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01/04/2006
Número - 470
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Opinião Acadêmica
O projeto democrático do
PSB
diante da democracia brasileira
(1947-1964)
Leonardo Soares dos Santos
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INTRODUÇÃO
A
historiadora Margarida Vieira, procura no seu estudo sobre o
Partido Socialista Brasileiro (PSB) no período de 1945 a 1964,
reconstituir a construção de um projeto socialista de cidadania
desenvolvido ao longo daquele período pelo partido. Tenta
questionar ou pelo menos relativizar as tradicionais versões que
se tem sobre as suas características: pouca definição ideológica,
frágeis ligações com a classe operária, etc. A autora até os
reconhece, mas insiste que:
“Sua
importância foi muito maior porém nos temas, proposições e na
forma de fazer política que no aspecto quantitativo. O estudo de
seu projeto nos revela não apenas caminhos pouco explorados pelo
conjunto da esquerda da época, hoje em muitos casos retomados.
Revela, também, por oposição a outros, parte da trama histórica da
República de 46” 1
A meu
ver a abordagem da autora se aproxima em muito da de Dainis
Karepovs e José Castilho Marques Neto, que procuram resgatar no
estudo de organizações consideradas de pouca expressão política e
social, como as trotskistas, a leitura de alguns aspectos que
fugiam às grandes forças políticas da época. Mais do que isso,
esses autores tentam mostrar que a história do movimento operário
(sua interpretação e seu fazer-se) não pode ser vista como um
monopólio de tal ou qual perspectiva teórica e política.2 E é geralmente acompanhando a atuação desse tipo de força
política, pequena e de pouca expressão, que podemos desvendar
alguns dos principais limites e impasses do sistema político
nacional.
Por
isso nos propusemos a examinar as posições dos socialistas quanto
ao jogo político eleitoral, a questão da ilegalidade do PCB e da
autonomia sindical. Recorremos aos programas do partido e ao
jornal que era ligado a ele e que foi editado no Rio de Janeiro
(então Distrito federal) durante os anos de 1950-54.
TRAJETÓRIA
A
Esquerda Democrática (ED) foi criada em 24 de agosto de 1945 e
tinha como seus principais nomes figuras da política nacional como
João Mangabeira, Hermes Lima, Domingos Vellasco e intelectuais
como José Honório Rodrigues, Rubem Braga, Sérgio Buarque de
Holanda, José Lins do Rego, Sérgio Milliet e Antônio Cândido. A
maior parte desses nomes constituía a “esquerda radical” da UDN,
que em pouco tempo já conhecia a sua primeira dissidência sob a
forma da ED, que funcionou como uma tendência política até agosto
de 1946, quando a partir daí resolveu formalizar sua condição de
partido político. O curioso é que já em 1945 a ED buscava boa
inserção no cenário político, participando ativamente das eleições
presidenciais, buscando realizar o seu primeiro e principal
objetivo político, que era o de consolidar a oposição ao Estado
Novo, e para isso apoiando a candidatura do Brigadeiro Eduardo
Gomes, da União Democrática Nacional.3
A ED tinha como princípios a total e irrestrita tolerância
frente aos mais diversas concepções filosóficas e mesmo credos
religiosos: “reconhece a cada um o direito de seguir, nessa
matéria, a sua própria consciência”.4Na concepção socialista que João Mangabeira (principal
liderança socialista) defendia, objetivava-se a socialização dos
meios de produção, secundarizava a luta de classes ao querer o
partido sendo de todo o povo (proletariado e classe média) em vez
de “partido de classe”: “O partido não se destina a lutar pelos
interesses exclusivos de uma classe, mas pelos de todos os que
vivem do próprio trabalho”.5Eram enfatizadas ainda as vinculações com a tradição
internacional e a nacional, reconhecia como um valioso legado as
conquistas democrático-liberais, mas que não eram suficientes para
abolir o regime de exploração capitalista, que por sua vez devia
ser realizado seguindo processos democráticos de luta política. A
perspectiva do partido, como se pode inferir, era eminentemente
social-democrata.6
Na
realização da segunda convenção nacional da ED em seis de agosto
de 1947, decidiu-se pela transformação da ED em Partido Socialista
Brasileiro - PSB, a não ser o nome, nada de substancial tinha de
diferente quanto à ED. O entendimento que o partido tinha sobre a
sociedade brasileira era de que ela: “assenta em uma ordem
econômica de que decorrem, necessariamente, desigualdades sociais
profundas e o predomínio de umas nações sobre outras, o que
entrava o desenvolvimento da civilização”. A transformação
econômica e social que conduziria à supressão de tais
desigualdades seria obtida mediante processos democráticos. E
ainda que o Brasil possuísse as suas peculiaridades, elas não eram
suficientes para o situar “fora do mundo contemporâneo”. Por tudo
isso estes eram os princípios do partido:
“I -
O Partido considera-se, ao mesmo tempo, resultado da experiência
política e social dos últimos cem anos em todo o mundo e expressão
particular das aspirações socialistas do povo brasileiro.
