27/02/2010
Ano 13 - Número 673

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

Leitura na contemporaneidade:
linearidades e hipertextualidades na relação
dos sujeitos com o texto

 

Adriana Hoffmann Fernandes
 


A reflexão sobre a leitura na contemporaneidade torna-se necessária e desafiante. Para empreender essa reflexão dialogo, em especial, com Pierre Lévy1 – conhecido filósofo da cultura virtual contemporânea – trazendo também outros autores para esse debate. Escolho dialogar em especial com o livro O que é o virtual do citado autor. Segundo Levy (1996) desde suas origens o texto é um objeto virtual, abstrato, independente de um suporte específico (livro, jornal, revista, internet). É virtual porque tem a capacidade de ser atualizado de múltiplas formas em diferentes versões, traduções, edições, etc. O virtual é um contexto problemático, um conjunto de forças e tendências que acompanham uma determinada situação, objeto e que possibilitam escolhas de caminhos a tomar. O caminho escolhido é a atualização. Posso escolher diferentes caminhos e ter diferentes atualizações e, sendo assim, interpretar um texto é levar adiante essa “cascata” de atualizações. Cada leitura é a atualização de um texto. Uma atualização pode ser individual ou pública, partilhada. Se atualizo minha leitura escrevendo um artigo para o jornal, criando uma página na internet ou fazendo um vídeo estou tornando pública a minha atualização.

A atualização é sempre provisória e sempre renovada a cada nova leitura trazendo novos sentidos. Em nossa sociedade multimídia qualquer produção ou criação pode ser atualizada de diferentes formas. Uma experiência torna-se um filme, transforma-se em livro, vira um jogo que depois dá origem a uma história em quadrinhos e a outros textos e filmes “adaptados”, “inspirados” uns nos outros. Nem sempre se percebe onde essa cadeia de atualizações começou. As criações podem ser simultâneas e uma alimenta a outra. Nem sempre há um único autor, dono da idéia original, mas, há sim, vários criadores que são também autores.

Procurando definir como aconteceria esse processo de atualização, Levy nos diz que quando lemos um texto ele é esburacado, riscado, cheio de brancos. O que ele quer dizer com isso? Os buracos, riscos e brancos de que ele fala são feitos por nós e são as palavras, as frases que não compreendemos, não consideramos e deixamos de lado em nossa leitura. Para ele, ler é começar a negligenciar, ou seja, a desler o texto. O “desler” é a seleção que fazemos de acordo com o nosso repertório. Desler pode ser lido por nós de acordo com a nossa bagagem. É tirar do texto só o que faz sentido para nós e desligar todo o resto.

O que negligenciamos, afinal, faz ou não parte de nossa leitura? Levy mostra que faz parte porque a sua falta cria novos sentidos e, assim, o que não foi selecionado por nós interfere na forma de interpretar o que selecionamos. A nossa “desleitura” contém o que selecionamos e o que negligenciamos. Cada nova leitura pode, porém, contemplar diferentes seleções e fazer diferentes atualizações. E como ocorre essa “desleitura”? O autor diz que ao lermos um texto relacionamos as passagens que para nós se correspondem. Assim, ler é costurar o texto, ou melhor, ler é descosturar, descobrir as relações que lhe deram essa aparência de unidade, desfazer a trama do tecido que o compõe. Quando lemos, atualizamos o texto de algum modo, seguindo ou não o caminho traçado pelo autor. O espaço do sentido não existe antes que a leitura se realize, ele é fabricado por nós, leitores, que o atualizamos constantemente relacionando-o a outros textos, outros discursos, imagens e afetos que nos constituem.

