10/05/2008
Número - 580

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

CINISMO, CORRUPÇÃO E PODER:

“Elite da tropa” e/ou das questões preliminares

Ernesto Söhnle Junior


 Agora que “Tropa de elite” obteve reconhecimento crítico internacional e o “patrulhismo ideológico” começou a apresentar sinais de fadiga e/ou desinteresse, iniciemos falando do livro1 que deu origem ao filme. Sabe-se que ele tem entre seus três autores o co-roteirista do filme, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, de 1995-2000. Sabe-se, também, que o antropólogo Luiz Eduardo Soares lança-se nele ao registro elaborativo de suas mágoas e desilusões com o Governar. De qualquer forma, sem dúvida, sua experiência na área da dita “segurança pública” qualifica-o para testemunhar o aspecto realista deste conteúdo documental e ficcional. Inclusive o livro, isso porque teve repercussão aquém de seu produto fílmico, não foi, pasmem, acusado de “fascista”, embora pudesse ser considerado, pelos censores da ideologia do “politicamente adequado”, como tal. Entretanto, optamos pela versão de Hannah Arendt, em que o termo “fascismo” remete à supressão de todas as liberdades possíveis, onde se incluem as manifestações de cunho social, científico e/ou estético. Ou, em termos psicanalíticos, remete ao procedimento que visa banir, por “juízo atributivo”, ou “desmentido perverso”, a propagação das diferenças, do pensamento e da tolerância.

Mesmo porque, sabe-se que a ciência e a arte são formas sublimatórias, que concernem ao sujeito na sua elaboração de saber em torno do vazio, porém, somente a arte não pretende tamponar esse vazio com uma verdade estabelecida, pois o representa como estrutura “não-toda” de ficção. Nesse sentido, a Sublimação implica numa forma de pensamento e pensamento é Saber. Se não houver a construção de um pensamento, de uma idéia, de um saber para, conforme Freud, precocemente, interromper o circuito da pulsão, não há Sublimação. Logo, uma obra de ficção pressupõe, na origem, a Sublimação e remete à verdade (sintomática), que é sempre “não-toda”, segundo Lacan. Ou, como nos disse Pablo Picasso: “A arte não é a verdade. A arte é uma mentira [ficção] que nos faz compreender a verdade”.2

Por seu turno, o discurso de “Tropa da elite” (Padilha, 2007) rompe, preliminarmente, com a exótica e anacrônica idéia própria da “glamurização romanceada” da “malandragem”, que tomou fôlego nos anos 60 e 70 do século passado, quando o governo militar, através de seu “braço policial”, engendrou o contexto histórico do “terrorismo de Estado”. Assim, a “dialética da malandragem” passou a banalizar não somente a “ginga” transgressiva da dita “lei de Gerson”, mas, também, a diluir, em nome do que se poderia chamar de “lógica do outsider” (fusão entre atividade crítica e “princípio do prazer”), o ato criminoso. Ou “marginal” não era um termo “cult”, dos adeptos do “pier da Gal” (posto 9), no Rio de Janeiro?  Essa mentalidade foi “narcotizando” a reflexão sobre os efeitos sociais dos processos de exclusão – de lógica inserção psíquica e social – em função da hegemonia de raciocínios tais como: a “determinação das condições materiais de existência”, a parca educação e/ou a prevalência de uma sociedade “perversa” que não é capaz sequer de formular um “Contrato Social” que resgate a essencialidade “positiva”, tida como pré-existente na infância da humanidade.

