19/11/2005
Ano 9 - Número 451

 

ARQUIVO
OPINIÃO ACADÊMICA

Opinião Acadêmica

FOBIA

 Sandra Beck da Silva Etges


 “Se sonho com ladrões e sinto medo [aversão],
os ladrões são imaginários, mas o medo é Real”
[1].     


            Ao se observar as freqüentes dificuldades dos pais em lidar com as ditas fobias de seus filhos, podemos tentar, recorrendo ao exemplo de Fobia citado pelo próprio Freud em suas “Obras Completas”: Análise de um Menino de cinco Anos (1909) fazer algumas pontuações que, talvez, possam ajudá-los.

            A Fobia, uma aversão insuportável a um objeto consistente, sempre irá comparecer no lugar da Angústia.

            Ora, a Angústia é para Freud, qual a Inibição, uma manifestação sintomática de que algo não está sendo decifrado simbolicamente, não está sendo devidamente recalcado, e que, portanto, irá retornar imaginariamente sob a forma de temor. Porém, quando este temor se encarna em algum objeto como um cachorro, cavalo e/ou barata, torna-se, então, um fantasma causando uma aversão insuportável. Assim constituída, a Fobia se inscreve para dissimular o ódio.

            Por isto, Jacques Lacan, em seu Seminário “A Relação de Objeto” (1957), ao fazer uma releitura deste caso de Freud, onde aliás, Freud escutou o pai de Hans e quase não falou com o menino, mas nem por isso deixou de constatar que a mãe de Hans, em cumplicidade com a avó paterna, desqualificava falicamente o pai de Hans. Lacan chegará a dizer que Hans se irá deparar com a “ausência de paternidade” (por via Simbólica), já que a avó cumpria integralmente a função de desmentido da função paterna. Logo, Hans seria filho(a) de duas mães. E, consequentemente, o seu temor de cavalos que seria derivado do deslocamento, para esta figura do seu “álbum de figurinhas”, do que ele supunha que a mãe, emocionalmente, lhe provocaria: a amputação, a mordedura, a possibilidade de seu “pipi não crescer” com o que a sua avó sempre lhe ameaçava. Ela, então, ocupava para o menino a função de um pai privador da falicidade, privador do desejo, colocando-o, para sempre, como o “pequeno Hans”, ou um “pequeno fetiche” de sua mãe. Logo, os cavalos que iriam mordê-lo não eram “reais” e sim fruto da sua imaginação, mas o medo de amputação o era.

            Deste modo, a Fobia não é um mero sinônimo de medo como, em geral, é considerada. O que a causa, em Hans, é a desqualificação fálica da paternidade de “carne e osso” somada a um desejo materno de mantê-lo sempre “pequeno” e privado de crescer anatomicamente. Como reação, ele desloca o ódio que sente da avó e mãe castrantes para os cavalos e sobrepõe a aversão (fobia) à angústia. Onde já se viu um pênis não crescer? Somente por temor, porque aí ele não poderá, de fato, perder o que não adquiriu de direito: a masculinidade. Do ponto de vista fetichista da mãe, seria melhor e mais fácil que permanecesse “pequeno”.

            Como Lacan, neste Seminário, poderemos então insistir em dizer que a Fobia é “uma sentinela avançada contra a angústia”, isto porque toda vez que Hans era invadido por estados aparentes de angústia, sua mãe, para sanar sua aflição, costumava levá-lo para dormir em sua cama, e a Fobia, então, substituía a aflição. Ora, a angústia é o que poderia levar ao deciframento simbólico deste estado psíquico, desde que os pais tentassem explicar com palavras e atitudes que não haveria motivo para se angustiar, que ele poderia dormir sossegado e sozinho. Porém, se a angústia é rechaçada pela mãe que leva uma criança para dormir com ela, como simbolizar estes sentimentos e atribuir potência ao filho?

            Comportar-se então legitimando o receio é um equívoco. Os pais, ao desejarem “proteger” os filhos “ficando”, abrigando-os no quarto ou em sua cama, estarão consolidando, possivelmente, o motivo (imaginado) do medo. Logo, o que era apenas um receio tornar-se-á aversão (fobia). Os pais, ao agirem dessa maneira, não conseguirão decifrar as fantasias imaginárias das crianças e, mais grave ainda, poderão transmitir a mensagem de que, por serem “pequenas” precisam “ficar” com a mãe. Se menino, ficar com a mãe constitui o incestuoso lugar de falo imaginário; se menina, a rivalização face a imaginária figura paterna poderá converter a privação (do pai) em ódio à mãe.

Então, não desejar que um filho cresça falicamente poderá resultar em duas posições: ser análogo à constituição do fetiche da mãe de Hans, ou a constituição obsessiva do filho como falo imaginário da mãe.


[1] - FREUD, Sigmund. A Significação dos Sonhos (1900). In. Obras Completas, Vol. IV e V. RJ, Imago, 1974.


Sandra Beck da Silva Etges é Psicanalista - CRP07/02721
Membro Analista do Centro de Estudos Lacaneanos (CEL/RS) Santa Cruz do Sul / RS
E-mail: sandrabecksetges@ibest.com.br