|
Opinião Acadêmica
CINISMO, CORRUPÇÃO E PODER:
“Elite da tropa”
e/ou das questões preliminares
Ernesto Söhnle Junior
Agora
que “Tropa de elite” obteve reconhecimento crítico internacional e o
“patrulhismo ideológico” começou a apresentar sinais de fadiga e/ou
desinteresse, iniciemos falando do livro1 que deu origem ao filme.
Sabe-se que ele tem entre seus três autores o co-roteirista do filme, Rodrigo
Pimentel, ex-capitão do BOPE, de 1995-2000. Sabe-se, também, que o antropólogo
Luiz Eduardo Soares lança-se nele ao registro elaborativo de suas mágoas e
desilusões com o Governar. De qualquer forma, sem dúvida, sua experiência na
área da dita “segurança pública” qualifica-o para testemunhar o aspecto
realista deste conteúdo documental e ficcional. Inclusive o livro, isso porque
teve repercussão aquém de seu produto fílmico, não foi, pasmem, acusado de
“fascista”, embora pudesse ser considerado, pelos censores da ideologia do
“politicamente adequado”, como tal. Entretanto, optamos pela versão de Hannah
Arendt, em que o termo “fascismo” remete à supressão de todas as liberdades
possíveis, onde se incluem as manifestações de cunho social, científico e/ou
estético. Ou, em termos psicanalíticos, remete ao procedimento que visa banir,
por “juízo atributivo”, ou “desmentido perverso”, a propagação das diferenças,
do pensamento e da tolerância.
Mesmo
porque, sabe-se que a ciência e a arte são formas sublimatórias, que concernem
ao sujeito na sua elaboração de saber em torno do vazio, porém, somente a arte
não pretende tamponar esse vazio com uma verdade estabelecida, pois o
representa como estrutura “não-toda” de ficção. Nesse sentido, a Sublimação
implica numa forma de pensamento e pensamento é Saber. Se não houver a
construção de um pensamento, de uma idéia, de um saber para, conforme Freud,
precocemente, interromper o circuito da pulsão, não há Sublimação. Logo, uma
obra de ficção pressupõe, na origem, a Sublimação e remete à verdade
(sintomática), que é sempre “não-toda”, segundo Lacan. Ou, como nos disse
Pablo Picasso: “A arte não é a verdade. A arte é uma mentira [ficção] que nos
faz compreender a verdade”.2
Por
seu turno, o discurso de “Tropa da elite” (Padilha, 2007) rompe,
preliminarmente, com a exótica e anacrônica idéia própria da “glamurização
romanceada” da “malandragem”, que tomou fôlego nos anos 60 e 70 do século
passado, quando o governo militar, através de seu “braço policial”, engendrou
o contexto histórico do “terrorismo de Estado”. Assim, a “dialética da
malandragem” passou a banalizar não somente a “ginga” transgressiva da dita
“lei de Gerson”, mas, também, a diluir, em nome do que se poderia chamar de
“lógica do outsider” (fusão entre atividade crítica e “princípio do
prazer”), o ato criminoso. Ou “marginal” não era um termo “cult”, dos
adeptos do “pier da Gal” (posto 9), no Rio de Janeiro? Essa mentalidade foi
“narcotizando” a reflexão sobre os efeitos sociais dos processos de exclusão –
de lógica inserção psíquica e social – em função da hegemonia de raciocínios
tais como: a “determinação das condições materiais de existência”, a parca
educação e/ou a prevalência de uma sociedade “perversa” que não é capaz sequer
de formular um “Contrato Social” que resgate a essencialidade “positiva”, tida
como pré-existente na infância da humanidade.
Mas o
que os acólitos das “ilusões panópticas” não auscultaram foram as
transformações pelas quais passou o modo de ser do “crime organizado” em
sociedade – bem como a sua insólita copulação, a ser demonstrada, com o que
Lacan,3 nos anos 70, denominou de “Discurso do Capitalista” (foraclusão
da Castração). Ou o sistema financeiro globalizado não incorpora e legaliza os
fluxos anômalos de capital oriundos do tráfico de drogas, de armas e de
pessoas, conforme ilustrado na película: “O Senhor das armas” (Niccol,
2005)? Assim, em vez de valorizarem o deslocamento dessa “apologética da
malandragem” para o realismo do que, em termos estéticos, João Cesar de Castro
Rocha chamou de “dialética da marginalidade”,4 mantiveram, como
Cacá Diegues, na refilmagem de “Orfeu”, a visão romântica do “bom
malandro”, aí já “pós-moderno” e “descolado”. Mas, assim como todo “bom-171”
precisa do que ele próprio chama de “otário”, o sistema do narcotráfico
precisa dos usuários, “humanitários” ou não, que o remunerem e, por efeito,
co-financiem a onda de atentados e seqüestros, o tráfico de armas, as guerras
entre grupos rivais, os extermínios, a corrupção, os latrocínios, os crimes
contra a “infância”, etc. Como se vê, os efeitos perversos dessa “ordem
paralela” se voltam compulsoriamente – diferentemente das contingências da
“bala perdida” – não só contra os seus consumidores diretos, mas contra a
sociedade em seu conjunto. Portanto, a referida “dialética da marginalidade”
poderia ser conceitualmente vertida por “discurso da exclusão”, vale dizer, de
auto e de hetero-exclusão. Mesmo porque, o narcotráfico passou a ser um dos
meios que a “drogadicção” encontrou de fazer liame social perverso,
principalmente pelo terror, aproveitando-se da exclusão legal, econômica e
social a que são submetidas as comunidades “favelizadas”, formadas, em sua
grande maioria, por pessoas que respeitam a vida e dignificam o valor
polissêmico da palavra trabalho.
