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Opinião Acadêmica
A ascensão e o declínio do fundamentalismo islâmico
Daniel Aarão Reis Filho
Era primeiro de fevereiro de 1979, em Teheran, e as multidões ocupavam as
avenidas e as praças, em uníssono, num paroxismo de alegria. Na história das
sociedades humanas são raros estes momentos, em que se formam, para o bem ou
para o mal, frequentemente para o mal, estas unanimidades esmagadoras, como
uma torrente, arrastando a todos, mobilizando as paixões, silenciando as
razões, oferecendo conforto e segurança, até mesmo diante da própria morte. Em
Teheran as multidões desciam às ruas, em delírio, para saudar a chegada de um
velho líder, um venerado chefe religioso, o ayatollah Khomeini. Um velho de
rosto severo, olhos profundos, barba longa e branca, envolto em turbante e
longa capa negra, o negro da capa e o branco da barba fazendo um contraste
teatral. E a capital do Irã parecia um teatro: no centro do palco, solitário
com seu poder e glória, Khomeini, e em torno dele, como um gigantesco coro, a
população da cidade, representando o país.
O ayatollah estava vindo de um longo exílio de 15 anos. Reatualizava o antigo
mito da volta do herói para os braços de seu amado povo, e a sua chegada
representava um (re)encontro, para cuja realização o povo iraniano lutara de
forma obstinada, quase obcecada.
Naquela altura, ninguém, minimamente informado no mundo, ignorava quem era o
Ayatolla Khomeini, o iman de Qom, cidade sagrada do Irã, sede espiritual do
ramo chiita da religião muçulmana: ele passara a encarnar, desde a sua
expulsão do Iraque (onde se refugiara nos anos 60) para a França, em outubro
de 1978, o amplo movimento da sociedade iraniana contra o poder político. Numa
impressionante seqüência de manifestações, cada vez mais grandiosas, embora
quase sempre reprimidas de modo impiedoso, o povo iraniano levantara-se desde
novembro de 1977 contra um regime que parecia ter perdido qualquer sintonia
com a sociedade.
Ao longo de 1978, na conturbada região que os europeus chamam de Oriente
Médio, desenharam-se dois processos contrastantes: de um lado, promessas de
paz nas difíceis negociações entre Israel e Egito, desbloqueadas pela
histórica visita de A. Sadate, presidente egípcio, a Jerusalem, em novembro de
1977. De outro lado, horizontes de guerra no processo de luta da sociedade
iraniana contra o poder ditatorial do Chah Reza Pahlevi.
As manifestações populares foram se nucleando em torno dos estímulos de
Khomeini, como se, de longe, sua voz soasse mais de perto, estabelecendo uma
estranha simbiose entre a respeitabilidade do ancião e a energia da juventude,
entre a debilidade do velho exilado e a força das grandes multidões.
Na própria Qom, cidade sagrada, em Tabriz, em Ispahan, na capital, Teheran, em
toda a parte, um clamor crescente, que nenhuma força humana conseguia deter. O
Chah fez o que pôde para deter aquela onda: mobilizou a temível polícia
polícia, a Savak, jogou na arena as forças armadas e todo o poderoso e
eficiente aparelho policial-militar. Mandou matar centenas, e prender
milhares. Articulou as alianças internacionais. Mas nada resultava, e tudo
parecia inútil, inócuo, frente à pressão irresistível da sociedade.
Afinal, desmoralizado e isolado, fragilizado pela doença, o Chah partiu com
sua família e seus dinheiros, em 16 de janeiro de 1979, acuado, escorraçado, a
Sorte que os tiranos merecem. Depois de sua partida, o poder ficou
estrebuchando, como um bicho feroz nos estertores, matando manifestações e
manifestantes. Mas eram batalhas de retaguarda, de nada também adiantaram.
Mesmo depois da chegada de Khomeini, ainda houve manobras, em vão: em três
dias de insurreição, entre 10 e 12 de fevereiro, o povo da capital e das
grandes cidades varreu os derradeiros vestígios do regime do Chah, derrubou um
último gabinete constituído ainda com sua aquiescência, e entronizou um novo
governo, regido pela figura carismática de Khomeini.
