Embora a relação de Cabral com Espanha não começa nem acaba com sua presença
física neste país, da continuidade dessa relação da idéia sua reiterada
presença como diplomata ou como simples viajeiro desde 1947, quando foi
destinado a Barcelona como vice-cônsul, até 1994 momento em que lhe foi
concedido o Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana.
Muitos são os
poetas influidos por outra cultura. Se fosse possível estabelecer uma gradação,
diriamos que Cabral se situa no extremo mais definido dessa influência. A
verdadeira relação surge quando o que se toma de outra cultura não é postiço,
acidental, circunstancial ou episódico. A verdadeira relação surge quando o
que se toma de outra cultura está situado dentro do próprio âmbito espiritual
no qual o artista se desenvolve. No caso que nos ocupa, umas vezes o que se
produz é uma extensão do já conhecido, seja por ampliação ou por elevação ao
simbólico: outras, uma descoberta daquilo que é próprio por contraposição ou
contraste com o que é alheio.
Em Cabral
encontramos um diálogo permanente entre duss culturas, a própria, local quase
sempre, reduzida ao âmbito no qual se desenvolve a sua infância e adolescência
e a outra, a alheia, não libresca, mas vivida, na qual o poeta mergulha para
compreender desde o extranhamento necessario aquilo que lhe é consubstancial.
Cabral é quase um órfão poético no Brasil e
dificilmente pode ser incluido numa tradição poética definida; se excluirmos a
Oswald de Andrade ou Murilo Mendes, são quase inexistentes seus pontos de
contato com o horizonte literário brasileiro. Sua relação com Portugal é ainda
mais difusa: de indiferença, quando não de rejeição.
Tentarei, porque
acho que é possível, ilustrar a presença da cultura espanhola em Cabral,
partindo do léxico espanhol que o poeta usa. Noutras palavras: contemplarei o
léxico como sintoma, como manifestação epidérmica dessa profunda vinculação à
qual antes aludia.
Para quem acredita em que nada há de gratuito na
obra de Cabral, a primeira frase que utiliza em espanhol: Riguroso
horizonte (É o primeiro verso do poema El horizonte de Jorge
Guillén, que pertence á primeira edição de Cántico, 1928. Desde 1936,
figura na secção 2ª, Las horas situadas), que o poeta faz servir de
epígrafe ao livro Psicologia da Composição, não pode passar
inadvertida; e menos ainda se a inserirmos na seqüência de epígrafes com que
Cabral vinha preludiando seus livros de poemas: «Solitude, récif, étoile...»
de Mallarmé, em Pedra de Sono; «João amava Teresa que amava
Raimundo/que amava Maria/que amava Joaquim que amava Lili...» de Carlos
Drummond de Andrade, em Os Três Mal-Amados; «...machine à émouvoir...»
de Le Corbussier, em O Engenheiro.
E de fato, Mallarmé, Drummond e Le Corbussier
constituem a bagagem fundamental de Cabral quando, em 1947, desembarca em
Barcelona. Ele afirma: «A Espanha foi o primeiro país estrangeiro onde eu vivi.
De forma que eu não tinha cultura clássica nenhuma, porque aqui no Brasil,
naquele tempo, ninguém tinha cultura clássica. Camões era um cidadão que nos
obrigava a fazer análise lógica com os textos e aquilo nos dava enjôo de
Camões para o resto da vida. E quando cheguei à Espanha, eu comecei a estudar
sistematicamente a literatura espanhola. Foi uma coisa que me libertou dessa
influência francesa que eu tinha através do Willy Lewin e ao mesmo tempo abriu
horizontes para mim enormes».
(Entrevista a André Pestana, O que eles pensam, Rio de
Janeiro, Tagore, 1990)
Cabral considera que este novo horizonte, rigoroso
e enorme, é configurado pelo velho mundo, pois ele faz uma descoberta às
avessas; só que o velho mundo, o novo horizonte, não é, para Cabral, Portugal,
mas sim Espanha, e não só porque ele descobre Espanha e não Portugal, mas,
também, porque, para Cabral, são os espanhóis e não os portugueses os
descobridores do Brasil.
Vicente Yáñez Pinzón
Ele o primeiro a vê-lo, e a vir,
(na barra do Suape) ao Brasil,
não deixou lá quandos nem ondes:
só anos depois confessou-se.
