24/09/2005
Número - 443

ARQUIVO
OPINIÃO ACADÊMICA

Opinião Acadêmica

Machado de Assis e Guimarães Rosa: “O Espelho”

Luísa Trias Folch
Universidade de Granada
(Espanha)


     No Brasil, o conto, como gênero literário, afirma-se particularmente com o advento do Romantismo. E, no Brasil como na Europa, a novidade relevante é neste século a descoberta da psicologia da personagem. Machado vive culturalmente todas as experiências intelectuais do seu tempo de transição de um Romantismo a um Realismo que, no Brasil como na Europa, caracteriza a segunda metade do século XIX. Eis então a crítica religiosa, o evolucionismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientismo, em todas as suas possíveis valências, mobilizados em tirar das leis da experiência quotidiana uma poética, no seu caso, de tal maneira original que chegou a ser considerada “uma ilha” em relação ao novo como ao velho mundo[1]. Uma ars scribendi peculiaríssima, que se rege no desenho das personagens, nas psicologias e numa série de pequenos acontecimentos requintadamente transfundidos na matéria literária. Tanto o homem quanto o escritor refugem do gesto trágico, elegíaco ou solene, assim como do tom enfático, possuindo assim o dom da medida e da discrição, a sua linguagem fluente e atenta, sem indulgências românticas nem ornamentações.

A partir dos anos de 1950, um fenômeno novo marcou a ficção brasileira: um conjunto de relatos centrados no mundo rural, mas distantes dos padrões convencionais de realismo, que se encontravam, por exemplo, no chamado romance de 30. O crítico José Hildebrando Dacanal designou esses textos como "nova narrativa épica brasileira". São obras que fixam o "desaparecimento do interior caboclo-sertanejo, face o avanço vertiginoso da civilização racionalista, capitalista e urbana." Esta civilização, nascida no litoral, e que avançava rumo ao oeste, era o fruto da expansão burguesa ocorrida, principalmente, durante a Era Vargas e a Era JK. Outros críticos referem-se a tais obras como integrantes de um ciclo de "realismo mágico", pois eventos extraordinários ( e inverossímeis do ponto de vista do racionalismo urbano) ocorrem nas mesmas. Os personagens dos relatos vivem esses acontecimentos estranhos sem que isso os surpreenda. Ou seja, a sua consciência de mundo admite como real e natural o que julgamos inconcebível. O mais significativo de todos estes romances - e que, ao ser publicado em 1956, abriu caminho para a criação de um novo modelo narrativo no país- foi Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Mas, antes e imediatamente depois de Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa tinha publicado contos: Sagarana (1946) e Primeiras Estórias (1964).

Dois escritores da categoria de Machado de Assis e de Guimarães Rosa escreveram, com quase um século de diferença, um conto de título idêntico: "O Espelho". Espelho, antes de tudo diz respeito a olhar, ou mais ainda, de como nosso próprio olhar se cruza consigo próprio, voltando-se sobre si mesmo. Embora a narrativa e a abordagem de cada conto sejam distintas, podemos dizer que o tema em questão focaliza a mesma problemática e seus avatares: o sujeito dividido em busca de uma identidade.

Enfocaremos, seguindo o estudo de Maria Lúcia Homem[2], o desenrolar dessa questão e o tratamento dado a ela por cada um dos autores. Quer essa identidade se encontre momentaneamente obliterada - e a estratégia utilizada pela personagem seja a de se apoiar na imagem produzida pelo espelho - como em Machado de Assis; quer se trate de um questionamento radical dessa mesma identidade do sujeito - e a própria imagem seja colocada em suspenso - como em Guimarães Rosa.

O tema do espelho, como imitação da vida, cuja origem encontra-se na Antigüidade, esteve sempre relacionado com o autoconhecimento. De fato, o espelho é um fenômeno cuja fascinação consiste em reproduzir, em duplicar os seres. Cada ser, diante do espelho, possui seu duplo, que o contempla, na medida em que é também contemplado. Este duplo é um outro ser, semelhante ao original, mas silencioso e mais misterioso. As imagens refletidas parecem oscilar entre dois pólos contrários: de um lado, o puro-falso semblante, a sombra vã, a ilusão da realidade; de outro, a aparição de um poder para além, de uma realidade incompreensível, mais forte que aquilo que o mundo oferece aos olhos. No primeiro caso, será o reflexo do mundo exterior? No segundo, será o do mundo interior? Este processo ante o espelho é essencial para descobrir a relação “eu/mundo”. Pois é diante do espelho, onde conhecemos os outros, e eles nos conhecem: no espelho cruzam-se os olhares.

