20/08/2004
Número - 382

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

ESPANHA NA POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Nicolás Extremera Tapia
Universidad de Granada


É difícil encontrar na história das relações interculturais casos tão surpreendentes pela sua extensão, continuidade no tempo, e também pela sua intensidade.

Embora a relação de Cabral com Espanha não começa nem acaba com sua presença física neste país, da continuidade dessa relação da idéia sua reiterada presença como diplomata ou como simples viajeiro desde 1947, quando foi destinado a Barcelona como vice-cônsul, até 1994 momento em que lhe foi concedido o Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana.

Muitos são os poetas influidos por outra cultura. Se fosse possível estabelecer uma gradação, diriamos que Cabral se situa no extremo mais definido dessa influência. A verdadeira relação surge quando o que se toma de outra cultura não é postiço, acidental, circunstancial ou episódico. A verdadeira relação surge quando o que se toma de outra cultura está situado dentro do próprio âmbito espiritual no qual o artista se desenvolve. No caso que nos ocupa, umas vezes o que se produz é uma extensão do já conhecido, seja por ampliação ou por elevação ao simbólico: outras, uma descoberta daquilo que é próprio por contraposição ou contraste com o que é alheio.

Em Cabral encontramos um diálogo permanente entre duss culturas, a própria, local quase sempre, reduzida ao âmbito no qual se desenvolve a sua infância e adolescência e a outra, a alheia, não libresca, mas vivida, na qual o poeta mergulha para compreender desde o extranhamento necessario aquilo que lhe é consubstancial.

Cabral é quase um órfão poético no Brasil e dificilmente pode ser incluido numa tradição poética definida; se excluirmos a Oswald de Andrade ou Murilo Mendes, são quase inexistentes seus pontos de contato com o horizonte literário brasileiro. Sua relação com Portugal é ainda mais difusa: de indiferença, quando não de rejeição.

Tentarei, porque acho que é possível, ilustrar a presença da cultura espanhola em Cabral, partindo do léxico espanhol que o poeta usa. Noutras palavras: contemplarei o léxico como sintoma, como manifestação epidérmica dessa profunda vinculação à qual antes aludia.

Para quem acredita em que nada há de gratuito na obra de Cabral, a primeira frase que utiliza em espanhol: Riguroso horizonte (É o primeiro verso do poema El horizonte de Jorge Guillén, que pertence á primeira edição de Cántico, 1928. Desde 1936, figura na secção 2ª, Las horas situadas), que o poeta faz servir de epígrafe ao livro Psicologia da Composição, não pode passar inadvertida; e menos ainda se a inserirmos na seqüência de epígrafes com que Cabral vinha preludiando seus livros de poemas: «Solitude, récif, étoile...» de Mallarmé, em Pedra de Sono; «João amava Teresa que amava Raimundo/que amava Maria/que amava Joaquim que amava Lili...» de Carlos Drummond de Andrade, em Os Três Mal-Amados; «...machine à émouvoir...» de Le Corbussier, em O Engenheiro.

E de fato, Mallarmé, Drummond e Le Corbussier constituem a bagagem fundamental de Cabral quando, em 1947, desembarca em Barcelona. Ele afirma: «A Espanha foi o primeiro país estrangeiro onde eu vivi. De forma que eu não tinha cultura clássica nenhuma, porque aqui no Brasil, naquele tempo, ninguém tinha cultura clássica. Camões era um cidadão que nos obrigava a fazer análise lógica com os textos e aquilo nos dava enjôo de Camões para o resto da vida. E quando cheguei à Espanha, eu comecei a estudar sistematicamente a literatura espanhola. Foi uma coisa que me libertou dessa influência francesa que eu tinha através do Willy Lewin e ao mesmo tempo abriu horizontes para mim enormes».
(Entrevista a André Pestana, O que eles pensam, Rio de Janeiro, Tagore, 1990)

Cabral considera que este novo horizonte, rigoroso e enorme, é configurado pelo velho mundo, pois ele faz uma descoberta às avessas; só que o velho mundo, o novo horizonte, não é, para Cabral, Portugal, mas sim Espanha, e não só porque ele descobre Espanha e não Portugal, mas, também, porque, para Cabral, são os espanhóis e não os portugueses os descobridores do Brasil.

Vicente Yáñez Pinzón 

         Ele o primeiro a vê-lo, e a vir,
                   (na barra do Suape) ao Brasil,
        
          não deixou lá quandos nem ondes:
        
          só anos depois confessou-se.
             