Tal forma de pensar pode ser relacionada com alguns aspectos da Teoria da Recepção quando aborda as discussões que falam da influência da mídia sobre o comportamento dos jovens. Fiske (1987) já assinalava que textos da mídia são um produto de seus leitores. Assim, um texto não existe em si mesmo como acreditavam os estruturalistas. Ser texto pressupõe a interação com o leitor. Stuart Hall (1980) ao falar da relação do sujeito com a TV ressalta que os receptores não são obrigados a aceitar a mensagem tal como foi enviada. Eles podem resistir e é a sua estrutura de significados, ou seja, o repertório de cada um que fará parte da construção desses sentidos. No pensamento de tais autores, assim como no de Levy, o que está em jogo na leitura não é a unidade do texto mas a construção em si, sempre refeita, sempre inacabada, sempre reelaborada pelo leitor. Os autores nos mostram que toda leitura é uma construção. Ou, como diria Umberto Eco, sempre uma obra aberta.

Ao falar de texto e de leitura Levy mostra que a atividade do leitor independe do suporte. Ele constrói interpretações em diferentes textos impressos, em textos fílmicos, em textos da rede, em textos da TV, em textos das obras de arte. A leitura é algo que é sempre recortado pela subjetividade do leitor. Talvez o texto dê um retoque nos nossos modelos de mundo ou tenha nos feito perceber melhor imagens, palavras que já possuíamos, mas o fundamental é que o texto é sempre suporte para a atualização da nossa mente. Dessa forma, podem ser entendidos como “textos”quaisquer suportes que atualizem a nossa visão do mundo: filmes, livros, jornais, revistas, lugares, experiências. O conceito de texto de Levy se refere a texto no sentido geral de um discurso elaborado aplicável a qualquer tipo de mensagens (que não as necessariamente alfabéticas) como os ideogramas, mapas, esquemas, mensagens fílmicas. Todos estes são textos nesse sentido.


A leitura é um hipertexto – costurando os primórdios dessa relação

Ao falar sobre a atualização Levy mostra que a sua concepção de leitura e de texto relaciona-se à idéia de hipertexto. A noção de hipertexto seria a exteriorização da atividade mental que nós fazemos ao ler. A internet é, então, uma tecnologia intelectual que virtualiza a função cognitiva da leitura. Para mostrar que essa virtualização de uma função cognitiva não é algo tão novo e, relativo apenas à internet, o autor nos mostra como a escrita foi uma tecnologia que exteriorizou, virtualizou a função cognitiva da memória. No entanto, ao exteriorizar uma atividade intelectual tal “tecnologia” transformou a própria função cognitiva da memória.

A escrita foi uma virtualização porque com ela houve a separação parcialde um corpo vivo gerando um distanciamento entre o saber e seu sujeito. Voltar ao escrito era diferente de apenas lembrar dele de memória. Depois da escrita a memória sofreu modificações. A nossa memória é seletiva e ao voltar ao escrito, após um período de distanciamento, passa-se a poder perceber novos aspectos. A escrita, ao virtualizar a memória, permitiu o desenvolvimento de uma tradição crítica, refinou as práticas de interpretação. Ao mesmo tempo, a possibilidade de ler um texto num contexto diferente do que foi produzido fez com que aqueles que escreviam precisassem imaginar enunciados e formas de escrever que pudessem ser entendidas independentemente do contexto de produção e que tivessem, portanto, alguns critérios de universalidade. A escrita dessincronizava, deslocalizava porque separava as mensagens no tempo e no espaço. Com a maior presença da escrita na sociedade tais critérios passaram a prevalecer sobre os saberes narrativos e rituais das sociedades orais que se fundavam mais estreitamente no contexto de produção e onde não havia a separação entre emissão e recepção quando as duas aconteciam ao mesmo tempo e no mesmo espaço.