II
- As peculiaridades nacionais serão, pelo Partido, consideradas
de modo que a aplicação de seus princípios não constitua solução
de continuidade na história política do país, nem violência aos
caracteres culturais do povo brasileiro.
III
– Sem desconhecer a influência exercida sobre o movimento
socialista pelos grandes teóricos e doutrinadores que
contribuíram, eficazmente, para despertar no operariado uma
consciência política necessária ao progresso social, entende que
as cisões provocadas por essa influência nos vários agrupamentos
partidários estão em grande parte superadas.
IV –
O Partido tem como patrimônio inalienável da humanidade as
conquistas democrático-liberais, mas as considera insuficientes,
como forma política, para se chegar à eliminação de um regime
econômico de exploração do homem pelo homem.
V –
O Partido não tem uma concepção filosófica da vida, nem credo
religioso;reconhece a seus membros o direito de seguirem, nessa
matéria, sua própria consciência.
VI –
Com base em seu programa, o Partido desenvolverá sua ação no
sentido de fazer proselitismo, sem prejuízo de organização
partidária, princípio que respeitará, uma vez alcançado o poder.
VII
– O objetivo do Partido, no terreno econômico, é a transformação
da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva
socialização dos meios de produção, que procurará realizar na
medida em que as condições do país o exigirem.
VIII
– No terreno cultural,o objetivo do Partido é a educação do povo
em bases democráticas, visando a fraternidade humana e a abolição
de todos os privilégios de classe e preconceito de raça.
IX –
O Partido admite a possibilidade de realizar algumas de suas
reivindicações em regime capitalista, mas afirma sua convicção de
que a solução definitiva dos problemas sociais e econômicos,
mormente os de suma importância como a reforma agrária, a
industrialização, a democratização da cultura e a saúde pública,
só será possível mediante a execução integral de seu programa.
