1 - Notas Preliminares
A Psicanálise tem sido vista, ao longo do tempo, apenas como Psicanálise Intensiva, dita de "divã", ou seja, aquela de gabinete onde pessoas procuram o analista para diminuir seus sofrimentos psíquicos. Mas, desde Freud, apontava-se que a Psicanálise se devia ocupar também com o campo do social, vendo-o como o campo da cultura e da civilização, bastando, para tal que revisitemos obras como O Futuro de uma Ilusão, Mal-Estar na Civilização, Totem e Tabu, Psicologia das Massas e Moisés e Monoteísmo. Fazê-lo é confrontar o seu pensamento com a questão civilizatória e com o mal-estar daí decorrente. Por isto, Freud, em Totem e Tabu e outros Trabalhos ([1913], p.187), afirmava que "o modo de pensar psicanalítico atua como um novo instrumento de pesquisa". Ele defendia a idéia de que para além da Psicanálise Intensiva, um enorme trabalho existe a ser feito, que pode ser dado conta pela Psicanálise Extensiva, pois foi ele que criou a possibilidade de uma articulação teórica entre o psíquico e o social. Esta articulação permite, nos estudos do campo social, ir para além das tradicionais análises sociais, econômicas e políticas, e nos leva a compreender os fenômenos postos na contemporaneidade por um outro ângulo, onde a abordagem do social está também intimamente imbricada nas questões de natureza identidária dos sujeitos.
Um dos fenômenos de que podemo-nos valer, sob o olhar da psicanálise Extensiva, é o da pobreza (índice de exclusão social). Acreditamos ser possível empreender esforços para compreender as condições de produção de miséria no mundo e na sua diversidade de conflitos atuais e específicos, a partir desse olhar, buscando, com isto, interpretações e explicações que enfoquem o fenômeno da pobreza/miséria não apenas com análises que privilegiem o político, o econômico e o social, mas também considerando a importância da visão subjetiva e psíquica que a condição de miséria provoca decisivamente na construção da subjetividade dos sujeitos.
Nos estudos tradicionais sobre "os pobres", "os excluídos", "os miseráveis", além de ali prevalecerem apenas análises econômicas, sociais e políticas, não é difícil aparecerem explicações miraculosas ou inusitadas seguidas de fortes traços de natureza etnocêntrica que ajudam a banalizalizar a questão da pobreza, seja de uma região, de um estado ou de um país, dificultando-se com isto, a compreensão mais ampla do fenômeno. Corroborando este pensamento, encontraremos nos textos de Derrida (2001, p.83), nas suas elaborações teóricas, afirmações que apontam ser: "indispensável à inclusão do saber psicanalítico nos discursos que regem o social", e não o contrário como muito dos seus seguidores, "a la Réneé Major", terminam fazendo.
Por isto, uma das possibilidades de se ampliar a compreensão do fenômeno miséria/pobreza a partir deste referencial seria a escuta do discurso das pessoas que vivenciem este fenômeno; deveríamos, pois, escutar o que estes discursos encerram: como vivem, como constituem significados, como aparecem as rupturas que eles trazem entre o mundo vivido e a sociedade, como constróem as suas idéias, os seus signos, as suas representações. Ou seja, dever-se-ia buscar a captação do universo psíquico e informativo das pessoas identificadas pela sua condição de pobreza aferida a partir dos próprios sujeitos, sem a mediação de porta-vozes educacionais e/ou ideológicos.
Sabe-se há muito, recorrendo-se agora à Filosofia Crítica Alemão "Kulturkritik", da impostura da "lógica dos porta-vozes"; por isto, deve-se dar voz "ao vencidos" para, na acepção de Walter Benjamin, podermos reconstituir a História a partir de suas ironias, e estas sob o ponto de vista da "ótica dos vencidos", ponto de vista da ruína. Insistimos ainda ao afirmar que um dos maiores equívocos da tradição discursivo-iluminista do "saber universitário" tem sido a sua dissociação não só da realidade material consistente, mas também, e principalmente, dos sujeitos que a fazem, que a produzem. Deveríamos jamais transformar os seus discursos em objetos epistemológicos que não passariam de categorias implícitas e pré-condicionais de um saber "já dado", e sim buscarmos a escuta direta dos agentes da fala social. É, precisamente, para realizar esta mediação que se convoca a Psicanálise Extensiva, vale dizer, sua forma de presentificação na cultura. Assim como, deve-se, também, repudiar constantemente o pedagogismo oriundo dos juízos atributivos inerentes a pensamentos psicológico-comportamentais que apenas tem produzido a "méfiance das ilusões" (o seu crédito) como se fosse o reconhecimento da própria realidade. É preciso de uma vez por todas que nos afastemos do raciocínio que adiciona ao reconhecimento do empirismo comportamental o superego imaginário da atribuição moral transformando-se assim, porque disseminado pela ideologia na pedagogia, na sociologia e na psicologia, numa síntese entre: moralismo e "análise de conteúdo".
