01/03/2012
Ano 15 - Número 776

CHICO ALENCAR
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Chico Alencar


A APOSTA DE MARX*
 

cHICO aLENCAR

“A liberdade, meu filho
É a branca barba de Karl
A se misturar com a neve
De Londres fria e sem lã
E seu coração sobre as fábricas
Qual gigantesca maçã”.
(Moacyr Félix, Canto Para as Transformações do Homem)

Eduardo Mourão Vasconcelos, autor da trilogia ‘Karl Marx e a Subjetividade Humana1, com suas epígrafes reunindo dois extraordinários mestres de nossas letras – Moacyr Félix e Guimarães Rosa – deu a senha e a licença poética: analisar aspectos da obra de Marx não é só trabalhar com o aço das ferramentas da análise sócio-econômica e com a maquinaria pesada da política. Para fazer tudo isso sob a inspiração da transformação social, buscando os portos (inatingíveis?) onde a utopia humana pode ancorar, é preciso ver a beleza do cais. E saber que, lá no íntimo, o que move todo autêntico revolucionário é um “profundo sentimento de amor”, como disse Ernesto Che Guevara, em célebre frase. A mais luminosa formulação da razão capta energia do ritmo do coração. O místico Ângelus Silésius, dois séculos antes de Marx, alertava para o desafio da plena percepção do mundo real: “temos dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem”. Marx, materialista histórico, permaneceu. Marx, materialista dialético, pede que o revisitemos, pelo tanto que seus escritos e sua história de vida significam aqui e agora.

Augusto Boal (1931 - 2009), teatrólogo e escritor, costumava surpreender o interlocutor que lhe demandava ‘objetividade’ com a graça de sua resposta:
- Não consigo ser objetivo, pois não posso me despir da minha condição humana. Somos, sempre, objetivos e subjetivos...

Marx, ainda que reiterando que “um ser que não tenha natureza fora de si não é nenhum ser natural”, buscou entender o fenômeno humano em sua maior profundidade, com a radicalidade de quem acreditava que “a raiz do homem é o próprio homem”. Afirmações revolucionárias para uma época ainda tão marcada pela teocracia absolutista.

“Se o teu amor não provoca amor em troca, isto é uma infelicidade”. “No cristianismo, o princípio mais valioso é o amor às crianças”. Não foi Vinicius de Morais ou um pedagogo o autor dessas assertivas instigadoras e, de certa forma, generosas. Ele mesmo, Karl Marx, as proferiu, na sua curta e fecunda existência de 65 anos, no século XIX.

Portanto, para além de examinar com acuidade inédita as engrenagens do sistema capitalista, em especial da Inglaterra de seu tempo, e analisar as lutas de classes em alguns países europeus, das quais era também organizador e propagandista, este ícone inspirador da esquerda socialista do planeta também abordou, aqui e ali, isto que, apressadamente, podemos chamar de subjetividade humana.

“O verbo se fez carne e habitou entre nós”, diz o conhecido prólogo do Evangelho de João, resgatando a gênese teológica do cristianismo. O saudoso Hélio Pellegrino (1924 -1988), que ousava juntar psicanálise, cristianismo, marxismo, poesia e paixão de viver – e que se declarava “católico, apostólico, mineiro” – insistia que a carne humana estava embebida do divino, e que nossa condição, frágil embora, era por isso mesmo sagrada. A Palavra - o verbo amar - se faz carne e subjetividade solidária através de sua dimensão mais ampla e importante, a de caritas, do amor ao próximo, do compromisso social. O papa Paulo VI, em 1967, na encíclica Populorum Progressio, sublinhou que ‘a maior dimensão da caridade é a dimensão política’. Marx, na perspectiva solidária e emancipatória, fez uma aposta de vida apaixonada e racional em uma sociedade diferente daquela que conheceu, marcada por exploração e morte.