O homem já não era apenas um homem, tornara-se um símbolo. Para as multidões
iranianas medusadas, para os muçulmanos em geral, e para o resto do mundo. O
que faria com o poder aquele velho e aquelas multidões? Para além da derrubada
de uma ditadura que ninguém mais defendia (o que, de resto, costuma acontecer
com todas as ditaduras, quando elas caem), quais seriam exatamente as suas
idéias, as suas propostas, o seu programa de governo? O que seria de esperar,
ou de recear?
Antes de um programa político, o novo regime apresentou uma visão de mundo:
substituir os valores do materialismo e do pragmatismo, defendidos e
veiculados pela ditadura derrubada, pelo espiritualismo da religião muçulmana.
Em vez do nacionalismo laico, o internacionalismo islâmico. No lugar dos
revisionismos e das inovações, o tradicionalismo e a ortodoxia. A preeminência
do (texto) sagrado sobre a experiência e a interpretação, da Religião sobre o
Estado. A reconstituição da utopia da Umma, onde se interpenetram os
princípios religiosos e as razões do Estado, e a Comunidade Humana se
reencontra, harmoniosa e feliz, sob a regência de valores indubitáveis, porque
verdadeiros - os espirituais.
O Chah, fiel aliado, parceiro e sócio das grandes potências capitalistas
representara os esplendores e as misérias de uma certa concepção de mundo: a
modernidade ocidental. O Irã dotara-se de grandes e prósperas cidades, elites
ascendentes, costumes ocidentalizados, armamentos sofisticados: eram as luzes
do sistema. Mas as populações gemiam nas sombras das crescentes desigualdades,
da humilhação dos carentes, das iniqüidades sem fim, do desprezo pelos valores
religiosos e pela Tradição, do culto à riqueza material, inaccessível para as
grandes maiorias. Um mundo de injustiça, endiabrado, bárbaro. Tudo isto seria
agora revogado em favor dos valores eternos da Fé islâmica, explicitados pelo
Ayatollah Khomeini. Eles seriam capazes de confortar as gentes, de assegurar
Justiça, de refundar um novo mundo, redimindo toda uma humanidade.
Ali não houvera uma simples troca de governo, mas uma revolução - islâmica.
Houve alarme no mundo da modernidade ocidental. Aquilo era um anacronismo,
como se estivessem renascendo os velhos fantasmas dos princípios religiosos,
há longo tempo esconjurados da esfera pública e da política, e confinados à
vida e à consciência privadas. Um perigo, dada a impregnação da religião
islâmica entre seus fiéis, mais de um bilhão de seres humanos. Havia um risco
de contaminação. Mas para evitar o contágio, era preciso, antes de tudo,
nomear o fenômeno que estava nascendo. Perscrutando as próprias tradições
religiosas, por associação, do fundamentalismo cristão inventou-se então o
fundamentalismo islâmico. Pronto, o bicho estava nomeado, classificado, agora
seria mais fácil combatê-lo.
Mesmo porque a praga espraiava-se com temível velocidade.
Em toda a parte, movimentos sociais e grupos armados, em nome do Islam,
partiram em ofensiva contra os representantes da modernidade ocidental, fossem
capitalistas ou socialistas. Começando pelo próprio Irã, naturalmente, onde as
alternativas às propostas de Khomeini foram rapidamente eliminadas, tendo sido
seus líderes presos, mortos ou expulsos para o exílio. E estendendo-se em
todas as direções, mobilizando as consciências, galvanizando as vontades.
No Afganistão, desde 1979, uma guerra de guerrilhas começou a atormentar os
invasores soviéticos. No Egito, em 1981, um comando suicida matou o presidente
A. Sadate, acusado de traição, pelas negociações de paz entabuladas com
Israel. No Líbano, em 1984, ataques à bomba contra as tropas norte-americanas
e francesas ali estacionadas, obrigaram sua retirada. Em 1985, as ações de
sabotagem alcançaram Paris, aterrorizando os franceses. Em fins dos anos 80,
estruturavam-se em vários países organizações ou partidos islâmicos que
disputavam o poder político: na Turquia, o partido Refah; no Líbano, o
Hezbollah; na Palestina, o Hamas; na Argélia, o Front Islâmico de Salvação (FIS),
no Afganistão, os Talibãs.
