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Opinião Acadêmica
ROBINSON
CRUSOÉ E O ROMANCE IMPERIAL INGLÊS
Marcos Antonio de Azevedo
O romance inglês durante, aproximadamente dois séculos, foi vetor de uma
mentalidade hegemônica de dominação e expansionismo, revelando traços de uma
cultura que se pretendia superior e geradora de uma referência eurocêntrica e
civilizatória.
O romance é um “objeto”
literário e estético importante junto às sociedades em expansão, não só na
Inglaterra, como também na França, Alemanha e outros países da Europa, nos
séculos XVIII e XIX. A burguesia que cresceu na esteira da industrialização e
do iluminismo, aproximou-se da escola, fez nascer mais universidades e
contribuiu para aumento das tiragens de jornais como o Daily Courante
e a edição de livros. E é neste contexto que cresce e ganha força o romance
inglês, que em parte estrutura uma verdadeira “literatura de viagem”, no
século XVIII, faz sucesso junto ao “público leitor” emergente, e se estende
pelo século seguinte.
Vale lembrar que a edição de livros,
então, ganha mais agilidade graças ao desenvolvimento da máquina de imprimir
industrial, que faz chegar a um número maior de pessoas, os livros. Sem falar
dos muitos romances que foram editados em capítulos, em forma de folhetim, em
vários jornais.
Os romances incorporaram do ponto de
vista simbólico, aventuras, fantasias e conquistas dos ingleses, principalmente
nas colônias, como a Índia, por exemplo, além da glamourosa vida no mar
(também considerado como “propriedade” dos ingleses).
Um romance que espelha parte deste
imaginário inglês é o Robinson Crusoe,
de Daniel Defoe,
que além do escopo literário, apresenta vários elementos textuais que traduzem o
lado ideológico, envolvendo valores sociais, religiosos, políticos, etc. Isto
ocorre “naturalmente” como pode ser observado com o decorrer do texto, com o
desencadeamento paulatino de questões morais, sociais, antropológicas,
econômicas e culturais vigentes, que vão se descortinando e formando um
panorama.
O personagem central Robinson Crusoe é
oriundo da classe média de York, na Inglaterra. Filho de um comerciante e uma
dona de casa. E entre ser advogado
ou homem
do mar, em busca de fortuna, prefere a segunda opção, numa decisão notadamente
liberal.
Vai para o mar, navegando em barcos com
alto nível de tecnologia para época, mas frágeis em relação aos oceanos
bravios. Assim acontece algo bastante provável: o barco naufraga. E aí começa a
ser desenvolvida a questão principal. Ele encontra uma ilha no meio do nada e
na impossibilidade de sair dela, age como inglês, ou seja, toma posse da ilha,
desenvolvendo ali uma verdadeira colônia de um homem só. Ao longo da narrativa
o leitor pode acompanhar o personagem passando por todo tipo de agruras. Mas
que não o demovem do foco principal, que é transformar e administrar a ilha, à
moda inglesa.
Crousoe não é um mero náufrago, mas sim,
o dono da ilha e trata de transformá-la em parte do império inglês.
Já o romance enquanto estrutura tem um
tempo, espaço, ação e personagens, e o texto manifesto, envolve não só o lado
racional e “controlado” do escritor, como também o lado inconsciente.
Não vem ao caso discutir a “intenção” racional do escritor, mas observamos, por
exemplo, que o personagem central espelha um típico cidadão inglês médio, em se
tratando de valores reinantes.
Nos dois séculos que se seguiram, outros
romances apontaram também de forma definitiva para a questão dos romances que
espelham o imaginário do império inglês, contribuindo inclusive para o que
conhecemos hoje como “cânone”, como é o caso de O Coração. das Trevas e Nostromo
(Joseph Conrad), Grandes Esperanças e David Copperfild (Charles Dickens), Kim (Rudyard
Kipling), As viagens de Gulliver (Jonathan Swift) e Mansfild Park (Jane Austen).