Mas o que os acólitos das “ilusões panópticas” não auscultaram foram as transformações pelas quais passou o modo de ser do “crime organizado” em sociedade – bem como a sua insólita copulação, a ser demonstrada, com o que Lacan,3 nos anos 70, denominou de “Discurso do Capitalista” (foraclusão da Castração). Ou o sistema financeiro globalizado não incorpora e legaliza os fluxos anômalos de capital oriundos do tráfico de drogas, de armas e de pessoas, conforme ilustrado na película: “O Senhor das armas” (Niccol, 2005)? Assim, em vez de valorizarem o deslocamento dessa “apologética da malandragem” para o realismo do que, em termos estéticos, João Cesar de Castro Rocha chamou de “dialética da marginalidade”,4 mantiveram, como Cacá Diegues, na refilmagem de “Orfeu”, a visão romântica do “bom malandro”, aí já “pós-moderno” e “descolado”. Mas, assim como todo “bom-171” precisa do que ele próprio chama de “otário”, o sistema do narcotráfico precisa dos usuários, “humanitários” ou não, que o remunerem e, por efeito, co-financiem a onda de atentados e seqüestros, o tráfico de armas, as guerras entre grupos rivais, os extermínios, a corrupção, os latrocínios, os crimes contra a “infância”, etc. Como se vê, os efeitos perversos dessa “ordem paralela” se voltam compulsoriamente – diferentemente das contingências da “bala perdida” – não só contra os seus consumidores diretos, mas contra a sociedade em seu conjunto. Portanto, a referida “dialética da marginalidade” poderia ser conceitualmente vertida por “discurso da exclusão”, vale dizer, de auto e de hetero-exclusão. Mesmo porque, o narcotráfico passou a ser um dos meios que a “drogadicção” encontrou de fazer liame social perverso, principalmente pelo terror, aproveitando-se da exclusão legal, econômica e social a que são submetidas as comunidades “favelizadas”, formadas, em sua grande maioria, por pessoas que respeitam a vida e dignificam o valor polissêmico da palavra trabalho.

Em termos psicanalíticos tratar-se-ia de um procedimento que indicia a presença discursiva e fenomenológica de possíveis formas paranóicas e perversas quando em liame social. Então, se antes era o “bandido por falta de opção”, no fundo um “inconformado”, versão cínica do “bom-selvagem”, que narrava as suas proezas, agora teremos, do ponto de vista do policial, a radicalização da moral de Kant que, ao dar testemunho de suas memórias, torna-se uma “flor sádica”,5 fazendo transparecer o verdadeiro funcionamento falimentar do sistema, sem os disfarces “bom-mocistas” do discurso tipo “razão cínica” da ideologia oficial, tanto na acepção de Sloterdijk, quanto na acepção de Zizek.6 E, ao invés de cultuar determinados “modelos (morais) de homem”, deveríamos reconhecer, como fizeram alguns d’além mar, esta que seria uma inovação narrativa, pelo menos do ponto de vista da crônica brasileira, ou seja, uma oportunidade singular de se verificar a relação do binômio “toxicomania/drogadicção”7 com a desagregação da função legiferante, conciliadora e protetora do sistema social, bem como do chamado “sistema de segurança pública”. Aliás, se lembrarmos que o sucesso de divulgação do filme foi “marginal”, poderemos perguntar: tal procedimento é ou não índice da degradação da cultura?

Portanto, assim como Sade testemunhou8 a impostura da Revolução Francesa, no período do Terror, em que não fazia mais sentido se falar das Virtudes político-morais, sem antes denunciar os excessos da “guilhotina” (a “Viúva nacional”), porque há muito tempo teria sido banalizada a vida, o testemunho literalizado daqueles que deveriam ser os representantes da lei, serve para denunciar a degradação da cultura, por meio desse sintoma social que, tal qual a “revolução burguesa”, produz uma legião de órfãos, que são tratados como bastardos pelo Estado. No mínimo, o filme “Tropa de elite” produz aturdimento, pois como compatibilizar o “juízo de existência” de uma polícia tecnicamente eficiente e, até então, incorruptível com o seu “modus operandi”, que faz transparecer a paradoxal identificação entre este que seria o “último recurso do poder” – tal qual o “chefe de Polícia” em “O Balcão” de Genet, lido por Lacan – ou seja, a polícia e a lógica perversa do narcotráfico. Sabendo ou não, estes discípulos do, hoje tão evocado, “princípio do bem comum”, “by” Cícero, em nome do que Max Weber9 chamou de “honra do funcionário público”, mas com os excessos taliônicos de uma “Arete guerreira”, testemunham e ao mesmo denunciam este “sintoma social na cultura”, em que a Drogadicção está estruturalmente articulada à desagregação das pessoas, assim como a Toxicomania estaria para a Perversão da sociedade, quando abordada em seus efeitos mercadológico, corruptor e criminógeno. Por isso, de pouco adianta lamentar moralmente que, segundo a mídia impressa (cf. “O Globo”), um entre quatro brasileiros justificam a tortura, de sorte um procedimento facínora e hediondo, e sim indagar-se sobre as razões implicadas no contexto atual de degradação da Cultura. Com efeito, a escopeta, que na ficção é apontada para a audiência – a qual oscila catarticamente entre o aplauso e o repúdio – é a representação do desmoronamento do “Geist” (espírito) da civilização em sua função de defesa do sujeito contra o reino da morte.