XI –
O Partido não se destina a lutar pelos interesses exclusivos de
uma classe, mas pelos de todos os que vivem do próprio trabalho,
operários do campo e das cidades, empregados em geral,
funcionários públicos ou de organizações para-estatais, servidores
das profissões liberais, - pois os considera, todos, identificados
por interesses comuns. Não lhe é, por isto, indiferente a defesa
dos interesses dos pequenos produtores e dos pequenos
comerciantes”.7
No ano
seguinte, trotskistas, reunidos na Liga Comunista
Internacionalista pensaram em aderir ao PSB. Houve por conta disso
uma cisão dentro do PSB entre o grupo de Edmundo Muniz (que era
contra) e o de Mário Pedrosa e Hilcar Leite (a favor)”. Na queda
de braço a vitória ficou com o segundo, que ainda trouxeram junto
com os trotskistas o jornal “Vanguarda Socialista”em 1948. Mas o
caminho reformista que o PSB vinha tomando acabou afastando
adeptos de propostas mais radicais, os que permaneceram se
envolveram em várias brigas internas, o que acabou resultando na
exclusão do grupo trotskista e o fechamento da Vanguarda
Socialista no mesmo ano.8
Durante o período Dutra (1946-51) o partido atuou como um
partido crítico do governo, denunciando o envolvimento de seus
principais quadros com os interesses do capitalismo mais do que
com a coisa pública. Ainda em 1950, o PSB define com mais clareza
suas diretrizes de sua política externa: trabalhar pela paz,
fortalecimento da ONU, contra o expansionismo tanto dos EUA quanto
da URSS, apoio ao intercâmbio comercial e de informações entre
Ocidente e Oriente, contra os intuitos da contra-revolução
burguesa e por um “socialismo com espírito democrático” e
independência das nações. No plano interno o PSB não tinha muito
sucesso nas suas investidas eleitorais. Nas eleições presidenciais
lançou a chapa João Mangabeira/Alípio Correa Neto, que só obteve
9.466 votos. Para se ter uma idéia, o vencedor,Getúlio Vargas,
conseguiu 3.849.040.Para o legislativo elegeu um senador, Domingo
Vellasco, o único de todo o Congresso. Nas assembléias estaduais,
elegeu apenas dois (todos de São Paulo) e um vereador no Distrito
Federal.9
Nos anos seguintes o partido sofreu baixas importantes: em
1951 João Mangabeira se desligou por motivos de saúde; em 1953
Hermes Lima abandona o partido e vai para o PTB. As únicas
iniciativas marcantes nesse período são a atuação de João
Mangabeira, que tenta aprovar uma nova lei sobre os sindicatos; a
de Domingos Vellasco em defesa da nacionalização da exploração do
Petróleo e criação por este em parceria com Francisco Mangabeira
(filho de João Mangabeira) do jornal “O Popular”, que não era
órgão oficial do partido mas divulgava suas campanhas e críticas
ao governo federal.10
Escaldado que foi por todos esses fracassos e ainda tendo a
convicção de que só poderia realizar seus objetivos tendo uma
grande influência na administração pública, o PSB começa a
investir na formalização de grandes alianças, primeiramente com
partidos de pequeno porte como ele. Foi assim que conseguiu seu
primeiro grande triunfo, em 1952, ao eleger Jânio Quadros para a
prefeitura de São Paulo, numa aliança com o PTN.11Nas eleições estaduais de 1954, o PSB aliou-se ao Partido
Social Democrático, Partido Trabalhista Brasileiro, União
Democrática Nacional, Partido Republicano e Partido Social
Trabalhista, conseguiu bons resultados em São Paulo, mas fracassou
no Distrito Federal. Nas eleições presidenciais de 1955, apoiou
Juarez Távora do Partido Democrático Cristão junto com o Partido
Liberal ,UDN e dissidentes do PSD. Nas eleições estaduais de 1958
priorizou as alianças com partidos mais fortes como PTB e UDN.
Para as assembléias estaduais elegeu 15 representantes e 8 para a
câmara dos deputados (quatro de SP, todos ligados a Jânio
Quadros).
