-PÓS-ESTRUTURALISMO E
TRADUÇÃO
Carlos Eduardo Louzada
Madeira
01.
A pluralidade de sentidos
O
desenvolvimento das teorias sobre a leitura vem demonstrando cada vez mais a
impossibilidade de uma abordagem restritiva quando se trata de interpretação
textual. Entre os estudiosos que lidam com a língua escrita, já é praticamente
consensual a visão de que o leitor diante do texto é um edificador de
significados.
Nesse
contexto, podemos então entender que a traçado de significantes a que
comumente chamamos texto não constitui a priori um agrupamento de
significações fixas e predefinidas, imunes ao recorte do leitor. Com efeito, a
interpretação de determinado escrito, em maior ou menor grau, poderá
apresentar variações, provocadas por fatores os mais diversos (contexto
sociohistórico, por exemplo). E não se trata apenas de textos literários, mas
também daqueles que, em princípio, não parecem capazes de gerar dúvidas quanto
ao seu significado. Tanto isso é verdade que não são poucos os livros que
lidam, por exemplo, com a interpretação de leis ou de outros normativos,
textos de caráter técnico produzidos com o intuito de serem claros e
objetivos, livres de ambigüidades.
É
essa concepção de leitura que embasa, por exemplo, a tradutologia da teórica
Rosemary Arrojo. É a partir da leitura/interpretação (sujeitas também à ação
de forças subjetivas) do texto de partida que é produzido o texto de chegada.
Em Oficina de Tradução, a autora deixa bem evidente essa noção:
Se pensarmos o processo de
tradução como transporte de significados entre língua A e língua B,
acreditamos ser o texto original um objeto estável, “transportável”, de
contornos absolutamente claros, cujo conteúdo podemos classificar completa e
objetivamente. (p. 12)
E
ainda:
[...] traduzir não pode ser
meramente o transporte, ou a transferência, de significados estáveis de uma
língua para outra, porque o próprio significado de uma palavra, ou de um
texto, na língua de partida, somente poderá ser determinado, provisoriamente,
através de uma leitura. [...] O texto, como o signo, deixa de ser a
representação “fiel” de um objeto estável que possa existir fora do labirinto
infinito da linguagem e passa a ser uma máquina de significados em potencial.
A imagem exemplar do texto “original” deixa de ser, portanto, a de uma
seqüência de vagões que contêm uma carga determinável e totalmente resgatável.
(pp. 22-23)
Não é
raro, porém, que a flexibilidade semântica envolvida na relação com os textos
cause estranhamento e ceticismo em alguns leitores/tradutores. É-lhes difícil
conceber a possibilidade de que existam diferentes leituras para um mesmo
texto, influenciados talvez pelo tratamento conservador e simplista
tradicionalmente dispensado às questões lingüísticas. Prova disso são as
freqüentes questões de vestibulares e concursos públicos centradas na
intenção do autor de determinado texto, ou ainda, que exigem do candidato
o significado preciso e correto de alguma passagem, o que muitas
vezes se mostra uma tarefa irrealizável.
02. O
aprendizado da leitura
Vale
ressaltar, no entanto, que a pluralidade de sentidos não implica a aceitação
de toda e qualquer interpretação. É preciso que o leitor/tradutor seja um
pesquisador incansável, tenha o máximo conhecimento dos aspectos abrangidos
pelo texto que tem diante de si, seja possuidor de excelentes habilidades
lingüísticas (práticas constantes de escrita e leitura nos idiomas
envolvidos), possua muita curiosidade intelectual e, é claro, conserve uma
postura eminentemente crítica.
É o somatório
dessas competências, e de outras mais, certamente, que vai possibilitar o
surgimento de um leitor eficaz e consciente, capaz de fazer escolhas bem
fundamentadas e de, talvez, apresentar duas ou mais interpretações possíveis
para um mesmo texto (ou para parte dele). O que se quer aqui afirmar é que a
pluralidade semântica não serve de base para leituras visivelmente equivocadas
e idiossincráticas, que geram inadequações evidentes.
Trata-se
efetivamente de aprender a ler, aprender a lançar mão de habilidades inatas e
adquiridas, sem perder de vista os aspectos culturais e convencionais da
comunidade interpretativa (Stanley Fish) a que pertence o leitor. Sobre
esse assunto, diz a autora, ainda em Oficina de Tradução:
Além
da complexa tarefa de dominar as línguas envolvidas no processo, aprender a
traduzir significa necessariamente aprender a “ler”. [...] Aprender a “ler”
significa [...] aprender a produzir significados, a partir de um determinado
texto, que sejam “aceitáveis” para a comunidade cultural da qual participa o
leitor. [...] Ler “adequadamente” um poema [...] implica conhecer a concepção
de poesia que o criou e saber aplicar as convenções estabelecidas para sua
leitura. [...] O mesmo se aplica a qualquer outro texto. Para que um leitor de
um determinado texto científico possa “ler” criticamente esse texto, também é
necessário que esteja informado acerca dos pressupostos e concepções
científicas da comunidade que o produziu e que conheça as convenções que devem
reger sua leitura. (pp. 76-77)
03. A fidelidade
Outro
aspecto fundamental da atividade tradutória, também abordado por Rosemary
Arrojo, é o que trata da noção de fidelidade ao original. Tendo redefinido o
conceito do termo, visto agora como um texto a partir do qual são produzidos
os significados, e não como aquele que conserva e protege a significação exata
e correta, segundo as intenções do autor, fica evidente que a fidelidade terá
de ser analisada diferentemente do que sugere uma visão conservadora.
