28/08/2010
Ano 13 - Número 699

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Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica
 

SOBRE A ADOLESCÊNCIA

Tânia Baumhardt


Diferentemente dos demais campos do saber, a Psicanálise trabalha com uma idéia de tempo que não é cronológica, mas sim lógica, e isto significa que não podemos definir uma idade exata para o que é chamado de puberdade ou adolescência.

Para a Psicanálise, então, a adolescência é um momento de um tempo lógico, singular em cada falante, embora mapeado imaginariamente pela cronologia da cultura e das mudanças corporais, onde a sexualidade infantil, na forma como foi inscrita pela paternidade (Metáfora Paterna), é reconfigurada.

Mas o que é esta Metáfora Paterna e qual sua importância?

Desde os anos 30 do século passado, Lacan nos fala da importância da imago paterna na constituição do sujeito. Depois ele passa a usar o conceito de Metáfora Paterna para explicitar a importância do duo: função paterna / lugar desejante de mãe. Esta é uma das grandes inovações da teoria lacaniana, que apresenta o lugar desejante de mãe como único porta-voz da lei paterna. Isto é que dará a este filho a condição de se constituir como um sujeito ético, desejante, capaz de conviver com as faltas necessárias para sua constituição como tal, e é isto também que será reconfigurado na adolescência, com variações que tem a ver com a forma como foi estabelecido na infância.

Quando falamos em função paterna, não estamos nos referindo unicamente a pais biológicos, mas a quem puder ocupar o lugar simbólico de paternidade, a uma mãe que puder transmitir à filia uma herança simbólica, de valores éticos, amorosos, onde o filho possa vir a se incluir edipicamente mas com a presença de uma lei de interdição da exclusividade materna.

Esta interdição, trazida pelo pai e transmitida pela mãe (que diz respeito ao desejo que esta mãe teve por este pai como homem, ou por algo para além do filho), irá gerar uma falta que será constituidora de desejo. Esta lei transmitirá à filia a idéia de que existe desejo desta mãe para algo além dele, o que lhe possibilitará constituir a sua própria fantasia, desejar o que de singular lhe falte na vida.

Considerando-se, então, a questão do tempo lógico, esta identificação sintomática será reconfigurada num tempo particular para cada sujeito, de acordo com as suas questões específicas, e as dificuldades que surgem aí tem relação com a forma como este sujeito foi preparado para lidar com as adversidades (com a falta). Neste momento passará a ocorrer uma transformação corporal, como as mudanças imaginárias de voz, o reconhecimento da própria sexualidade e a mutação das “zonas erógenas”, fragilizando-se a inscrição simbólica e provocando um efeito melancolizante (depressivo) em função de uma suposta “infância perdida”. Essa “entrada na vida adulta” se articula com a imaginarização do tempo da morte. Por isto, o adolescente é um cultor maníaco da “modernidade” num movimento de renegação da morte. E por isto, também, o adolescente tende a identificações imaginárias com grupos fora do contexto familiar, procurando nestes grupos o que não constituiu na sua singularidade.
Desta maneira, caso essa transmissão de falicidade tenha ocorrido transgressivamente ou não tenha ocorrido, teremos conseqüências devastadoras, como o surgimento, nos filhos, de intolerância a frustrações e as decorrentes manifestações de auto e/ou hetero-hostilidade. Nesta esteira é que se abrem as possibilidades de identificações imaginárias que podem levar, por exemplo, ao racismo homicida, à drogadicção, à transtornos alimentares ou à identificações com grupos ou gangues transgressivas.

A adolescência, então, parece ser uma categoria que faz liame social. E quando nos encontramos numa sociedade que valoriza a rivalização egóica, a obrigação de “ter”, de ser o “mais bonito”, o “melhor”, o “mais esperto”, nos defrontaremos com adolescentes que vão precisar, o tempo todo, por-se à prova como tal, demonstrando, com isso, que houve ali uma perversificação da Metáfora Paterna.

No entanto, quando nos deparamos com queixas de adolescentes por não se sentirem ainda reconhecidos como adultos, o que temos é uma demonstração de um desejo de saber sobre seu enigma desejante, que lhes permitiria fazer o luto da criança que teriam sido na fantasia dos pais sem com isso precisar necessariamente melancolizar-se, morrer, matar ou agredir, etc.

Diante destas questões, resta-nos perceber que este é um momento crucial na vida de um sujeito, que vai realizar uma espécie de reinstalação significante, e que precisa ser escutado na sua singularidade. Precisamos entender que uma adolescência menos turbulenta será fruto de toda uma estruturação amorosa do complexo familiar.


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Bibliografia consultada:
MENDONÇA, Antônio Sérgio et al. A Clínica em Lacan, Revista A Transmissão nº10,
Edições do CEL, Porto Alegre, 2009.

 


Tânia Baumhardt é Psicanalista do Centro de Estudos Lacaneanos, Porto Alegre.
tania@keyco.com.br