29/05/2010
Ano 13 - Número 686

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

BULLYING: de que infração se trata?

Sandra Beck da Silva Etges


Que o bullying provoca exclusão social e constitui-se, portanto, em ato antiético, desumano e violento, que pode causar danos traumáticos em sujeitos jovens, todos sabemos. Mas, onde poderíamos localizar a origem psíquica destes atos do ponto de vista do agressor? A que lei ele transgride?

Jacques Lacan, em seu texto Os Complexos Familiares, escrito nos anos 30, nos aponta para o fato de que um dos problemas cruciais da, então, modernidade seria a decadência da imago (imagem) paterna. Esse fato acabaria por enfraquecer a transmissão da função paterna no contexto familiar e, consequentemente, sua função ética de lei. Tal evento ocorreria em função da diminuição da importância dada ao papel do pai nas famílias, ou por ele não ser mais, em geral, o único provedor, ou porque o vínculo mãe-filho costuma ser priorizado pela cultura em geral.

Convém salientar que quando se fala em função paterna não nos referimos apenas ao pai “de carne e osso”, e sim à simbologia que é transmitida pelo desejo materno, em nome do pai, para uma criança. De forma alguma seria a satisfação das necessidades materiais, mas uma constituição subjetiva, uma herança simbólica, portanto, que só será, efetivamente, transmitida, pela maneira como o pai e a mãe valorizarem o seu legado familiar:  seus valores éticos e , morais. Se eles o acatarem e o fizerem valer, o filho será incluído no triângulo edípico, onde a questão erótica do desejo entre o casal, como um homem e como uma mulher, trará à cena familiar o registro de uma lei que privará o filho da exclusividade materna. Porém, se não houver fantasia (desejo) entre o casal, não poderá haver lugar transmissivo de amor e respeito, e a provável aliança mãe-filho que poderá aí se instalar, no mínimo, irá perversificar essa relação familiar trazendo conseqüências devastadoras. O sentimento de proteção que poderá daí advir pode gerar, no filho, intolerância às frustrações e tenderá a fazer com que ele reaja agressivamente a qualquer limite à sua incessante busca de prazer imediato. Logo, ele não aprenderá a conviver com as faltas necessárias para a constituição ética de seu desejo.

Queremos dizer que é justamente a falta, que também é relativa ao desejo que esta mãe teve por este pai como homem e/ou por algo para além do filho, que irá humanizar (diferenciando direitos e deveres), e possibilitará ao filho também constituir a sua própria fantasia, o que de singular lhe falte na vida. Neste sentido, desejar se opõe a um mero prazer e prepara o sujeito para conviver com adversidades. Nas famílias onde “tudo pode” e “tudo vale” não há lugar de falta e, portanto, não haverá desejo singularizado. Isso poderá abrir vias para identificações imaginárias com grupos, “tribos” e/ou “gangues”, fora do contexto familiar ou escolar. O sujeito tende a procurar no coletivo o que não constituiu singularmente.

A agressividade costuma ser também estimulada pelo senso comum na sociedade em geral: tem-se que ser “o cara”, “o melhor”, “o vencedor”, “o mais belo (a)”, ou seja, ser qualquer coisa que gere rivalização egóica.Justamente, quem precisa incessantemente pôr-se à prova como “o poderoso”, mostra que não constituiu, no tempo do Édipo, a merecida, ética e edificante potencialidade desejante.

Em tempo, faz-se necessário pensar na causa dessas distorções para podermos contê-las. Antes da punição jurídica, trata-se da ausência ou da renegação do respeito, da tolerância, do reconhecimento das diferenças no âmbito familiar.

À Escola resta observar e não permitir toda e qualquer manifestação dos processos de exclusão social oriundos do bullying, uma vez que desautorizam qualquer limite ético em nome da ilusão do prazer só ser obtido pela submissão e humilhação do outro, até porque nessa cultura do “tudo pode” e do “não dá nada” irá vigorar sempre o princípio perverso do “quem ri por último ri melhor”, máxima da impunidade.

 


Sandra Beck da Silva Etges é Psicanalista Membro do Centro de Estudos Lacaneanos
Site do Cel: www.celacan.com.br