(A Escola das Facas)
Uma vez definido o seu novo horizonte, Cabral
estabelece, a partir daí, um diálogo permanente entre as duas culturas: a
própria, local quase sempre, reduzida ao âmbito no qual se desenvolve a sua
infância e adolescência, da qual precisa afastar-se para redescobri-la, «A
Espanha deu-me um afastamento suficiente, não excessivo, para poder escrever
sobre o Nordeste»
(Diário Popular, Lisboa 7-VI-1968)
e outra, não completamente alheia, e profundamente
popular, na qual o poeta mergulha para compreender, desde o estranhamento
necessário, aquilo que lhe é consubstancial. «Talvez meu interesse pela
cultura espanhola esteja no parentesco dela com a cultura luso-brasileira»
(Entrevista ao poeta José Paulo Moreira da Fonseca,
Ventura, Rio de Janeiro, Spala, 1987)
O livro seguinte, O Cão sem Plumas, é
cronologicamente posterior à sua primeira estada na Espanha: é um regressar,
nessa oscilação que vai caracterizar desde esse momento sua poesia, ao seu
âmbito original. Aparecem aqui já importantes pontos de conexão entre Cabral e
a poesia espanhola: o popular, o prosaico, o narrativo, «A literatura
espanhola é grande porque é, sobretudo, a mais realista do mundo. É a que tem
bases mais profundamente populares. Até mesmo nos clássicos, como Cervantes,
Quevedo, mesmo em Góngora, se encontra a presença do povo, do popular».
(Entrevista a Eduardo Mattos Portella, Diário de
Pernambuco, Recife, 19 out. 1952).
E em outro lugar:
«O que esse pessoal me mostrou, e me impressionou muito, é que não vale
a pena escrever para o povo sem usar a forma que ele usa. É por isso que eu
utilizo a forma narrativa».
(Entrevista a José Carlos de Vasconcelos, Diário de
Lisboa, Suplemento Semanal (Vida Literária e Artística, Lisboa, 16
jun. 1966)
Assim, O Cão sem Plumas, escrito em
Barcelona, um livro dedicado inteiramente a Pernambuco e também o primeiro
livro em que Cabral fala de Pernambuco, representa também uma viragem radical
em relação a sua poesia anterior. Não há símbolos, não há emoções, não há
lírica no sentido habitual. Impõe-se o prosaico na sua espessura, anuncia-se a
lírica tradicional ou de cordel: é a descrição sem emoção, a entomologia da
realidade essencial.
O livro seguinte, O Rio, põe de manifesto
já uma nova vinculação de Cabral com a cultura espanhola. «Quiero que
compongamos io e tu una prosa» é a citação de Berceo que lhe serve de
epígrafe. Mais uma vez podemos afirmar que nada em Cabral é gratuito. O Rio
marca a transição entre a influência da lírica de cordel, na qual Cabral
procurava até então a expressão do popular, e a influência, a partir daí
constante dos versos pareados do romancero e da lírica primitiva
espanhóis. «Eu me interessei pela literatura de cordel desde menino. Mas não
creio que ela tenha maior influência na minha poesia. Para comprovar isso,
comparem-se as estruturas estróficas complicadas da literatura de cordel com
os versos pareados do romancero e da poesia primitiva da Espanha. Esses,
principalmente a poesia primitiva, me marcaram muito mais do que os folhetos
dos poetas populares do Nordeste».
(Entrevista ao poeta J.P. Moreira da Fonseca. Op. Cit.)
A descrição cobra agora um certo sentido
sequencial, o melhor ainda, cinematográfico. A forma se adapta ao octossílabo/heptassílabo
assonante da literatura tradicional e popular espanhola.
A materialidade visual das longas tiradas de
versos de Berceo, a quem conhece tão bem, e a concreção da poesia de arte
mayor, serão a partir daqui uma constante na obra de Cabral e o verso de
sete sílabas em português, de oito em espanhol, será o único metro utilizado
nos livros imediatamente posteriores: Morte e Vida Severina e
Paisagem com Figuras, e uma das formas métricas preferidas por Cabral ao
longo da sua vida poética.
Paisagem com Figuras é um livro que
inaugura esse diálogo permanente entre as duas culturas a que estamos aludindo.
Dos dezoito poemas que o compõem, oito estão dedicados a Pernambuco e dez a
Espanha, repartidos estes últimos do seguinte modo: dois à paisagem de Castela,
três à paisagem de Catalunha, um ao poeta Joan Brossa, um ao poeta Miguel
Hernández, um aos toureiros, um a Andaluzia, que Cabral ainda não conhece
físicamente, representada pelo cante e os touros, e finalmente um de
que compartilham Catalunha e Pernambuco.
