14/06/2008
Ano 11 - Número 585

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

-PÓS-ESTRUTURALISMO E TRADUÇÃO

Carlos Eduardo Louzada Madeira


01.    A pluralidade de sentidos

                   O desenvolvimento das teorias sobre a leitura vem demonstrando cada vez mais a impossibilidade de uma abordagem restritiva quando se trata de interpretação textual. Entre os estudiosos que lidam com a língua escrita, já é praticamente consensual a visão de que o leitor diante do texto é um edificador de significados.

                   Nesse contexto, podemos então entender que a traçado de significantes a que comumente chamamos texto não constitui a priori um agrupamento de significações fixas e predefinidas, imunes ao recorte do leitor. Com efeito, a interpretação de determinado escrito, em maior ou menor grau, poderá apresentar variações, provocadas por fatores os mais diversos (contexto sociohistórico, por exemplo). E não se trata apenas de textos literários, mas também daqueles que, em princípio, não parecem capazes de gerar dúvidas quanto ao seu significado. Tanto isso é verdade que não são poucos os livros que lidam, por exemplo, com a interpretação de leis ou de outros normativos, textos de caráter técnico produzidos com o intuito de serem claros e objetivos, livres de ambigüidades.

                   É essa concepção de leitura que embasa, por exemplo, a tradutologia da teórica Rosemary Arrojo. É a partir da leitura/interpretação (sujeitas também à ação de forças subjetivas) do texto de partida que é produzido o texto de chegada. Em Oficina de Tradução, a autora deixa bem evidente essa noção:

Se pensarmos o processo de tradução como transporte de significados entre língua A e língua B, acreditamos ser o texto original um objeto estável, “transportável”, de contornos absolutamente claros, cujo conteúdo podemos classificar completa e objetivamente. (p. 12)

                   E ainda:

[...] traduzir não pode ser meramente o transporte, ou a  transferência, de significados estáveis de uma língua para outra, porque o próprio significado de uma palavra, ou de um texto, na língua de partida, somente poderá ser determinado, provisoriamente, através de uma leitura. [...] O texto, como o signo, deixa de ser a representação “fiel” de um objeto estável que possa existir fora do labirinto infinito da linguagem e passa a ser uma máquina de significados em potencial. A imagem exemplar do texto “original” deixa de ser, portanto, a de uma seqüência de vagões que contêm uma carga determinável e totalmente resgatável. (pp. 22-23)

                   Não é raro, porém, que a flexibilidade semântica envolvida na relação com os textos cause estranhamento e ceticismo em alguns leitores/tradutores. É-lhes difícil conceber a possibilidade de que existam diferentes leituras para um mesmo texto, influenciados talvez pelo tratamento conservador e simplista tradicionalmente dispensado às questões lingüísticas. Prova disso são as freqüentes questões de vestibulares e concursos públicos centradas na intenção do autor de determinado texto, ou ainda, que exigem do candidato o significado preciso e correto de alguma passagem, o que muitas vezes se mostra uma tarefa irrealizável.


02.
O aprendizado da leitura

                   Vale ressaltar, no entanto, que a pluralidade de sentidos não implica a aceitação de toda e qualquer interpretação. É preciso que o leitor/tradutor seja um pesquisador incansável, tenha o máximo conhecimento dos aspectos abrangidos pelo texto que tem diante de si, seja possuidor de excelentes habilidades lingüísticas (práticas constantes de escrita e leitura nos idiomas envolvidos), possua muita curiosidade intelectual e, é claro, conserve uma postura eminentemente crítica.

        É o somatório dessas competências, e de outras mais, certamente, que vai possibilitar o surgimento de um leitor eficaz e consciente, capaz de fazer escolhas bem fundamentadas e de, talvez, apresentar duas ou mais interpretações possíveis para um mesmo texto (ou para parte dele). O que se quer aqui afirmar é que a pluralidade semântica não serve de base para leituras visivelmente equivocadas e idiossincráticas, que geram inadequações evidentes.