Estamos no reino da metafísica e da transcendência - o início dos dois contos o confirma. Em palavras de Maria Lúcia Homem: No enredo de Machado de Assis, cinco "investigadores de coisas metafísicas" (MA, p. 71) discutem ao longo da noite: trata-se de um debate de "questões de alta transcendência" (MA, p. 71). Inclusive o subtítulo do conto o reitera: "Esboço de uma nova teoria da alma humana". Vemos em Guimarães Rosa, também no primeiro parágrafo, a delimitação desse campo do oculto e do transcendente. O mesmo significante utilizado por Machado se repete: "Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério" (GR, p. 61). Assim, para ele, o conceito de transcendência toma uma vasta amplitude: mesmo o real, o concreto do fato - e até sua ausência - é englobado no domínio do misterioso: "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo" (GR, p. 61).

“O Espelho” de Machado de Assis encontra-se no volume Papéis Avulsos, de 1882[3]. Sua publicação é praticamente contemporânea à do romance Brás Cubas (1881), conhecido pela crítica como o romance que deflagrou a chamada fase realista do autor. “O Espelho”, pode ser considerado como um momento de ruptura do autor na escrita.

A começar pelo título, tem-se a postura sutilmente corrosiva e implacável na representação dos desvios à norma ou da incapacidade de se estabelecer uma norma para uma sociedade estruturada em bases contraditórias. O enredo do conto é simples: um alferes da guarda nacional, ao visitar uma parenta no interior, percebe que, sem a farda, não consegue ver com nitidez sua imagem refletida no espelho.

No entanto, uma série de indeterminações enfumaçam a atmosfera do conto. Como assinala Ana Lúcia Tettamanzy[4], a própria frase inicial instaura duas atmosferas, uma numérica e outra temporal: “Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transparência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos”. A indeterminação numérica é justificada pelo narrador em virtude do caráter silencioso de um dos personagens. O ambiente também aspira à indefinição, ainda que exista uma referência espacial: “A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com suas agitações e aventuras, e o céu, [...] estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo” (MA, p. 71). Outro aspecto que gera indefinição é que na cena inicial – os rapazes na sala – é interrompida com a inserção do relato do quinto participante, que vem a ser o alferes Jacobina. Ele começa a contar seu caso justamente “no meio da noite”, considerando a “inconsistência dos pareceres” dos amigos sobre a natureza da alma e sua opção por não discutir, mas por dar “a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata” (MA, p. 71).

Em realidade, entre quatro amigos, reunidos em uma casa do velho Rio, em pleno século XIX, encontra-se Jacobina, o quinto homem, que, por seu lado, recusa-se a entrar em torneios intelectuais, para os quais está evidentemente convidado nesse contexto. Instado a participar dos debates, Jacobina somente o aceita com a condição de não ser contraditado. Isto é, poderíamos dizer, de não haver resistências sobre o seu dizer, o que não deixa de ser uma espécie de olhar —sobre aquilo mesmo que conta— e especular, visto que, sem resistências (sem a interposição da imagem do outro em si mesmo) esse “olhar-dizer” acaba sendo de si para si.

É interessante que, mantida a solidão especular, surge o monólogo e, bem para além do debatedor, Jacobina torna-se narrador. Recusando-se a debater, recusando-se à intervenção do outro, tem-se o efeito técnico de Jacobina tornar-se um narrador em primeira pessoa. Narrador interno, pois o conto continua a ser narrado em terceira pessoa pelo autor – são, portanto, dois narradores.

Jacobina afirma existirem duas almas no sujeito, a interior e a exterior; essa existência interior é submetida às flutuações da vida exterior e dos costumes. Inclusive afirma, ironicamente: “[...] conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... [...] Esta senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião...” (MA, p. 72).