A encarnação plena é objetivação, e Marx afirmava que “um ser não objetivo é um não-ser”. Entretanto, como lembrava Antonio Gramsci, “tudo o que é objetivo é universalmente subjetivo”. Condenados a pensar grande, viajamos pelo abstrato, somos vocacionados às alturas, à ampliação permanente de tempo e espaço. O “anjo da História” de Walter Benjamin, que contempla a devastação da Humanidade mas é impelido pela tempestade a seguir adiante com suas enormes asas, é o nosso verdadeiro anjo da guarda...

O que as formulações marxianas, feitas há século e meio, têm a ver com as sociedades humanas de hoje, que aglomeram sob a face da terra 7 bilhões de seres humanos, 43% deles com menos de 25 anos? Tudo! Até porque 1,5 bilhão desses vão dormir famintos hoje, os recursos naturais explorados diariamente para o modelo dominante de produção se esgotarão em 50 anos. Apenas os 20% mais ricos detêm 77% da renda, sendo que os 20% mais pobres (e bem mais numerosos) ficam com 1,5%: esse mundo tão desigual, injusto, desequilibrado e insustentável atualiza e revalida toda a elaboração teórica que tem, no seu âmago, a proposta de uma outra sociedade, igualitária e radicalmente democrática, justa e necessária.

Objetivar as propostas de Marx – que, aliás, tratava jocosamente o termo “marxista”, que não assumia – no Brasil de hoje é também afirmar sua relevância em uma sociedade com 25 milhões de pessoas sem acesso ao direito elementar de ler, escrever e contar. É não aceitar como imutável uma sociedade em que 4 de cada dez moradias seguem sem saneamento básico, tem 8 milhões de famílias sem terra e outro tanto sem teto, e em que os 10% mais ricos ganham 38 vezes mais que os 10% mais pobres. Aqui, a exortação igualitarista do pioneiro do ‘socialismo científico’ ainda tem muito o que nos dizer.

Não se trata de dogmatizar, pois Marx, humaníssimo, também errou em várias de suas previsões. A revolução não aconteceu primordialmente nos países mais industrializados: a Rússia, que só foi mencionada no prefácio de Engels da terceira edição do Manifesto Comunista, em 1890, iniciou, pioneira, a construção do socialismo; a classe operária fabril, mesmo sem ‘ir ao paraíso’ na economia de mercado, não incorporou plenamente sua condição ‘congênita’ de revolucionária; as formações sociais não realizaram a passagem automática do capitalismo ao socialismo; o chamado ‘socialismo real’ acabou por se constituir não em estágio sócio-político e cultural superior, mas, na gigantesca China onde sobreviveu com este nome, em um capitalismo de estado onde a burocracia de dirigentes centralizadores passou a ser a nova forma de dominação.

O capitalismo, sistema hegemônico no mundo e dito particularmente pujante no Brasil, tem reproduzido lucros para os de cima e negação de oportunidades para os de baixo. A cada crise internacional, e elas têm sido sucessivas nessa etapa de financeirização do capital, os setores médios e empobrecidos são os que mais sofrem.
A obra de Marx, para além da moldura conjuntural inevitável, aí incluída a crítica ácida do clericalismo e do engodo ideológico da classe dominante, é portadora de um humanismo radical.

No volume 1 de “Karl Marx e a Subjetividade Humana”, Eduardo Vasconcelos destaca que, para o filósofo e militante alemão, somos unidade, corpo e espírito: “não é possível separar o pensamento da matéria que pensa. Ela é o sujeito de todas as mudanças. A palavra infinito é carente de sentido, caso não significar a capacidade de nosso espírito para acrescentar sem fim”, dizem Marx e Engels em “A Sagrada Família”. Esta formulação vem ao encontro do que a psicologia contemporânea prospecta a respeito dos desejos humanos, cujas origens estão no nosso próprio corpo, nas nossas pulsões físicas. Muitas vezes exigindo dele em excesso, o que pode, em casos extremos, provocar sua destruição. Tudo o que há de mais onírico ou mais neurótico em nós não está dissociado de nossa matéria orgânica, de nossa materialidade corporal: a carne é fortíssima e vivifica o espírito.