         Trata-se efetivamente de aprender a ler, aprender a lançar mão de habilidades inatas e adquiridas, sem perder de vista os aspectos culturais e convencionais da comunidade interpretativa (Stanley Fish) a que pertence o leitor. Sobre esse assunto, diz a autora, ainda em Oficina de Tradução:

            Além da complexa tarefa de dominar as línguas envolvidas no processo, aprender a traduzir significa necessariamente aprender a “ler”. [...] Aprender a “ler” significa [...] aprender a produzir significados, a partir de um determinado texto, que sejam “aceitáveis” para a comunidade cultural da qual participa o leitor. [...] Ler “adequadamente” um poema [...] implica conhecer a concepção de poesia que o criou e saber aplicar as convenções estabelecidas para sua leitura. [...] O mesmo se aplica a qualquer outro texto. Para que um leitor de um determinado texto científico possa “ler” criticamente esse texto, também é necessário que esteja informado acerca dos pressupostos e concepções científicas da comunidade que o produziu e que conheça as convenções que devem reger sua leitura. (pp. 76-77)

                      Fica claro, portanto, que a atividade tradutória se desenvolve por meio de procedimentos vários que se interligam, formando uma complexa rede que se opõe de forma veemente à visão tradicional de tradução como pura e simples transferência de significados. Paradoxalmente, os prazos que se exigem dos tradutores querem fazer crer que a tarefa é de fato simples e automática, o que, sem dúvida, prejudica enormemente a qualidade do trabalho final.

É certo que o fator tempo é um dos maiores inimigos dos tradutores, fazendo com que, algumas vezes, tenham de tomar decisões pouco refletidas. Por outro lado, é preciso reconhecer que a qualidade do texto final pode ser prejudicada também em função da inépcia do profissional de tradução. Este aspecto está bem ilustrado no livro A língua do Brasil amanhã e outros mistérios, do lingüista Mário Perini, que dedica ao assunto um capítulo, chamado “Tradução e traição (uma galeria de horrores)”.  
 

03. A fidelidade 

                   Outro aspecto fundamental da atividade tradutória, também abordado por Rosemary Arrojo, é o que trata da noção de fidelidade ao original. Tendo redefinido o conceito do termo, visto agora como um texto a partir do qual são produzidos os significados, e não como aquele que conserva e protege a significação exata e correta, segundo as intenções do autor, fica evidente que a fidelidade terá de ser analisada diferentemente do que sugere uma visão conservadora.

                   Se for oferecido um mesmo texto de partida a três tradutores diferentes, por exemplo, é certo que se tenham três textos de chegada com características que os distinguirão uns dos outros, em especial no que diz respeito às escolhas léxico-sintáticas. É também bastante provável que ocorram divergências semânticas, em maior ou menor grau, motivadas, em boa dose, pelas diferentes formas de recepção e interpretação do texto. Diante disso, cabe a pergunta: como se situa, na atividade tradutória, a questão da fidelidade?

                   Em Tradução, Desconstrução e Psicanálise, Rosemary Arrojo analisa esse aspecto tão controverso:

[...] nenhuma tradução pode ser exatamente fiel ao “original” porque o “original” não existe como um objeto estável, guardião implacável das intenções originais de seu autor. Se apenas podemos contar com interpretações de um determinado texto, leituras produzidas pela ideologia, pela localização temporal, geográfica e política de um leitor, por sua psicologia, por suas circunstâncias, toda tradução somente poderá ser fiel a essa produção. De maneira semelhante, ao avaliarmos uma tradução, ao compararmos o texto traduzido ao “original”, estaremos apenas e tão-somente comparando a tradução à nossa interpretação do “original” que, por sua vez, jamais poderá ser exatamente a “mesma” do tradutor. (pp. 19-20)

         A mesma ideologia está presente em Oficina de Tradução, conforme mostra o extrato abaixo:

O foco interpretativo é transferido do texto, como receptáculo da intenção “original” do autor, para o intérprete, o leitor, ou o tradutor. Isso não significa, absolutamente, que devemos ignorar ou desconsiderar o que sabemos a respeito de um autor e de seu universo quando lemos ou traduzimos um texto. Significa que, mesmo que tenhamos como único objetivo o resgate das intenções originais de um determinado autor, o que somente podemos atingir em nossa leitura ou tradução é expressar nossa visão desse autor e de suas intenções. (p. 41)

         Fica, pois, evidente que a fidelidade de qualquer tradutor se vê limitada à compreensão que ele próprio tem daquilo que está contido no texto de partida. Além disso, seu desempenho, incluindo a metodologia de trabalho que adota, sofre indubitavelmente a influência de suas concepções acerca da relação autor/obra/leitor, além de outros aspectos que se manifestam inconscientemente.
 