Se a introdução da escrita modificou a forma de pensamento e a comunicação entre os homens, porque a internet não provocaria mudanças também em nosso modo de pensar e entender o mundo? Com o advento da internet a comunicação tornou-se cada vez mais rápida e, junto com ela, as informações mudam constantemente, o trabalho passa a ter que ser feito mais rápido. Confundem-se as noções de espaço do lar e do trabalho. O nosso sensorium (Benjamin, 1995; Martin-Barbero, 2001) está marcado pelas experiências de simultaneidade, instantaneidade e pelo fluxo incessante de imagens e informações. Essa é a imagem da nossa contemporaneidade produzida pelas diferentes mídias. Martin-Barbero (2001) nos diz que hoje é impossível não falar dos meios de comunicação porque estão em jogo profundas transformações na cultura cotidiana das maiorias e, especialmente, das novas gerações que sabem ler e cujas leituras estão profundamente atravessadas por essa pluralidade de textos e escrituras que hoje circulam em nosso cotidiano.

O hipertexto, segundo Levy, é o texto virtualizado, transformado em problemática textual pelo ser humano. Um ato de leitura é sempre um ato de criação. De acordo com o autor, a hipertextualização multiplica as ocasiões de produção do sentido e enriquece a leitura. No entanto, é preciso lembrar que tal hipertextualização poderá, por vezes, fazer com que o leitor perca o “fio da meada” e não construa um discurso articulado de possibilidades. Parece, portanto, que a riqueza a que Levy se refere é a possibilidade que o suporte digital traz por permitir novos tipos de leitura e de escrita coletivas. Tal suporte comporta um continuum variado que se estende entre a leitura individual de um texto preciso e a navegação em vastas redes digitais nas quais um grande número de pessoas anota, aumenta, conecta os textos uns aos outros através da hipertextualização. É dessa forma que um pensamento se atualiza num texto e um texto numa interpretação. A leitura hipertextual, portanto, multiplica as ocasiões de produção de sentido e permite enriquecer consideravelmente a leitura. Fazemos leituras hipertextuais não apenas na internet. A pesquisa na biblioteca na qual através de uma referência se chega a outras variadas também é uma leitura hipertextual.

O autor nos mostra que desde que a leitura foi “inventada” organizou-se cada vez mais com recursos para facilitar a sua realização. Inicialmente não havia a separação entre as palavras, a pontuação, a organização em parágrafos, capítulos, índices, páginas. Esse foi, segundo ele, um processo de facilitação da leitura ou de articialização da mesma. A leitura é um objeto cultural, portanto, criado pelo homem e, deste modo, nenhum objeto cultural permanece estático desde a sua criação. Justamente por estar vinculado e ser usado pelo ser humano ele é continuamente recriado buscando formas de utilização mais adequadas, mais práticas, mais significativas.

Relações entre suporte e texto na leitura

Percebendo que novos suportes criam novos tempos e novos espaços, Levy nos mostra as diferenças de cada suporte: texto impresso e texto eletrônico. No papel o leitor pode anotar nas margens, fotocopiar, recortar, colar, mas o texto inicial continua lá, já realizado integralmente. A leitura na tela não acontece da mesma forma, pois essa presença preliminar à leitura desaparece; o suporte digital contém uma pequena janela a partir da qual o leitor explora uma reserva potencial de relações. O hipertexto nada mais é do que esse conjunto de possibilidades que é maior, mas que continua sendo finito. Ele é uma matriz para textos potenciais, mas tais textos não existem antes que tenhamos a ação de um usuário/leitor. A tela, por sua vez, é uma nova máquina de ler e toda leitura num computador é uma edição, uma montagem singular.

A atividade da leitura da qual falamos é muito mais uma atividade mental do que algo físico, observável. Portanto, fica difícil dizer que um leitor é mais ativo num suporte que no outro. Pensando no que consistiria essa atividade do leitor de que Levy nos fala, recorremos a Chartier (1999). Ele nos diz que o novo suporte do texto permite usos, manuseios e intervenções do leitor infinitamente mais numerosos e mais livres do que qualquer uma das formas antigas do livro. Nos vários tipos de livros produzidos o leitor pode intervir nas margens, nos espaços deixados em branco mas permanece uma clara divisão entre a autoridade do texto e as intervenções do leitor, que ocupam sempre um lugar periférico com relação à autoridade do autor. No texto eletrônico isto não mais acontece. O leitor não é mais constrangido a intervir na margem, ele pode intervir no coração, no centro. Entendemos que de acordo com o que Chartier (op. cit.) coloca, a ação do leitor na internet é maior porque no texto virtual desaparece a hierarquia autor/leitor. Nele os dois são construtores do texto.