 

NOTAS

1 SOARES, L. E; BATISTA, A; PIMENTEL, R. Elite da tropa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

2 Assim, não cabe a certos políticos regionais, “moralistas de plantão”, ficarem – por lançarem mão da retórica do “Estado de Direito” – sugerindo a punição dos “Capitães Nascimento”, quando se calam constantemente diante da perversificação do Estado. Principalmente quando esse não cumpre com o seu mais básico dever de assegurar a vida, a saúde e a educação. Não suportar a explicitação dessa desagregação social é um procedimento da ordem da “razão cínica”. Além do mais, isso é pouco inteligente, pois o referido “capitão” do Batalhão de Operações Policiais Especiais é um personagem da ficção fílmica, como processa-lo! Seria algo como querer enquadrar Saturno no “ECA” por ele ter devorado seu filho, na desconcertante representação de Goya. Ou ainda, taxar a “Guernica” de “fascista”, quando na realidade ela é uma obra que expõe o horror e a perversão da guerra. Ou se está sugerindo um processo contra o diretor do filme, assim como fez a mentalidade do século XIX, com Gustave Flaubert, que foi acusado de ofender a moral e a religião, através de seu personagem Emma de Bovary.

3 Cf. LACAN, J. O saber do psicanalista. (1971-72, inédito)

4 Cf. CASTRO ROCHA J. C. de. Dialética da marginalidade. Folha de São Paulo, São Paulo, 29 fev. 2004. Mais, p 04-9.

5 Cf. LACAN, J. Kant com Sade. In: ____. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

6 ZIZEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. RJ: Jorge Zahar Ed., 1992.

7 É relevante distinguir conceitualmente o que se entende por “drogadicção” daquilo que se convencionou chamar de “toxicomania”: o termo drogadicção refere-se a uma questão psíquica, pois remete ao estudo da gênese de uma “tendência” que evoca o uso compulsivo, progressivo e auto-desagregador de substâncias ditas “não-violentas”, manifestando-se, comportamentalmente, na forma de auto-hostilidade, que visa ao dito “suicídio lento”. Tal procedimento se consolidaria, segundo Lacan (1938), conforme “Os Complexos Familiares”, em função da preclusão do desmame e da conseqüente fixação do “apetite” nesse lugar. Por sua vez, esse “apetite” se expressaria como um gozo para com a morte, cujo desdobramento possível seria a inserção do drogadicto na perversão social, via hetero-hostilidade. Então, se a “drogadicção” – que é uma questão que concerne, preliminarmente a psicanálise intensiva – pode ter, enquanto gênese possível, origem na “Foraclusão do Nome-do-Pai”, via preclusão do desmame, a “toxicomania”, que é o seu efeito social possível, coloca em cena a questão da hetero-hostilidade, como fundamento identificatório egóico-agressivo. Neste sentido, o termo toxicomania remete às manipulações perversas da esfera social, onde concorrem os argumentos de mercado, as “razões cínicas” do poder e a lógica da Acumulação, essa própria do Discurso do Capitalista, conforme Lacan. Em suma, o conceito de toxicomania qualifica o conjunto de procedimentos próprios da degradação da cultura, sejam eles institucionais, midiáticos, econômicos ou políticos, que permitem, no nível organizacional, paralelo ao Estado, a livre circulação, distribuição e consumo de drogas ilícitas. Mas, tal categoria não se reduz ao “juízo de existência” dessa “ordem paralela”, pois abarca também o mapeamento da lógica de mercado e de mentalidade responsável pelo uso legal das drogas, enquanto mais um efeito cínico do discurso da ciência. Entretanto, tem sido recorrente a utilização indistinta do termo “toxicomania”, inclusive por Lacan, pós-estudo d’ “A família”, para tratar dos dois aspectos do fenômeno suscitado pela questão da droga: sua origem estrutural (intenção) e sua inserção social (extensão).

8Cf. SOLLERS, P. Sade contra o ser supremo. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

9 WEBER, M. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2006.


Ernesto Söhnle Jr. é Psicanalista em formação no Centro de Estudos Lacaneanos, Instituição Psicanalítica (CEL/RS), Mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e doutorando em Educação, com ênfase em Psicanálise, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

ernestosohnle@terra.com.br