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Opinião Acadêmica
Psiquismo, gozo
com a morte e HPV
(Contribuições da Psicanálise à Prevenção e/ao Tratamento Clínico de Pacientes
Portadores de Human Pappilomavirus, dito HPV)
Márcia Rosana Forster Wazlawik
Inicialmente destacaríamos duas observações que nos levaram à cogitação deste
tema. Primeiramente nos demos conta que se poderia aplicar aos possíveis
contaminados pelo HPV o que nos foi dito por Rita Franci Mendonça a respeito
da SIDA (cf. www.riototal.com.br, Coojornal n°379, RJ de 30/07/2004). ¹
“Poder-se-ia pensar que o medo faria com que se tomasse as precauções
necessárias para evitar tal contaminação. Porém há fatores psíquicos poderosos
que dificultam estes cuidados, fatores que independem do controle consciente
das pessoas. Por esta razão, as campanhas institucionais que visam educar a
consciência, no sentido de evitar a prática de procedimentos de risco, tem
tido pouco sucesso, pois não possuem o poder de debelar os aspectos psíquicos
ligados ao gozo com a morte.” (Cf. Pg 1).
Em relação ao dito HPV a clínica médica tem observado que há tipos
considerados de baixa oncogênese que provocam lesões como por exemplo, a
“crista de galo” e outros tendentes à evolução maligna nos órgãos genitais
femininos, daí o câncer de colo de útero. Contudo a própria clínica médica,
embora, ainda admita inclusive, pré-disposições genéticas, ou pré-disposições
crônicas quando este HPV é associado a outros vírus, o da Herpes genital, por
exemplo, ela, contudo, reconhece também que:
“A infecção pelo HPV é conhecida como de transmissão sexual, mas encontra-se
inúmeros casos onde a dificuldade em estabelecer a forma de
transmissão é absurdamente grande”. (cf. Female,anoVII, n°2,2003 – p 8 da
verve de Dr.Mauro Romero Leal Passos, Adjunto UFF)². A isto se acrescenta a
complexificação sexual principalmente se apenas um dos parceiros a apresenta.
Mas, do ponto de vista da profilaxia e da cura, ou seja, do “tratamento
possível”, isto é, da razão de haver imunologia em alguns pacientes e
noutros não, de novo se instala o mesmo tipo de hesitação, pois diz-se na
mesma reportagem “cada organismo tem seu potencial para enfrentar cada
problema” (cf. p. 8).
Também é reconhecido o fato de que em alguns pacientes a doença evolui
perigosamente e noutros não. A causa, contudo, desta diferença é clara,
desde que: “O organismo esteja imunologicamente competente” (cf. p.
8).
O citado médico reconhece ainda que mesmo os HPV ditos 16 e 18 poderão, em
alguns casos, não evoluir para o câncer, e de novo: “desde que o organismo
esteja imunologicamente capacitado” e conclui que, ainda do ponto de vista
estritamente orgânico da clínica médica, “... não é possível saber quem com
uma alteração vai ter cura (espontânea) ou evoluir para um câncer.”
Voltemos, pois, á contribuição psicanalítica possível diante de situações
análogas causados pelo duo HIV/SIDA. Ali também, pode-se chegar ao mesmo
impasse e, como possível solução, destacar-se aspectos psíquicos que possam
evitar intercorrências ou facilitar o tratamento, diante da suspeita de
contaminação;
“Na clínica (psicanalítica) os
pacientes explicitam um enorme ódio pelo parceiro supostamente responsável
pela transmissão, todavia, o temor de não ser aceito por outro parceiro
paralisa sua possibilidade de separação. Também se escuta uma exacerbação
masoquista que, após a contaminação, o leva a aceitar um relacionamento sexual
com seu parceiro, para não desagradá-lo, mesmo que esse procedimento seja
contra indicado pelo médico” (cf. p. 4, do artigo de Rita Franci Mendonça
); e a respeito da contribuição psicanalítica no tratamento possível
conclui-se que: “Por outro lado, o valor do esclarecimento sobre a doença
tem um importante efeito de desimaginarizar os fantasmas da morte, do ódio, da
rejeição, e da exclusão.[ ... ] Todavia, sua atitude ativa diante da vida
ajudará no combate dos efeitos (masoquistas) da melancolização”
“[Contudo...] se atualiza importantes fantasmas de caráter mortal
quando da constatação da contaminação, que em conseqüência de seu caráter
inconsciente, provoca angústia, depressão ou comparecimento do quadro clínico
caracterizado como melancolia, ou seja, do masoquismo propriamente dito.”
