Resumo: Na última fase
de seu pensamento, Michel Foucault se aproxima dos filósofos da antiguidade
ao propor o resgate do cuidado de si, ou seja, da ‘epiméleia heautoû’. Em
A hermenêutica do sujeito, título que reúne as aulas de um curso
ministrado em 1982, o filósofo percorre a história assinalando onde o
cuidado de si esteve presente. Ainda na primeira aula de seu curso, Foucault
aponta dois saberes modernos – o marxismo e a psicanálise –, que, para ele,
trariam em seu núcleo a questão central do cuidado de si. Dessa forma, este
artigo se propõe a percorrer a trilha, proposta pelo filósofo, de que a
psicanálise, um saber do século XIX, traz, em si, as questões da
‘epiméleia heautoû’, presentes desde os tempos de Sócrates. Nesta
investigação, tomaremos como norte a psicanálise freudiana para responder à
seguinte questão: como a psicanálise pode ser uma das formas de cuidado de
si?
Palavras-chave: Foucault, Freud, cuidado de si, psicanálise, sujeito,
verdade.
Na leitura do curso de Foucault, A hermenêutica do sujeito, em que o
filósofo apresenta a forma filosófica do epiméleia heautoû (cuidado de
si), é difícil não se intrigar com a passagem onde o filósofo francês
relaciona o cuidado de si com a psicanálise. Para Michel Foucault, tanto o
cuidado de si quanto a psicanálise têm, como questão central, a problemática
que envolve o sujeito no acesso à verdade.
No referido curso, Foucault analisa diversos textos, da Grécia Clássica até o
helenismo, incluindo o cristianismo antigo. Reflete sobre a ruptura entre
filosofia e espiritualidade no cristianismo medieval. Explana o ‘momento
cartesiano’, que vai até Kant e que separou o conhecimento científico e
filosófico do cuidado de si. Nessa exposição do que seria o cuidado de si e de
suas características fundamentais, traçaremos um paralelo entre a psicanálise
e a epiméleia heaut, pois, para o filósofo, tal saber seria uma forma
de ascese moderna, que traz em si as mesmas inquietações do cuidado de si
presentes na cultura grega, helenística e cristã antiga.
Tendo como principal objetivo ponderar acerca das possíveis relações que
poderiam ser estabelecidas entre o cuidado de si e a psicanálise, pretendesse
pensar até que ponto o vínculo indicado por Foucault faz sentido. Entre
diversas perspectivas possíveis, optamos, neste momento, por um dos aspectos
essenciais da epiméleia heautoû, tal como Foucault estabelece em sua pesquisa,
a saber, a relação do sujeito com a verdade. Para tanto, será preciso primeiro
expor as características fundamentais da epiméleia heautoû. Em seguida,
utilizando-se como ferramenta de pesquisa os conceitos e a perspectiva de
Foucault, trabalharemos a relação entre sujeito e verdade, de acordo com o
pensamento de Freud – abordando aspectos específicos da psicanálise nascente –
especialmente na obra A interpretação dos sonhos. Por último,
delinearemos a relação entre cuidado de si e a psicanálise e discutiremos como
ambos podem conduzir o sujeito à verdade.
A hermenêutica como tentativa de resgate
Um resgate da relação do sujeito consigo próprio pela mediação da verdade, é o
que propõe A hermenêutica do sujeito, título que reúne as aulas
ministradas por Michel Foucault1 no Collège de France2,
no ano de 1982; organizada e publicada postumamente por três de seus alunos,
herdeiros diretos de sua filosofia3. Com esse intento, o filósofo
retorna a textos da Grécia antiga e do período romano helenístico, onde a
preocupação central é a busca da verdade do sujeito ou, em termos mais
propriamente históricos, o cuidado de si4, preocupação que vai se desgastando
aos poucos com o desenvolvimento do sistema cristão, com sua moral baseada no
não-egoísmo e tem sua apartação radical no que Foucault (apud EWALD; FONTANA;
GROS, 2006) chama de “momento cartesiano”.
Parece-me que o
“momento cartesiano” [...] atuou de duas maneiras, seja requalificando
filosoficamente o gnôthi seautón (conheça-te a ti mesmo), seja
desqualificando, em contrapartida, a epiméleia heautoû (cuidado de si).
[...] Com efeito, [...] instaurou a evidência na origem, no ponto de partida
do procedimento filosófico – a evidência tal como aparece, isto é, tal como se
dá, tal como efetivamente se dá à consciência sem qualquer dúvida possível.
[É, portanto, ao] conhecimento de si, ao menos como forma de consciência, que
se refere o procedimento cartesiano. Além disto, colocando a evidência da
existência própria do sujeito no princípio do acesso ao ser, era este
conhecimento de si mesmo (não mais sob a forma da prova da evidência mas sob a
forma da indubitabilidade de minha existência como sujeito) que fazia do
“conhecer-te a ti mesmo” um acesso fundamental à verdade (FOUCAULT, 2006, p.
18).