Algumas destas obras remontam o século XIX, e boa parte delas foi incorporada,
no século XX, pela cultura de massas, principalmente pelo cinema, que até os
anos 30 não tinha textos específicos de área e os romances roteirizados caíram
como uma luva para hollywood
Estes romances apresentam também algo
que parece atravessar os séculos e continuar na cultura humana: a aventura.
Para citar um exemplo, mais próximo,
(séc.XX) vale citar Tarzan, o também
romance de um homem só, de Edgar Rice Burroughs, novela construída a partir da
tradição inglesa. Uma criança sobrevive sozinha no coração da selva africana, e
quando adulta torna-se rei das selvas, em meio aos “selvagens” e
animais. Esta “superioridade natural”, dos ingleses, metonimizada por Tarzan,
está presente em muitos dos romances de aventura da época, encontrando respaldo
inclusive na ciência, através da teoria da evolução das espécies, de Darwin. Um
homem-macaco evoluído, dominando os macacos (futuros homens evoluídos).
O Robinson Crusoe é um romance-protótipo
e serve como metáfora e referência, dentro deste que ficou conhecido como
romance de aventura, alcançando grande sucesso já por ocasião de seu
lançamento. Qual a importância disso? Ora o que é “ser inglês”? Esta obra
mostra perfeitamente isto ao construir um personagem-espelho do homem inglês:
branco, cristão, forte, bondoso, enérgico, corajoso, competente, aventureiro e
conquistador. O leitor daquela época encontrou não só a aventura, mais também
ideologia, e foi invadido por um turbilhão de idéias, valores, conhecimentos,
culturas e novidades. O romance é uma verdadeira fonte de “sabedoria”, que vai
costurando a imaginação desta população, que tem como lema domínio e expansão.
O romance carrega também um forte dado
estético, que se encaixa perfeitamente para “fechar” o ideário de uma nação
militar, belicista, racista, expansionista e colonialista. O que falta
justamente para fechar o círculo? O dado intelectual-hegemônico, a inteligência
trabalhando romances a favor do país. O romance, assim como os filmes,
hoje, por exemplo, são elementos importantes de “invasão cultural” em outros
países, e contribuem somando para a dominação imperialista. O Robinson Crusoe é
lido em todo o mundo, depois de mais de dois séculos de existência, serviu para
ajudar a formar o perfil do inglês nas colônias e em todo o mundo. Aqui no
Brasil, o Robinson Crusoe é usado largamente no ensino básico, e o personagem
principal apontado como o protótipo do gentil-homem. As edições da Ediouro e
Scipione não cansam de esgotar.
O Imperialismo e o romance educativo
Imperialismo envolve tomar, conquistar,
colonizar e controlar outras terras. E a política expansionista de ocupação e
exploração é complexa, porque não se restringe a soldados e canhões, abrange
também idéias, formas, imagens e representações. Para se ter uma noção do
domínio no campo territorial, em 1914 a Inglaterra e a França detinham 620 mil
km² de terras em todo o planeta, e a Europa como um todo, 85% do mundo, em
forma de colônias, protetorados, dependências e domínios. Nunca existiu até
então, um conjunto de colônias tão grande, sob um domínio tão completo.
O Imperialismo envolve uma geopolítica,
planos e ações, geradas por um centro metropolitano dominante, governando um
outro território. O colonialismo tem como conseqüência, a implantação de
colônias nos territórios. O império é uma relação, formal ou informal, em que
um Estado controla a soberania política efetiva, a economia e as vezes, a
cultura de um outro território. O domínio pode ser alcançado pela força, pela
colaboração política, por dependência econômica, social ou cultural. Nem o
imperialismo ou o colonialismo envolvem simplesmente atos de acumulação de
capital e aquisição de terras. Ambos são sustentados e impelidos por potentes
formações ideológicas, que incluem a noção de que certos territórios e povos
“precisam” e “imploram” pela dominação, assim como formas de conhecimento
filiadas a dominação: o vocabulário da cultura imperial dos séculos XVIII e XIX
está recheado de palavras e conceitos como “raças servis”, “povos
subordinados”, “expansão”, “dependência” e “autoridade”. E as idéias sobre a
cultura eram explicitadas, reforçadas ou rejeitadas a partir das experiências
imperiais.