               (A Escola das Facas)

Uma vez definido o seu novo horizonte, Cabral estabelece, a partir daí, um diálogo permanente entre as duas culturas: a própria, local quase sempre, reduzida ao âmbito no qual se desenvolve a sua infância e adolescência, da qual precisa afastar-se para redescobri-la, «A Espanha deu-me um afastamento suficiente, não excessivo, para poder escrever sobre o Nordeste»
         (Diário Popular, Lisboa 7-VI-1968)
e outra, não completamente alheia, e profundamente popular, na qual o poeta mergulha para compreender, desde o estranhamento necessário, aquilo que lhe é consubstancial. «Talvez meu interesse pela cultura espanhola esteja no parentesco dela com a cultura luso-brasileira»
(Entrevista ao poeta José Paulo Moreira da Fonseca, Ventura, Rio de Janeiro, Spala, 1987)

O livro seguinte, O Cão sem Plumas, é cronologicamente posterior à sua primeira estada na Espanha: é um regressar, nessa oscilação que vai caracterizar desde esse momento sua poesia, ao seu âmbito original. Aparecem aqui já importantes pontos de conexão entre Cabral e a poesia espanhola: o popular, o prosaico, o narrativo, «A literatura espanhola é grande porque é, sobretudo, a mais realista do mundo. É a que tem bases mais profundamente populares. Até mesmo nos clássicos, como Cervantes, Quevedo, mesmo em Góngora, se encontra a presença do povo, do popular».
(Entrevista a Eduardo Mattos Portella, Diário de Pernambuco,  Recife, 19 out. 1952).

E em outro lugar:  «O que esse pessoal me mostrou, e me impressionou muito, é que não vale a pena escrever para o povo sem usar a forma que ele usa. É por isso que eu utilizo a forma narrativa».
(Entrevista a José Carlos de Vasconcelos, Diário de Lisboa, Suplemento Semanal (Vida Literária e Artística, Lisboa, 16 jun. 1966)

Assim, O Cão sem Plumas, escrito em Barcelona, um livro dedicado inteiramente a Pernambuco e também o primeiro livro em que Cabral fala de Pernambuco, representa também uma viragem radical em relação a sua poesia anterior. Não há símbolos, não há emoções, não há lírica no sentido habitual. Impõe-se o prosaico na sua espessura, anuncia-se a lírica tradicional ou de cordel: é a descrição sem emoção, a entomologia da realidade essencial.

O livro seguinte, O Rio, põe de manifesto já uma nova vinculação de Cabral com a cultura espanhola. «Quiero que compongamos io e tu una prosa» é a citação de Berceo que lhe serve de epígrafe. Mais uma vez podemos afirmar que nada em Cabral é gratuito. O Rio marca a transição entre a influência da lírica de cordel, na qual Cabral procurava até então a expressão do popular, e a influência, a partir daí constante dos versos pareados do romancero e da lírica primitiva espanhóis. «Eu me interessei pela literatura de cordel desde menino. Mas não creio que ela tenha maior influência na minha poesia. Para comprovar isso, comparem-se as estruturas estróficas complicadas da literatura de cordel com os versos pareados do romancero e da poesia primitiva da Espanha. Esses, principalmente a poesia primitiva, me marcaram muito mais do que os folhetos dos poetas populares do Nordeste».
(Entrevista ao poeta J.P. Moreira da Fonseca. Op. Cit.)

 A descrição cobra agora um certo sentido sequencial, o melhor ainda, cinematográfico. A forma se adapta ao octossílabo/heptassílabo assonante da literatura tradicional e popular espanhola.

A materialidade visual das longas tiradas de versos de Berceo, a quem conhece tão bem, e a concreção da poesia de arte mayor, serão a partir daqui uma constante na obra de Cabral e o verso de sete sílabas em português, de oito em espanhol, será o único metro utilizado nos livros imediatamente posteriores: Morte e Vida Severina e Paisagem com Figuras, e uma das formas métricas preferidas por Cabral ao longo da sua vida poética.

Paisagem com Figuras é um livro que inaugura esse diálogo permanente entre as duas culturas a que estamos aludindo. Dos dezoito poemas que o compõem, oito estão dedicados a Pernambuco e dez a Espanha, repartidos estes últimos do seguinte modo: dois à paisagem de Castela, três à paisagem de Catalunha, um ao poeta Joan Brossa, um ao poeta Miguel Hernández, um aos toureiros, um a Andaluzia, que Cabral ainda não conhece físicamente, representada pelo cante e os touros, e finalmente um de que compartilham Catalunha e Pernambuco.

Cabral trata neste livro de estabelecer um diálogo a três vozes entre o masculino: Pernambuco, representado por paisagens estáticas; o feminino: Catalunha, e Castela: “mulher virago”.