Para o filósofo francês, o
“momento cartesiano” foi o responsável pela inversão da primazia do cuidado de
si sobre o conhecimento de si. Com o cristianismo5 e, mais adiante, com
o “momento cartesiano”, a epiméleia heautoû teria adquirido um caráter
negativo, diferente daquele original, que podemos detectar na filosofia grega
antiga. O motivo de tal inversão seria o fato de que, para a filosofia
cartesiana ou como prefere Foucault, para “o momento cartesiano”, a verdade só
se dá mediante o conhecimento objetivo da realidade. Da forma apresentada
pelos gregos, a epiméleia heautoû, representaria uma ameaça ao sistema
cristão medieval6 e ao Iluminismo, pois, para ambos, o cuidado de
si, nos moldes socráticoplatônico, soava como egoísmo e conceberia uma ameaça,
na medida em que exige do sujeito uma prioridade de si, antes mesmo da fé ou
da razão. Esses seriam, por assim dizer, os motivos que fizeram com que tal
preceito fosse excluído do pensamento filosófico moderno (FOUCAULT, apud EWALD;
FONTANA; GROS, 2006). Foi também, para Foucault, com essa inversão da primazia
do cuidado de si sobre o conhecimento de si que houve a separação entre
filosofia e espiritualidade, inconcebível para os gregos antigos7.
Mas o que é filosofia e o que é espiritualidade para Foucault?
Chamemos
“filosofia” a forma de pensamento que se interroga sobre o que permite ao
sujeito ter acesso à verdade, forma de pensamento que tenta determinar as
condições e os limites do acesso do sujeito à verdade. [...] “espiritualidade”
o conjunto de buscas, práticas e experiências tais como as purificações, as
asceses, as renúncias, as conversões do olhar, as modificações de existência,
etc., que constituem, não para o conhecimento, mas para o sujeito, para o ser
mesmo do sujeito, o preço a pagar para ter acesso à verdade (FOUCAULT, 2006,
p. 19).
A partir do “momento cartesiano”,
a unidade entre filosofia e espiritualidade, existente no pensamento grego
antigo, deixa de existir. Na filosofia, a partir de Descartes, o homem
chegaria à verdade pelo simples fato de ser sujeito cognoscente, isto é,
sujeito conhecedor. Em Descartes, filosofia não requer espiritualidade, pois o
acesso do sujeito à verdade não requer nenhuma transformação do sujeito. Como
já é possível notar, Foucault historiciza a forma cartesiana de se entender a
relação entre subjetividade e verdade. Em A hermenêutica do sujeito,
Foucault pondera sobre possíveis formas de se resgatar uma época na qual havia
a necessidade de o sujeito procurar a verdade. Para tal resgate, o filósofo
francês retoma as tradições do cuidado de si, que, no Ocidente, tem sua origem
com os gregos, seu apogeu nas correntes filosóficas do helenismo e no
cristianismo antigo8, se desgasta na idade média, na renascença e
modernidade, ganhando nova configuração com os saberes que surgem nos séculos
XIX e XX, como o marxismo e a psicanálise.
[...] no
marxismo como na psicanálise, o problema a respeito do que se passa com o ser
do sujeito (do que deve ser o ser do sujeito para que ele tenha acesso à sua
verdade) e a conseqüente questão acerca do que pode ser transformado no
sujeito pelo fato de ter acesso à verdade, estas questões repito,
absolutamente características da espiritualidade, serão por nós encontradas no
cerne mesmo destes saberes ou, em todo caso, de ponta a ponta em ambos. [...]
O que quero dizer é que nestas formas de saber reencontramos as questões, as
interrogações, as exigências que, a meu ver – sob um olhar histórico de pelo
menos um ou dois milênios –, são as muito velhas e fundamentais questões da
epiméleia heautoû e, portanto, da espiritualidade como condição de acesso à
verdade (FOUCAULT) apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006, p. 40-1).
Entre os caminhos apontados,
escolhemos abordar a psicanálise, pois o filósofo enxerga, nesse saber, a
problemática que envolve o acesso do sujeito à verdade e as implicações
inerentes que ocorreriam no sujeito. Para Foucault, tais questões
constituiriam o cerne da psicanálise e, ao mesmo tempo, da epiméleia
heautoû.
Fazendo
ressurgir esta questão, acho que ele [Lacan] fez efetivamente ressurgir, no
interior mesmo da psicanálise, a mais velha tradição, a mais velha
interrogação, a mais velha inquietude desta epiméleia heautoû, que
constitui a forma mais geral da espiritualidade. Esta questão, que não me cabe
resolver, é certamente a seguinte: é possível, nos próprios termos da
psicanálise, isto é, dos efeitos de conhecimento portanto, colocar a questão
das relações do sujeito coma verdade, que – do ponto de vista, pelo menos, da
espiritualidade e da epiméleia heautoû – não pode, por definição, ser
colocada nos próprios termos do conhecimento? (FOUCAULT apud EWALD; FONTANA;
GROS, 2006, p. 41).
