20/03/2010
Ano 13 - Número 676

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

Estar em análise é empenhar-se numa relação com a castração...

Carla Woyciekoski


Antes de mais nada, é necessário fazer algumas considerações acerca de um termo tão caro à psicanálise, e ao  mesmo tempo, tão fundamental. Ao contrário do pensamento leigo, o conceito de castração nada tem a ver com ser tolhido, sofrer repressão ou ser intimidado por outra pessoa. É, sobretudo, um momento crucial na constituição do sujeito, pois somente há sujeito desejante constituído na falta significante, instaurada pela castração. Seus momentos são a 1ª e 2ª identificação, onde se lê, estruturalmente, Narcisismo e Édipo. Já o desmame e o estádio do espelho são elementos que articulam o Complexo de Castração à constituição do Ego. A Castração pode ser inscrita na infância, mas certamente é reeditada na adolescência.  O infans (denominação para o bebê desprovido da fala) há que ser separado da mãe, para se constituir como um sujeito barrado, independente, fal(t)ante. A fala e o desejo advirão desse corte, constituinte e amoroso.

Contudo, apesar de sua função fundante, muitas vezes, nos é penoso suportá-la e à angústia, que se evidencia como a sua mola mestra. Freud já nos advertira sobre isso em seu célebre texto “O mal-estar na civilização”, onde retomara, brilhantemente, a não existência de um objeto que satisfizesse o desejo humano. É (a ausência desse objeto) a responsável por mover a humanidade em busca de satisfação, conquistas e de seus sonhos mais altos. É na presença de uma ausência (a falta) que o desejo se institui. Mas, vale lembrar, que a satisfação possivelmente encontrada não passa de um bálsamo efêmero na alma, deixando logo, em seguida, a criatura humana desamparada, insatisfeita, em falta. Logo, a frustração é algo com que se precisa aprender a lidar cedo. E é uma lástima, que vários pais, diante da angústia de seus filhos, com o álibi de protegê-los (na verdade os “desprotegem”) das frustrações, as negam ou os impedem de elaborar suas angústias, que são inevitáveis e parte de suas vidas. É necessário dar à criança a oportunidade de conectar-se com seus sentimentos e a possibilidade de falar de seus medos e angústias, para que possam elaborá-los. Aliás, o avesso da castração é a fobia, por ser, em face disso, a sentinela avançada contra a angústia, aquele estado em que se tem aversão a não satisfação do desejo, ao buraco, à falta. Ali, nessa estrutura perversa, tudo é possível em nome do gozo; porque há obrigação de gozar. E aquele está acima da amorosa Lei do Pai, que nada mais se presta do que para servir à escravidão (obrigação) do perverso.

Quando esse corte significante, fundante e amoroso não for transmitido pela fantasia parental ali, no lugar do inconsciente, que é um dos efeitos do recalque e por isto da castração, instalar-se-á o fetiche como desejo anônimo; o que, do ponto de vista da teoria lacaniana corresponde à estrutura psíquica da perversão. Ou, ainda, ter-se-á constituído ali, o delírio, consagrando a psicose, estrutura na qual no lugar do desejo há demanda, uma demanda desesperada de amor.

Logo, o percurso de uma análise implica, necessariamente, em uma relação do sujeito com a castração, que é um processo a partir do qual ele buscará decifrar o seu enigma desejante constituinte, desfazendo-se o equívoco neurótico de que a castração é sua, quando ela é do Pai. À fantasia parental, devolver-lhes-á a castração, para poder ir em busca de seu próprio desejo. Afinal, o que você deseja?

 


Carla Woyciekoski é Psicanalista em formação no Centro de Estudos Lacaneanos, Instituição Psicanalítica (CEL/RS), Mestre e Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).