Posteriormente, quando Cabral conheça Andaluzia, perderá interesse por Catalunha e por Castela, e a oposição se estabelecerá já de modo permanente entre Pernambuco, como elemento masculino, e Andaluzia, que encarnará na poesia de Cabral o feminino.

II

Embora os temas principais relativos a Espanha (cante, touros, paisagem, Catalunha, Castela, poesia primitiva, etc...) que Cabral vai tratar daí por diante apareçam já em Paisagem com Figuras, é escasso o léxico espanhol que Cabral inclui no livro. Apenas três palavras: uma, em catalão, front, e duas em espanhol. Estas duas palavras são importantes porque com elas Cabral inaugura esse particular dicionário poético do espanhol que irá construíndo ao longo da sua obra. Trata-se dum dicionário de palavras-chave, intraduzíveis, elementais, que caracterizam e definem a realidade essencial que interessa ao poeta. São palavras de certo modo equiparáveis às vinte palavras a que se refere em A Lição de Poesia.

                E as vinte palavras recolhidas
                Nas águas salgadas do poeta
        
       E de que se servirá o poeta
        
       Em sua máquina útil.

                Vinte palavras sempre as mesmas
                De que conhece o funcionamento,
        
       A evaporação, a densidade
        
       Menor que a do ar.
(A Lição de Poesía, em O Engenheiro)

São vinte palavras que agora pertencem a outra língua e que exigem a Cabral explicá-las, traduzi-las ou glosá-las num complexo exercício poético:

Só duas coisas conseguiram
(des)ferilo até a poesia:
o Pernambuco de onde veio
e aonde foi: a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico
E deu-lhe a outra, fêmea e viva,
Desafio demente: em verso
Dar a ver Sertão e Sevilha.
             (Autocrítica, em A Escola das Facas)

A primeira dessas duas palavras: «meseta», aparece em Paisagem com Figuras, dentro do poema Imagens em Castela, zona geográfica que atraiu, numa primeira fase, o interesse de Cabral. O poeta, já na primeira quadra do poema, explica o significado:

Se alguém procura a imagem
da paisagem de Castela
procure no dicionário:
meseta provém de mesa.

A outra palavra, que é a primeira que figura no poema Diálogo, pode, ou não, ser espanhola: a palavra é canto, e digo que pode ou não ser espanhola, porque a partir daí Cabral usará sempre cante, que é inequivocamente andaluza. O poema inteiro está destinado a explanar o que o canto, o cante andaluz significa e vai significar já para sempre na poesia de Cabral.

A    O canto da Andaluzia
              É agudo com seta
              No instante de disparar
              Ainda mais aguda e reta. 

B    Mas quem atira essa seta
              De tão penetrante fio
              Pensa que a face melhor
              É a que recorta o vazio.

      Etc.

Este particular dicionário de Cabral continua em A Educação pela Pedra. Nesse livro há dois poemas situados: um, no apartado Nordeste, intitulado: Coisas de Cabeceira, Recife e outro, no apartado Não Nordeste, intitulado: Coisas de Cabeceira, Sevilha. Obviamente é neste segundo poema donde, por contraposição ao que lhe é próprio, Cabral necessita explicar o alheio, embora já seja próprio para ele.

                   1

 Diversas coisas se alinham na memória
         Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
         Coisas, se na origem apenas expressões
         De ciganos dali; mas claras e concisas
         A um ponto de se condensarem em coisas,
         Bem concretas, em suas formas nítidas.

                   2

 Algumas delas, e fora as já contadas:
         Não esparramarse, fazer na dose certa;
         Por derecho, fazer qualquer quefazer,
         E o do ser, com a incorrupção da reta;
         Con nervio, dar a tensão ao que se faz
         Da corda de arco e a retensão da seta;
         Pies claros, qualidade de quem dança,
         Se bem pontuada a linguagem da perna.
         (Coisas de cabeceira somam: exponerse,
         fazer no extremo, onde o risco começa.) 

Este dicionário de bolso, de cabeceira, irá aos poucos extendendo-se conforme a poesia de Cabral vai descobrindo novos significados no dicionário próprio das gentes de Sevilha

         Tinha próprio dicionário
         E própria escada de valores,
         Onde o degrau mais elevado
         Era o que dizia salobre.
 

         Infundio nele não é mentira,
         Coisa de frouxo fundamento:
         É o falso com imaginação
         Mentira talvez, mas com engenho. 

         Nesse dicionário as palavras
         Não deixam de ser entendidas,
         Mas têm esse desvio mínimo
         Que faz da língua murcha, viva. 

