18/09/2004
Número - 386

ARQUIVO
Opinião Acadêmica

Opinião Acadêmica

QUE A CRIANÇA SEJA SEMPRE O PAI DO HOMEM1

Sandra Beck da Silva Etges


“O Homem, tenha ele a idade que for, está sempre às
voltas com o que podemos chamar de “sua história
infantil”. É a ela que recorre toda vez que  uma situação
de angústia, (...)  vêm convocá-lo à fala”
2

          Para Freud, saber algo sobre o “adulto” atual deveria ser buscado na criança que o habita, já que, esta, o constitui. Cabe-nos, então, perguntar: qual seria o momento de ruptura entre este dito “ser criança” e o dito “ser adulto”.

            Lembramo-nos que, para Jacques Lacan, nos “Complexos Familiares”,3 o traumático da existência seria a separação do seio materno e a sua conseqüente separação da mãe ocasionada pela introdução da Lei Paterna. Isto ocorreria  no momento em que a amamentação deixasse de  cumprir sua função necessária e essencial de alimentação e passasse a ocupar uma outra ordem de satisfação que é de caráter sexual, relativa às primeiras marcas da erotização, e essa marca é possível porque há a interdição paterna, ou seja, nesse momento, o pai passaria a reivindicar a mãe para si como uma mulher transmitindo ao filho a seguinte mensagem: “essa mulher não, todas as outras sim” e, em decorrência do valor simbólico dessa lei que gera a necessidade de buscar algo para além da mãe, que desenvolve-se a capacidade de pensar, de se relacionar, de falar, sendo, portanto, determinante para a constituição de um Sujeito diferente do reino animal.

            Então, será justamente a falta, instaurada pela Lei Paterna, que também é relativa ao desejo que a mãe tem por este pai como homem e/ou por algo para além do filho, que irá humanizar e provocar desejo para um sujeito. Esse desejo será fruto da fantasia dos pais em relação àquele filho e é isto que contará na transmissão do mesmo pela paternidade, possibilitando ao filho também constituir, via enigma, a sua própria fantasia (o que lhe falta na vida), que embora tenha eco, nunca será igual à fantasia que os pais tiveram sobre ele.

            Desta forma, vai-se da fantasia dos pais à criança e, mais tarde, esta deveria poder abrir mão da infância, fazer o luto da criança que “teria sido” nesta fantasia. Logo, o “ser adulto” nada mais será do que a conseqüência desse luto e o que há de mais vivo nele é aquilo que já foi - a memória de sua sexualidade infantil - que, pelo limite de lei que a constituiu, fará com que permaneça viva como um desejo indestrutível do qual jamais deverá abrir mão.

            Porém, se o desmame e a introdução da Lei do Pai não puderem ser simbolizados, será comum esta criança  vivê-los como o exercício  de um abandono ou de uma exclusão, manifestando-se comportamentalmente em auto e/ou hetero-hostilidade.

            Então podemos dizer com Lacan4, que “o que mantém viva a família conjugal no desenvolvimento das sociedades irá valorizar aquilo que foi transmitido subjetivamente, que não é de forma alguma a satisfação das necessidades (materiais), mas a constituição subjetiva de um sujeito nomeado pela Lei do Pai”, um legado portanto, que só pode ser transmitido pela maneira que o desejo da mãe valorizou esta lei.

            Ainda nos “Complexos Familiares”, Lacan nos aponta que, a seu juízo, um problema básico das Sociedades modernas seria a possível decadência desta Lei do Pai. Isso ocorreria em função de uma diminuição da importância do papel do pai nas famílias, ou por ele não ser mais, em geral, o único provedor, ou porque o vínculo mãe-filho vem sendo priorizado pela cultura em geral, a partir da moralidade do senso comum. Exemplos dessa anomia (ausência de lei) são facilmente observados nos fatos divulgados recentemente; seja a filha de classe média-alta que assassina seus pais, seja a mulher que seqüestra o filho dos outros. Como estes fatos demonstram, a causa dessas infrações, tem menos a ver com classe social, fome e/ou desemprego, e muito mais, com uma ausência e/ou trancafiamento da Lei do Pai.

            Cabe-nos perguntar sobre o que, nos dias de hoje, pode ser atribuído a um pai para que o filho possa vir a valorizá-lo e reconhecê-lo neste lugar respeitando sua função de lei. É isso que possibilitará ao filho distinguir direitos, deveres e desejos tanto na sua vida privada como na pública.

            Desta forma, sem Lei não há infância, sem ter havido infância não há memória desejante e, sem estas, não haverá adultos.


1 Tema baseado em WOORDSWORTH, que disse “A criança é o Pai do Homem” e foi citado por Freud.

2 NAZAR, Tereza Palazzo in “A Criança da Modernidade”.

LACAN, Jacques, “Os Complexos Familiares”, Editora Jorge Zahar, ano 1984

LACAN, Jacques, carta a Jenny Aubry (cópia xerografada) do original da revista Ornicar.
 


SANDRA BECK DA SILVA ETGES é psicanalista - Membro do Centro de Estudos Lacaneanos
(CEL - RS)
Site do CEL: www.celacan.com.br