a partir deste momento, Dostoievski se entrega de maneira incessante e incontrolável à degradação e à humilhação pública. Por isso Freud está certo no sentido de que ele ali não contraria o seu próprio ponto de vista, de não haver Psicanálise da Arte, de não se interessar pelo belo, pois não está psicanalisando Dostoievski a partir de Os Irmãos karamazovi; ele está dizendo que Dostoievski, em vez de fazer como todos, tomar uma obra como sublimação, tornou-a confissão. Nem se está explicando Dimítri através de Dostoievski, pelo contrário, ele está dizendo que Dimítri não foi metáfora de Dostoievski, foi especuliaridade e que o "jogo metonímico" era outro, o da auto-humilhação."

[MENDONÇA, Antonio Sergio - A TRANSMISSÃO - SOB O SIGNO DA DEGRADAÇÃO - P. 229]

       Explicaremos pois nesta pesquisa que, segundo Freud, em sua leitura de Dostoievski vida e obra, este não abriu mão do gozo com a humilhação que, para sempre, o marcou; porém isto não lhe tirou o mérito de ser considerado um dos maiores autores de seu tempo, e talvez o tenha sido por causa disto mesmo. Pois se trata do gozo no lugar tanto da sublimação, quanto da castração.

       Finalizando, diremos que neste nosso trabalho acreditamos ter demonstrado ser compatível as relações entre Arte e Psicanálise e a possibilidade de se ler a questão fantasmática suscitada pela obra de Dostoievski intitulada: Os Irmãos Karamazovi. E nesta leitura, para além das conclusões freudianas, que remetem ao fantasma culpabilizado da obsessão que é, por sua vez, análogo ao despedaçamento significante por Lacan apontado em Hamlet, observamos, já no campo lacaniano, a partir das referências encontradas nas obras já citadas de Serge André, Antonio Sergio Mendonça e Sandra Beck Etges da Silva, a constituição da fantasia sádica, auto-referente, própria do desejo maníaco e explicitado na colocação da degradação no lugar do gozo.

       E assim compatibilizamos nosso trabalho com os ditames conceituais requeridos pelos Fundamentos Teóricos da Arte e inferidos na, então, linha de pesquisa intitulada Arte/Psicanálise.

       E, por fim, acreditamos que o que referenda teoricamente esta possibilidade de leitura, sendo pois seu ponto de partida, foi há muito apontada pelo hoje falecido Álvaro de Sá na sua introdução ( 1985) à 1ª edição, republicada na 2ª edição, apresentada pela Antares, em 1992, do Psicanálise e Literatura de Antonio Sérgio Mendonça:

"Mas o que há de mais instigante é a tese desenvolvida no capítulo referente ao Ato Poético, sobre a análise textual. Nela através da leitura de Guimarães Rosa é mostrado que não se pode a rigor falar de uma psicanálise do texto, pois é este sem dúvida quem analisa o leitor (deste modo, desde Freud os autores mencionados apenas reconheceram a constituição, respectivamente da fantasmática obsessiva e sádico perversa na obra de Dostoievski). Assim em vez do 'crítico' funcionar como analista do texto, capaz de decodificá-lo e de dar a terceiros as chaves de seu sentido, o leitor, que ele também é, funciona como analisando e ao apresentar o que pensa ser a decodificação do texto, está na verdade apresentando-se e a sua afetação, (o que não impede que ali se reconheça algum débito conceitual da psicanálise para com as artes literárias) exercendo suas possibilidades de falante (parlêtre). Estas colocações, indicam a impossibilidade de uma estética da recepção (sem o concurso complementar da psicanálise) do impressionismo crítico e dão também um forte impacto na crítica textual, como ela vem sendo exercida. Deixa ainda claro que a aridez da crítica estruturalista (de quem o trabalho lacaniano se afasta) se torna o exercício mais desnudado da posição de analisando embora se queira analista de um texto ... (onde) o ato poético é esse estranho analista que transmite a psicanálise como arte... ( isto) porque o texto realiza-se na língua, o que não quer dizer que seja próprio do senso comum como instrumental de leitura. No mínimo, para que um texto bem (analise) o leitor é preciso que este (o texto) apresenta mínimas contribuições no campo da psicanálise , do fazer literário e da lingüística. "

[DE SÁ, Álvaro. PSICANÁLISE E LITERATURA - UMA APRESENTAÇÃO - PP. 10 / 11]

       No entanto, não podemos esquecer que as reflexões, que nos autorizam supor uma questão desejante de caráter maníaco em Dostoievski (a partir do tema do parricídio) nos remetem ao Mal-Estar civilizatório freudiano. Ali, ao evocar, novamente, o tema parricida ele o articula, sem dúvida, ao uso psicanalítico extensivo de 'Tanatus' , ou seja, da agressividade perversa; e, embora, não a diga maníaca, já concebe a questão desejante apontada na obra do autor russo para além da fantasmática obsessiva que apresenta como todos sabem, caráter neurótico.

       Em síntese, é por esta razão que o título do nosso trabalho parece significar que a obsessão pelo parricídio em Dostoievski, em sua opção de gozo pela degradação é de fato uma obsessão maníaca pelo parricídio.


VALÉRIA PIRES A professora é especialista em Teoria da Literatura pela UERJ, mestre em Ciência da Arte ( área Arte/ Psicanálise ) pela UFF com o curso de Aperfeiçoamento em: Anchieta em Coimbra na Universidade de Coimbra ( Portugal ). - Membro do Centro de Estudos Lacaneanos (CEL - RS)
Site do CEL: www.celacan.com.br

Bibliografia

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BARBOSA, João Alexandre. Dostoievski: Sob o manto do profeta. Editora Cia. das Letras. 2000.
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CEL - Centro de Estudos Lacaneanos. A Transmissão. Ano 5, Nº 6, Boletim Anual, Edições do CEL, 1997.
DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazovi. Editora Cia. Aguilar. RJ. 1970.
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