              (Ocorrências de uma sevilhana, em Agrestes)

 suas glorietas:

         São em Sevilha as glorietas
         Essas praças de bolso, feitas
         Para se ir escutar o tempo
         Desfiar carretéis de silêncio
              (A Sevilhana que não se sabia, em Sevilha Andando)

suas plazoletas:

         Para a mulher: para que aprenda,
         Fez escolas de espaço, dentros,
         Pequenas praças, plazoletas,
         Quase do tamanho de um lenço.
                     (As Plazoletas, em Sevilha Andando)

 seus corrales de vecinos:

         Não raro um palácio de outrora
         É agora “cabeça de porco”
         Mas o reboco descascando
         Não compromete seu decoro
                            (Corral de Vecinos, em Andando Sevilha)

sua Feria de Abril.

         Durante a Feira de Abril, Sevilha,
         Se mostra turística ao turista.
         Ela monta então seu carnaval
         Se veste com seu cartão-postal
         Mas aquela é uma falsa Sevilha
             
            (A Feira de Abril, em Andando Sevilha)

sua Semana Santa.

         É Semana Santa em Sevilha.
         As procissões são todo dia.
         Como os clubes têm suas cores,
         Seus bairros: são as Confrarias.
                                  (Semana Santa, em Andando Sevilha)

Naturalmente Cabral usa também de grande quantidade de palavras, expressões e frases feitas que não precisam de maior explicação. Assim há palavras em espanhol na sua obra como: gracias, adiós, calle, aire, cazalla, señoritos, rejas, romances. Expressões como: casa de mala vida, niñas bien, gente señorita. Outras vezes inclui fragmentos de conversas em espanhol: Qué bien dormiría contigo! Dame, pronto, hijita, una poquita de aguardiente. Hijita, bebí lo bastante. Vengo de echarme una siesta.

Nalguns casos estas frases são transcritas foneticamente: Lo quié no habrá sufr´io e´ta mujé! Tó lo bueno le venga a U´ted. Adió. Qué mal ange!

Mas, como é sabido, é o mundo do cante, do baile e dos touros o que mais atrai a atenção do poeta e onde se concentram o maior número de palavras espanholas.

Em relação com o touro de lidia,

         Um toro de lidia é como um rio
         Na cheia. Quando se abre a porta
 
        ...
         Um toro de lidia é ainda um rio
         Na cheia. Quando no centro da praça.
                   (El toro de lidia, em Museu de Tudo)

se tece um léxico específico que Cabral demonstra conhecer perfeitamente: corrida, matador, lidia, palcos, muleta, tendidos, sol, sombra, corral, etc. Esse conhecimento vira erudição conforme Cabral vai penetrando no mundo dos touros até o extremo de usar um adjetivo absolutamente específico do léxico taurino “burriciego” `touro míope´, quando descreve a morte do toureiro Gallito causada por um touro com tais características. (A morte de “Gallito”, em Crime na Calle Relator)

            A MORTE DE “GALLITO”

Quis tourear muito de perto
            Um touro míope (burriciego),

Sem conseguir nele mandar,
            Fazê-lo investir, arrancar.

Cansado, se afasta do touro,
            (“Fazê-lo touro não posso.”).

Mas o touro, de longe o vê,
            E o investe com todos os pés.

José o sente, estende a “muleta”,
            Para desviá-lo de sua meta;

O touro não a vê, já está perto,
            Vai no que vira, o talhe esbelto.

...

     Mas o verdadeiramente surpreendente para quem conhece o desinteresse de Cabral pela música é a sua atração pela música andaluza, pelo flamenco, pelo cante hondo, e também pelo baile que lhe é associado. «[Gosto] só do flamenco, que foi uma grande revelação de minha vida e do frevo de Pernambuco»
(Entrevista concedida a M. Leonor Nunes em JL, 448, 5/10 fev. 1991)

     Uma das razões, pelo menos no começo, embora depois venham outras espalhadas pela sua poesia, é que     «A música andaluza se associa a movimento de dança, torna-se visual. Aí eu gosto.»
              (Jornal do Commercio, Recife, 13 jan. 1982)

     Cabral conhece perfeitamente o mundo dos cantes e bailes  flamencos: tanguillos, fandanguillos, martinetes, bulerías, saetas, soleares, alegrías, sevillanas, etc. até ao extremo de diferenciar cantes que nem o comum dos andaluzes facilmente diferencia. Num poema intitulado Numa Sexta-Feira Santa, pertencente ao livro Crime na Calle Relator, Cabral descreve a confusão que se produz quando numa procissão da Semana Santa uma cantaora faz um cante, siguiriyas,  que não é permitido pela Igreja, mas que é muito parecido com a saeta, o cante dos devotos na Semana Santa na Andaluzia:

         Numa Sexta-Feira Santa

                   1

         Semana Santa na Andaluzia:
         O que de sacro ainda o feria. 