Cabral trata neste livro de estabelecer um diálogo
a três vozes entre o masculino: Pernambuco, representado por paisagens
estáticas; o feminino: Catalunha, e Castela: “mulher virago”.
Posteriormente, quando Cabral conheça Andaluzia,
perderá interesse por Catalunha e por Castela, e a oposição se estabelecerá já
de modo permanente entre Pernambuco, como elemento masculino, e Andaluzia, que
encarnará na poesia de Cabral o feminino.
II
Embora os temas principais relativos a Espanha (cante,
touros, paisagem, Catalunha, Castela, poesia primitiva, etc...) que Cabral vai
tratar daí por diante apareçam já em Paisagem com Figuras, é escasso o
léxico espanhol que Cabral inclui no livro. Apenas três palavras: uma, em
catalão, front, e duas em espanhol. Estas duas palavras são importantes
porque com elas Cabral inaugura esse particular dicionário poético do espanhol
que irá construíndo ao longo da sua obra. Trata-se dum dicionário de
palavras-chave, intraduzíveis, elementais, que caracterizam e definem a
realidade essencial que interessa ao poeta. São palavras de certo modo
equiparáveis às vinte palavras a que se refere em A Lição de Poesia.
E as vinte palavras recolhidas
Nas águas salgadas do poeta
E de que se servirá o poeta
Em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
De que conhece o funcionamento,
A evaporação, a densidade
Menor que a do ar.
(A Lição
de Poesía, em O Engenheiro)
São vinte palavras
que agora pertencem a outra língua e que exigem a Cabral explicá-las, traduzi-las
ou glosá-las num complexo exercício poético:
Só duas coisas conseguiram
(des)ferilo até a poesia:
o Pernambuco de onde veio
e aonde foi: a Andaluzia.
Um, o vacinou do falar rico
E deu-lhe a outra, fêmea e viva,
Desafio demente: em verso
Dar a ver Sertão e Sevilha.
(Autocrítica,
em A Escola das Facas)
A primeira dessas duas palavras: «meseta», aparece
em Paisagem com Figuras, dentro do poema Imagens em Castela,
zona geográfica que atraiu, numa primeira fase, o interesse de Cabral. O
poeta, já na primeira quadra do poema, explica o significado:
Se alguém procura a imagem
da paisagem de Castela
procure no dicionário:
meseta provém de mesa.
A outra palavra, que é a primeira que figura no
poema Diálogo, pode, ou não, ser espanhola: a palavra é canto, e
digo que pode ou não ser espanhola, porque a partir daí Cabral usará sempre
cante, que é inequivocamente andaluza. O poema inteiro está destinado a
explanar o que o canto, o cante andaluz significa e vai
significar já para sempre na poesia de Cabral.
A O canto da
Andaluzia
É agudo com
seta
No instante
de disparar
Ainda mais
aguda e reta.
B Mas quem atira essa seta
De tão penetrante fio
Pensa que a face melhor
É a que recorta o vazio.
Etc.
Este particular dicionário de Cabral continua em
A Educação pela Pedra. Nesse livro há dois poemas situados: um, no
apartado Nordeste, intitulado: Coisas de Cabeceira, Recife e
outro, no apartado Não Nordeste, intitulado: Coisas de Cabeceira, Sevilha.
Obviamente é neste segundo poema donde, por contraposição ao que lhe é próprio,
Cabral necessita explicar o alheio, embora já seja próprio para ele.
1
Diversas coisas se alinham na memória
Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
Não esparramarse, fazer na dose certa;
Por derecho, fazer qualquer quefazer,
E o do ser, com a incorrupção da reta;
Con nervio, dar a tensão ao que se faz
Da corda de arco e a retensão da seta;
Pies claros, qualidade de quem dança,
Se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa.)
Este dicionário de bolso, de cabeceira, irá aos
poucos extendendo-se conforme a poesia de Cabral vai descobrindo novos
significados no dicionário próprio das gentes de Sevilha
Tinha próprio dicionário
E própria escada de valores,
Onde o degrau mais elevado
Era o que dizia salobre.
Infundio nele não é mentira,
Coisa de frouxo fundamento:
É o falso com imaginação
Mentira talvez, mas com engenho.
Nesse dicionário as palavras
Não deixam de ser entendidas,
Mas têm esse desvio mínimo
Que faz da língua murcha, viva.