Na expansão dos grandes impérios
ocidentais, o lucro e a perspectiva de mais lucro foram, evidentemente, de
enorme importância, como provam os atrativos das especiarias, açúcar, escravos,
borracha, algodão, ópio, estanho, ouro e prata, ao longo dos séculos. Havia
também um comprometimento que ia além do lucro, um movimento na circulação e
recirculação de bens, os quais, portanto, por um lado, permite que a “opinião
pública”, do país colonizador, aceitasse a idéia de que territórios distantes e
seus respectivos povos deviam ser subjugados, porque o que estava se fazendo
era o bem. Era quase um dever governar “povos inferiores” e menos
avançados para o seu próprio bem, e inclusive tentar tirá-los da ignorância na
qual viviam. Vejamos um exemplo do romance Robinson Crusoe:
“Tinha vontade de incutir
idéias religiosas em Sexta-feira. De uma feita perguntei-lhe quem o tinha
criado. A pobre criatura não entendeu, pensando que eu queria saber quem era o
pai dele. Comecei a instruí-lo sobre o verdadeiro Deus. Disse-lhe que o Criador
de todas as coisas vivia lá em cima, no céu, governando o mundo com o mesmo
poder e a mesma providência que usara para criá-lo. Disse-lhe, mais, que Deus
era onipotente, que podia fazer tudo por nós, dar-nos ou tirar-nos tudo.”
Este trecho revela o ponto de partida
e o ponto de vista inglês: a “superioridade” do branco britânico, inclusive no
campo religioso, que educa o selvagem. Até o Deus inglês é melhor e único. Na
verdade Crusoe promove uma verdadeira catequese com o selvícola,
“naturalmente inferior”, pretendendo salvá-lo daquele estado primitivo e
selvático, mudando a mentalidade daquela criatura perdida, transformando-a em
algo próximo de um inglês. Conclusão: a cultura inglesa para o inglês é
superior em tudo. Os colonizados, além de
perderem as
terras e direitos, têm que ser “trabalhados” para adquirirem a
“verdadeira” cultura.
A longo prazo o romance teve o seu
papel, contribuindo para formar mentalidades no decorrer do tempo. O personagem
central do livro dá uma verdadeira aula, o romance chega a ser pedagógico,
ensinando como ser inglês mesmo diante da adversidade, e estando Robinson
Crusoe perdido numa ilha. Para ser inglês não é necessário estar localizado
geograficamente na Inglaterra, o inglês é inglês em qualquer lugar do mundo.
Para isso em qualquer local que esteja transporta a sua cultura. Ser inglês é
pensar como inglês e agir como inglês.
Robinson Crusoe ao se salvar de um
naufrágio, aporta numa ilha deserta, e ao invés de ficar se lamentando, trata
logo de civilizá-la e torná-la sua. Robinson Crusoe pouco fica saudoso da terra
natal, pois ocupa-se logo de possuir a ilha e transformá-la num pequeno pedaço
da Grã-Bretanha, e ser inglês nela. É impressionante a dedicação, a disciplina
e o aprendizado do personagem na ilha. Nos 28 anos que o personagem passa na
ilha (tempo no romance), o narrador ministra uma verdadeira aula, de
como dominar, desenvolver e administrar um território, ele não está preocupado
em apenas sobreviver, mas principalmente tornar o território seu, e chega a ter
muito prazer nisso, como pode-se observar no texto:
“A
região era tão fresca, tão viçosa e florescente, tudo ali era constantemente
primaveril, que mais parecia um jardim. Desci um pouco pela encosta desse vale
delicioso, contemplando tudo com um certo prazer íntimo, ao lembrar que tudo
aquilo era meu, que eu era rei e senhor incontestável dessa
terra, com direitos inalienáveis de posse”.
e mais :
“Entretanto, tomei tamanho horror àqueles infames selvagens
e ao miserável costume de devorar carne humana, que, depois disso passei quase
dois anos pensativo e triste, dentro de meus domínios”.
