Resumo:
Este trabalho dirige o olhar para compreender, a partir do conceito
Indústria Cultural de Theodor Adorno e Max Horkheimer a relação entre:
sujeito e consumo nos processos de identificação. Busca, também, salientar
em sua consideração a maneira pela qual as identidades são preparadas em
função do consumo e como o discurso midiático se interpõe nessas relações.
Considera ainda o cenário cristalizado do showbusiness sob o
postulado mercantil e o sujeito enquanto “homem unidimensional”.
A Produção capitalista os
mantém tão bem presos em corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que
lhes é oferecido (...) hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente
ao mito do sucesso do que os bem sucedidos. Elas têm o desejo deles. (ADORNO &
HORKHEIMER, 1985: 125).
No
capítulo Indústria Cultural, Adorno e Horkheimer (1985) elucidam o
sistema da “cultura de massa”, identificando o gosto uniforme como padrão.
Esta uniformização do gosto se desenvolve a partir de um modelo de repetição,
no qual a massa é treinada. Assim,
todo traço de espontaneidade
no público é dirigido e absorvido numa seleção profissional, por caçadores de
talentos [...] Os talentos já pertencem à indústria, porque desejam figurar
nela [g.n], muito antes de serem apresentados por ela (1985: 115).
Adorno e Horkheimer afirmam que o trabalho da indústria
cultural é reforçar modelos ideais,
representados por personalidades do showbusiness em geral e em especial
de telas de cinema. O “treinamento” na indústria cultural se volta para a
repetição de padrões personificados pelos modelos estéticos. Assim como na
música predomina a insistência no ritmo em detrimento da melodia, as tramas
básicas das novelas insistem numa representação cujo ator é sempre o mesmo
mocinho bonito, simpático e generoso. “Os astros ressurgem ciclicamente
como invariantes fixos” (idem, p.117) e as personagens são erguidas à
qualidade de “personalidades” ditas “atraentes”.
A personagem principal é aquela cujas características
estéticas, sociais, emocionais servem de modelo de homem ou mulher perfeito
para a recepção, ou seja, a simulação de particularização envolve o espectador
que interage (por meio das tecnologias) numa tentativa de figurar nas telas
como a personagem da narrativa de ficção.
Então, a recepção se identifica com o protagonista, bonito,
rico, viril, amável por aspirar as qualidades por ele encarnadas. Essa
identificação tem um caráter de aspiração a uma existência que a condição
humana, social ou cultural não lhe permite ser. “O rapaz maravilhoso”, “o
engenheiro”, “a mocinha dinâmica”, “a falta de escrúpulos disfarçada de
caráter” são próprios do investimento no espetáculo. O desejo (da massa) de
ser semelhante aos modelos ideais, dizem Adorno e Horkheimer, é uma
insistência obstinada na ideologia que os escraviza (1985: 125).
Desse modo, o receptor vive, como se fosse a personagem da
ficção (no caso da novela, durante meses), tudo aquilo que não vive na
realidade, em sua própria vida, ou porque sua natureza não permite, ou porque
o artifício não está acessível. Eis o ponto nodal da moral do sistema: os
padrões são fixados, alterados ou eliminados, tanto em função de legitimação
dos modelos ideais, como, e isto é o principal, pela simulação da realidade,
criando padrões de comportamento. Assim, o receptor procura satisfazer seus
desejos a partir dos indicativos fornecidos por tramas de ficção que exibem as
personalidades como desígnios de uma potência superior, por ela
prescrita.
Starlet deve simbolizar a
empregada de escritório, mas de tal sorte que, diferentemente da verdadeira, o
grande vestido de noite já parece talhado para ela. Assim ela fixa para a
espectadora, não apenas a possibilidade de também vir a se mostrar na tela,
mas ainda mais enfaticamente a distância entre elas. Só uma pode tirar a sorte
grande, só uma pode se tornar célebre, e mesmo se todos têm a mesma
possibilidade, esta é para cada um tão mínima que é melhor riscá-la de vez e
regozijar-se com a felicidade do outro, que poderia ser ele próprio e que, no
entanto, jamais é. (1985: 136)
Portanto, o
sistema reforça para a recepção a possibilidade que cada indivíduo tem de se
tornar célebre ao mesmo tempo em que simula a grande loteria que é a vida. A
catarse é esvaziada de seu significado em favor da verdade aparente das tramas
de ficção, isto é, o espectador, diante das representações da personagem da
novela, reconhece a sua própria condição social, cultural e humana,
principalmente, quando percebe que não há semelhança alguma com o astro da
encenação novelesca.