II - Hipóteses equivocadas
Poderemos fazer uma analogia entre o "saber" consagrado sobre o discurso de legitimação de pobreza e os discursos dito sociais sobre a identidade.
Ambos trabalham com a noção dezenovesca do "ser histórico". Diz-nos Evaldo Cabral de Mello (In: Nossa História, Ano 1, nº5, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 2004, p.98): "a noção de identidade nacional, tão em moda hoje, (menos por culpa dos historiadores do que dos antropólogos), é o abastardamento grotesco da ilusão sobre a existência de um conteúdo ôntico (ser na história) (...). A noção de identidade nacional é uma invenção ideológica, cujo êxito se explica pelo fato de que atende a gregos e troianos (...). A verdade é que semelhante idéia pareceria tão obscura a um brasileiro culto de fins de Oitocentos como parecerá a um descendente do Século XXII (...). Antes que a filosofia da história e a prática historiográfica se dessem conta da incompatibilidade entre o ser e a história, viveu-se um longo período, a partir do Século XVIII, no qual a historiografia se acomodou a idéia de ser... diante dele, a história esforçou-se sempre em fazer-se perdoar pela deficiências de um conhecimento que destoava do que se reputava (...)."
Ora, como se sabe, o ideal de pobreza como tema das Ciências Sociais, pretextando ser o solo imanente de um permanente discurso crítico e reparador é análogo discursivamente ao ideal da identidade e ambos consagram-se a conversão histórica do "ser" (social). Mesmo sem utilizarmos a ironia do carnavalesco, veremos que se está, obviamente, redenominando o ideal católico e medievo da lei da usura, de sua reparação e ao nos modernizarmos iremos incorporar a este discurso "bom-mocista" a sua consolidação literária que foi produzida pelo masoquismo moral proveniente do romance romântico francês de Victor Hugo. Este mesmo carnavalesco, porém, já contradizendo-se, homenageou-o posteriormente, a sua declaração, em desfile censurado pela Igreja. Mas, detalhes à parte, vemos aí o culto estético à pobreza como reflexo da opção pela miséria, o inverso do que Mafesolli pretente dizer com a ética da estética .
Ora, um cientista social que queira intervir minimamente na realidade sabe que em princípio não se trata de cultuá-la, a pretexto de criticá-la discursivamente, e sim de pugnar por sua erradicação, o que, como diriam os marxistas, remete, em última instância as suas pré-condições econômicas. E, do ponto de vista destas, cabe aos vencedores globalizantes de uma sociedade de mercado de recorte neoliberal só se interessar por este tema, caso o subproduto da miséria, que é a disseminação, dentre outras expressões, da agressividade, vier afetar as suas vidas e seus negócios. Isto é um ponto de vista perverso: cínico e impostor. Mas, em igual prisma, só que por vezes utilizando-se da impostura do cinismo, os "profissionais da oposição", eternos "porta-vozes dos vencidos", também parecem não se interessar, a não ser, eventualmente, como tema artístico-literário, pela dualidade pobreza/miséria. Pois, se de um lado ela se presta, muito bem, à veiculação institucional e midiática de programas de governos, e isto, desde os gregos, se não vier acompanhado de efeitos de realidade é demagogia, por outro lado, sua comprovada compaixão não tem passado de simulação discursiva. Isto também é perversão, trata-se da conversão de "bom-mocismo" em cinismo. Algo a indicar o que Zizek denuncia como a existência dos que não têm direito ao amparo legal.
III - Um efeito atual e possível: a questão da agressividade
Na contemporaneidade, vive-se tempos de intensas transformações societárias; momentos de metamorfoses que vêm alterando não só o mundo do trabalho como também, o cotidiano da vida dos sujeitos, vêm alterando as estruturas da constituição familiar; vêm tirando o norte identidário dos sujeitos, deixando-os em uma quase falta total de referenciais. Em tempos globalizantes e de sociedade de mercado de recorte neoliberal, os referenciais da vida social tornam-se cada vez mais opacos e novas exigências são colocadas ao sujeito, aumentam a angústia e o pânico, gerando o incremento da agressividade nas relações. Este contexto vem determinando que as subjetividades estejam sendo construídas a partir de todas estas transformações, as quais não tem permitido aos sujeitos delinearem, com o mínimo de segurança, quais são os padrões, os valores, os hábitos desta época. Se por um lado, o desenvolvimento intenso das novas tecnologias tem oferecido um maior volume de informações aos sujeitos isso, por outro lado, não tem significado maior clareza do que é esperado dele, muito pelo contrário, tem-se contribuído com aquelas questões referenciadas anteriormente, a perda do norte, dos limites e, também das leis. Lacan caracterizou a sua contemporaneidade como sendo o tempo do declínio social da imago paterna e a nossa como sendo o tempo da efetivação do racismo que, desde 1979, "viria do futuro".