Como se vê, Foucault aponta, para
a psicanálise de Lacan, um momento áureo da espiritualidade na nossa
modernidade. Embora o filósofo, certamente, não exclua o pensamento de Freud
dessa abordagem, não chega a dedicar nem mesmo um parágrafo para detalhar em
que sentido, na obra do médico vienense, poder-se-ia encontrar as questões da
epiméleia heautoû. A hipótese de trabalho aqui é de que, já no pai da
psicanálise, o cuidado de si está implicado essencialmente, e o objetivo é
prová-lo.
O cuidado de si e a psicanálise como formas de ascese
Sócrates, conforme relata o diálogo
platônico Alcebíades, instigava os
jovens destinados ao governo da polis a
ocuparem-se consigo, a cuidarem
primeiramente de si, a descobrirem a
verdade, pois somente assim estariam
preparados para cuidar da cidade. Diz o
Sócrates platônico:
Exercita-te primeiro, caro amigo, e
aprende o que é preciso conhecer
para te iniciares na política; antes,
não. Munido, desse modo, do
contraveneno adequado, nada
prejudicial te poderá acontecer. [...]
Porém de que modo alcançaremos o
conhecimento perfeito da alma?
Sabido isso, ao que parece,
conhecer-nos-emos a nós mesmos.
Mas, pelos deuses, será que
penetramos, de fato, no sentido
profundo do excelente preceito de
Delfos a que há momentos nos
referimos? (PLATÃO, 1975, p.
242-3)
Sócrates incitava Alcebíades a ocupar-se
consigo, descobrir a verdade, cuidar
de si, para depois cuidar dos outros.
Bem como Sócrates, o pai da
psicanálise entendeu que só seria
possível compreender o outro se ele
próprio, como sujeito, descobrisse a
verdade. Nesses termos, a psicanálise
pode ser uma das formas de
conhecimento de si e de prática de si,
preceitos que estão diretamente
subordinados à noção de cuidado de si.
Na psicanálise, para se chegar ao
conhecimento de si, faz-se necessário,
numa atitude de repouso, observar e
interpretar os próprios atos mentais em
jogo em nossa linguagem, sonhos e atos
falhos. Nesse sentido, a psicanálise
pode ser uma forma de cuidado de si, na
medida em que exige do sujeito que
ocupe-se consigo e se conheça,
utilizando-se, para isso, das práticas de
si.
Aqui cabe uma pergunta: o que fez com que Freud chegasse à conclusão de
que era necessário ocupar-se consigo mesmo, que era necessário se investigar,
se descobrir? Poderíamos descartar a possibilidade de que um Sócrates o tenha
interceptado e o instigado a praticar tal preceito? Seria Breuer esse
Sócrates?
Meu conhecimento
desse método foi obtido da seguinte maneira. Tenho-me empenhado há muitos anos
(com um objetivo terapêutico em vista) em deslindar certas estruturas
psicopatológicas - fobias histéricas, idéias obsessivas, e assim por diante.
Com efeito, tenho-o feito desde que soube, por meio de uma importante
comunicação de Josef Breuer, que, no tocante a essas estruturas (que são
consideradas como sintomas patológicos), sua decomposição coincide com sua
solução. (Cf. Breuer e Freud, 1895.) Quando esse tipo de representação
patológica pode ser rastreado até os elementos da vida mental do paciente dos
quais se originou, a representação ao mesmo tempo se desarticula, e o paciente
fica livre dela. Considerando a impotência de nossos outros esforços
terapêuticos e a natureza enigmática desses distúrbios, senti-me tentado a
seguir a trilha apontada por Breuer, apesar de todas as dificuldades, até que
se chegasse a uma explicação completa (FREUD, 2001, p. 115-6).
O sujeito como problema Foucault
referiu-se à psicanálise, no decorrer de sua obra, a partir de perspectivas
bem diversas, o que, para Eribon, estudioso de Foucault, não constituiria uma
contradição. O que interessava a Foucault não era especificamente a
psicanálise e, sim, a questão do sujeito (ERIBON, 1996, p.147). Mas qual seria
o problema do sujeito, o qual causa tanta inquietação no filósofo francês e a
psicanálise traz em si? Essa questão foi respondida por Foucault, em um artigo
publicado em 19819.
[...]
descobríamos que a filosofia e as ciências humanas viviam sobre uma concepção
muito tradicional do sujeito humano, e que não bastava dizer, ora com alguns,
que o sujeito era radicalmente livre, ora com outros, que ele era determinado
pelas condições sociais. Descobríamos que era preciso procurar libertar aquilo
que se esconde por trás do uso aparentemente simples do pronome “eu” (ERIBON,
1996, p. 148).
No pensamento de Foucault, o
sujeito não surge, configura-se. “O sujeito não é a forma fundamental e
originária, mas forma-se a partir de um certo número de processos [...] O
sujeito tem uma gênese, o sujeito não é originário” (ERIBON, 1996, p. 147).
Ora, Foucault viu em Freud e em Lacan possibilidades programáticas de
apresentar certos processos pelos quais o sujeito pode configurar-se. Nesse
sentido, a psicanálise estaria do lado de uma filosofia que não pensa o
sujeito como previamente originário em relação aos processos que o constitui.