Em intuição ecológica impressionante, antecipando formulação que só agora começa a ser massificada, Marx, em seus “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”2 , faz afirmação atualíssima, que está no âmago da compreensão de nossa integração plena com tudo o que é parte de nós, tudo o que é natureza:

“o homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é parte da natureza” (MARX, 1844).

Marx, sobredeterminado pelo seu tempo, não escapou da visão produtivista hegemônica, chegando mesmo a destacar, no seu antológico “Manifesto Comunista”, a pujança histórica inédita do desenvolvimento capitalista, que ergueu “maravilhas” maiores que “as pirâmides egípcias, os aquedutos romanos e as catedrais góticas”. Mas não seria demasia encontrar em seus escritos os sinais de uma reintegração holística do ser humano, irmão de tudo o que tem patas, asas e raízes, de todos os seres viventes.

Matéria autoconsciente: eis o que somos, e Marx, no seu tom e com suas condicionantes, o afirmou. É famosa sua comparação da abelha com o arquiteto, ao destacar que aquela, ao construir sua colméia ‘intuitivamente’, a partir do equipamento hereditário de que é dotada, difere deste, que planeja, projeta, abstrai e imagina anteriormente sua obra.

É conhecida a crítica de Marx à “alienação religiosa”. Mas vale destacar que essa crítica não se resume ao corolário tão conhecido que define a religião como “ópio do povo”. Esta expressão é a conclusão de uma afirmação mais completa, que diz que a religião é o “suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação sem espírito”. Marx diz que a religião é “expressão de um sofrimento real e protesto contra um sofrimento real”3 . Impossível não reconhecer aí valores de libertação, de humanidade, de grandeza, ainda que manipulados por instituições à serviço da dominação. O que arrisquei denominar aqui como humanismo radical de Marx pressupõe o entendimento do fenômeno religioso como expressão humana que, hoje mais que ontem, não é necessariamente alienante e propagador de obscurantismo. Carlos Moraes, padre, jornalista e escritor, cuja resistência à ditadura civil-militar no Brasil o levou à condenação e prisão, em artigo publicado no Caderno ‘Aliás’, do jornal O Estado de São Paulo, em 19/12/2010, diz que:

“não é justo negar por negar um Deus vivamente perceptível pela experiência mística, o ritual emocionado ou a confiança amorosa de bilhões de pessoas em todas as eras e culturas, que têm haurido nesse Deus cotidiano um norte para suas vidas, valores éticos, alegria de viver, conforto na dor e uma esperança de vitória sobre essa precariedade final, a morte” (MORAES, 2010).

É inegável – e creio que Marx reconheceria isto – que, ao lado da crítica à (des)ordem econômica e social, a dimensão religiosa autêntica inspirou lutas de oprimidos no mundo inteiro e iluminou o carisma emancipatório de figuras como Camilo Torres, na Colômbia, Oscar Romero, em El Salvador, Desmond Tutu, na África do Sul e Helder Câmara e Pedro Casaldáliga, no Brasil. Mesmo Gandhi e Luther King, sem qualquer proximidade teórica com Marx, seguiram na senda comum, que ele abriu, de entrega visceral à causa dos explorados e discriminados.

É preciso ter o olhar crítico para a instituição eclesiástica. O teólogo Leonardo Boff, como pede George Lucáks, toma o marxismo como método de análise ainda muito válido, por considerar o peso das estruturas e elementos sócio-econômicos dominantes. Em sua obra mais recente4 revela com contundência a dialética conservadora da ainda poderosa Igreja Católica, da qual é egresso:

“os intentos de reconversão deste tipo autoritário de Igreja hierárquica, feitos pela Reforma no século XVI e pelo Concílio Vaticano II, no século XX (1962-1965), deslocando os acentos do sacro poder para o sacro serviço, da hierarquia para o Povo de Deus, do templo fechado sobre si mesmo para o templo aberto em suas portas e janelas para o diálogo com a Modernidade, com as demais igrejas e religiões, foram frustrados e esvaziados pela burocracia vaticana, legitimada pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Eles reassumem e reforçam um modelo de Igreja com traços medievais, reintroduzindo o latim nas missas segundo o rito de Pio V do século XVI, tratam com mão de luva os cismáticos seguidores do Bispo Lefebvre, enquanto com bastonadas aos aliados dos pobres, os bispos e os teólogos da libertação. Orientam-se no sentido da restauração e da volta à grande disciplina. O propósito é manifesto: fortalecer o sistema de poder sagrado, monossexual (só homens), celibatário, sacerdotal, centralizado, autoritário, hierárquico e excludente. Dificilmente esta concepção de poder e seu exercício se compaginam com a utopia de Jesus do poder como serviço (hierodulia) e jamais como hierarquia (sacro poder)”.

O vir a ser, síntese do processo dialético e priorizado por Marx em sua dimensão social, para realizar-se plenamente precisa também incidir na superação de ordem pessoal, para a formação de “homens e mulheres novos, livres das taras do passado”, como aspirava Che Guevara. Este novo ser humano, socializado, solidário, comunitário, precisa estar sendo germinado, em valores e posturas, desde já. Para Marx está mais válido do que nunca, a sacralização da propriedade privada “nos fez tão cretinos e unilaterais que um objeto somente é nosso se o temos, portanto, quando existe para nós como capital ou é por nós imediatamente possuído, comido, bebido, trazido para nosso corpo, habitado por nós, enfim, usado”5 . O que é isto senão a pavimentação teórica da proposta de uma extraordinária ‘revolução ontológica – a expressão é de Eduardo Mourão Vasconcelos – na qual o ser – no homem integral, consciente, criador pelo trabalho e não submisso ao capital – toma o lugar do ter?

A quebra contemporânea de paradigmas tem levado o pensamento hegemônico no mundo a considerar o marxismo um arsenal teórico obsoleto. No século das incertezas e do relativismo, a absolutização do presente e a negação do protagonismo das classes subalternas parecem ser os únicos dogmas. Eric Hobsbawn, historiador marxista, em entrevista publicada no jornal O Estado de São Paulo (11/11/2011), destaca que antes

“havia uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo. Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem estar social a partir de um capitalismo reformado sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultantes da combinação dos dois. Hoje, esses marcos sinalizadores desapareceram, e os ‘pilotos’ que guiariam nossos destinos também”.

Já o dileto herdeiro, sanguíneo e literário, do nosso Érico, Luís Fernando Veríssimo, destaca o êxito do individualismo com o fiasco de muitas experiências ditas socialistas do século XX:

“para estes, o fracasso do comunismo soviético na prática representou o fim do ideal iluminista e a recuperação do homem natural. A celebração do ‘bom-senso’ neoliberal contra a ‘falácia da compaixão’, como a descreveu alguém, significa mais um triunfo reacionário na velha guerra. E estamos de volta ao delicioso paraíso do egoísmo sem culpa e das injustiças naturais sem remédio” (O Globo, 15/9/2011).

O que fazer? Aceitar a imposição inexorável do ‘destino’, este ‘paraíso do egoísmo sem culpa’? Acomodar-se à ‘natural’ desigualdade entre os seres humanos? Reconhecer, com humilde desencanto, a vitória do sistema capitalista, com seus êmulos da competição, do individualismo, da concorrência, do lucro e da acumulação de bens como objetivo maior da Humanidade, que a faz avançar? Render culto ao deus mercado e ser apóstolo da ‘teologia da prosperidade’?

A releitura de Marx nos desinstala. Ela nos remete, ainda uma vez, ao sonho humano do vir a ser. Da laboriosa construção, moendo no áspero, de uma outra sociedade possível – mesmo que, no período trevoso que atravessamos, isto seja pouco visível.