Apesar da sua extrema diversidade política e organizativa, à luz do conceito
de fundamentalismo islâmico só apareciam os aspectos comuns, sem dúvida
importantes: o recurso ao Islam como elemento central identitário; a recusa da
modernidade ocidental em todas as suas variantes, inclusive a que tomara corpo
em muitos países muçulmanos sob a forma do estatismo nacional, posterior à
vitória das lutas de libertação nacional; o apoio da população jovem,
recentemente urbanizada, das periferias deserdadas e sub-empregadas, onde se
gestava um poderoso caldo de ressentimentos, de amarguras, de esperanças
frustradas, de perda de referências e de perspectivas.
O fundamentalismo começou a enervar. Já desde 1980, o regime iraquiano de
Saddam Hussein, nacionalista, estatista, laico, ocidental e moderno, a seu
modo, recebera luz verde das potências ocidentais para dar uma lição na
revolução islâmica iraniana. Desencadeou-se uma guerra que, durante oito anos,
sangrou os dois países sem nenhum resultado tangível, apesar de dezenas e
dezenas de milhares de mortos, feridos e mutilados. Em tom grave, respeitáveis
professores começaram a falar de choque de civilizações, legitimando
academicamente planos belicosos de estados-maiores e incursões armadas
perpetradas em nome da civilização e dos direitos humanos.
Depois dos atentados nos Estados Unidos (World Trade Center, em 1993) e na
França (novos atentados terroristas em 1995), desencadeou-se uma notável onda
de histeria anti-islâmica no mundo ocidental e cristão, fazendo recordar as
não menos famosas campanhas contra o chamado perigo amarelo, em fins do século
XIX, que justificaram os massacres cometidos na China contra a revolta popular
dirigida pela Sociedade dos Punhos da Justiça e da Equidade (conhecida no
Ocidente como a revolta dos Boxers). Algo de similar aconteceria agora com o
mundo islâmico?
Não aconteceu.
Ao contrário dos apocalipses imaginados, nenhuma outra revolução islâmica veio
a ocorrer. No próprio Irã, depois do fim da guerra com o Iraque (agosto de
1988) e da morte do Ayatollah Khomeini, em junho de 1989, uma lenta evolução
teve lugar. Seu sucessor, Ali Khamenei, já não dispunha do mesmo carisma, nem
das mesmas convicções. Por outro lado, e mais importante, homens menos
fechados ao diálogo, progressivamente, assumiram o comando dos negócios
públicos. Em maio de 1997, a vitória, surpreendente, de Mohamed Khatami
confirmou a preponderância das correntes reformistas moderadas. Sem abandonar
o Islam, dispunham-se à abertura e ao diálogo com a modernidade ocidental,
dentro e fora do país. Recentemente, em fevereiro de 2000, mais uma vez,
através de eleições, estas tendências mostraram contar com a confiança da
maioria da sociedade.
No resto do mundo muçulmano, outras previsões catastróficas não se realizaram.
A ascensão das forças ditas fundamentalistas, que parecia em certo momento
irresistível, foi, quase em toda a parte, detida e controlada. As tendências
nacionalestatistas tinham reservas insuspeitadas. É certo que tiveram de
apelar para golpes de estado, ditaduras e armas nas mãos, como nos casos, por
exemplo, da Turquia e da Argélia, mas a modernidade ocidental está acostumada
a lidar com situações excepcionais, sobretudo quando elas ocorrem no mal
chamado Terceiro Mundo. Um outro anunciado barril de pólvora - as
nacionalidades islamizadas da ex-União Soviética - resolveu também não
explodir, inviabilizando bons negócios de armamentos que, de outro modo,
poderiam ter ocorrido. Em outra oportunidade, igualmente perigosa, quando
irrompeu a Guerra do Golfo, opondo as potências capitalistas contra o Iraque,
os fundamentalistas mantiveram uma atitude de neutralidade, observando o
massacre da aventura guerreira desencadeada no Kuwait pelo ditador moderno
Saddam Hussein. Embora este último, na fase final, tenha se lembrado de Allah,
tratava-se, de fato, de um combate entre modernos, uma cumbuca na qual os
fundamentalistas não tinham porque meter a mão. Finalmente, e apesar dos
enormes problemas pendentes, a dinâmica de negociações com Israel, desde os
acordos de Oslo, em 1993, pareceu prevalecer em relação às propostas de
enfrentamento armado.