         A de que conta foi em Utrera,
         De Sevilha a quase seis léguas. 

         O grande dia da Semana
         É a noite Quinta-Sexta Santa. 

         Preferiu passá-la em Utrera
         Que a faz em mais pobre maneira, 

         Mas onde queria assistir
         O Cristo Cigano que ia ir 

         Reentrar na Matriz de Utrera
         Nos braços das saetas da Pepa.   

         Pepa, grande por bulerías,
         Cantando saetas estrearia, 

         E era tão grande o interesse
         Que de Sevilha veio quem viesse. 

                   2

         Passa que cantar por saetas,
         Cante que aceita a própria Igreja, 

         Faz-se com o mesmo compasso
         Das siguiriyas, que os ciganos 

         Carregam no pulso e na língua
         Para confusão da polícia. 

         Porém se algum guarda-civil
         Tiver o ouvido mais sutil 

         E sentir que o cantaor ia
         Não por saeta mas siguiriya

         Leva o infrator para a cadeia
         Por desaforo a Franco e à Igreja.
...

     Cabral distingue, e ensina o leitor a distinguir, entre o flamenco de fólego menor, para turistas:

         Mas aquela é uma falsa Sevilha
         Aquela em que gente señorita
         ...

         Dançando só castas sevilhanas
         Que é o até onde chega sua dança.
              (A Feira de Abril, em Andando Sevilla

e em outro lugar:

         Sevilhanas são para as damas,
       
 Para as niñas bien, não têm chama.
(Carmen Amaya, de Triana, em Andando Sevilha)

Distingue isso daquele outro flamenco, do flamenco grave, que é aquele que produz arrepio,     «Não a sensação a-favor-do-pelo; a irritação a contrapelo é o que procuro. Não o entorpecente, mas o estimulante. Ora, o flamenco me dá isso. É como a luz que arde nos olhos de quem estava dormindo no escuro»
(Entrevista coletiva –resposta ao pianista Arnaldo Estrela, Zero Hora, Porto Alegre, 19 jan. 1976) 

no qual é preciso centrarse

         Centrarse, viver seu caroço
         E a partir dele dar-se todo,
         Esse cante ou baile é monólogo
         Que só funciona para o próximo.
              (Intimidade do flamenco, em Andando Sevilha)

e que é o flamenco popular, sóbrio, austero, como o cante a palo seco, que se canta sem acompanhamento e é o cante dos braceiros, dos mineiros, dos devotos, dos pescadores e que na realidade é uma família de cantes à qual Cabral dedica um dos mais belos poemas:

         Se diz a palo seco
         O cante sem guitarra;
         O cante sem; o cante;
         O cante sem mais nada;

         Se diz a palo seco
         A esse cante despido:
         Ao cante que se canta
         Sob o silêncio a pino.
         O cante a palo seco
         É o cante mais só:
         É cantar num deserto
         Devassado de sol; 

         É o mesmo que cantar
         Num deserto sem sombra
         Em que a voz só dispõe
         Do que ela mesma ponha.
...
              (A Palo seco, em Quaderna)

Expressões estas: centrarse e a palo seco que podem também ser incluídas nesse dicionário de palavras-chave, de cabeceira que Cabral compõe sobre a cultura espanhola.

Para concluir quero sublinhar que os dois últimos livros de poesia que Cabral publicou: Sevilha Andando e Andando Sevilha vão respectivamente precedidos de epígrafes em espanhol: En el cielo que pisan las sevillanas (Popular sevilhano) e Quien no vio a Sevilla no vio maravilla (Popular espanhol).

Estes dois livros são as últimas homenagens do poeta a uma língua, a uma cultura e a uma cidade, Sevilha, com a qual identificou sua poesia, sua esposa Marly e até o destino da humanidade, inventando, por ela, o verbo sevilhizar.

              Sevilhizar o Mundo

         Como é impossível, por enquanto,
         Civilizar toda a terra,
         O que não veremos, verão,
         De certo, nossas tetranetas, 

         Infundir na terra esse alerta,
         Fazê-la uma enorme Sevilha,
         Que é a contra-pelo, onde uma viva
         Guerrilha do ser, pode a guerra.

         (Sevilhizar o Mundo, em Andando Sevilha)


Nicolás Extremera Tapia
Professor Doutor da Universidade de Granada