Mas em que sentido Chartier (id. ibid.) está se referindo à autoridade do autor? Entendemos que a autoridade não é algo que se constrói por imposição, mas algo que é dado pelo outro, o leitor. A autoridade aqui é igual à autoria ou à responsabilidade autoral, ou seja, é o “assinar embaixo” do leitor. Qualquer saber tem uma “aura” no sentido benjaminiano, mas nenhum saber existe sozinho. É o leitor que dará ou não autoridade ao texto lido, concordando ou discordando do mesmo. Ao falar da autoridade do texto impresso, Chartier (1999) não parece estar se referindo a essa questão por nós colocada. Para ele, a autoridade do autor é maior no texto impresso pelo espaço/campo que ele ocupa: campo central da página. O leitor pode ou não atribuir autoridade ao que é dito pelo autor mas, mesmo assim, no texto impresso o autor terá sempre um espaço físico de expressão maior do que o do leitor e, consequentemente, o tamanho do espaço destinado a um e a outro denotam, segundo ele, a autoridade ou a hierarquia que é estabelecida entre os dois. No texto eletrônico essa hierarquia não está tão visível espacialmente. Mesmo com tais considerações, enfatizamos que nos dois suportes de texto, eletrônico ou impresso, o leitor é ativo e talvez a única diferença entre a leitura em cada um deles seja justamente o tempo despendido na sua realização. A leitura hipertextual é, aparentemente, mais rápida do que a outra. O suporte, então, muda essencialmente a forma como a leitura é realizada: linear ou hipertextual transformando nosso relacionamento com o texto.


O texto virtual e o texto impresso – refletindo sobre suas relações

Levy aponta que a leitura hipertextual é completamente diferente da que é feita de um texto impresso. O texto impresso tem uma estrutura linear, permite que se volte a ele, que se faça uma releitura. O mesmo não acontece com o hipertexto. A edição feita é única, sendo quase impossível retomar os caminhos e conexões feitas para se voltar ao hipertexto construído. Pela sua própria forma de construção ele é fragmentado, recortado e nem sempre as suas diferentes partes estão articuladas. Em nosso entendimento, nem sempre um hipertexto constitui um texto como o próprio Levy o define: um discurso elaborado onde os sentidos se articulam. Talvez seja necessário entender que ele fala de uma outra noção de texto em que essa articulação de sentidos não ocorre de forma organizada, mas de uma maneira múltipla e desordenada. Para ele, a leitura na web é, pela própria estrutura de seu suporte, fragmentada. O texto é o caminho, mas a rede que o leitor estabelece ao ler pode ser mais ou menos fragmentada, mais ou menos articulada. A questão da fragmentação não é algo que foi levantado por Levy, e considerado por ele como indicativo da noção de texto e de leitura. Na verdade, a leitura na internet configura um modo de ler totalmente diferente tendo uma estrutura que dificilmente pode ser comparada à do texto impresso. Os dois suportes mostram dois diferentes modos de ler.

Levy ressalta que “diferença” há entre a organização do texto nos dois suportes: impresso e eletrônico apontando duas abordagens para entender essa diferença. Uma entende o hipertexto como oposto a um texto linear porque é estruturado em rede. A outra entende o hipertexto como uma indistinção entre as funções de autor e leitor, misturando as funções de leitura e escrita. Nele a leitura e a escrita são apenas dois aspectos de uma mesma atividade e essa passagem contínua do autor para o leitor e do leitor para o autor configura o que Levy chama de anel de moebius. O anel de moebius pode ser ilustrado na forma do símbolo do infinito. Nele se percebe a indistinção e a mistura entre os diferentes papéis de autor e leitor.