Verdade e sonho
No curso A hermenêutica do sujeito, vez ou outra, o autor se refere
a um texto de Fílon de Alexandria, intitulado Os terapeutas. Esse texto
descreve uma suposta comunidade que tinha como princípio o cuidado da alma, o
que Foucault interpreta como “cuidado de si”. Em um determinado momento do
curso, o filósofo comenta sobre a forma com que os terapeutas encaram os
sonhos.
Suas relações com
o saber, sua prática de estudos é tão forte, seus cuidados com o estudo tão
intensos – e aqui encontramos um tema muito importante em toda a prática de
si, ao qual creio já ter feito menção –, que, mesmo durante o sono e os
sonhos, “proclamam as doutrinas da filosofia sagrada”. Este é um exemplo [...]
do sono e dos sonhos como critérios das relações do indivíduo com a verdade,
critérios da relação existente entre a pureza do indivíduo e a manifestação da
verdade (FOUCAULT, 2006, pp. 144-5).
Para esses terapeutas os sonhos
funcionam como uma espécie de termômetro em suas vidas. Em outras palavras,
eram os sonhos que diziam se estavam ou não conseguindo êxito em seus
propósitos, se o indivíduo estava ou não cuidando de sua alma, ou seja, se
estava ou não cuidando de si da forma correta. O raciocínio é simples: se me
ocupo ‘corretamente’ das minhas práticas durante o dia, isto é, se me dedico à
leitura das Sagradas Escrituras (a Torá judaica) e pratico a ascese espiritual
(jejuns, penitências, meditações etc.), certamente os sonhos que me ocorrerão
durante a noite serão puros, pois irão refletir o que me aconteceu durante o
dia. Entretanto, se, porventura, meus sonhos não forem bons, significaria em
algum momento durante o dia, desviei de meu propósito.
Não nos interessa, no exemplo anterior, saber se a interpretação que esse
grupo faz dos sonhos é verdadeira, e sim entender a relação que essa
comunidade, supostamente existente no período intertestamentário, estabelece
entre sonho e verdade. O interessante é notar que os terapeutas encaravam os
sonhos como aquilo que revelava a verdade sobre si.
Dezenove séculos mais tarde, no ano de 1897, o médico Sigmund Freud começa a
redigir o que viria a ser a mais conhecida obra sobre os sonhos já escrita e
que seria publicada em 1900. Nessa obra, em que Freud analisa seus próprios
sonhos e de seus pacientes, desvendar os mistérios da vida onírica, na nossa
interpretação, seria uma das formas de cuidado de si, pois os sonhos, para
Freud, revelariam desejos recalcados durante o dia, revelando assim, para o
sujeito, a verdade que se passa em seu inconsciente. Portanto, assim
como para a comunidade dos terapeutas os sonhos revelam a verdade da coerência
de vida, ou mesmo a verdade da vida, os sonhos, na interpretação freudiana,
mostram para o sujeito a verdade de seus desejos.
Relação sujeito e verdade em Freud
Através de sua psicanálise, Sigmund Freud aborda a relação entre sujeito e
verdade10. Ou seja, a teoria psicanalítica freudiana tem como
finalidade última conduzir o sujeito a descobrir a verdade dos seus desejos
desconhecidos, mas subjacentes aos seus sintomas e sonhos. Se assim
entendermos, podemos dizer que a obra de Freud, em sua totalidade, trata da
relação entre sujeito e verdade. Obviamente, não temos a pretensão de fazer,
neste artigo, tão ampla análise, pois, para tanto, seria necessário um passeio
pela extensa obra freudiana. Por ora, vamos tentar demonstrar essa relação
apresentada na célebre obra A interpretação dos sonhos, especificamente
a partir do segundo capítulo, onde ele, de fato, começa a mostrar seu modelo
de interpretação dos sonhos, analisando diretamente os seus próprios e os de
alguns de seus pacientes.
A escolha da obra não foi mero acaso. É de consenso no meio psicanalítico que
A interpretação dos sonhos é considerada a obra inaugural da
psicanálise11. Ela inaugura uma nova forma de ver o homem, ao
utilizar-se da idéia de que somos movidos pelo inconsciente. Até a publicação
da referida obra, o homem era abordado somente como um ser racional, capaz de
controlar todos os seus atos, inclusive seus instintos e impulsos. Para
Descartes (1999, p. 62), o sujeito é “uma substância cuja essência ou natureza
consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem
depende de qualquer coisa material”. Queremos, neste momento, explicitar que,
com o conceito de inconsciente, Freud diz que existe um nível na mente que
era, até então, desconhecido e ao qual não temos acesso livre, tampouco,
podemos controlá-lo, e, apesar disso, ele dita nosso comportamento. Isto é
justamente o que nos interessa na obra freudiana: o sujeito descobrindo que
não é senhor de sua morada.
A descoberta da verdade do sujeito, na obra de Freud, passa pela observação e
interpretação dos sonhos. Por esse mecanismo, poder-se-ia reconhecer os
verdadeiros desejos, ou seja, seria mediante tratamento psicanalítico que o
sujeito deixaria de ser um estranho a si mesmo.
Os mecanismos dos sonhos e o inconsciente na obra de Freud
Aqui vamos tentar esclarecer algumas questões centrais do texto de Freud.