No conto de Machado, a teoria das almas parece ser a premissa sobre a qual a narrativa vai se desenvolver e prosseguir. Ao mesmo tempo, ela é a tese a ser demonstrada,  e sua demonstração justifica a narrativa de Jacobina. Agora, técnica e conteúdo vão-se conjugar. Do narrar em terceira pessoa, passa-se à uma narrativa em primeira pessoa, e é a personagem, descrita em terceira pessoa, quem irá tomar o relais e conduzir a narrativa a partir de seu próprio e único ponto de vista.

Não haveria grande coisa aí a ressaltar, nessa mudança de ponto de vista, se entre um e outro não houvesse o pedido de Jacobina de não ser argüido e nem interrompido, principalmente por disputas; e, ainda, se não houvesse um espelho no título. Em palavras de Gustavo Adolfo Ramos Mello Neto[5], “é como se alma de fora e alma de dentro se bastassem num falso diálogo, um diálogo fusional. Uma parece existir somente para a outra, apenas nas posições que se colocam mutuamente, uma para outra, evitando a todo o custo a existência da negativa e da contradição”.

O narrador agora constituído, Jacobina, relata então que, aos 25 anos, mesmo sendo muito pobre, fora nomeado alferes da guarda nacional: um grande acontecimento em sua família. Comenta o narrador que tudo fora alegria sincera, mas mesmo assim, note-se bem, diz, "houve despeito e rancor e ranger de dentes pela vila [...] Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés " (MA, p. 72). E faz notar que esse mesmo olhar não deixa de ter algo que se relaciona com espelho. Vejamos que os rapazes, agentes do olhar de revés, são pois os semelhantes, os iguais do sujeito que se faz notar invejado. É por esse caminho que a glória de nosso recém-patenteado alferes se faz ver, pelo espelho invejoso e hostil de seu semelhante. De outro lado, além de hostilidade, "em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação " (idem). Entre essas, encontram-se novamente os iguais: "e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos..." (idem). Além do mais, a mãe "ficou tão orgulhosa! tão contente!"(idem) E nossa personagem, então, metamorfoseia-se em sua própria farda, sua apresentação.

O espelho, por seu turno, vai surgir bem depois na seqüência linear do conto. Entretanto, ele está aí de forma bem óbvia nas duas almas que (se) olham. A alma exterior seria algo muitíssimo investido, tão investido que organiza-se segundo a nossa própria forma e passa a nos olhar de fora. Isso quer dizer que o olhar, o observar, jamais é neutro, está marcado pela posição do observador.

Na visita à casa de uma tia do interior, Jacobina percebe que sua existência ficara reduzida ao título que ele obtivera: “ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa” (MA, p. 76). Tudo isso chegou ao ponto de tia Marcolina instalar no quarto de nosso protagonista, o então jovem Jacobina, um espelho.

O espelho recebe no texto a marca do especial. Ele é destacadamente diferente dos outros móveis: "obra rica e magnífica que destoava do resto da casa" (MA, p. 77). Frente a isso, ele é chamativo e o é de forma redundante. Isso porque, além de diferente, é muito (para a época e para a percepção de nosso herói) cheio de atavios, tais como delfins esculpidos e enfeites de madrepérola. Mais que tudo, espelho grande, até ao extremo de reconhecer-se só como alferes. Diz Jacobina: “Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade (MA, p. 76)”. O problema complica-se quando Jacobina defronta-se com a solidão na casa da tia (esta fora chamada para atender uma emergência, e os escravos da casa fogem). “Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. (MA, p. 76) ) Era como se ele “houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular; [...] Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico” (MA, p. 77).

Esse estado de inação melancólica só era amenizado durante o sono. “Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver” (MA, p. 78). Mas, aí se percebe algo mais grave: o próprio sujeito, embora sonhando, só se reconhecia como alferes, e não mais como homem.

O alferes eliminou o homem: “Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. [...] Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...”.( MA, p. 78) O tempo humano, marcado primeiro pelo relógio, é também simbolizado depois pela luz do dia, será, finalmente, recuperado pela imagem dele no espelho, mas não como homem senão como alferes.