(cf. op. cit p.5).
Obviamente, por
vezes em menor intensidade, face ao caráter ainda não mortalmente emblemático
da doença, isto é, em relação ao HPV, sua contaminação, seu tratamento e a
angústia de seus afetados, parece repetir-se, ainda que em menor proporção,
estes procedimentos psíquicos que agravam, via melancolização, por incidirem
sobre ela, a capacidade imunológica de reação dos pacientes.
Seria necessária
a intervenção psicanalítica face a mais uma das evidências do gozo com a morte
e do suicídio lento, ainda que “disfarçado” no álibi da vitimação de
contaminação, no sentido de, pelo menos, incidir sobre a pré-disposição
melancólica que tanto afeta e tanto mal faz à capacitação da reação
imunológica.
Portanto concluímos com dois pontos de vista do já mencionado trabalho de Rita Franci Mendonça:
1°) “Por
todas estas razões, quando o paciente entra em sofrimento psíquico e reconhece
que necessita ajuda neste sentido, é recomendável uma intervenção
psicanalítica para dissolver (nele) os efeitos auto e hetero-hostis desse gozo
com a morte. Neste sentido não se atingirá esse objetivo, apenas pela via
farmacológica. Isto quer dizer que não é indicado um tratamento apenas
medicamentoso ou comportamental, e sim visar à elaboração das causas psíquicas
desse gozo. Isto porque, tratar fenomenologicamente sintomas psíquicos de
origem inconsciente não intervém nas questões estruturais que dão origem ao
gozo masoquista” (op. cit p 6)
2°) “Assim, o paciente
precisa ouvir, na fala do analista, o resgate dos significantes deste gozo
masoquista para que possa fazer o luto do mesmo. Isto permitirá que ele pare
de se “atacar”, atribuindo a si próprio (por causa de outrem), o lugar de
vítima, de incapaz, de rejeitado ou de excluído. Desta maneira, a questão
mortal, porque traumática ( aí como o fantasma da ameaça) tem atingido (em
algum grau) todos os portadores (e aqui diríamos não de SIDA, mas de HPV),
seja qual for a sua estrutura psíquica, já que foi abalado tanto o seu sentido
de vida como os seus valores, bem como a imagem que ele tem de si próprio e a
que ele supõe que tenham dele. Portanto, a sua análise, deverá, sem dúvida,
levar em conta a reconstituição de seu nome (e de sua identidade sexual
ativa), através do significante “sobrevivente”, pois este designa com
propriedade sua própria condição de sujeito, como o que pode suportar a
evidência e a ameaça da morte, o que contribuirá decisivamente para a sua
sobrevida”.(cf. op. cit. p. 8).
Márcia Rosana Forster Wazlawik
Psicanalista, em formação, do Centro de Estudos Lacaneanos, Instituição
Psicanalítica/ Rio Grande do Sul. Bacharel em Psicologia pela UNISC.
www.celacan.com.br
Bibliografia
1- MENDONÇA, Rita Maria Franci. Contribuições da Psicanálise ao tratamento de
Pacientes com Síndrome de Imuno deficiência Adquirida - SIDA. In
www.riototal.com.br/coojornal n° 379 de 30/07/2004,RJ.
2-PASSOS, Mauro Romero Leal. HPV: Que bicho é esse? In... Revisão n°2
2003, ano VII, Female.Rio de Janeiro
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