Se de início a ligação com o nome de Jânio Quadros foi
benéfica, no começo da década de sessenta ela era causa de
grandes transtornos. O grupo ligado a ele formou a “Ação
Socialista”, uma organização política que propunha ser a
“intérprete” dos anseios de operários, camponeses, comerciários e
transportadores, militares e classe média. Este grupo acabou
saindo do partido,ainda tentou voltar quando Jânio assumiu a
presidência em 1961 mas não conseguiu, além do que o PSB passou a
fazer oposição a Jânio.12
Quando este renunciou, o PSB foi favorável à posse de João
Goulart, foi contra a adoção do parlamentarismo, que considerava
uma “medida inconstitucional”. Nas eleições para o Senado de 1963
aliou-se ao PSP de Ademar de Barros (o partido que mais crescia na
época), PTN, PRT, PR, UDN, PL e MRT. Elegeu seis deputados
federais, entre eles Francisco Julião, o grande líder do fenômeno
Ligas Camponesas.13
Foi a “fase áurea” do PSB. João Mangabeira, pelas mãos de Jango,
foi alçado ao ministério da Justiça, onde aboliu definitivamente a
exigência de atestado ideológico para dirigentes sindicais e
proibiu a intervenção policial nos sindicatos.14
NAÇÃO E NACIONALISMO
A visão que o PSB tinha sobre o Estado nacional, e que era a
mesma apresentada no manifesto inaugural da ED, tomava ele como um
instrumento sob o controle dos grandes industriais, banqueiros e
latifundiários. Os socialistas, ao contrário dos trabalhistas, não
confundiam Estado com Nação. Esta era constituída de
classes e grupos sociais, para ela não havia um projeto nacional,
mas projetos. Sua democratização só poderia ser viabilizada pela
ação política do proletariado, consolidada pelo peso de suas
representações em órgãos legislativos soberanos.15
Não enxergavam a intervenção estatal como a grande solução para o
país. Defendiam, isto sim, a socialização da economia, permitindo
que os trabalhadores participassem da direção das empresas
nacionalizadas. Se os trabalhistas formulavam sua identidade com
base no nacionalismo e estatismo, para os socialistas a grande
referência era o socialismo democrático.16
Pode-se perceber que ao formular este ponto de vista, os
socialistas têm na sua alça de mira os Trabalhistas. Isto fica
ainda mais claro ao verificarmos quais são suas idéias frente ao
nacionalismo. Em primeiro lugar, ele não é visto como uma via para
se obter a igualdade social, mas somente uma atitude defensiva
frente ao imperialismo; em segundo, a questão nacional é tratada
dentro da questão democrática, negando-se qualquer forma de
nacionalismo autoritário e carismático (como o getulista por
exemplo);17por ultimo, tinha uma visão não estática do nacionalismo,
ele não era um fim mas um meio para se obter o controle social dos
meios de produção e a democratização do Estado, que por sua vez só
poderia ser resultado do movimento dos trabalhadores (pela via
legal) e não por uma ação de caridade ou por um plano de
manipulação de elementos da cultura política dos “trabalhadores do
Brasil”.18
Margarida Vieira ressalta que a prioridade que os socialistas
davam a questão democrática não eram simples argumentos retóricos
, mas “um valor trabalhado institucionalmente e no cotidiano”.19É claro que devemos ter todo cuidado com afirmações como
esta, ainda mais tendo-se em conta que a referida autora faz parte
do quadro político do PSB atual, sendo, assim, é grande a
possibilidade de estarmos lidando com argumentos que são mais
políticos (ou panfletários) do que propriamente analíticos. Mas a
afirmação parece ganhar em sentido e em confiabilidade quando
passamos a lê-las em confronto direto com as práticas dos
trabalhistas no que se refere a uma questão em particular:a
exclusão do PCB da legalidade.
Os trabalhistas nunca chegaram a um consenso sobre tal
questão, sobre a defesa ou condenação da ilegalidade do PCB,
embora um dos autores da célebre denúncia feita ao TSE em 1946
tenha sido o deputado petebista Himalaya Virgulino.20
Pelo menos até meados da década de 1950, quando PCB e PTB se unem
para a formação do Movimento Nacional Trabalhista Popular para as
eleições presidenciais de 1955, a atitude dos trabalhistas era de
um apoio velado, transformando-se em alguns momentos numa
aprovação explícita pela repressão governamental contra os
comunistas. Prova são as abordagens que os jornais ligados aos
trabalhistas (O Radical, Diário do Povo, A Voz
Trabalhista, Diário Popular e Diário Trabalhista)
faziam das ações políticas realizadas por trabalhadores (greves,
levantes no campo, etc). Estas eram na maior parte das vezes fruto
da “sórdida” e “impatriótica” agitação dos
“insufladores”comunistas (“serviçais da Rússia vermelha”, “agentes
do Kominform”).21Fatos que eram suficientes para demonstrar o perigo que os
“vermelhos” representavam à Nação e que justificavam a sua
marginalização do plano institucional e a dura repressão da
polícia política contra eles.
