25/06/2004
Número - 374

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

A PSICANÁLISE E O CAMPO SOCIAL

Ana M. P. Camardelo


       1 - Notas Preliminares

       A Psicanálise tem sido vista, ao longo do tempo, apenas como Psicanálise Intensiva, dita de "divã", ou seja, aquela de gabinete onde pessoas procuram o analista para diminuir seus sofrimentos psíquicos. Mas, desde Freud, apontava-se que a Psicanálise se devia ocupar também com o campo do social, vendo-o como o campo da cultura e da civilização, bastando, para tal que revisitemos obras como O Futuro de uma Ilusão, Mal-Estar na Civilização, Totem e Tabu, Psicologia das Massas e Moisés e Monoteísmo. Fazê-lo é confrontar o seu pensamento com a questão civilizatória e com o mal-estar daí decorrente. Por isto, Freud, em Totem e Tabu e outros Trabalhos ([1913], p.187), afirmava que "o modo de pensar psicanalítico atua como um novo instrumento de pesquisa". Ele defendia a idéia de que para além da Psicanálise Intensiva, um enorme trabalho existe a ser feito, que pode ser dado conta pela Psicanálise Extensiva, pois foi ele que criou a possibilidade de uma articulação teórica entre o psíquico e o social. Esta articulação permite, nos estudos do campo social, ir para além das tradicionais análises sociais, econômicas e políticas, e nos leva a compreender os fenômenos postos na contemporaneidade por um outro ângulo, onde a abordagem do social está também intimamente imbricada nas questões de natureza identidária dos sujeitos.

       Um dos fenômenos de que podemo-nos valer, sob o olhar da psicanálise Extensiva, é o da pobreza (índice de exclusão social). Acreditamos ser possível empreender esforços para compreender as condições de produção de miséria no mundo e na sua diversidade de conflitos atuais e específicos, a partir desse olhar, buscando, com isto, interpretações e explicações que enfoquem o fenômeno da pobreza/miséria não apenas com análises que privilegiem o político, o econômico e o social, mas também considerando a importância da visão subjetiva e psíquica que a condição de miséria provoca decisivamente na construção da subjetividade dos sujeitos.

       Nos estudos tradicionais sobre "os pobres", "os excluídos", "os miseráveis", além de ali prevalecerem apenas análises econômicas, sociais e políticas, não é difícil aparecerem explicações miraculosas ou inusitadas seguidas de fortes traços de natureza etnocêntrica que ajudam a banalizalizar a questão da pobreza, seja de uma região, de um estado ou de um país, dificultando-se com isto, a compreensão mais ampla do fenômeno. Corroborando este pensamento, encontraremos nos textos de Derrida (2001, p.83), nas suas elaborações teóricas, afirmações que apontam ser: "indispensável à inclusão do saber psicanalítico nos discursos que regem o social", e não o contrário como muito dos seus seguidores, "a la Réneé Major", terminam fazendo.

       Por isto, uma das possibilidades de se ampliar a compreensão do fenômeno miséria/pobreza a partir deste referencial seria a escuta do discurso das pessoas que vivenciem este fenômeno; deveríamos, pois, escutar o que estes discursos encerram: como vivem, como constituem significados, como aparecem as rupturas que eles trazem entre o mundo vivido e a sociedade, como constróem as suas idéias, os seus signos, as suas representações. Ou seja, dever-se-ia buscar a captação do universo psíquico e informativo das pessoas identificadas pela sua condição de pobreza aferida a partir dos próprios sujeitos, sem a mediação de porta-vozes educacionais e/ou ideológicos.

       Sabe-se há muito, recorrendo-se agora à Filosofia Crítica Alemão "Kulturkritik", da impostura da "lógica dos porta-vozes"; por isto, deve-se dar voz "ao vencidos" para, na acepção de Walter Benjamin, podermos reconstituir a História a partir de suas ironias, e estas sob o ponto de vista da "ótica dos vencidos", ponto de vista da ruína. Insistimos ainda ao afirmar que um dos maiores equívocos da tradição discursivo-iluminista do "saber universitário" tem sido a sua dissociação não só da realidade material consistente, mas também, e principalmente, dos sujeitos que a fazem, que a produzem. Deveríamos jamais transformar os seus discursos em objetos epistemológicos que não passariam de categorias implícitas e pré-condicionais de um saber "já dado", e sim buscarmos a escuta direta dos agentes da fala social. É, precisamente, para realizar esta mediação que se convoca a Psicanálise Extensiva, vale dizer, sua forma de presentificação na cultura. Assim como, deve-se, também, repudiar constantemente o pedagogismo oriundo dos juízos atributivos inerentes a pensamentos psicológico-comportamentais que apenas tem produzido a "méfiance das ilusões" (o seu crédito) como se fosse o reconhecimento da própria realidade. É preciso de uma vez por todas que nos afastemos do raciocínio que adiciona ao reconhecimento do empirismo comportamental o superego imaginário da atribuição moral transformando-se assim, porque disseminado pela ideologia na pedagogia, na sociologia e na psicologia, numa síntese entre: moralismo e "análise de conteúdo".