Percebe-se que a “cultura selvagem”
pouco é citada e quando isto ocorre as manifestações do Sexta-Feira, por
exemplo, são consideradas inferiores ou ridículas. O texto deixa claro que a
terra dos nativos não tem dono, e que comer carne humana é uma crueldade e
falta de civilidade e de formação cristã, em nenhum momento é destacado que os
“selvagens” só devoram os inimigos de guerra, por conta de um ritual religioso
e guerreiro.
É notória a importância da literatura e
do discurso para a cultura acidental, a começar pelo épico A Odisséia, de
Homero, onde o herói grego Ulisses, cheio de atributos pessoais, tem papel
capital na Guerra de Tróia. Com astúcia, elegância e inteligência, dá o golpe
de misericórdia com a invenção do Cavalo de Tróia, determinante para a vitória.
Depois leva 20 anos navegando pelos sete mares, tentando voltar para Ítaca, sua
cidade natal e seu reino. Heróis como Ulisses e Aquiles, representam a grandeza
do povo grego. O discurso homérico sacramenta isto e também, ajuda a fundar uma
Grécia simbólica, enquanto unidade. As cidades-estado e os pequenos reinos se
juntam. E com seus líderes e heróis partem em busca do bem comum, como no caso
da Guerra de Tróia.
No épico Os Lusíadas, o “metonímico”
Vasco da Gama também eleva o povo português a categoria de grandes e intrépidos
navegadores e descobridores. O discurso camoniano projeta Portugal como nação
gloriosa. Já no “épico” Robinson Crusoe percebe-se que o discurso é pedagógico,
e que este romance projeta o inglês como conquistador, administrador e
colonizador de terras inóspitas. E de
maneira bem
educativa o texto traz o inglês como pertencente a uma estirpe superior, onde
em um primeiro contato entre Robinson e o nativo apelidado de Sexta-Feira (ele
não se dá ao trabalho de perguntar-lhe o nome) o primeiro é elevado à categoria
de senhor e o segundo de servo. Tudo isso desenvolvido em um discurso, onde
parece que tudo é natural: superar a adversidade numa ilha deserta e sair
vencedor.
Possibilidades infinitas
O que leva um filho de “boa e distinta
família local, que fez fortuna no comércio”
da cidade de York, em l632 a sair “para o mundo à caça de aventuras”? Este é o
princípio da jornada do personagem central do romance, que larga uma vida
previsível e pacata de classe média para correr mundo. Robinson Crusoe é a
metáfora encarnada do inglês com espírito épico, que abandona a segurança da
família e da terra natal para cumprir o seu intrépido destino, representante
que é de uma raça “superior” de conquistadores brancos, justos, valentes e
civilizados; sempre preparados para conquistar, civilizar e salvar os
ignorantes nativos de qualquer parte do planeta.
No seu movimento, o personagem
Robinson Crusoé funciona como uma célula viva do ideário inglês, como uma
metonímia, e vai levando a cultura manifesta e a latente para as plagas onde
aportar. E mesmo quando é capturado pelos turcos e “escravizado”,
percebe-se através da narração, que ele é uma escravo especial, que aprende
tudo muito rápido, ganhando destaque e tratamento especial. Fica patente mais
uma qualidade do inglês “gente boa” que cumpre os preceitos da fé cristã.
E a aventura não pára. Robinson Crusoe
vai a pique de novo, no mar, é salvo por um navio português e aporta no Brasil,
mais precisamente na Baía de Todos os Santos, em Salvador. Seguindo a sua sina
“natural” de inglês superior, adapta-se rapidamente ao Brasil, e em dois anos
torna-se um próspero dono de engenho: o cidadão inglês chega e vence em
qualquer lugar.
Logo após garantir e ratificar
oficialmente a sua pequena colônia dentro do país, deixa outros senhores
tomando conta da suas terras e parte para mais uma aventura.