É necessário entender o que é um sonho para Freud, qual sua função para o
indivíduo, qual o seu objetivo ao se interpretarem os sonhos e quais os
resultados práticos da interpretação desses sonhos na vida do sujeito.
Questões complexas que tentaremos responder ao longo do desenvolvimento do
texto, para que cheguemos à questão central do artigo: como a psicanálise pode
ser uma forma de cuidado de si?
Para responder a essas questões, seria interessante partir da afirmação de
Freud (2001, p. 112) de que “‘interpretar’ um sonho implica atribuir a ele um
‘sentido’ - isto é, substituí-lo por algo que se ajuste à cadeia de nossos
atos mentais como um elo dotado de validade e importância iguais ao restante”.
A idéia de que os sonhos são somente atividades psíquicas registradas durante
o sono, desprovidas de nexo e provocadas por estímulos fisiológicos, não
procede na psicanálise de Freud. É mais que isso. E seria um grave equívoco
explicarmos o que são os sonhos dentro da obra freudiana dissociando-os de seu
sentido e de sua função. Para o pensador os sonhos são “fenômenos psíquicos de
inteira validade - realizações de desejos; podem ser inseridos na cadeia dos
atos mentais inteligíveis de vigília” (FREUD, 2001, p.136).
Somos, normalmente, condicionados a imaginar que os sonhos são desprovidos de
qualquer senso por não entendermos que sua lógica é outra. Os sonhos, na
verdade, obedecem as leis que nos regem durante o sono, leis essas, que nos
são desconhecidas, ainda que nos pareçam familiares, ou seja, os sonhos seguem
sua própria lei, sua própria lógica. E sempre, necessariamente, indicam um
desejo não-realizado. A constatação de nem sempre ser possível enxergar
claramente tal desejo no sonho se explica pelo fato de nem sempre tal anseio
ser compatível com nossa posição social, nosso sexo, nossa situação civil,
nossas convenções morais etc.
Os desejos que aparecem durante nossa vida diurna e que não podem ser aceitos
por nosso consciente são ‘esquecidos’. O esquecimento é conseqüência de um
mecanismo descrito como “recalque”. Os desejos recalcados não desaparecem,
permanecem em nossa mente, em nosso inconsciente e exerce sua influência
durante a vida onírica. Já que não lhes é possível se expressarem
conscientemente, procuram expressões substitutivas que lhes permitam escapar
da censura que lhes foi imposta. Assim, podemos concluir que os sonhos têm
origem em nossa estrutura instintiva e pulsional em forma de desejos; a
consciência, por sua vez, não podendo, por diversos fatores, aceitá-los,
“joga-os” para o inconsciente via recalque. Durante o sono, esses desejos
podem emergir do inconsciente, ou seja, sair do inconsciente e vir para o
consciente. Isso é possível porque no sonho seria mais fácil ‘driblar’ a
censura da nossa consciência. Os desejos assumem, então, características
‘aceitáveis’ para aquilo que está ativo na consciência moral, apesar de
estarmos dormindo. É por isso que Freud considera os sonhos a principal
via de acesso ao inconsciente, já que eles são a manifestação mais direta
deste.
O que despertou a atenção de Freud para o estudo dos sonhos foi a constatação
de que o simples ato de relatar os acontecimentos oníricos provocava o alívio
dos sintomas da esquizofrenia em seus pacientes (FREUD, 2001). Nessa reflexão,
o pensador descobriu a existência do inconsciente. O inconsciente, no
pensamento freudiano, é um dos três níveis do psiquismo, onde permanecem os
processos, as idéias e os sentimentos que não podem ser trazidos
voluntariamente à tona e à luz da consciência. O inconsciente denota tudo que
não é consciente para o sujeito, tudo que escapa à sua consciência espontânea
e refletida; não conhece tempo, contradição, exclusão induzida pela negação,
alternativa, dúvida, incerteza e diferença de sexo. No inconsciente, a
realidade externa é substituída pela psíquica; possui regras próprias que
desconhecem as relações lógicas conscientes de não-contradição e de causa e
efeito; e é constituído de elementos recalcados. Elementos esses que são
representantes pulsionais que obedecem aos mecanismos do processo primário.
Quando algo se torna inconsciente, para trazê-lo ao nível consciente, são
necessárias técnicas mais poderosas que a simples vontade, como, por exemplo,
o hipnotismo, a sugestão ou a psicanálise12.