(Ocorrências de uma sevilhana, em
Agrestes)
suas glorietas:
São em Sevilha as glorietas
Essas praças de bolso, feitas
Para se ir escutar o tempo
Desfiar carretéis de silêncio
(A Sevilhana que não se sabia, em Sevilha
Andando)
suas plazoletas:
Para a mulher: para que aprenda,
Fez escolas de espaço, dentros,
Pequenas praças, plazoletas,
Quase do tamanho de um lenço.
(As Plazoletas, em Sevilha
Andando)
seus corrales de vecinos:
Não raro um palácio de outrora
É agora “cabeça de porco”
Mas o reboco descascando
Não compromete seu decoro
(Corral de Vecinos, em Andando
Sevilha)
sua Feria de Abril.
Durante a Feira de Abril, Sevilha,
Se mostra turística ao turista.
Ela monta então seu carnaval
Se veste com seu cartão-postal
Mas aquela é uma falsa Sevilha
(A Feira de Abril, em Andando
Sevilha)
sua Semana Santa.
É Semana Santa em Sevilha.
As procissões são todo dia.
Como os clubes têm suas cores,
Seus bairros: são as Confrarias.
(Semana Santa, em Andando Sevilha)
Naturalmente Cabral usa também de grande
quantidade de palavras, expressões e frases feitas que não precisam de maior
explicação. Assim há palavras em espanhol na sua obra como: gracias, adiós,
calle, aire, cazalla, señoritos, rejas, romances. Expressões como: casa
de mala vida, niñas bien, gente señorita. Outras vezes inclui fragmentos
de conversas em espanhol: Qué bien dormiría contigo! Dame, pronto, hijita,
una poquita de aguardiente. Hijita, bebí lo bastante. Vengo de echarme una
siesta.
Nalguns casos estas frases são transcritas
foneticamente: Lo quié no habrá sufr´io e´ta mujé! Tó lo bueno le venga a
U´ted. Adió. Qué mal ange!
Mas, como é sabido, é o mundo do cante, do
baile e dos touros o que mais atrai a atenção do poeta e onde se concentram o
maior número de palavras espanholas.
Em relação com o touro de lidia,
Um toro de lidia é como um rio
Na cheia. Quando se abre a porta
...
Um toro de lidia é ainda um rio
Na cheia. Quando no centro da praça.
(El toro de lidia, em Museu de
Tudo)
se tece um léxico específico que Cabral demonstra
conhecer perfeitamente: corrida, matador, lidia, palcos, muleta, tendidos,
sol, sombra, corral, etc. Esse conhecimento vira erudição conforme Cabral
vai penetrando no mundo dos touros até o extremo de usar um adjetivo
absolutamente específico do léxico taurino “burriciego” `touro míope´,
quando descreve a morte do toureiro Gallito causada por um touro com tais
características. (A morte de “Gallito”, em Crime na Calle Relator)
A MORTE DE “GALLITO”
Quis tourear
muito de perto
Um touro
míope (burriciego),
Sem
conseguir nele mandar,
Fazê-lo
investir, arrancar.
Cansado, se
afasta do touro,
(“Fazê-lo
touro não posso.”).
Mas o touro,
de longe o vê,
E o investe
com todos os pés.
José o sente,
estende a “muleta”,
Para desviá-lo
de sua meta;
O touro não
a vê, já está perto,
Vai no que
vira, o talhe esbelto.
...
Mas o verdadeiramente surpreendente para quem
conhece o desinteresse de Cabral pela música é a sua atração pela música
andaluza, pelo flamenco, pelo cante hondo, e também pelo baile
que lhe é associado. «[Gosto] só do flamenco, que foi uma grande revelação de
minha vida e do frevo de Pernambuco»
(Entrevista concedida a M. Leonor Nunes em JL,
448, 5/10 fev. 1991)
Uma das razões, pelo menos no começo, embora
depois venham outras espalhadas pela sua poesia, é que «A música andaluza
se associa a movimento de dança, torna-se visual. Aí eu gosto.»
(Jornal do Commercio, Recife, 13
jan. 1982)
Cabral conhece perfeitamente o mundo dos cantes
e bailes flamencos: tanguillos, fandanguillos, martinetes, bulerías,
saetas, soleares, alegrías, sevillanas, etc. até ao extremo de diferenciar
cantes que nem o comum dos andaluzes facilmente diferencia. Num poema
intitulado Numa Sexta-Feira Santa, pertencente ao livro Crime na
Calle Relator, Cabral descreve a confusão que se produz quando numa
procissão da Semana Santa uma cantaora faz um cante, siguiriyas,
que não é permitido pela Igreja, mas que é muito parecido com a saeta,
o cante dos devotos na Semana Santa na Andaluzia:
Numa Sexta-Feira Santa
1
Semana Santa na Andaluzia:
O que de sacro ainda o feria.