Nestas circunstâncias, o chamado fundamentalismo apareceu enfraquecido, senão
derrotado. É certo que ainda subsiste nas margens, onde conserva alguma força:
no Afganistão, entre os talibãs; no Sudão, onde reina uma versão da lei
islâmica pura e dura; entre pequenos grupos armados, enfim, capazes de
perpetrar atentados periféricos, como os desferidos contra as embaixadas
norte-americanas em Dar es-Salam e Nairobi, em agosto de 1998.
E, assim, paradoxalmente, pouco mais de vinte anos depois de acontecer a
revolução islâmica, depois de tantos mortos e mutilados de carne e de
espírito, de tantas destruições, a preponderância política e militar dos
Estados Unidos nunca foi tão forte na região do mundo onde se passa a nossa
história. Haverá alguma moral nesta fábula?
Há pessimistas que sustentam que a História não têm lições a dar, nem moral a
oferecer. Mas é possível elaborar algumas reflexões que ajudem a compreender
toda esta tragédia.
Para começar, seria preciso desmistificar o chamado fundamentalismo islâmico.
O mundo islâmico é tão unido como o cristão, ou seja, é muito relativa a sua
unidade. Em termos religiosos, os muçulmanos dividem-se entre sunitas e
chiitas. E se ramificam a partir destas grandes tendências. Além disso, a
religião combina-se com as tradições nacionais e regionais. A grande maioria
dos muçulmanos vive a leste do Irã, no Paquistão, no Bangla-desh, na
Indonésia. Estas gentes nunca se mobilizaram em torno das propostas
fundamentalistas. Por outro lado, os árabes (muçulmanos) abominam os turcos
(muçulmanos), mais ou menos como os franceses (cristãos) abominavam os alemães
(também cristãos), pelo menos até 1945. As clivagens se repetem entre árabes e
iranianos, sem falar nas que existem entre os próprios árabes. Não
gratuitamente a Liga Árabe - exceção feita às lutas de libertação nacional
contra os impérios coloniais - sempre foi incapaz de construir projetos
pan-árabes.
Assim, ao refletir sobre o fundamentalismo islâmico, seria bom recordar que
estamos diante de um espectro que se criou e cuja força foi deliberadamente
exagerada.
Isto não quer dizer que não existam tendências fundamentalistas no Islam. Como
no Cristianismo, como em todas as religiões, os fundamentalistas escolhem o
(texto) sagrado e desprezam a experiência e o contexto (profanos), preferem os
velhos caminhos que nunca falharam e não falharão, uma Fé, dada uma vez e para
todo o sempre. E defendem a obediência, exclusiva e completa, ao Livro, e dele
arvoram-se os únicos intérpretes, ou melhor, os únicos que o sabem ler. Estas
tendências não existem apenas entre as religiões, têm suas versões laicas
também - basta conferir a história do socialismo soviético, ao longo do século
XX, ou a história mais recente do neo-liberalismo, com suas pretensões de
dominar o passado e o futuro e estabelecer o Pensamento Único.
Os fundamentalismos de todos os bordos, e não apenas os islâmicos, estão por
aí, apegados a suas certezas, rondando. Exprimem uma maneira de ver as coisas
deste mundo e do além. E costumam emergir com força em tempos de desespero e
de crise de referências. Nosso tempo, de areais movediças e mudanças
alucinantes, é um ventre fecundo para o fenômeno.
Daniel Aarão Reis Filho é Professor de História Contemporânea da UFF.
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