       II - Hipóteses equivocadas

       Poderemos fazer uma analogia entre o "saber" consagrado sobre o discurso de legitimação de pobreza e os discursos dito sociais sobre a identidade.

       Ambos trabalham com a noção dezenovesca do "ser histórico". Diz-nos Evaldo Cabral de Mello (In: Nossa História, Ano 1, nº5, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 2004, p.98): "a noção de identidade nacional, tão em moda hoje, (menos por culpa dos historiadores do que dos antropólogos), é o abastardamento grotesco da ilusão sobre a existência de um conteúdo ôntico (ser na história) (...). A noção de identidade nacional é uma invenção ideológica, cujo êxito se explica pelo fato de que atende a gregos e troianos (...). A verdade é que semelhante idéia pareceria tão obscura a um brasileiro culto de fins de Oitocentos como parecerá a um descendente do Século XXII (...). Antes que a filosofia da história e a prática historiográfica se dessem conta da incompatibilidade entre o ser e a história, viveu-se um longo período, a partir do Século XVIII, no qual a historiografia se acomodou a idéia de ser... diante dele, a história esforçou-se sempre em fazer-se perdoar pela deficiências de um conhecimento que destoava do que se reputava (...)."

       Ora, como se sabe, o ideal de pobreza como tema das Ciências Sociais, pretextando ser o solo imanente de um permanente discurso crítico e reparador é análogo discursivamente ao ideal da identidade e ambos consagram-se a conversão histórica do "ser" (social). Mesmo sem utilizarmos a ironia do carnavalesco, veremos que se está, obviamente, redenominando o ideal católico e medievo da lei da usura, de sua reparação e ao nos modernizarmos iremos incorporar a este discurso "bom-mocista" a sua consolidação literária que foi produzida pelo masoquismo moral proveniente do romance romântico francês de Victor Hugo. Este mesmo carnavalesco, porém, já contradizendo-se, homenageou-o posteriormente, a sua declaração, em desfile censurado pela Igreja. Mas, detalhes à parte, vemos aí o culto estético à pobreza como reflexo da opção pela miséria, o inverso do que Mafesolli pretente dizer com a ética da estética .

       Ora, um cientista social que queira intervir minimamente na realidade sabe que em princípio não se trata de cultuá-la, a pretexto de criticá-la discursivamente, e sim de pugnar por sua erradicação, o que, como diriam os marxistas, remete, em última instância as suas pré-condições econômicas. E, do ponto de vista destas, cabe aos vencedores globalizantes de uma sociedade de mercado de recorte neoliberal só se interessar por este tema, caso o subproduto da miséria, que é a disseminação, dentre outras expressões, da agressividade, vier afetar as suas vidas e seus negócios. Isto é um ponto de vista perverso: cínico e impostor. Mas, em igual prisma, só que por vezes utilizando-se da impostura do cinismo, os "profissionais da oposição", eternos "porta-vozes dos vencidos", também parecem não se interessar, a não ser, eventualmente, como tema artístico-literário, pela dualidade pobreza/miséria. Pois, se de um lado ela se presta, muito bem, à veiculação institucional e midiática de programas de governos, e isto, desde os gregos, se não vier acompanhado de efeitos de realidade é demagogia, por outro lado, sua comprovada compaixão não tem passado de simulação discursiva. Isto também é perversão, trata-se da conversão de "bom-mocismo" em cinismo. Algo a indicar o que Zizek denuncia como a existência dos que não têm direito ao amparo legal.

       III - Um efeito atual e possível: a questão da agressividade

       Na contemporaneidade, vive-se tempos de intensas transformações societárias; momentos de metamorfoses que vêm alterando não só o mundo do trabalho como também, o cotidiano da vida dos sujeitos, vêm alterando as estruturas da constituição familiar; vêm tirando o norte identidário dos sujeitos, deixando-os em uma quase falta total de referenciais. Em tempos globalizantes e de sociedade de mercado de recorte neoliberal, os referenciais da vida social tornam-se cada vez mais opacos e novas exigências são colocadas ao sujeito, aumentam a angústia e o pânico, gerando o incremento da agressividade nas relações. Este contexto vem determinando que as subjetividades estejam sendo construídas a partir de todas estas transformações, as quais não tem permitido aos sujeitos delinearem, com o mínimo de segurança, quais são os padrões, os valores, os hábitos desta época. Se por um lado, o desenvolvimento intenso das novas tecnologias tem oferecido um maior volume de informações aos sujeitos isso, por outro lado, não tem significado maior clareza do que é esperado dele, muito pelo contrário, tem-se contribuído com aquelas questões referenciadas anteriormente, a perda do norte, dos limites e, também das leis. Lacan caracterizou a sua contemporaneidade como sendo o tempo do declínio social da imago paterna e a nossa como sendo o tempo da efetivação do racismo que, desde 1979, "viria do futuro".