O grande desafio que se coloca como tarefa de vida para nós é a ressignificação do socialismo, depois do fracasso ético e político da experiência que se dizia inspirada nos pressupostos teóricos de Karl Marx. É imperativo lembrar que ele nunca detalhou modelo de sociedade perfeita, limitando-se a considerações programáticas genéricas, em ‘Manifesto Comunista’ (1848), ‘Luta de Classes na França’ (1852) e ‘Crítica do Programa de Gotha’ (1875). Beira o fanatismo buscar no pensamento de um ser humano toda explicação para tudo, toda ciência, toda verdade.

Marx compôs, em parceria não apenas com Engels mas com a realidade social, uma obra a um só tempo ‘agitativa’ (“os filósofos já analisaram demais o mundo, trata-se agora de transformá-lo”) e reflexiva, documental e monumental, inovadora e lastreada no acúmulo de muitos outros, que leu avidamente. Obra dotada de objetividade e... subjetividade. Subjetividade que é subjacente – com perdão da cacofonia – ao seu próprio conceito de História e à dinâmica do processo social, com suas recorrências. Aqui, quanto a sobreposições temporais, é possível aproximá-lo de Freud, que destacava, em ‘Mal estar da Civilização’6 , no plano da mente, do consciente e do inconsciente,

“a sobrevivência do estado primitivo ao lado do estado transformado que dele deriva: nada na vida psíquica pode se perder, nada do que se formou desaparece, tudo se conserva de alguma forma e pode reaparecer em certas circunstâncias favoráveis”.

O conflito, “a luta de classes como motor da História”, aproxima Marx de Freud, com sua afirmação do confronto entre as pulsões de vida e de morte, inerentes à subjetividade humana.

Gilles Deleuze7 (1925-1995) nos instiga:

“não compreendo o que querem dizer as pessoas que afirmam que Marx se enganou. E ainda menos quando dizem que morreu. Há hoje tarefa urgente: precisamos analisar o que é o mercado mundial, quais são as suas transformações. E, para isso, não se pode dispensar Marx. O meu próximo livro, e será o último, chamar-se-á ‘Grandeza de Marx’...”

A atualidade de Marx fica patente até mesmo na gelada Davos, na Suíça, no início de 2012. Ali, a cúpula do chamado Fórum Econômico Mundial - vale dizer, dos donos da engrenagem financeira e política do mundo, dos senhores do capital - ouve com atenção máxima Sharan Burrow, o australiano que é secretário-geral da União Internacional do Comércio, dizer que “o capitalismo faliu a sociedade, perdeu o senso moral e necessita redesenhar seu modelo, reajustá-lo, parar com a ganância” – como se isso não fosse inerente ao próprio sistema!

A atualidade de Marx é verificável quando um economista de extração liberal, como Otto Scharmer, propõe um novo modelo econômico “que leve em consideração os três principais desníveis da sociedade de hoje: o ecológico, o social e o espiritual”. Scharmer conclama à transição “de uma abordagem egossistêmica, baseada no ‘eu’, para uma conscientização compartilhada, ecossistêmica” (O Estado de São Paulo, 25/12/2011).

A atualidade de Marx, por óbvio, está na luta contra-hegemônica que é travada em tantos lugares do mundo, e que precisa ser estimulada, alentada, mais e mais. Com determinação e critério, como sublinha Eduardo Vasconcelos, no volume III da coletânea que aqui debatemos:

“precisamos avançar para além das mazelas da sociedade capitalista, nível em que o marxismo mais convencional tende a realizar razoavelmente bem. Contudo, evidentemente não é suficiente para projetar e produzir positivamente a nova sociedade que desejamos em toda a sua complexidade, desde já, ainda no capitalismo, de forma experimental e limitada, nos novos projetos econômicos e sociais, o que nos permitirá angariar cada vez mais o amplo apoio e legitimidade social para as mudanças estruturais que visualizamos” (VASCONCELOS, 2010, p. 266).

Marx rompeu com a tradição de uma História universal fatalista e determinista, ao contrário do que afirma a leitura positivista de sua obra. E ousou questionar ideias e valores (não só econômicos) de seu tempo, fazendo, assim, uma aposta, um “assalto aos céus”, como ele próprio definiu a ‘Comuna de Paris’.