A psicanálise freudiana como forma de cuidado de si
Foucault entende que o cuidado de si coordena as práticas de si e o
conhecimento de si. Relatando e interpretando seus sonhos, o sujeito descobre
o que se passa em seu inconsciente. Dessa forma, ao deparar-se com seus
desejos mais escondidos, que emergem diretamente do desconhecido de sua mente,
o sujeito conhece a si mesmo. Contudo, para que o sujeito, na psicanálise,
coloque em prática o preceito délfico “conheça-te a ti mesmo”, que, por sua
vez, é um dos preceitos que está subordinado ao cuidado de si, são necessários
“um aumento da atenção que ele dispensa a suas próprias percepções psíquicas e
a eliminação da crítica pela qual ele normalmente filtra os pensamentos que
lhe ocorrem. Para que ele possa concentrar sua atenção em si
mesmo”(FREUD, 2001, p. 116). Essa renúncia à faculdade crítica é essencial,
pois tal faculdade leva o sujeito
[...] a rejeitar
algumas das idéias que lhe ocorrem após percebê-las, a interromper outras
abruptamente, sem seguir os fluxos de pensamentos que elas lhes desvendariam,
e a se comportar de tal forma em relação a mais outras que elas nunca chegam a
se tornar conscientes e, por conseguinte, são suprimidas antes de serem
percebidas (FREUD, 2001, p. 117).
A faculdade crítica desvia o
curso de suas representações, bloqueando o acesso à verdade, ou seja, a
faculdade crítica atua como um filtro moral que bloqueia o acesso à verdade
última. Diante de tal empecilho e havendo renunciado à técnica da hipnose,
Freud inventa um procedimento que será típico de toda a sua ação clínica.
Inicia-se o tratamento psicanalítico com um pacto entre psicanalista e
paciente, que consiste em um compromisso do paciente de comunicar “todas as
idéias ou pensamentos que lhes ocorressem em relação a um assunto específico
[...], renunciando a qualquer crítica aos pensamentos que perceber” (FREUD,
2001, p. 116).
A observação dos processos psíquicos, a construção da cadeia mental, que
resultam, em última instância, em uma idéia patológica, constituem, por si só,
um processo de conhecimento de si, que, na psicanálise, vem acompanhado de uma
prática de si. Em outras palavras, para que o sujeito observe o que se passa
em sua mente, é necessário voltar, numa atitude de relaxamento (repousar e
fechar os olhos), sua atenção para si mesmo (FREUD, 2001) Para que a
interpretação dos sonhos constituísse um meio eficaz de acesso do sujeito ao
inconsciente, foi necessário o desenvolvimento de uma técnica, que ficou
conhecida, no meio psicanalítico, como Regra Fundamental.
Regra que
estrutura a situação analítica: o analisando é convidado a dizer o que pensa e
sente sem nada escolher e sem nada omitir do que lhe acode ao espírito, ainda
que lhe pareça desagradável de comunicar, ridículo, desprovida de interesse ou
despropositado. É estabelecida no princípio do tratamento psicanalítico e
utiliza-se do método das associações livres (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p.
565).
No relato de seus sonhos, os
pacientes são convidados a desenvolver em uma cadeia de pensamentos baseados
em conteúdos oníricos, sem nenhum tipo de restrição. A inibição da faculdade
crítica se faz necessária para que o paciente não filtre qualquer pensamento,
mesmo que lhe pareça desprovido de nexo. Dessa forma, o sujeito apenas observa
e relata o seu conteúdo psíquico, sem fazer nenhum tipo de julgamento moral.
À medida que
emergem, as representações involuntárias transformam-se em imagens visuais e
acústicas. [...] No estado utilizado para a análise dos sonhos e das idéias
patológicas, o paciente, deforma intencional e deliberada, abandona essa
atividade e emprega a energia psíquica assim poupada (ou parte dela) para
acompanhar com atenção os pensamentos involuntários que emergem e que [...]
mantém o caráter de representações. Dessa forma, as representações
“involuntárias” são transformadas em “voluntárias” (FREUD, 2001, p. 117).
O método de associações livres se
utiliza de um sistema semelhante ao mecanismo utilizado pelo inconsciente para
fazer emergir os desejos recalcados. Não emitindo valor moral às associações
feitas com base no conteúdo dos sonhos, o superego se enfraquece e o real
significado dos sonhos emerge de forma sutil, podendo ser interpretado no
estudo detalhado da cadeia de pensamentos que se estabelece, chegando-se,
dessa forma, à idéia patológica originária. O sujeito
[...] precisa
dar-se o trabalho de suprimir sua faculdade crítica. Se tiver êxito nisso,
virão à sua consciência inúmeras idéias que, de outro modo, ele jamais
conseguiria captar. O material inédito obtido para sua autopercepção
possibilita interpretar tanto suas idéias patológicas como suas estruturas
oníricas. O que está em questão, evidentemente, é o estabelecimento de um
estado psíquico que, em sua distribuição de energia psíquica [...] tem alguma
analogia com o estado que procede o adormecimento (FREUD, 2001, p. 117)
Ao se colocar sob
a análise psicanalítica, o sujeito, quase sempre, oferece, no início, certa
resistência. “Quando digo ao paciente ainda novato: ‘Que é que lhe ocorre em
relação a esse sonho?’, seu horizonte mental costuma transformar-se num vazio”
(FREUD, 2001, p. 119). Todavia, tal resistência é, normalmente, superada. “No
entanto, se colocar diante dele [o paciente] o sonho fracionado, ele me dará
uma série de associações para cada fração, que poderiam ser descritas como os
‘pensamentos de fundo’ dessa parte específica do sonho” (FREUD, 2001, p. 119).
