10/09/2004
Número - 385

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


 

Opinião Acadêmica

Psiquismo, gozo com a morte e HPV

(Contribuições da Psicanálise à Prevenção e/ao Tratamento Clínico de Pacientes Portadores de Human Pappilomavirus, dito HPV)

Márcia Rosana Forster Wazlawik


            Inicialmente destacaríamos duas observações que nos levaram à cogitação deste tema. Primeiramente nos demos conta que se poderia aplicar aos possíveis contaminados pelo HPV o que nos foi dito por Rita Franci Mendonça a respeito da SIDA (cf.  www.riototal.com.br,  Coojornal  n°379, RJ de 30/07/2004). ¹
               “Poder-se-ia pensar que o medo faria com que se tomasse as precauções necessárias para evitar tal contaminação. Porém há fatores psíquicos poderosos que dificultam estes  cuidados, fatores que independem do controle consciente das pessoas. Por esta razão, as campanhas institucionais que visam educar a consciência, no sentido de evitar a prática de procedimentos de risco, tem tido pouco sucesso, pois não possuem o poder de debelar os aspectos psíquicos ligados ao gozo com a morte.” (Cf. Pg 1).
               Em relação ao dito HPV a clínica médica tem observado que há tipos considerados de baixa oncogênese que provocam lesões como  por exemplo, a “crista de galo” e outros tendentes à evolução maligna nos órgãos genitais  femininos, daí o câncer de colo de útero. Contudo a própria clínica médica, embora, ainda admita inclusive, pré-disposições genéticas, ou pré-disposições crônicas quando este HPV é associado a outros vírus, o da Herpes genital, por exemplo, ela, contudo, reconhece também que:
                “A infecção pelo HPV é conhecida como de transmissão sexual, mas encontra-se inúmeros casos onde a dificuldade em estabelecer a forma
 de transmissão é absurdamente grande”. (cf. Female,anoVII, n°2,2003 – p 8 da verve de Dr.Mauro Romero Leal Passos, Adjunto  UFF)². A  isto se acrescenta a complexificação  sexual principalmente se apenas um dos parceiros a apresenta. Mas, do ponto de vista da profilaxia e da cura, ou seja,  do “tratamento possível”, isto é,  da  razão de haver imunologia em alguns pacientes e noutros não, de novo se instala o mesmo tipo de hesitação, pois diz-se na mesma reportagem “cada organismo tem seu potencial para enfrentar cada problema” (cf. p. 8). 
               Também é reconhecido o fato de que em alguns pacientes a doença evolui perigosamente e noutros não. A causa, contudo,   desta  diferença é clara, desde que:  “O organismo esteja imunologicamente competente” (cf. p. 8).  
O citado médico reconhece ainda que mesmo os HPV ditos 16 e 18 poderão, em alguns casos, não evoluir para o câncer, e de novo: “desde que o organismo esteja imunologicamente capacitado” e conclui que, ainda do ponto de vista estritamente orgânico da clínica médica, “... não é possível saber quem com uma alteração vai ter cura (espontânea) ou evoluir para um câncer.”
              