Em
termos psicanalíticos tratar-se-ia de um procedimento que indicia a presença
discursiva e fenomenológica de possíveis formas paranóicas e perversas quando
em liame social. Então, se antes era o “bandido por falta de opção”, no fundo
um “inconformado”, versão cínica do “bom-selvagem”, que narrava as suas
proezas, agora teremos, do ponto de vista do policial, a radicalização da
moral de Kant que, ao dar testemunho de suas memórias, torna-se uma “flor
sádica”,5 fazendo transparecer o verdadeiro funcionamento
falimentar do sistema, sem os disfarces “bom-mocistas” do discurso tipo “razão
cínica” da ideologia oficial, tanto na acepção de Sloterdijk, quanto na
acepção de Zizek.6 E, ao invés de cultuar determinados “modelos
(morais) de homem”, deveríamos reconhecer, como fizeram alguns d’além mar,
esta que seria uma inovação narrativa, pelo menos do ponto de vista da crônica
brasileira, ou seja, uma oportunidade singular de se verificar a relação do
binômio “toxicomania/drogadicção”7 com a desagregação da função
legiferante, conciliadora e protetora do sistema social, bem como do chamado
“sistema de segurança pública”. Aliás, se lembrarmos que o sucesso de
divulgação do filme foi “marginal”, poderemos perguntar: tal procedimento é ou
não índice da degradação da cultura?
Portanto, assim como Sade testemunhou8 a impostura da Revolução
Francesa, no período do Terror, em que não fazia mais sentido se falar das
Virtudes político-morais, sem antes denunciar os excessos da “guilhotina” (a
“Viúva nacional”), porque há muito tempo teria sido banalizada a vida, o
testemunho literalizado daqueles que deveriam ser os representantes da lei,
serve para denunciar a degradação da cultura, por meio desse sintoma social
que, tal qual a “revolução burguesa”, produz uma legião de órfãos, que são
tratados como bastardos pelo Estado. No mínimo, o filme “Tropa de elite”
produz aturdimento, pois como compatibilizar o “juízo de existência” de uma
polícia tecnicamente eficiente e, até então, incorruptível com o seu “modus
operandi”, que faz transparecer
a paradoxal identificação entre este que seria o “último recurso do poder” –
tal qual o “chefe de Polícia” em “O Balcão” de Genet, lido por Lacan –
ou seja, a polícia e a lógica perversa do narcotráfico.
Sabendo ou não, estes discípulos do, hoje tão evocado, “princípio do bem
comum”, “by” Cícero, em nome do que Max Weber9 chamou de
“honra do funcionário público”, mas com os excessos taliônicos de uma “Arete
guerreira”, testemunham e ao mesmo denunciam este “sintoma social na cultura”,
em que a Drogadicção está estruturalmente articulada à desagregação das
pessoas, assim como a Toxicomania estaria para a Perversão da sociedade,
quando abordada em seus efeitos mercadológico, corruptor e criminógeno. Por
isso, de pouco adianta lamentar moralmente que, segundo a mídia impressa (cf.
“O Globo”), um entre quatro brasileiros justificam a tortura, de sorte
um procedimento facínora e hediondo, e sim indagar-se sobre as razões
implicadas no contexto atual de degradação da Cultura. Com efeito, a escopeta,
que na ficção é apontada para a audiência – a qual oscila catarticamente entre
o aplauso e o repúdio – é a representação do desmoronamento do “Geist”
(espírito) da civilização em sua função de defesa do sujeito contra o reino da
morte.
Assim, não cabe a certos políticos regionais, “moralistas de plantão”, ficarem
– por lançarem mão da retórica do “Estado de Direito” – sugerindo a punição
dos “Capitães Nascimento”, quando se calam constantemente diante da
perversificação do Estado. Principalmente quando esse não cumpre com o seu
mais básico dever de assegurar a vida, a saúde e a educação. Não suportar a
explicitação dessa desagregação social é um procedimento da ordem da “razão
cínica”. Além do mais, isso é pouco inteligente, pois o referido “capitão” do
Batalhão de Operações Policiais Especiais é um personagem da ficção fílmica,
como processa-lo! Seria algo como querer enquadrar Saturno no “ECA” por ele
ter devorado seu filho, na desconcertante representação de Goya. Ou ainda,
taxar a “Guernica” de “fascista”, quando na realidade ela é uma obra
que expõe o horror e a perversão da guerra.
Ou se
está sugerindo um processo contra o diretor do filme, assim como fez a
mentalidade do século XIX, com Gustave Flaubert, que foi acusado de ofender a
moral e a religião, através de seu personagem Emma de Bovary.
Ernesto Söhnle Jr. é Psicanalista em formação no Centro de Estudos Lacaneanos,
Instituição Psicanalítica (CEL/RS), Mestre em Desenvolvimento Regional pela
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e doutorando em Educação, com ênfase
em Psicanálise, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
ernestosohnle@terra.com.br
|