Se
for oferecido um mesmo texto de partida a três tradutores diferentes, por
exemplo, é certo que se tenham três textos de chegada com características que
os distinguirão uns dos outros, em especial no que diz respeito às escolhas
léxico-sintáticas. É também bastante provável que ocorram divergências
semânticas, em maior ou menor grau, motivadas, em boa dose, pelas diferentes
formas de recepção e interpretação do texto. Diante disso, cabe a pergunta:
como se situa, na atividade tradutória, a questão da fidelidade?
Em
Tradução, Desconstrução e Psicanálise, Rosemary Arrojo analisa esse
aspecto tão controverso:
[...] nenhuma tradução pode
ser exatamente fiel ao “original” porque o “original” não existe como um
objeto estável, guardião implacável das intenções originais de seu autor. Se
apenas podemos contar com interpretações de um determinado texto, leituras
produzidas pela ideologia, pela localização temporal, geográfica e política de
um leitor, por sua psicologia, por suas circunstâncias, toda tradução somente
poderá ser fiel a essa produção. De maneira semelhante, ao avaliarmos uma
tradução, ao compararmos o texto traduzido ao “original”, estaremos apenas e
tão-somente comparando a tradução à nossa interpretação do “original” que, por
sua vez, jamais poderá ser exatamente a “mesma” do tradutor. (pp. 19-20)
A mesma
ideologia está presente em Oficina de Tradução, conforme mostra o
extrato abaixo:
O foco interpretativo é
transferido do texto, como receptáculo da intenção “original” do autor, para o
intérprete, o leitor, ou o tradutor. Isso não significa, absolutamente, que
devemos ignorar ou desconsiderar o que sabemos a respeito de um autor e de seu
universo quando lemos ou traduzimos um texto. Significa que, mesmo que
tenhamos como único objetivo o resgate das intenções originais de um
determinado autor, o que somente podemos atingir em nossa leitura ou tradução
é expressar nossa visão desse autor e de suas intenções. (p. 41)
Fica, pois,
evidente que a fidelidade de qualquer tradutor se vê limitada à compreensão
que ele próprio tem daquilo que está contido no texto de partida. Além disso,
seu desempenho, incluindo a metodologia de trabalho que adota, sofre
indubitavelmente a influência de suas concepções acerca da relação
autor/obra/leitor, além de outros aspectos que se manifestam
inconscientemente.
04. Aspectos teóricos
As
concepções teóricas que inspiram as idéias aqui expostas derivam da ideologia
pós-estruturalista, que tem como principais representantes os filósofos
Jacques Derrida e Michel Foucault.
Contrapondo-se ao que Derrida batizou de logocentrismo, visão que
concebe o original como um objeto de contornos definidos, receptáculo de
significados estáveis, o pós-estruturalismo acredita que o significado do
texto só tem lugar por meio de um ato interpretativo. Em outras palavras,
contraria a crença de que todos os significados existentes no texto foram lá
inseridos de forma consciente pelo autor, cabendo, portanto, ao bom leitor,
saber resgatá-los adequadamente.
Rosemary Arrojo explica que a visão logocêntrica surge na Grécia Antiga, onde
a filosofia concebe a existência de níveis de conhecimento em estado de
pureza. Isso equivale a dizer que os objetos possuem significações
preestabelecidas, que independem do aspecto contextual. Tal concepção de certa
forma inspirou muitas das teorias desenvolvidas ao longo dos séculos no
pensamento ocidental.
A
concepção logocêntrica despreza a importância do leitor no processo de
interpretação/tradução, atribuindo a ele o papel secundário de descodificar a
mensagem intrínseca contida no texto. Segue abaixo uma passagem extraída de
Tradução, Desconstrução e Psicanálise, em que Rosemary Arrojo
resume a influência inevitável do leitor na criação do significado:
[...] o leitor não poderá
deixar de lado aquilo que o constitui como sujeito e como leitor — suas
circunstâncias, seu momento histórico, sua visão de mundo, seu próprio
inconsciente. Em outras palavras, o leitor somente poderá estabelecer uma
relação com o texto (como todos nós, a todo o momento e em todas as nossas
relações), que será sempre mediada por um processo de interpretação, um
processo muito mais “criativo” do que “conservador”, muito mais “produtor” do
que “protetor”. (p. 19)
São
todos esses aspectos que tornam a tradução uma atividade tão desafiadora e
singular, e tão dependente do elemento humano, com toda a sua complexidade. Se
assim não fosse, se se tratasse pura e simplesmente de uma transferência de um
idioma para outro, já teríamos sem dúvida algum dispositivo tecnológico capaz
de fazê-lo.
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Referências bibliográficas
ARROJO, Rosemary.
Oficina de tradução: a teoria na prática. São Paulo: Ática, 2003.
_____. Tradução,
desconstrução e psicanálise. São Paulo: Imago, s/d.
NEVES, Maria Helena de
Moura. A gramática: história, teoria e análise, ensino. São
Paulo: UNESP, 2002.
PERINI, Mário A. A
língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial,
2004.
WYLER, Lia. Línguas,
poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de
Janeiro: Rocco, 2003.
CARLOS EDUARDO LOUZADA
MADEIRA é
Mestrando em Literatura Brasileira no Programa de Pós-graduação em Letras da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
carloselmadeira@gmail.com