Em outros, “a adoção da atitude de espírito necessária perante idéias que
parecem surgir ‘por livre e espontânea vontade’, bem como o abandono da função
crítica que normalmente atua contra elas, parecem ser difíceis de conseguir”
(FREUD, 2001, p.117-8). A resistência é maior e perdura por mais tempo, pois
“‘os pensamentos involuntários’ estão aptos a liberar uma resistência muito
violenta, que procura impedir seu surgimento” (FREUD, 2001, p. 118),
justamente porque o método de associações livres revela para o sujeito a
verdade, da qual ele quer se defender ou havia, de forma inconsciente,
esquecido-se, pelo fato de ela lhe proporcionar sofrimento. Contudo, para que
a análise psicanalítica tenha êxito, o sucesso da aplicação da regra
fundamental é indispensável (FREUD, 2001).
Já no início do tratamento psicanalítico, Freud pede ao paciente que repouse,
feche os olhos e observe a si mesmo. Ou seja, o sujeito deve aplicar a si os
preitos básicos do cuidado de si, a saber, a prática de si e o conhecimento de
si.
Devemos tentar efetuar duas mudanças nele: um aumento da atenção que ele
dispensa a suas próprias percepções psíquicas e a eliminação da crítica pela
qual ele filtra os pensamentos que lhe ocorrem. Para que ele possa concentrar
sua atenção na observação de si mesmo, é conveniente que ele se coloque numa
atitude repousante e feche os olhos (FREUD, 2001, p. 116).
Podemos, aqui,
equiparar a superação desse sofrimento na aplicação da regra fundamental, ao
preço que o sujeito paga pelo acesso a verdade, o que Foucault (apud EWALD;
FONTANA; GROS, 2006, p.19-20) chama de espiritualidade:
Postula a necessidade de que o sujeito se modifique, se transforma, se
desloque, torne-se em certa medida e até certo ponto, outro que não ele mesmo,
para ter direito a [o] acesso à verdade. A verdade só é dada ao sujeito a um
preço que põe em jogo o ser mesmo do sujeito. Pois, tal como ele é, não é
capaz de verdade. Acho que esta é a formula mais simples porém mais
fundamental para definir a espiritualidade. Isto acarreta, como conseqüência,
que deste ponto de vista não pode haver verdade sem uma conversão ou sem uma
transformação do sujeito.
Foucault diz que, para o sujeito
ter acesso à verdade, é necessário que se transforme e se modifique. A verdade
exige um preço a ser pago, isto é, exige que o sujeito se transforme. O
transformar-se e deslocar-se na psicanálise significam o esforço do sujeito em
viver a realidade de suas percepções psíquicas e de, ao mesmo tempo,
observá-las. Em outras palavras, o sujeito se transforma e se desloca a ponto
de ter que estar em duas realidades distintas simultaneamente. Algo
demasiadamente pesado, mas indispensável no processo psicanalítico e no
cuidado de si. Superar os obstáculos que não permitem ao sujeito revelar a
verdade última lembra, ainda, o que Foucault (apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006,
p.11) diz sobre a aplicação da filosofia do cuidado de si: “O cuidado de si é
uma espécie de aguilhão que deve ser implantado na carne dos homens, cravado
na sua existência, e constitui um princípio de agitação, um princípio de
movimento, um princípio de permanente inquietude no curso da existência”.
Ter de expressar, verbalmente, aquilo que traz sofrimento constitui, sem
dúvida, um entrave. No entanto, para que o sujeito se descubra, tal atitude é
imprescindível. Esse seria o único modo “a fazer com que o indivíduo possa
querer a si mesmo – e assim atingir finalmente a si próprio, exercer soberania
sobre si e, nesta relação, encontrar a plenitude da sua felicidade” (FOUCAULT
apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006, p. 166).
Conclusão
A motivação de Foucault ao propor o resgate do cuidado si é a de constituir o
sujeito por si mesmo, isto é, fazer com que a sujeição à qual ele está
passível seja, somente, a si.
Procurando destrinchar essa possibilidade, discorremos sobre a importância de
se observar e interpretar os próprios sonhos, na esperança que eles nos
revelem quais são realmente nossos verdadeiros desejos e por qual razão não
podemos admiti-los a nós mesmos. Seria pela psicanálise que teríamos essas
respostas, ou seja, via psicanálise o sujeito tem a possibilidade de cuidar de
si, de descobrir a verdade. Tal descoberta não permite ao sujeito manter a
mesma postura diante do mundo. Por esse motivo, o acesso do sujeito à verdade
exige sua transformação. Esse seria o preço a ser pago pela descoberta de si.
Independente do momento e contexto histórico, o sujeito, ao descobrir-se,
necessariamente, irá se deparar com realidades internas conflitantes que o
farão sofrer. Contudo, esse é um sofrimento que, além de inevitável, é
necessário. Entendemos que o indivíduo que tem acesso à sua verdade enxerga e
encara o mundo a partir de si, não somente pela razão ou emoção, mas por toda
a complexidade do seu ser.