Aposta: é este o sentido maior do trabalho de Marx e desta própria Coletânea. Termino com uma citação longa, que é também homenagem, do grande pensador Daniel Bensaïd (1946 – 2010), que, em conferência realizada em Bruxelas , em março de 1996, nos traz o sentido de urgência e de entrega idealista que, agora mais que antes, o novo século nos pede:

“Mudar o mundo aparece como um objetivo extremamente difícil, mais do que o tinham os pioneiros do socialismo. Mas continua a ser uma necessidade que não pode socorrer-se da garantia de qualquer fetiche que seja. Nem a Providência, nem a História, nem a Ciência poderão constituir o derradeiro tribunal e aliviar-nos do peso da responsabilidade humana (BENSAID, 1996). Em um mundo mais do que nunca inaceitável, o empenho militante toma a forma de aposta. Como dizia Pascal (1623/1662), é preciso apostar porque todos ‘embarcamos’. Recusar-se a apostar, em nome da indiferença cética ou do orgulho dogmático, seria ainda uma forma de aposta. Pascal opunha aos que, ‘servindo a Deus, o encontraram’, os que ‘vivem sem o buscar nem o ter encontrado’ e, finalmente, os que ‘se empenham em procurá-lo, sem o ter encontrado’. Estes últimos são os primeiros abarcados pela aposta que os liberta da obsessão da certeza. ‘Trabalhamos para a incerteza’, dizia Santo Agostinho (354-430). E Pascal acrescentava: “quando se trabalha para o amanhã e para o incerto, age-se com razão”. A obrigação de apostar ilustra a condição trágica do homem moderno (...). Os que resistiram ao poder e à fatalidade, esses ‘príncipes do possível’ que são heréticos e dissidentes, enganaram-se, sem dúvida, algumas vezes. Não deixaram, no entanto, de marcar o caminho e de salvar o passado da pilhagem grosseira dos vencedores. O inimigo é poderoso e organizado. Trata-se, sem garantia do resultado, de consagrar uma energia absoluta às convicções sem dúvida relativas (...) Ao contrário e oposto à crença, o engajamento político, a aposta razoável (estratégica) sobre o futuro histórico tem sempre a sua parte irredutível de erro e de risco, dado que ‘todo jogador aposta com certeza para ganhar com incerteza’. Mudar o mundo é ainda interpretá-lo”.

Interpretemos, apostemos, lutemos!

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* Texto redigido a partir da participação no Seminário sobre a obra ‘Marx e a Subjetividade Humana’, no ISC da UFRJ, em setembro de 2011, e redigido entre 23 e 31 de janeiro de 2012.

Bibliografia:
1 VASCONCELOS, Eduardo Mourão. Karl Marx e a Subjetividade Humana, Editora Hucitec, 2010.
2  MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Editora Boitempo, SP, 1844/2004.
MARX, Karl; Engels, Friedrich. Sobre la Religión I, Ediciones Sígueme, Espanha, 1975.
4  BOFF, Leonardo. Cristianismo: o mínimo do mínimo, Editora Vozes, Petrópolis, 2011.
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos, op.cit.
6 FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
7 DELEUZE, Gilles. In: BENSAID, Daniel. Trabalhar para a Incerteza: "Marxismo, Modernidade e Utopia", Editora Xamã, São Paulo, 2000
8 LEITE, José Corrêa, org.. Marxismo, Modernidade e Utopia, Editora Xamã, SP, 2000
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O texto "A APOSTA DE MARX" será publicado pela Editora Hucitec, no volume IV da coleção 'Karl Marx e a subjetividade humana', organizada pelo professor Eduardo Mourão Vasconcelos.

 

(01 de março/2012)
CooJornal nº 776



Chico Alencar é Professor licenciado de Prática do Ensino de História da UFRJ e deputado federal (PSOL/RJ).

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