03/03/2007
Ano 10 - Número 518


ARQUIVO
Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica

Aprendendo através das alianças


Gustavo Porpino de Araújo


A crescente competitividade e os custos elevados para o desenvolvimento de produtos que preencham os anseios dos consumidores, entre outras causas, faz surgir a necessidade das empresas se engajarem em processos de aprendizagem com o ambiente e, mais precisamente, por meio de alianças estratégicas. O conhecimento, neste contexto de aprendizado mútuo, deixa de ser uma ferramenta ou recurso para se tornar o foco do negócio. Poucas indústrias seguem competindo através de recursos tangíveis e até o capital deixa de ser um diferencial competitivo, uma vez que, o desenvolvimento do mercado de capitais e o crescente investimento externo direto permite o surgimento de indústrias intensivas em capital até em países subdesenvolvidos.

As indústrias de informática e farmacêutica, setores econômicos intensivos em conhecimento, servem de exemplo para entendermos melhor a corrida em busca do conhecimento através da formação de alianças. É importante notar que a complexidade das inovações, nestes setores, demanda o compartilhamento de riscos. Faulkner e Child (1998, p. 77) cita que dividir o risco financeiro é um motivo fundamental na formação de alianças.

Os autores citam ainda que as evidências da pesquisa conduzida por Powell, Koput e Smith-Doerr (1996) levam a crer que o conhecimento e fontes de inovação surgem no contexto de comunidade. A organização rígida, hierarquizada, seria um veículo pobre em aprendizado. De fato, o desenvolvimento de alianças permite às empresas adquirirem as competências de que necessitam podendo evoluir para a troca de conhecimento tácito.

O aprendizado organizacional, conforme citado por Rodrigues (1999, p. 113), significa o aumento do repertório de habilidades possuídas por uma organização. As joint ventures podem ser desenvolvidas a partir da necessidade de se transferir conhecimento tácito. Apesar de ser de difícil transferência, pode ser compartilhado através dos recursos humanos das empresas envolvidas na parceria trabalhando juntos.

As novas formas de organização surgem para fomentar o acesso ao conhecimento. Pettigrew e Fenton (2000) enfatizam o conceito de modular organization proposto por Daft e Lewin. As chamadas organizações modulares dão suporte ao aprendizado contínuo, e são flexíveis para lidar mais eficientemente com os problemas surgidos no cada vez mais instável ambiente externo das empresas.

 As indústrias farmacêuticas, por exemplo, entram em alianças como uma forma de fazer pesquisas em parceria e alavancar o conhecimento necessário para o desenvolvimento de novos medicamentos. A Pfizer recorreu a diversas parcerias nos últimos dez anos para o desenvolvimento de medicamentos. A Pfizer, em particular, criou o cargo de vice-presidência de alianças estratégicas e reconhece que para alcançar um crescimento agressivo é preciso recorrer às alianças estratégicas.

As diversas alianças na indústria farmacêutica tornam mais difícil diferenciar competidores de aliados. Conforme mencionado por Rodrigues (1999) o ambiente de acirrada competitividade cria o paradoxo das estratégias colaborativas. Pode-se dizer que quanto maior o investimento necessário em pesquisa e desenvolvimento, maior parece ser a necessidade de entrar em alianças estratégicas. O grande número de alianças estratégicas presente também na área de tecnologia da informação ajuda a sustentar a tese.

A Hewlett-Packard e a Disney uniram suas competências através de uma aliança estratégica, prevista inicialmente para durar 10 anos, feita em 2003. Empresas como HP e Disney resolvem unir suas competências essenciais para atender melhor os novos consumidores.

O estudo das indústrias farmacêutica e da informática leva a crer que a crescente colaboração entre competidores é uma tendência irreversível. A necessidade da troca de tecnologia e conhecimento, do desenvolvimento de pesquisas conjuntas e da redução de riscos continuará ditando a forma de competição. Paralelo a estas imposições do mercado competitivo, existe o interesse dos países subdesenvolvidos em atrair investimento estrangeiro. Os países contrários ao investimento estrangeiro tendem a ceder diante da necessidade de ter acesso ao conhecimento tácito das organizações que almejam entrar nestes mercados.


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Referências bibliográficas:

CHILD, J. e FAULKNER, D. Strategies of cooperation: managing alliances, networks, and joint ventures. Oxford, New York: Oxford University Press, 1998. 

PETTIGREW, A. e FENTON, E. The innovating organization. Londres: Sage, 2000.

RODRIGUES, S. (org.). Competitividade, alianças estratégicas e gerência internacional. São Paulo: Atlas, 1999.

 


Gustavo Porpino de Araújo é jornalista, pós-graduado em administração pela Universidade de Tecnologia de Queensland (Austrália), mestrando em administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É analista de comunicação e negócios da Embrapa Cerrados.