Voltemos, pois, á contribuição psicanalítica possível diante de situações análogas causados pelo duo HIV/SIDA. Ali também, pode-se chegar ao mesmo impasse e, como possível solução, destacar-se aspectos psíquicos que possam evitar intercorrências  ou facilitar o tratamento,  diante da suspeita de contaminação;
                “Na clínica (psicanalítica) os pacientes explicitam um enorme ódio pelo parceiro supostamente responsável pela transmissão, todavia, o temor de não ser aceito por outro parceiro paralisa sua possibilidade de separação. Também se escuta uma exacerbação masoquista que, após a contaminação, o leva a aceitar um relacionamento sexual com seu parceiro, para não desagradá-lo, mesmo que esse procedimento seja contra indicado pelo médico” (cf. p. 4, do artigo de Rita Franci Mendonça ); e  a respeito da contribuição psicanalítica no tratamento possível conclui-se que: “Por outro lado, o valor do esclarecimento sobre a doença tem um importante efeito de desimaginarizar os fantasmas da morte, do ódio, da rejeição, e da exclusão.[ ... ]  Todavia, sua atitude ativa diante da vida ajudará no combate dos efeitos (masoquistas) da melancolização” “[Contudo...] se atualiza importantes fantasmas de caráter mortal  quando da constatação da contaminação, que em conseqüência de seu caráter inconsciente, provoca angústia, depressão ou comparecimento do quadro clínico caracterizado como melancolia, ou seja, do masoquismo propriamente dito.” (cf. op. cit p.5).
                Obviamente, por vezes em menor intensidade, face ao caráter ainda não mortalmente emblemático da doença, isto é, em relação ao  HPV, sua contaminação, seu tratamento e a angústia de seus afetados, parece repetir-se, ainda que em menor proporção, estes procedimentos psíquicos que agravam, via melancolização, por incidirem sobre ela, a capacidade imunológica de reação dos pacientes.
                 Seria necessária a intervenção psicanalítica face a mais uma das evidências do gozo com a morte e do suicídio lento, ainda que “disfarçado” no álibi da vitimação de contaminação, no sentido de, pelo menos, incidir sobre a pré-disposição melancólica que tanto afeta e tanto mal faz à capacitação da reação imunológica.
                 Portanto concluímos com dois pontos de vista do já mencionado trabalho de Rita Franci Mendonça:
                1°) “Por todas estas razões, quando o paciente entra em sofrimento psíquico e reconhece que necessita ajuda neste sentido, é recomendável uma intervenção psicanalítica para dissolver (nele) os efeitos auto e hetero-hostis desse gozo com a morte. Neste sentido não se atingirá esse objetivo, apenas pela via farmacológica. Isto quer dizer que não é indicado um tratamento apenas medicamentoso ou comportamental, e sim visar à elaboração das causas psíquicas desse gozo. Isto porque, tratar fenomenologicamente sintomas psíquicos de origem inconsciente não intervém nas questões estruturais que dão origem ao gozo masoquista” (op. cit p 6)
              2°) “Assim, o paciente precisa ouvir, na fala do analista, o resgate dos significantes deste gozo masoquista para que possa fazer o luto do mesmo. Isto permitirá que ele pare de se “atacar”, atribuindo a si próprio (por causa de outrem), o lugar de vítima, de incapaz, de rejeitado ou de excluído. Desta maneira, a questão mortal, porque traumática ( aí como  o fantasma da ameaça)  tem atingido (em algum grau) todos os portadores (e aqui diríamos não de SIDA, mas de HPV), seja qual for a sua estrutura psíquica, já que foi abalado tanto o seu sentido de vida como os seus valores, bem como a imagem que ele tem de si próprio e a que ele supõe que tenham dele. Portanto, a sua análise, deverá, sem dúvida, levar em conta a reconstituição de seu nome (e de sua identidade sexual ativa), através do significante “sobrevivente”, pois este designa com propriedade sua própria condição de sujeito, como o que pode suportar a evidência e a ameaça da morte, o que contribuirá decisivamente para a sua sobrevida”.(cf. op. cit. p. 8).

 


Márcia Rosana Forster Wazlawik     
Psicanalista, em formação, do Centro de Estudos Lacaneanos, Instituição Psicanalítica/ Rio Grande do Sul. Bacharel em Psicologia pela UNISC. www.celacan.com.br 

Bibliografia  
1- MENDONÇA, Rita Maria Franci. Contribuições da Psicanálise ao tratamento de Pacientes com Síndrome de Imuno deficiência Adquirida - SIDA. In www.riototal.com.br/coojornal n° 379 de 30/07/2004,RJ. 
2-PASSOS, Mauro Romero Leal. HPV: Que bicho é esse? In... Revisão n°2  2003, ano VII, Female.Rio de Janeiro