Aqui vemos plenamente confirmada a afirmação de M.Vieira de
que os “trabalhistas acentuavam a ‘democracia social’, deixando em
plano secundário a democracia política e convivendo com as
práticas autoritárias”.22
As coisas mudam de figura quando passamos a analisar o caso
dos socialistas.Antônio Gurgel destaca que a primeira grande luta
do PSB foi contra a cassação dos representantes comunistas. Alguns
de seus membros não apoiaram essa iniciativa, argumentando que
esta postura era “avançada demais” para a época. A defesa dos
comunistas teria valido ao partido a pecha de “linha auxiliar do
comunismo”.23
Esta linha de conduta - de defesa dos direitos políticos dos
comunistas - também era veiculada no jornal O Popular, em
editoriais escritos pelos principais nomes do PSB. Num deles,
Domingos Vellasco satiriza as obscuras motivações da “indústria do
anti-comunismo”:
“uma das mais rendosas
‘indústrias’que têm florescido recentemente no Brasil é a do
anti-comunismo. Jornais falidos, escritores
semi-analfabetos, jornalistas sem leitores, ‘pelegos’ desprezados
pelos trabalhadores, tiras fantasiados de ‘orientadores’ e
‘técnicos’ sindicais do ministério do trabalho – todos êsses têm
conseguido gordas subvenções e polpudas gorjetas, com a exploração
do ‘anti-comunismo(...).Como tem sido rendosa a indústria do
anti-comunismo”.24
Em outro, aquele autor, volta a enfatizar os interesses que
estariam por trás da repressão aos comunistas, e ao que parece
nada tinham a ver com a segurança da nação e do seu cordato povo:
“Estamos assistindo, no Brasil, ao
esfôrço tenaz e persistente de alguns jornais para se criar o
clima de intolerância, de mêdo e de ódio, que facilite tôdas as
aventuras. O pretexto é o perigo comunista (...). É claro que não
pretendem esses anti-comunistas combater na realidade, o
comunismo. Querem apenas usá-lo como arma para a intimidação, o
acovardamento, a coação moral contra aqueles que se opõem a seus
planos políticos ou a seus negócios (...) Combater o comunismo é
uma coisa. Defender, sob êsse pretexto as negociatas dos
tubaronetes ou o aviltamento do povo brasileiro, é coisa muito
diferente que nos provoca a maior repugnância.”25
Não que os socialistas tivessem lá grande simpatia pelos
comunistas, talvez houvesse mais motivos para brigas entre o PSB e
o PCB do que troca de gentilezas: Domingos Vellasco achava que o
quadro dirigente comunista era incapaz de avaliar com um mínimo de
nitidez o jogo de forças do cenário político e social brasileiro,
não tendo conseguido ainda absorver os “ensinamentos” de 1935; por
seu turno, o PCB,através do seu jornal - Imprensa Popular,
não economizava nos “elogios” ao PSB (“partido dos tubarões”), e à
Domingos Vellasco ( “reacionário”, “grileiro” e “porta-voz dos
banqueiros”) e ao próprio O Popular ( “folhetim dos
trusts americanos”, “jornal dos imperialistas ianques”).
Contudo os socialistas faziam questão de afirmar que as diferenças
(que não eram poucas) podiam e deveriam ser resolvidas no campo
democrático do debate de idéias. Para Vellasco, o comunismo:
“(...) não se combate com a
mentira, com a violência ou com a tortura. Combate-se o comunismo
apontando-lhe os erros de doutrina e a amoralidade dos processos.
