03/02/2007
Ano 10 - Número 514

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica


PREVALÊNCIA DE SOBREPESO E OBESIDADE ENTRE ESCOLARES DA REDE PÚBLICA SEGUNDO DOIS CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO ANTROPOMÉTRICO
 

Magna da Glória Silva Lameiro 1,
Elizabete Helbig 1,
Paula Vergara da Silva 1,
Cynthia Munhoz Leal 2.


1. INTRODUÇÃO

 

A obesidade é uma doença crônica, definida como excesso de gordura corporal em que ocorre concomitância de fatores de risco genéticos e ambientais. (Moraes, 2006).  Os fatores genéticos aparecem como os maiores determinantes da massa corporal; no entanto, situações ambientais podem diminuir ou aumentar a influência desses fatores (Rivera & Sepúlveda, 2003).

A obesidade na infância está aumentando em todo o mundo. No Brasil, notavelmente em crianças na fase escolar, está ocorrendo um aumento marcante da obesidade infantil e de possíveis complicações clínicas da obesidade. Crianças obesas podem fazer parte dos grupos de riscos com maiores probabilidades de desenvolverem na idade adulta, distúrbios como a hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, transtornos coronarianos e problemas ortopédicos.

A avaliação antropométrica, mesmo quando restrita ao peso e estatura, assume grande importância no diagnóstico nutricional da criança. Isto se deve à sua facilidade de realização, objetividade da medida e possibilidade de comparação com um padrão de referência de manuseio relativamente simples, principalmente em estudos populacionais (Fornés, Martins, Velásquez-Meléndez & Latorre, 2002).

 

As curvas de Cole et al. (2000) para IMC foram desenvolvidas baseando-se em estudos transversais representativos de seis países (Brasil, Estados Unidos, Grã Bretanha, Hong Kong, Holanda e Cingapura), com mais de 10 mil participantes. Elas foram estimadas de forma que os pontos das curvas ajustadas dos percentuais 85 e 95 de IMC aos 18 anos fossem obrigatoriamente os pontos de corte para sobrepeso e obesidade utilizados para adultos (25 e 30kg/m2, respectivamente). As curvas contemplam a distribuição percentilar por faixa etária para cada sexo.

 

O objetivo do estudo foi comparar a prevalência de obesidade infantil segundo dois critérios antropométricos, em uma escola pública estadual na cidade de Pelotas - RS.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

 

O estudo foi realizado com delineamento transversal, incluindo 453 crianças de ambos os sexos, matriculadas na 1a a 4a séries do primeiro ciclo do Ensino Fundamental de uma escola pública estadual, na cidade de Pelotas, RS. A faixa etária estudada foi 7 a 13 anos completos.

O diagnóstico consistiu em avaliação antropométrica dos escolares, onde foram realizadas, medida de peso e estatura. Para a medida de peso, foram utilizadas balanças eletrônicas da marca KRATOS®, com capacidade de 150kg (precisão de 20g). Os escolares foram pesados vestindo roupas leves e descalços, permanecendo eretos, no centro da balança, com os braços esticados ao lado do corpo, sem movimentação (Moraes, 2006).

Para a medida da estatura foi utilizada fita métrica inextensível (fixada em parede lisa), esquadro e plataforma (usada em local sem rodapé). Os escolares foram colocados em posição vertical, eretos, com os pés paralelos e calcanhares, ombros e nádegas encostados na parede (Giammattei, Marshak, Wollitzer & Pettitt, 2003) As medidas de peso e estatura foram realizadas em duplicata, calculando-se a média dos valores para a obtenção do resultado final.

As medidas antropométricas foram digitadas e armazenadas em um banco de dados desenvolvido no programa Epi Info, com dupla digitação dos dados para comparação e detecção de possíveis erros. As crianças foram classificadas como obesas e com sobrepeso de acordo com dois critérios. O primeiro deles inclui o índice peso por altura (P/A) recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para definição de sobrepeso em crianças, quando superior a dois desvios padrão em relação à mediana de referência, por sexo e faixa etária (Moraes, 2006). Neste trabalho utilizou-se a referência do NCHS, 1977.

As prevalências foram estimadas em cada faixa etária e comparadas em termos de valores nominais. O segundo critério, proposto por Cole, baseia-se no cálculo do índice de massa corporal (IMC) que é obtido pela divisão do peso (em quilogramas) pela altura (em metros ao quadrado) e, para cada idade, foram definidos como pontos de corte os percentis 85 e 95 de IMC para sobrepeso e obesidade, respectivamente.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Nas tabelas a seguir, são descritas as duas avaliações.

 

 

Tabela 1. Relação P/A em escolares de 1a a 4a séries do ensino fundamental segundo NCHS (OMS, 1977)

 

Atributo

Freqüência

Percentual

Percentual válido

2 – Eutrófico

209

46,1

84,3

3 - Excesso de peso / altura

39

8,6

15,7

Total escolares analisados

248

54,7

100,0

Escolares não incluídos

205

45,3

---

Total *

453

100,0

---

*Total de escolares matriculados na escola


 

Tabela 2. Prevalência de sobrepeso e obesidade em escolares de 1a a 4a séries do ensino fundamental segundo Cole et al (2000).

 

Atributo

Freqüência

Percentual

Percentual válido

2 - Eutróficos e/ou subnutridos

230

50,8

67,8

3 - Sobrepeso

68

15,0

20,1

4 - Obesos

41

9,1

12,1

Total escolares analisados

339

74,8

100,0

Escolares não incluídos

114

25,2

---

Total *

453

100

---

*Total de escolares matriculados na escola

 

 

4. CONCLUSÕES

 

A prevalência de sobrepeso e obesidade encontrados para esses escolares é preocupante. Através dos dados apresentados, considerando-se qualquer um dos  critérios utilizados, compreendem-se a importância da preocupação em relação à obesidade infantil e suas conseqüências futuras para a saúde, como o desenvolvimento de doenças crônico degenerativas. É necessária a implantação de campanhas de orientação nutricional direcionadas aos pais e aos educadores presentes na escola, levando-se em consideração que a escola pode servir de suporte essencial para a prevenção desta patologia.

 



5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COLE, T.J. et al. Establishing a standard definition for child overweight and obesity worldwide: International Survey. BMJ 2000; 320:1240-3.

FORNÉS, N.S., MARTINS, I.S., VELÁSQUEZ-MELÉNDEZ, G., LATORRE, M.R.O. Escores de consumo alimentar e níveis lipêmicos em população de São Paulo, Brasil. Rev Saúde Pública 2002; 36:12-8. 

GIAMMATTEI, J.,  BLIX, J., MARSHAK, H.H., WOLLITZER, A.O., PETTITT, D.J. Television watching and soft drink consumption: association with obesity in 11-to year-old schoolchildren. Arch Pediatr Adolesc Med 2003; 157:882-6.

MORAES, S. A. de et al.  Prevalência de sobrepeso e obesidade e fatores associados em escolares de área urbana de Chilpancingo, Guerrero, México, 2004.Cad. Saúde Pública v.22 n.6 Rio de Janeiro jun. 2006

RIVERA, J.A., SEPÚLVEDA, J. Conclusiones de la Encuesta Nacional de Nutrición 1999: traduciendo resultados en políticas públicas sobre nutrición. Salud Publica Méx 2003; 45 Suppl 4:S565-75.

  

 

 


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