Para Levy é no hipertexto que o leitor/usuário pode realmente se fazer autor porque ele não percorre uma rede pré-estabelecida, mas cria sempre novas ligações criando a sua própria rede. Assim, a leitura e a escrita trocam seus papéis. No hipertexto toda leitura torna-se também um ato de escrita. O usuário/leitor na internet muitas vezes age como o zappeador com a TV, ele conecta e lê várias referências ao mesmo tempo, construindo uma leitura que pode estar articulada ou não. Por vezes a fragmentação é tanta que não é possível estabelecer as relações e escrever um texto próprio. Há momentos em que as partes não se relacionam entre si, mas atuam de forma paralela. Ainda dentro dessa nossa contra-argumentação resta-nos pensar: por que a estruturação de um hipertexto seria um ato de escrita e a leitura de um texto no papel não? Nos dois ao realizar a leitura se estabelecem relações e se constrói uma linha de entendimento. São atos de escrita diferentes. A escrita/leitura hipertextual torna mais visível as relações feitas e por isso então ela é mais ativa? E por isso então ela é mais “escrita” do que a outra?

Essa contínua passagem autor/leitor, interior/exterior e vice-versa opera uma certa desterritorialização da autoria na leitura hipertextual. A escrita e a leitura trocam seus papéis constantemente. A desterritorialização, segundo Levy, é uma marca do texto digital. O ciberespaço está misturando noções antes entendidas separadamente. Mistura as noções de unidade, de identidade e de localização. As redes digitais desterritorializaram o texto, fizeram emergir um texto que não tem fronteiras rígidas e não há mais um texto, mas texto em movimento, sempre em mudança. A interpretação no ciberespaço se refere à apropriação sempre singular de um leitor. A leitura em hipertexto jamais é duas vezes a mesma.

A leitura na tela não é uma leitura coletiva, mas os significados que advêm dela o são porque são compartilhados socialmente. Podemos aqui comparar essa questão da leitura individual/social com a apropriação que as pessoas fazem da TV. A TV já surgiu tendo uma característica coletiva: era assistida em grupo, especialmente no grupo familiar. Mesmo assim, era entendida como sendo apropriada pelos sujeitos individualmente como se o fato das pessoas estarem juntas assistindo-a não repercutisse em sua leitura. Isso porque entendia-se que ela provocava o mesmo “efeito” em qualquer receptor, estando ele sozinho ou em grupo. A imagem/mensagem da TV também passa hoje por essa desterritorialização. Ela não tem mais fronteiras rígidas e circula por vários lugares, é modificada pelos diferentes canais/fontes de emissão, tem diferentes apropriações de acordo com o contexto e o local de sua veiculação. A imagem da TV é também texto em movimento.

O que fica dessa discussão é a certeza de que a noção de texto está mudando, ou melhor, de que está surgindo uma outra idéia de texto e de escrita. E toda mudança causa um misto de conforto e temor. Regina Zilberman (2001) nos mostra parte deste temor nos remetendo aos diagnósticos pessimistas da atualidade que acompanham a valorização do livro e, ao mesmo tempo, proclamam o fim da era do livro e sua substituição por equipamentos mais desenvolvidos de comunicação eletrônica junto ao fascínio exercido pela internet. Segundo ela, a leitura nunca foi tão prestigiada. Isso pelo medo que se tem de perdê-la.