Mas combate-se, sobretudo, apressando o fim de um sistema de
produção, que o engendra e o mantém. No Brasil, as mais das vezes,
os que julgam combater comunismo não fazem de verdade, senão
servi-lo. Cremos que somente a Igreja Católica tem entre nós
combatido o comunismo com tenacidade, eficiência e sabedoria”.26
* * *
Mas se havia dentro do PSB uma corrente (a de São Paulo) que
tratava a questão nacional por meio de um discurso ideológico que
defendia os princípios do socialismo democrático e que combatia a
demagogia nacionalista e ao estatismo; outras correntes, como a da
Paraíba, Pernambuco e o então Distrito Federal (RJ), que defendiam
uma visão de viés economicista sobre o assunto, pelo qual o
nacionalismo era representado desde um simples movimento
anti-capitalista até uma forma de “maioridade econômica”. Estas
correntes teriam sido seduzidas, segundo Daniel Pécault, pela
onda trabalhista.27
Esta última corrente passa a ter predominância na escolha dos
rumos do partido a partir de 1953. Neste ano é realizada a Quinta
Convenção do partido, e no seu resultado já se nota grande
influência do nacional-desenvolvimentismo. A proposta de
nacionalização das fontes básicas de energia não é acompanhada da
exigência de participação dos trabalhadores na direção das
empresas nacionalizadas. A crítica ao conceito de burguesia
nacional e a prioridade de luta pelo socialismo sobre o
nacionalismo ficam restrito a alguns núcleos.28É neste momento que o PSB começa a dar os primeiros passos
em busca da formulação das grandes alianças, com partidos das mais
diferentes colorações político-ideológicas, com o fim de
conquistar posição de destaque no plano político.
AUTONOMIA SINDICAL
Para o grupo de ex-trotskistas que editava o “Vanguarda Socialista”
(VS) sob a liderança de Mario Pedrosa e Hilcar Leite, a questão
sindical vinha sempre ligada à autonomia sindical e ao direito de
greve. O último dizia em 31 de agosto de 1945: “A ausência do
direito de greve como da autonomia sindical anula a função do
sindicato operário, que é e há de ser o órgão de resistência e de
luta de classe”.29
Os grandes obstáculos da autonomia seriam em
primeiro lugar a legislação trabalhista que a proibia e também
punia a greve; em segundo a existência de setores que a apoiavam
ou não a combatiam: as classes dominantes que gostaram do “regime
getuliano” porque “resolveu” a questão operária; os amarelos que
vivem do imposto sindical e os totalitários getulistas e
comunistas de Prestes [na época, aliado de Getúlio]”; o terceiro
seria o desenvolvimento de um “espírito de tutela”que se
desenvolveu entre certas camadas da classe trabalhadora, que
teriam incorporado o discurso getulista, no qual as conquistas não
eram vistas como resultado de lutas mas como “presente do tutor”.
A principal alternativa para a conquista da
autonomia sindical, segundo Hilcar Leite, seria a ação da classe
trabalhadora: “É preciso continuar a luta pela autonomia sindical
e pelo reconhecimento do direito de greve. A única força capaz de
obrigar o governo de José Linhares, ou o futuro, a revogar os
dispositivos getulianos é a própria classe operária, agindo
independentemente”.30
Entendiam os socialistas que as grandes forças do movimento
sindical eram os burocratas ministerialistas, os queremistas e os
prestistas, e que por isso era necessária a construção de uma
política ampla de alianças que incluísse outras forças que também
tivesse divergências com aquelas três. Era o caso de católicos,
anarquistas e os sindicalistas independentes. Junto a eles os
socialistas da VS esperavam ter uma maior atuação nos sindicatos.