04. Aspectos teóricos

                   As concepções teóricas que inspiram as idéias aqui expostas derivam da ideologia pós-estruturalista, que tem como principais representantes os filósofos Jacques Derrida e Michel Foucault.

                   Contrapondo-se ao que Derrida batizou de logocentrismo, visão que concebe o original como um objeto de contornos definidos, receptáculo de significados estáveis, o pós-estruturalismo acredita que o significado do texto só tem lugar por meio de um ato interpretativo. Em outras palavras, contraria a crença de que todos os significados existentes no texto foram lá inseridos de forma consciente pelo autor, cabendo, portanto, ao bom leitor, saber resgatá-los adequadamente.

                   Rosemary Arrojo explica que a visão logocêntrica surge na Grécia Antiga, onde a filosofia concebe a existência de níveis de conhecimento em estado de pureza. Isso equivale a dizer que os objetos possuem significações preestabelecidas, que independem do aspecto contextual. Tal concepção de certa forma inspirou muitas das teorias desenvolvidas ao longo dos séculos no pensamento ocidental.

                   Ainda segundo Arrojo, uma das características do logocentrismo é a de estabelecer dicotomias, separando de modo objetivo os pares e privilegiando um deles como sendo superior, essencial. Uma dessas dicotomias é aquela que acaba por separar, em última análise, o original, superior, detentor dos significados verdadeiros, da tradução, inferior, imperfeita.

                   Trata-se da mesma crença que ainda norteia a filosofia da gramática normativa. A téchne grammatiké (arte da gramática) assume a forma de reguladora do comportamento lingüístico dos usuários no século III a.C., privilegiando a linguagem das grandes obras literárias e filosóficas do passado, que constituiriam modelos de pureza e correção, em oposição à língua “degradada” e “corrompida” usada pelos gregos no dia-a-dia. É o que explica Maria Helena de Moura Neves em A gramática: história, teoria e análise, ensino.

                   A concepção logocêntrica despreza a importância do leitor no processo de interpretação/tradução, atribuindo a ele o papel secundário de descodificar a mensagem intrínseca contida no texto. Segue abaixo uma passagem extraída de Tradução, Desconstrução e Psicanálise, em que Rosemary Arrojo resume a influência inevitável do leitor na criação do significado:

[...] o leitor não poderá deixar de lado aquilo que o constitui como sujeito e como leitor — suas circunstâncias, seu momento histórico, sua visão de mundo, seu próprio inconsciente. Em outras palavras, o leitor somente poderá estabelecer uma relação com o texto (como todos nós, a todo o momento e em todas as nossas relações), que será sempre mediada por um processo de interpretação, um processo muito mais “criativo” do que “conservador”, muito mais “produtor” do que “protetor”. (p. 19)

                   São todos esses aspectos que tornam a tradução uma atividade tão desafiadora e singular, e tão dependente do elemento humano, com toda a sua complexidade. Se assim não fosse, se se tratasse pura e simplesmente de uma transferência de um idioma para outro, já teríamos sem dúvida algum dispositivo tecnológico capaz de fazê-lo.


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Referências bibliográficas 

ARROJO, Rosemary. Oficina de tradução: a teoria na prática. São Paulo: Ática, 2003.

_____. Tradução, desconstrução e psicanálise. São Paulo: Imago, s/d.

NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: história, teoria e análise, ensino. São Paulo: UNESP, 2002.

PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.                  


CARLOS EDUARDO LOUZADA MADEIRA é Mestrando em Literatura Brasileira no Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
carloselmadeira@gmail.com