Zilberman (op. cit.) lembra que nem sempre foi assim. Quando a prática da leitura começou a expandir-se no começo da era moderna, e a ocupar maiores grupos sociais, foi considerada como corporificação do mal. Nos primeiros anos do século XVII houve novelistas que criaram personagens fictícios viciados em leitura, capazes de abrir mão de qualquer outra atividade para ler. Tal leitor entregue à fantasia contida nos livros lidos poderia abrir mão de sua identidade e perder-se na leitura, confundindo a realidade com a ficção da obra literária. Segundo a autora, dizia-se que a leitura intensiva, ou seja, leitura repetida, lida e relida, transtornava e transformava seu leitor negativamente. Cervantes, autor de Dom Quixote, reproduziu em seu livro em forma de paródia esse temor que já existia na sociedade da época.

Qualquer semelhança deste temor relacionado à leitura, ao temor que hoje atribui-se à internet e que já atribuiu-se mais fortemente à televisão não deve ser mera coincidência. A relação com a leitura, a televisão, a internet são sempre carregadas de receios a respeito dos “efeitos” que estas podem produzir em seus leitores, telespectadores, usuários. E porque esses “efeitos” parecem ser vistos sempre como algo ruim? A idéia de “efeito” já nos dá a impressão de que apenas os suportes agem sobre nós e que nós não agimos sobre eles. Se pensarmos em “efeitos” relacionando-os ao anel de moebius de que nos fala Levy podemos nos perguntar: efeito de que/ quem sobre o que/quem? Quem influencia primeiro?

No entanto, o que podemos perceber em todas essas situações de temor e desconfiança em relação ao novo é a idéia de que tais suportes falsificariam a realidade e assim produziriam impactos profundos (e perigosos) no ser humano. Tais modificações estariam relacionadas principalmente à passividade, entendida como uma absorção completa das mensagens nos diferentes meios; uma falta de proteção para lidar com elas de uma forma ativa; a idéia de que elas são mais fortes que o ser humano e se impõem a ele. A autora nos traz Fedro nos Diálogos de Platão com o filósofo ateniense quando adverte que o domínio da escrita impede a atividade reflexiva de que depende o filosofar. Ler já foi visto ou entendido, como uma pausa no pensamento. Alguma similaridade de tal idéia com os temores da atualidade?

Ainda de acordo com Zilberman (id. ibid.), nem mesmo a popularização do livro, depois do século XVII, ajudou a mudar a imagem da leitura, considerada perigosa quando usada em doses exageradas. O livro, hoje, já não é mais visto dessa forma, mas ainda tem-se da TV, hoje tão popular, essa mesma imagem que se tinha do livro, mesmo depois de popularizado. E também cria-se a mesma imagem da internet.

As situações se repetem. Diante do novo, instala-se o temor de que esse novo seja tão novo que possa tornar-se incontrolável. E o novo, claro, traz mudanças. Essas mudanças são necessariamente ruins? São necessariamente boas? O perigo está em sermos maniqueístas e ficarmos de um lado ou do outro. Um livro, um programa de TV, um jogo, um site podem ser vistos e usados de diferentes formas. Usar implica também selecionar, ou como nos aponta Levy, atualizar a nosso modo. Qualquer nova virtualização implica um aprendizado e uma seleção. Numa leitura não se atualiza tudo, mas aspectos, fragmentos do todo. Aprender a selecionar é aprender a lidar com o que nos parece tão novo que nos soa inalcançável, maior do que nós. A ampliação dos suportes cria uma maior amplitude de veiculação do conhecimento e amplia o acesso.

O ser humano não está tão a mercê de tais suportes como o senso comum nos faz crer. Ele é ativo, constrói e produz significados nos usos que faz destes. Novas virtualizações em diferentes suportes estarão sempre surgindo. Não são elas, nem os suportes que são melhores ou piores, mas o que fazemos com elas que pode ser melhor ou pior. A responsabilidade pelo seu uso é nossa.