No entanto apesar de todas as críticas eles acabaram se aliando
aos queremistas e prestistas na criação da Confederação Geral dos
Trabalhadores do Brasil em 1946. Mesmo assim ponderavam:
“as entidades sindicais, ao mesmo
tempo que assumem maior responsabilidade para com aqueles que a
integram, precisam se capacitar de que o movimento em que estão
empenhados deve se orientar no sentido de maior independência
tanto no que se refere ao poder público, como no que diz respeito
aos partidos políticos e instituições religiosas, por mais
sedutores que sejam seus programas ou princípios. Somente assim
poderá ser mantida a magnífica unidade agora conquistada”.31
A CGTB acabou sendo extinta junto com o PCB em maio de 1947.
A partir daí os socialistas tentaram chegar à autonomia sindical
através da ação parlamentar. Apoiando todos os candidatos da ED
nas eleições para a Assembléia Constituinte: todos foram
derrotados. Continuaram pregando a autonomia pelo jornal, buscando
exercer pressão sobre os parlamentares eleitos, mas sem grandes
resultados.32A principal razão, segundo M.Vieira, era que “apesar de
todo o avanço na crítica à estrutura sindical estadonovista, a
incapacidade dos militantes da Vanguarda (VS) de ganharem um
grande número de adeptos no movimento sindical torna a sua ação
mais educativa que eficaz a curto prazo”.33
No início década de 1950, já tendo sido expulso do partido o
grupo da VS, o debate sobre o movimento sindical passava às mãos
das lideranças parlamentares do PSB, como Domingos Vellasco e João
Mangabeira. O conceito sobre o sindicato era substancialmente o
mesmo. A “cúpula” pessebista considerava que: “Os sindicatos são
uma escola de fraternidade, aplicada à conquista de melhores
salários, de melhores instrumentos de trabalho, de melhores
condições de vida”, mas que para desempenharem esse papel ele não
poderia ser um instrumento dependente do governo e nem de
quaisquer partido político:
“O Sindicato deve ser livre de
qualquer compromisso político. Nem caudatário nem hostil à
política dos partidos que defendem a classe operária: mas ativos e
atuantes, a fim de interessarem realmente o trabalhador na defesa
de suas reivindicações imediatas fora do campo política, formando,
ao mesmo tempo, espíritos de luta, homens e mulheres que saibam o
significado da palavra união, corações abertos à cooperação e ao
mesmo tempo consciências capazes de manter um pensamento crítico e
construtivo sôbre os problemas do país”.34
O grande problema do sindicalismo continuava sendo a
autonomia sindical. Os socialistas batiam pé firme sobre ela,não
poupando críticas ao governo. Num artigo de 1951, Domingos
Vellasco ressaltava que:
“O presidente Getúlio Vargas fêz
um apelo no dia 1° de maio para a sindicalização em massa dos
trabalhadores. Entretanto, o que está fazendo o ministério do
trabalho com seus ‘pelêgos’ é matar a sindicalização livre;é
transformar os sindicatos dos trabalhadores numa espécie de curral
em que os operários e empregados, como animais ou como escravos,
são tangidos pelos senhores do ministério”.35
Francisco Mangabeira considerava que o clima duramente
repressivo do governo Dutra estava se repetindo no governo do “Pai
dos Pobres”: eram inúmeros os sindicatos sob intervenção, inúmeras
as ocorrências de violência policial em reuniões e encontros de
operários e grande a repressão às greves.
Em que pese a existência desses obstáculos, o PSB acreditava
que em 1951, o sindicalismo do país passava por um novo surto,
nele os sindicatos tentavam se libertar da tutela do ministério do
trabalho. Aproveitando-se dessa conjuntura, os dirigentes
socialistas com a “massa operária”, o maior exemplo seria a
apresentação na Câmara Federal do projeto sobre a Nova Lei
Sindical, de autoria de João Mangabeira. O PSB procurava criar com
a autonomia, um movimento sindical livre do “intervencionismo”
tanto do ministério do trabalho (“oficial”) quanto do PCB
(“partidário/sectário”).36
Esta lei, no entanto, abrigava várias incoerências, como a
manutenção do imposto sindical, que sempre tinha sido combatida
pelo PSB.