Ou seja, a dimensão societária desta contemporânea globalização, muitas vezes, contribue para o aumento da agressividade na sociedade, bem como a mídia, que, na imensa maioria do tempo, trabalha em cima do espetáculo e da banalização da violência, também tem seu protagonismo.
IV - Conclusão: uma proposta possível - a Psicanálise Extensiva
Do ponto de vista da civilização/cultura, não se tem, senão que reconhecer a impossibilidade de satisfazer o desejo humano, e conjuntamente a isto a criação de "ilusões" na busca de superação desta necessidade, de respostas que viessem a suprir esta necessidade, como isto é da ordem do impossível, a conseqüência é o estabelecimento do mal-estar. Não há civilização que não apresente o mal-estar frente a incompletude e a satisfação dela decorrente em termos do desejo humano. Criar ilusões a este respeito é perversão.
Assim poderemos articular conceitualmente os dois procedimentos evocados: se a cultura (enquanto costumes, lendas, ritos, atos, etc.), quando incluída na mentalidade (pensamento) provoca mal-estar, e as impossibilidades, por isso, se lançam ao projeto megalômano de criar ilusões que as suturem, pergunta-se: o que "costura", "alinhava", "alimenta" estas ilusões para que mereçam o crédito do público, que se identifica com o duo egóico-natural: certeza / verdade? Será, por exemplo, a Razão Cínica, na medida em que dissimular por impostura, perverter esta submissão ao delírio ilusório de parte da recepção, por apresentá-la como uma promessa de felicidade, que irá garantir, através do "bom-mocismo" a adesão ao funcionamento da lógica do delírio social, que assim se realizará.
Por isso o cinismo e a megalomania impõem o crédito as ilusões que geram o Mal-Estar.
"O mal-estar existe porque a espécie humana inventou várias ilusões. Ela inventou a ilusão de governar, de haver um modelo político possível de provocar a felicidade humana. Na realidade, o efeito disso é melancólico, já que nenhum modelo político criado pelo homem pode trazer a felicidade, a não ser como utopia. O modelo de homem criado pela pedagogia, o modelo de sociedade criado pelo sistema do governar não se realizam. E isso está no cerne de um dos maiores mal-entendidos formulados, que foi a questão da felicidade. (...) Essa senhora estranha chamada felicidade tem como efeito a sua não realização. Tanto que o Século 19 deu-se conta disso, dessa impossibilidade do governar e viveu aquilo que se chamou de "mal do século". Mas no Século 20, ofereciam novamente uma proposta de felicidade, por suposição obtida na sociedade de consumo. Então você passa a ter valores como a personalidade atraente, e nada disso faz senão transformar a felicidade num fracasso. A sociedade de consumo confunde igualdade social com participação no consumo, liberdade com acesso ao consumo, reconhecimento social com "griffe". Isso aumenta a proposta de felicidade e, conseqüentemente, sua irrealização. (...) [Necessário] seria não precisar de um modelo, o que é praticamente impossível. E deixar alguns criadores de ilusões "sem emprego", abrindo mão dessa mania de ficar inventando sistemas políticos, sistemas econômicos que tivessem a possibilidade de atender ao desejo humano". (MENDONÇA, Antônio Sérgio. O mal-estar existe porque o homem criou ilusões. IN: Pioneiro, Caxias do Sul, 19.08.02. p.10-11)
E todos este aspectos não podem deixar de ser observados, se quisermos realmente conhecer como se desenvolve, acontece um fenômeno, como no caso o da pobreza, e para isso a Psicanálise Extensiva tem uma grande contribuição. Mapeá-la é hoje nosso objetivo, não com a finalidade de simplesmente "contemplá-la" ou até mesmo "classificá-la" mas de estudar as diversidades dos significados, das identidades, ou seja, dos sentidos da própria experiência social atribuída por aqueles que vivem na condição de "estar excluído socialmente".