Morte do texto impresso? – uma breve conclusão

Em meio a essa discussão, Levy traz à tona uma questão generalizada e que demonstra o temor de que Zilberman nos fala: o texto virtual acabará com o texto escrito? O debate sempre presente ao advento de qualquer novo meio de comunicação supõe que o novo substitui o velho. Nossa argumentação é a de que um novo meio somente substitui o anterior quando é capaz de superá-lo, ou seja, quando é capaz de executar todas as funções do anterior ainda com alguma vantagem/praticidade, mas não quando o faz de forma totalmente diferente daquele. Assim, temos o caso da máquina de escrever e do computador, do toca-discos e do CD. Os meios posteriores passaram a executar o que os anteriores faziam acrescentando a esses algumas vantagens. Mas como vimos aqui nesse diálogo com Levy, o texto virtual não substitui o texto escrito, mas é sim um novo conceito de texto. Cada um deles tem as suas especificidades.

Graças à digitalização, o texto e a leitura recebem hoje um novo impulso. Chartier (1999) também concorda com Levy nessa perspectiva de que o advento da internet e dos demais meios ampliou a própria cultura escrita. Nunca se publicou tanto quanto hoje. Na verdade, percebe-se que é o texto impresso que possibilita esse processo de leitura crítica do que é veiculado na internet, na televisão e na mídia de uma forma geral. Assim, longe de aniquilar o texto impresso, Levy mostra que a virtualização amplia e aumenta as suas possibilidades. Tal autor amplia bastante a noção de leitura e de escrita tradicionais destacando que com o novo suporte estamos descobrindo a leitura e a escrita, percebendo e experimentando mais de perto diferentes modos de construí-la.

Infelizmente sabemos que poucos são, hoje, os que têm acesso ao livro e menos ainda os que têm acesso à internet. A leitura na internet e no livro bem como a leitura nos demais meios (TV, vídeo, cinema, etc.) são todas complementares entre si e fonte de enriquecimento para os que a elas podem ter acesso. O empobrecimento está na falta de acesso, no uso de somente uma delas sem as demais. Todas possibilitam leituras complementares, divergentes, pontos de vista que nos farão ver/ler o mundo de variadas maneiras. Torcemos para que num futuro próximo a diversidade e a pluralidade de fontes de leitura possa ser acessível e servir ao enriquecimento de uma maioria, e não algo somente disponível a uma pequena parcela de leitores privilegiados.


Nota
1. Levy é professor da Universidade de Ottawa, Canadá e pensador dos complexos movimentos da tecnociência na atualidade. Seus livros foram traduzidos em mais de 20 países. Um dos livros lançados, Cybercultura, 1997, é o resultado de um relatório apresentado ao Conselho Europeu dentro do projeto “Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação” lançado no Brasil pela editora 34.


Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade. In: Magia e técnica, arte e política - ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume I, 2ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora UNESP, Imprensa Oficial do Estado, 1999.
FISKE, J. Television Culture. London: Routtedge, 1987.
HALL, Stuart. Encoding, decoding in the television discourse. In: HALL, S.; HOBSON, D. e LOWE, P. (eds.) Culture, Media, Language. London: Hutchinson, 1980.
LEVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
MARTIN-BARBERO, Jesus e REY, German. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. São Paulo: Editora SENAC, 2001.
ZILBERMAN, Regina. Fim do livro, fim dos leitores? São Paulo: Editora SENAC, 2001.


Resumo

Esse artigo busca refletir sobre as questões que cercam a leitura na contemporaneidade. Trago para essa reflexão o debate, em especial, com o pensamento de Pierre Levy, dialogando com outros autores que nos auxiliam a refletir sobre as dimensões da leitura na contemporaneidade nas suas relações entre impresso e virtual, linearidade e hipertextualidade, autor e leitor dentre os muitos desafios que a leitura na internet trouxe para o ser leitor nos dias de hoje.


Adriana Hoffmann Fernandes é Professora da Universidade Católica de Petrópolis - UCP
Texto publicado na Revista Acadêmica Alceu.