Esta posse no Brasil é retomada (no fim do romance) depois que Robinson passa
28 anos na Ilha. Também reassume seus imóveis na Inglaterra. É notável as
garantias dadas pela justiça ao cidadão inglês, que retoma sua propriedade
depois de tanto tempo, como se o tempo não tivesse passado. E suas posses
também em além-mar.
O personagem central, então representa
simbolicamente a garantia das infinitas possibilidades, no campo da fantasia,
da aventura, da economia, do domínio, da evolução individual, da fé cristã, de
ser inglês na sua plenitude.
O Romance, o personagem e a ilha
O texto do romance é construído com uma
linguagem de fácil acesso e a ação do personagem no percurso é atraente e
magnética, guardando traços da “aventura universal”, que atraiu leitores de
muitas gerações. O narrador faz sempre observações exatas, vivas e adequadas as
circunstâncias, tratando a Ilha com conhecimento e
intimidade. É notável a vontade do
Robinson Crusoe de saber, de aprender, não um saber por saber, mais um
aprendizado ligado à sobrevivência, já que ele está encontra sem companhia
civilizada na ilha.
O texto por vezes lembra uma grande e
minuciosa reportagem, onde o personagem-narrador à maneira de um jornalista,
reporta de forma detalhada a fauna, a flora, a geografia, os fenômenos
meteorológicos, as mudanças das estações, etc. A ilha, aos poucos, com o
decorrer da narrativa, deixa de ser um simples rincão perdido no oceano, para
transformar-se num exemplo de possessão passível de ser civilizada, além de
apresentar riquezas naturais de todos os tipos. O narrador ao mesmo tempo
transporta o leitor para a ilha, alimentando a imaginação e as fantasias.
Aflora então o espírito pragmático
do inglês protestante. Robinson Crusoe cria um diário
aonde anota detalhadamente sua rotina na ilha, criando assim no leitor um forte
sentido de realidade e verossimilhança. O personagem segue na sua epopéia
civilizatória, moldando a pequena ilha-colônia à moda inglesa.
O lado religioso latente do personagem
também se manifesta, e sua fé dá-lhe ainda mais segurança e gosto pela vida
adversa. Mas embora crente, é um pragmático, respeita Deus e carrega a
confiança inabalável, como genuíno cidadão bretão, nas instituições pátrias e
no Criador.
Sua obstinação é anglicista e só o
empurra pára a frente. Ele não vive de nostalgia, as referências que faz à
pátria, à família e aos amigos são objetivas e secas, toda a sua energia é
canalizada para a construção e remodelação da Ilha. As idéias de Robinson, seus
sentidos, suas palavras e ações, não têm nada de extraordinário, no
entanto são eficazes nas situações
mais variadas e surpreendentes, se consideradas no seu conjunto.
O Robinson Cursoe desde o seu lançamento
serviu como um parâmetro para abalizar o perfil do cidadão inglês, do século
XVIII em diante, porque é um navegador honrado, justo, lutador, corajoso e
civilizado. Um vencedor diante das adversidades e das maiores tormentas.
Durante os momentos mais difíceis ele se comporta como um ser humano normal,
muitas vezes até se acovardando, mas sempre se recupera e supera todos os
obstáculos. A sua rotina de vida na Iha é “comum”, porque ele vive como uma
pessoa comum. Mas ele está numa ilha no meio do nada. Então esta rotina é muito
valorizada e ele vai vencendo todas situações mais difíceis e improváveis.
Na esteira do envolvimento com o
Divino, não pode-se deixar de citar a relação do personagem com o cristianismo,
que também é projetado como religião oficial e universal. No trecho a seguir,
Robinson além de tornar Sexta-Feira seu servo, tenta tornar o antropófago
cristão e civilizado:
“Lia diariamente as palavras
de Deus, delas extraindo todo o consolo que podia. Certa manhã estando muito
triste, abri a bíblia e dei com esta frase: ‘jamais vos deixarei, jamais vos
abandonarei’. Ocorreu-me logo que as palavras me eram dirigidas...”
e mais:
“Fiz para ele, depois, da melhor maneira que pude, uma jaqueta de pele
de cabra. Dei-lhe também um gorro de lebre. Dessa maneira ficou toleravelmente
vestido.Mostrou-se muito contente com a indumentária, quase tão boa quanto a de
seu senhor”.