A de que conta foi em Utrera,
De Sevilha a quase seis léguas.
O grande dia da Semana
É a noite Quinta-Sexta Santa.
Preferiu passá-la em Utrera
Que a faz em mais pobre maneira,
Mas onde queria assistir
O Cristo Cigano que ia ir
Reentrar na Matriz de Utrera
Nos braços das saetas da Pepa.
Pepa, grande por bulerías,
Cantando saetas estrearia,
E era tão grande o interesse
Que de Sevilha veio quem viesse.
2
Passa que cantar por saetas,
Cante que aceita a própria Igreja,
Faz-se com o mesmo compasso
Das siguiriyas, que os ciganos
Carregam no pulso e na língua
Para confusão da polícia.
Porém se algum guarda-civil
Tiver o ouvido mais sutil
E sentir que o cantaor ia
Não por saeta mas siguiriya,
Leva o infrator para a cadeia
Por desaforo a Franco e à Igreja.
...
Cabral distingue, e ensina o leitor a distinguir,
entre o flamenco de fólego menor, para turistas:
Mas aquela é uma falsa Sevilha
Aquela em que gente señorita
...
Dançando só castas sevilhanas
Que é o até onde chega sua dança.
(A Feira de Abril, em Andando
Sevilla)
e em outro lugar:
Sevilhanas são para as damas,
Para as niñas bien, não têm chama.
(Carmen Amaya, de Triana, em Andando Sevilha)
Distingue isso
daquele outro flamenco, do flamenco grave, que é aquele que produz arrepio,
«Não a sensação a-favor-do-pelo; a irritação a contrapelo é o que procuro. Não
o entorpecente, mas o estimulante. Ora, o flamenco me dá isso. É como a luz
que arde nos olhos de quem estava dormindo no escuro»
(Entrevista coletiva –resposta ao pianista Arnaldo
Estrela, Zero Hora, Porto Alegre, 19 jan. 1976)
no qual é preciso centrarse
Centrarse, viver seu caroço
E a partir dele dar-se todo,
Esse cante ou baile é monólogo
Que só funciona para o próximo.
(Intimidade do flamenco, em
Andando Sevilha)
e que é o flamenco popular, sóbrio, austero, como o
cante a palo seco, que se canta sem acompanhamento e é o cante dos
braceiros, dos mineiros, dos devotos, dos pescadores e que na realidade é uma
família de cantes à qual Cabral dedica um dos mais belos poemas:
Se diz a palo seco
O cante sem guitarra;
O cante sem; o cante;
O cante sem mais nada;
Se diz a palo seco
A esse cante despido:
Ao cante que se canta
Sob o silêncio a pino.
O cante a palo seco
É o cante mais só:
É cantar num deserto
Devassado de sol;
É o mesmo que cantar
Num deserto sem sombra
Em que a voz só dispõe
Do que ela mesma ponha.
...
(A Palo seco, em Quaderna)
Expressões estas:
centrarse e a palo seco que podem também ser incluídas nesse
dicionário de palavras-chave, de cabeceira que Cabral compõe sobre a cultura
espanhola.
Para concluir quero sublinhar que os dois últimos
livros de poesia que Cabral publicou: Sevilha Andando e Andando
Sevilha vão respectivamente precedidos de epígrafes em espanhol: En el
cielo que pisan las sevillanas (Popular sevilhano) e Quien no vio a
Sevilla no vio maravilla (Popular espanhol).
Estes dois livros são as últimas homenagens do
poeta a uma língua, a uma cultura e a uma cidade, Sevilha, com a qual
identificou sua poesia, sua esposa Marly e até o destino da humanidade,
inventando, por ela, o verbo sevilhizar.
Sevilhizar o Mundo
Como é impossível, por enquanto,
Civilizar toda a terra,
O que não veremos, verão,
De certo, nossas tetranetas,
Infundir na terra esse alerta,
Fazê-la uma enorme Sevilha,
Que é a contra-pelo, onde uma viva
Guerrilha do ser, pode a guerra.
(Sevilhizar o Mundo, em Andando
Sevilha)