CONCLUSÃO
O fato do PSB ter pouco contato com a classe trabalhadora e
com seu movimento, parece ter sido encarado como um problema
apenas na década de 1940, nos primeiros anos de sua criação,
quando ali tinha voz ativa o grupo de ex-trotskistas, esforços
(mal-sucedidos é verdade) foram empreendidos no sentido de criar
uma ligação mais profunda entre o PSB e as entidades dos
trabalhadores. Com a expulsão do grupo em 1948, a tendência
reformista passou a ter predominância na vida do partido. O
contato com os sindicatos passa a ser realizada em função de
objetivos eleitorais. Acreditam que toda e qualquer transformação
econômica e social deve transcorrer pela via institucional. Tal
opção é radicalizada em meados da década de 1950, quando o PSB se
lança em alianças com partidos das mais variadas tendências, o que
de certa estava coerente com a linha pluralista e eclética
expressa nos primeiros programas do partido.
Há de se reconhecer,no entanto,o exemplo de respeito aos
princípios democráticos, quando o PSB nadou contra a
maré,condenando algo que era oficial e quase que nacionalmente
incentivado: a repressão aos comunistas.Em que pese as gravíssimas
divergências existente entre eles.
Outra iniciativa digna de menção foi o esforço das lideranças
do PSB em constituir um amplo debate sobre algo mal resolvido até
os dias de hoje:a autonomia sindical.Ao bater de frente com a
defesa do corporativismo e unicidade sindicais dos trabalhistas,e
ao tentar diferenciar liberdade sindical (defendida por
comunistas)de Autonomia Sindical,os socialistas procuravam criar
condições para a renovação da estrutura sindical.
BIBLIOGRAFIA
Fontes
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Rio de Janeiro:Ed. FGV/CPDOC, 2001. p. 4410.
4
COSTA, Dante. O Socialismo Rio de Janeiro: s/ed., 1954. p. 82.
5
CHACON, Vamireh. .A história das idéias socialistas no
Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. pp.
224-5.
14
Gurgel, Antônio de Pádua Socialistas no Brasil:
partidos, programas e experiências. Brasília: Thesauros, 1984.
p. 55.
15
Vieira, Margarida. op.cit., p.222.
17
Algo vivamente tolerado (até mesmo ambicionado) não só pelos
trabalhistas de ontem como também pelos de hoje. Os exemplos
atuais são notórios, veja-se por exemplo o artigo de Celina
Vargas do Amaral Peixoto – “O Getulio populista”, O Globo,
27/08/2002. Nele a neta de Getúlio defende que ele não foi na
década de 30 um Ditador e sim um”centralizador” e que na
década seguinte “se submeteu” ao jogo democrático; antes de
morrer em 54, teria “deixado” o país redemocratizado (em que
pese a repressão policial sobre o movimento operário,
intervenção nos sindicatos...); mas a melhor parte é onde diz
que os maiores prazeres do “centralizador” gaúcho era a vida
no campo, cavalgar, fumar charutos, jogar golfe e de começar
os seus discursos pronunciando, “com uma voz pausada –
‘Trabalhadores do Brasil’ ”.
18
Vieira, Margarida. op. cit.
22
Vieira, Margarida. op. cit., p. 20.
24
O Popular, 14/07/1951, p. 3.
26
O Popular, 08/11/1953, p. 3.
34
Costa, Dante. Op.cit., p.108.
35
O Popular, 9/7/1951, p.1.
Leonardo Soares dos Santos é
doutorando em História Social pela UFF
leossga20@hotmail.com
telefone: (21)2445-3789
(01 de abril/2006)
CooJornal no 470
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