Vale citar ainda, o fato do “selvagem”
chamado Sexta-Feira não opor nenhuma resistência a escravização e aceitar sua
“educação” da forma mais passiva, tornando-se razoavelmente civilizado e servo
devoto do Senhor inglês, isto sem nada
reclamar, numa atitude absolutamente “natural”.
Este romance tem o seu papel forte
junto ao ideário e a mentalidade inglesa que se formou com o decorrer do tempo.
Mesmo que a Inglaterra não seja hoje, a maior potência do planeta, foi elevada
através dos textos e dos discursos à categoria de mito (considera-se
aqui a categoria de Roland Barthes)
.
O final feliz
Pode-se concluir citando um trecho do
livro Cultura e imperialismo de Edward Said que afirma:
“Não creio que os escritores sejam mecanicamente determinados pela
ideologia, pela classe ou pela história econômica, mas acho que estão
profundamente ligados pela história e suas experiências sociais em diferentes
graus. A cultura e suas formas estéticas derivam da experiência histórica”
.
Assim, não cabe limitar os autores no
ato da criação, à produção mecânica ou ao campo racional e consciente, vale
inserir aqui o conceito de inconsciente de Freud.
O autor é um ser humano e ao aprender durante a vida, nem tudo fica no plano da
razão, muitas coisas são automatizadas, e ficam perdidas no campo da linguagem
numa aparente desordem, e de repente, num “ato falho”, no fluxo do pensamento,
ou até pelos sonhos se manifestam. Com isto o autor nem sempre está preocupado
em ser ideológico, mesmo quando trabalha por encomenda. O autor é “invadido
pela obra” muitas vezes, ou seja, a obra literária, o romance não está inscrito
apenas no campo da razão.
Não cabe diminuir a originalidade e a
importância da obra. Nem levantar hipóteses de que Daniel Defoe tinha ou não
preocupações de ordem imperialista, mas o livro funciona (também) como veículo
propagador da ideologia imperial inglesa. Robinson Crusoe é um dos livros mais
lidos no ocidente depois da bíblia e continua encantando gerações.
Destaca-se por último que o romance
se vale do hapy end, (recurso utilizado largamente pelo cinema) para
fechamento do livro. No romance, Robinson Crusoe depois de passar 28 anos na
ilha, salva espetacularmente um navio do motim, e junto com os novos
companheiros, volta triunfante à civilização (Inglaterra), retoma as suas
posses no Brasil, garantidas que foram pelo império inglês. Um belo final para
uma história de disciplina, dedicação e força de vontade de um inglês.
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BIBLIOGRAFIA
1- BARTHES, Roland. Mitologias. São
Paulo: Difusão Européia do Livro, l972.
2- CUNHA, Antonio Geraldo. Dicionário
Etimológico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1996.
3- DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe.
Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
4- KAUFMANN, Pierre. Dicionário
Enciclopédico de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1996.
5- HEGEL, George Wilhelm Friedrich. Os
Pensadores (Fenomenologia do Espírito). São Paulo: Nova Cultural, 1996.
6- HOBSBAWM, Eric J. Da Revolução
Industrial inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro: Forense, 2003.
7- SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
8- MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos
Literários. São Paulo: Cultrix, 1983.
Daniel Defoe publicou o Robinson Crusoe em folhetins pelo The Dayle Post,
em 1719, e é o primeiro romance-folhetim.
Daniel Defoe (1660 - 1731) foi romancista, jornalista, espião, comerciante
e ativista político.
SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Marcos Antonio de Azevedo é
escritor e professor universitário.
mazevedo@mls.com.br
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