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1 Paul-Michel Foucault nasceu em Poitiers, França, em 15 de outubro
de 1926. Em 1946 ingressa na Ecole Normale Superiéure. Em 1949, conclui
Licenciatura em Psicologia e recebe seu diploma em Estudos Superiores de
Filosofia, com uma tese sobre Hegel, sob a orientação de Jean Hyppolite.
Morreu em 25 de junho de 1984.
2 O ensino no Collège de France obedece a regras particulares. Os
professores têm a obrigação de cumprir vinte e seis horas de ensino por ano
(podendo a metade, no máximo, ser oferecida na forma de seminários). O acesso
às aulas é livre; não requer inscrição nem diploma. As aulas de Foucault
ocorriam às quartas-feiras, do início de janeiro ao fim de março.
3 François Ewald, Alessandro Fontana e Frédéric Gros.
4 Na cultura antiga a relação entre sujeito e verdade gira em torno
das ‘práticas de si’. O próprio Foucault (apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006, p.
13) afirma que “a noção de cuidado de si [...] percorreu, seguiu, o decurso de
toda a filosofia antiga até o limiar do cristianismo, também reencontraremos a
noção de epiméleia (de cuidado) no cristianismo...”
5 “[...] o desprendimento não se fez bruscamente com o aparecimento
da ciência moderna. O desprendimento, a separação, foi um processo lento,
processo cuja origem e desenvolvimento devem antes ser vistos do lado da
teologia” (FOUCAULT, 2006, p. 37).
6 “A teologia (esta teologia [...] que, com Santo Tomás de Aquino,
a escolástica, etc., ocupará, na reflexão ocidental, o lugar que conhecemos),
ao adotar [...] a correspondência entre um Deus que tudo conhece e sujeitos
capazes de conhecer, sob o amparo da fé, é claro, constitui sem dúvida um dos
principais elementos que fazem [fizeram] com que o pensamento [...] ocidental
e, em particular, o pensamento filosófico se tenham desprendido, liberado,
separado das condições de espiritualidade que os haviam acompanhado até então,
e cuja formulação mais geral era o princípio de epiméleia heautoû”
(FOUCAULT, 2006, p. 36).
7 “Existe, bem entendido, exceção. A exceção maior e fundamental é
a daquele que, precisamente, chamamos “o” filósofo [...]; aquele em quem
reconhecemos o próprio fundador da filosofia no sentido moderno do termo, que
é Aristóteles. Contudo, como sabemos todos, Aristóteles não é o ápice da
Antiguidade, mas sua exceção” (FOUCAULT, apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006,
p.22).
8 “Creio ser preciso compreender bem o grande conflito que
atravessou o cristianismo desde o fim do século V (incluindo Santo Agostinho,
sem dúvida) até o século XVII. Durante estes doze séculos, o conflito não
ocorria entre a espiritualidade e a ciência, mas entre a espiritualidade e a
teologia. E a melhor prova de que não era entre a espiritualidade e a ciência
está no florescimento de todas aquelas práticas de conhecimento espiritual,
todo aquele desenvolvimento de saberes esotéricos [...] segundo os quais não
pode existir saber sem uma modificação profunda no ser do sujeito” (FOUCAULT,
apud EWALD; FONTANA; GROS, 2006, p. 36-7).
9 Artigo publicado em 11 de setembro de 1981, por ocasião da morte
do psicanalista Lacan, no jornal Corriere della Sera, com o título: Jacques
Lacan.
10 O filósofo francês admite que Freud trata da relação entre
sujeito e verdade: “Creio que Lacan foi o único depois de Freud a querer
recentralizar a questão da psicanálise precisamente nesta questão das relações
entre sujeito e verdade” (FOUCAULT, 2006, p. 40).
11 Tal informação pode ser encontrada no site da Associação
Campinense de Psicanálise, no seguinte endereço:
http://www.acpsicanalise.org.br.
12 Tal definição pode ser encontrada em: Dicionário enciclopédico
de psicanálise: o legado de Freud e Lacan (KAUFMANN, 1996) e Vocabulário da
psicanálise (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001).
Referências
ABBGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução de
Alfredo Bosi e Ivone Castilho Beneditti. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
2. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
DESCARTES. Discurso do método. Tradução de Enrico Corvisieri. São
Paulo: Nova cultural, 1999. (Os Pensadores).
ERIBON, Didier. Michel Foucault e seus contemporâneos. Tradução de Lucy
Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
EWALD, François; FONTANA, Alessandro; GROS, Frédéric. A hermenêutica do
sujeito/Michel Foucault. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma
Tannus Muchail. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Col. Tópicos.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo
Ismael de Oliveira. Ed. Comemorativa. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de
Freud e Lacan. Tradução de Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges;
consultoria de Marco Antonio Coutinho Jorge. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1996.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo:
Martins Fontes, 2001.
PLATÃO. Diálogos Timeu, Crítias, O 2º Alcebíades, Hípias Menor.
Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Gráfica ed. da UFPA. Col. Amazônica.
Série Farias Brito. vol. 11. 1975.
Atílio Lucio Malta, Graduando em Filosofia pela Universidade Católica
de Goiás.
Artigo publicado na Revista Urutágua, Brasil, set. 2009