Então, ele reconhece a miséria, a pobreza, as inaptidões ou
imperfeições (estéticas ou da natureza humana) por ele vividas, que aparecem
para a recepção como incompetência, incapacidade, inabilidade sua. Todavia,
ela regressa como esperança de ao menos se parecer com tal personagem na
tentativa de reconhecimento e de alcançar o gozo que os modelos ideais sempre
simulam ter alcançado.
Ora, se a condição humana não permite à recepção ser como
as personagens de ficção, porque a própria condição humana é precária, ou
porque o artifício não está acessível, os objetos de consumo passam a ser o
ancoramento dessa expectativa. Ela (a massa) deseja assemelhar-se a eles
(personagens), procurando satisfazer os desejos que estão refletidos nos
protagonistas, seja por meio de compras de um automóvel potente, veloz,
arrojado, ou a partir de bugigangas do cotidiano, ou ainda de transformações
estéticas que a tornem semelhante aos “modelos ideais”.
Nesse sentido, o protótipo de “homem
feliz” é aquele personagem da ficção que foi meticulosamente trabalhado para
figurar como modelo de sucesso e de perfeição, invadindo de maneira íntima o
espaço do espectador que o observa atentamente. Milhões de espectadores
parecem estar em cena com a personagem ao mesmo tempo em que estão em seus
domicílios a espera do próximo capítulo. Ainda que a Starlet (a verdadeira)
quisesse se tornar uma celebridade, a possibilidade seria tão ínfima quanto o
gozo de felicidade estimulado pela personagem do mundo do faz de contas. O
melhor a fazer, dizem Adorno e Horkheimer (p. 136), é regozijar-se com a
felicidade do outro (das personalidades), das telas de cinema ou, dizemos nós,
das telas de televisão.
As personagens, enfim, refletem o “desejo” da recepção e,
ao refletirem esse desejo, acentuam a possibilidade virtual da recepção se
tornar célebre como o protagonista. Isto se dá na medida em que o receptor
passa a se comportar igual ao personagem representado na trama de ficção, a
utilizar o mesmo vestuário (ou pelo menos parecido), ter os mesmos gostos;
semelhanças que se darão, invariavelmente, por meio do consumo, desde um
simples corte de cabelo à compra de um automóvel (a publicidade acaba por
cumprir um papel preponderante nesse jogo de representações, mascarando seu
caráter ideológico, acentuando e ratificando sua funcionalidade). Para Adorno
e Horkheimer, ela “é seu elixir da vida. Tudo aquilo que não traga seu
sinete é economicamente suspeito” (1985: 116).
Mas o desejo, que as personagens representam através dos
desejos da recepção, “desliza como que numa série interminável, numa
satisfação sempre adiada e nunca atingida” (GARCIA-ROSA, 2002: 139). O desejo
é sempre deslocado. E numa tentativa de burlá-lo o mercado se apresenta como
supridor efetivo dele, ou seja, é no mercado que se encontra “a satisfação
plena” dos desejos. “A indústria cultural não cessa de lograr seus
consumidores quanto àquilo que está continuamente a lhes prometer. A
promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e pela encenação” (ADORNO &
HORKHEIMER, 1985: 130).
Os autores da Dialética do Esclarecimento afirmam
que a violência da sociedade industrial se instalou nos homens de uma vez por
todas e que o homem foi trabalhado pela indústria cultural de maneira
maliciosa, tornando-se um ser genérico. Podemos intuir, portanto, que o
indivíduo é um objeto, a ponto de ser comparado com uma mercadoria no sistema
de produção do “ritmo do aço”. “Ele é fungível, um mero exemplar. Ele próprio,
enquanto indivíduo, é o absolutamente substituível, o puro nada [...]” (1985:
136).
Adorno e Horkheimer demonstram que quanto mais firme se
configuram os procedimentos da indústria cultural, mais ela orienta o
espectador para o consumo. A medida que a utilização das técnicas de produção
tornaram-se indispensáveis na sociedade contemporânea, os interessados
passaram a dar um explicação para essa indústria ser o que é, tentando
ratificar que a “disseminação de bens padronizados para a satisfação das
necessidade iguais” vem do fato de milhões de pessoas participarem dessa
indústria (1985: 114). Eles provam como essas técnicas se constituem como
álibi do discurso da indústria cultural formando a vida nas grandes cidades.
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Referências Bibliográficas
ADORNO,
Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de
Janeiro: Jorge Zaar, 1985.
GARCIA-ROSA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2002.
HALL,
Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,
2005
Ricardo José de Moura
é
formado em Comunicação Social pelo do Centro Universitário Augusto Motta,
pós-graduando em jornalismo cultural e pós-graduando em filosofia moderna e
contemporânea pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.