       Ou seja, a dimensão societária desta contemporânea globalização, muitas vezes, contribue para o aumento da agressividade na sociedade, bem como a mídia, que, na imensa maioria do tempo, trabalha em cima do espetáculo e da banalização da violência, também tem seu protagonismo.

       IV - Conclusão: uma proposta possível - a Psicanálise Extensiva

       Do ponto de vista da civilização/cultura, não se tem, senão que reconhecer a impossibilidade de satisfazer o desejo humano, e conjuntamente a isto a criação de "ilusões" na busca de superação desta necessidade, de respostas que viessem a suprir esta necessidade, como isto é da ordem do impossível, a conseqüência é o estabelecimento do mal-estar. Não há civilização que não apresente o mal-estar frente a incompletude e a satisfação dela decorrente em termos do desejo humano. Criar ilusões a este respeito é perversão.

       Assim poderemos articular conceitualmente os dois procedimentos evocados: se a cultura (enquanto costumes, lendas, ritos, atos, etc.), quando incluída na mentalidade (pensamento) provoca mal-estar, e as impossibilidades, por isso, se lançam ao projeto megalômano de criar ilusões que as suturem, pergunta-se: o que "costura", "alinhava", "alimenta" estas ilusões para que mereçam o crédito do público, que se identifica com o duo egóico-natural: certeza / verdade? Será, por exemplo, a Razão Cínica, na medida em que dissimular por impostura, perverter esta submissão ao delírio ilusório de parte da recepção, por apresentá-la como uma promessa de felicidade, que irá garantir, através do "bom-mocismo" a adesão ao funcionamento da lógica do delírio social, que assim se realizará.

       Por isso o cinismo e a megalomania impõem o crédito as ilusões que geram o Mal-Estar.

"O mal-estar existe porque a espécie humana inventou várias ilusões. Ela inventou a ilusão de governar, de haver um modelo político possível de provocar a felicidade humana. Na realidade, o efeito disso é melancólico, já que nenhum modelo político criado pelo homem pode trazer a felicidade, a não ser como utopia. O modelo de homem criado pela pedagogia, o modelo de sociedade criado pelo sistema do governar não se realizam. E isso está no cerne de um dos maiores mal-entendidos formulados, que foi a questão da felicidade. (...) Essa senhora estranha chamada felicidade tem como efeito a sua não realização. Tanto que o Século 19 deu-se conta disso, dessa impossibilidade do governar e viveu aquilo que se chamou de "mal do século". Mas no Século 20, ofereciam novamente uma proposta de felicidade, por suposição obtida na sociedade de consumo. Então você passa a ter valores como a personalidade atraente, e nada disso faz senão transformar a felicidade num fracasso. A sociedade de consumo confunde igualdade social com participação no consumo, liberdade com acesso ao consumo, reconhecimento social com "griffe". Isso aumenta a proposta de felicidade e, conseqüentemente, sua irrealização. (...) [Necessário] seria não precisar de um modelo, o que é praticamente impossível. E deixar alguns criadores de ilusões "sem emprego", abrindo mão dessa mania de ficar inventando sistemas políticos, sistemas econômicos que tivessem a possibilidade de atender ao desejo humano". (MENDONÇA, Antônio Sérgio. O mal-estar existe porque o homem criou ilusões. IN: Pioneiro, Caxias do Sul, 19.08.02. p.10-11)

       E todos este aspectos não podem deixar de ser observados, se quisermos realmente conhecer como se desenvolve, acontece um fenômeno, como no caso o da pobreza, e para isso a Psicanálise Extensiva tem uma grande contribuição. Mapeá-la é hoje nosso objetivo, não com a finalidade de simplesmente "contemplá-la" ou até mesmo "classificá-la" mas de estudar as diversidades dos significados, das identidades, ou seja, dos sentidos da própria experiência social atribuída por aqueles que vivem na condição de "estar excluído socialmente".


ANA M. P. CAMARDELO é professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade de Caxias do Sul, Mestre em Serviço Social pela PUC/RS, Membro-Analista do Centro de Estudos Lacaneanos - Instituição Psicanalítica/RS
Site do CEL: www.celacan.com.br