Conta, então, Jacobina que, desde que ficara só, nenhuma vez olhara no espelho. E veja-se que não deixara de fazê-lo por alguma espécie de resolução, mas porque "não tinha motivo". Não tem motivos para olhar no espelho por que o espelho não está ali para representar-se a si mesmo, mas representar outros olhares. Ao fim de oito dias, vê-se Jacobina, contudo, frente ao espelho, justamente "com o fim de achar-se dois ". Evidentemente, para quebrar a solidão. Mas, acontece que, quando decide olhar-se no espelho, tem uma revelação: “O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra” (MA, p. 80). Ante esta situação, será o próprio espelho que lhe sugere a solução: “Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Lembrou-me vestir a farda de alferes”. Ao fazê-lo, achava, enfim, sua alma exterior: "Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho" (idem). E todos os dias, num momento escolhido, nosso herói postava-se frente ao espelho, olhava, gesticulava, falava, era, pois, outro. Mas não sem a farda. E foi assim que pode, então, suportar mais seis dias naquela solidão. E, como afirma Gustavo Adolfo Mello Netto[6], “a farda é o complemento do espelho —é ou está para ele – e o conjunto todo é o que dá forma ao sujeito, entenda-se sentido. Alferesfarda, eis o nome do objeto para o desejo, na verdade de ser desejado”.

O trágico nessa história é a revelação de um mecanismo perverso de condicionamento social, em que o homem não lamenta ter perdido a si, mas ter perdido o olhar do outro: sem o olhar do outro, a imagem dele socialmente aceitada, não é nada. Assim, vestindo de novo a farda de alferes, tudo volta ao que era antes: “Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...” (MA, p. 81)

A moral da história é evidente: a essência do ser opõe–se à sua aparência ou, ainda, a existência interior encontra-se subordinada à existência social do indivíduo – representada pela farda – ao olhar do outro sobre si. Além da gravidade do que foi relatado, o final do texto permanece em aberto, pois o narrador sai rápida e furtivamente do recinto, deixando os outros sem reação. E, diz-nos finalmente o autor, "quando os outros voltaram a si [da surpresa], o narrador tinha descido as escadas" (MA, 81). A narração se dá de tal maneira que a narrativa é impermeável ao testemunho, ao terceiro. É dessa forma que Jacobina desce as escadas antes que alguém possa questionar a veracidade de sua estória e o acertado de suas teorias.

O conto, intitulado “O espelho”, de Guimarães Rosa[7], que se encontra em Primeiras Estórias (1964), dialoga com o de Machado de Assis, ainda que subverta certos conceitos. O que está em jogo aqui, parece ser a inversão de valores, que a sociedade contemporânea vivencia como verdade pelos cânones de ciência e das instituições que a representam. Se, em Machado, a denúncia da máscara era sutil, expressa no comportamento em sociedade, em Guimarães Rosa muda o cenário.

Na estória nº 11 (estória: neologismo de sabor popular, destinada a absorver um dos significados de “história” ou de “conto”, que designada em uma “história” oralmente relatada ou uma narração), intitulada “O Espelho”, o narrador apresenta-se como protagonista: trata-se de um sujeito que se coloca diante de um espelho, procurando reeducar seu olhar, apagando as imagens do seu rosto externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo, conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.

A estória, narrada em primeira pessoa, começa com essas palavras: “Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vanagloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade-um espelho?” (GR, p. 61)

Nas Primeiras Estórias de Guimarães Rosa, à primeira pessoa da narração pode corresponder o eu, –não do autor, e, sim de um relator nominalmente designado, cuja personalidade se vai delineando paralelamente ao desenrolar-se da ação, ou a pessoas sem nome mas possuidores de personalidade, como o narrador de “O Espelho”. Neste narrador vamos identificando um desses solitários autodidatas da província que se emaranham nos fios de suas infindáveis especulações. Assim é que começa a explicar ao seu ouvinte ou leitor (e não interlocutor, porque nunca aparece a sua fala) sua experiência e, em conseqüência, suas reflexões:

“O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamene imudado, do qual lhe dão imagem fiel. [...] Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?. O senhor dirá: as fotografias o comprovam. [...]  Ainda que tirados de imediato um após outro, os retratos sempre serão entre si muito[8] diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes”.(GR, p. 61)

Mas, embora o narrador dê a entender a imediata réplica do seu ouvinte ou leitor, que seria que qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho, esta hipótese é refutada do modo seguinte: “o experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Tente, aliás, fazê-lo, e terá notáveis surpresas. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições [...] E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos que cresceram e que se afizeram, mais e mais. [...] Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim.” (GR, p. 62) Para o narrador, “o universo é, ao mesmo tempo, ordenado e caótico. Sua ordem, inacessível, à nossa percepção, pauta nossas existências, pre-estabelecidas, imutáveis. Necessitados de segurança, pelejamos “para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica”. Nesse esforço inventamos as três faces do tempo: ora, a nossa duração é indivisível e cada um dos instantes sucessivos que rotulamos de presente contém todo o passado e todo o futuro. Ignorando-o, agitamo-nos e procuramos reverter o tempo, livrar-nos do passado ou desviar o futuro, trocar de destino, iludir-nos com a idéia de optar, quando apenas estamos trilhando a senda “dos futuros antanhos”. Fazendo planos, tomando decisões, organizando a nossa vida, não notamos que “algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente” (idem).

Os homens primitivos pensavam que o reflexo de uma pessoa fosse a alma; outros, aliás, identificavam a alma com a sombra do corpo. Antigamente costumava-se tapar os espelhos, ou votá-los contra a parede, quando morria alguém da casa. Também os videntes servem-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, “não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade?”, pergunta o narrador.

A experiência do narrador continua com o seguinte acontecimento: “Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo conente, vaidoso. Descuidado, avistei... Explico-lhe: dois espelhos –um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício- faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desgradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era –logo descobri...era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?

Desde aí, comecei a procurar-me –só eu por detrás de mim- à tona dos espelhos [...]”(GR, p. 64)

Quem se olha em espelho, o faz partindo de preconceito afetivo; ninguém se acha na verdade feio. “ O que se busca, então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão. Eu, porém, era um perquiridor imparcial, neutro absolutamente. O caçador de meu próprio aspecto formal, movido por curiosidade, quando não impessoal, desinteressada; para não dizer o urgir científico” (idem).

Os contos de Guimarães Rosa, em geral, representam, de uma ou outra maneira, sondagens no inconsciente; assim a evocação e reconstrução, pelo adulto, de vivências, neste caso de juventude, constitui um monólogo do introspectivo à procura do próprio eu sob as camadas superpostas pelas contingências do viver. Por isso o narrador continua dizendo:

“O senhor, como os demais, não vê que seu rosto é apenas um movimento deceptivo, constante.[...] Sendo assim, necessitava eu de transverberar o embuço, a travisagem daquela máscara, a fito de devassar o núcleo dessa nebulosa –a minha vera forma. Tinha de haver um jeito. [...] Concluí que, interpretando-se no disfarce do rosto externo diversas componentes, o problema seria o de submetê-las a um bloqueio “visual” ou anulamento perceptivo, a suspensão de uma por uma, desde as mais rudimentares, grosseiras, ou de inferior significado”. (GR, p. 64-65)

Temos aqui o processo inverso ao da personagem do conto de Machado de Assis. Enquanto Jacobina eclipsou-se como sujeito frente à imagem, e a solução encontrada por ele, sua "salvação", foi justamente a identificação com o ideal transmitido pelo espelho; a personagem de Guimarães Rosa busca justamente despojar-se dessas falsas peles e falsas imagens que são as identificações especulares - "capas de ilusão".

Em primeiro lugar, a personagem busca desvencilhar-se de seu "elemento animal" (GR, p. 65) - a identificação com o "atávico em nós", o que há de primitivo e animal, o reino da natureza. Em segundo lugar, busca "deixar de ver" em seu rosto os traços hereditários - a família que nos educa e com a qual certamente estabeleceremos pactos identificatórios: "as parecenças com os pais e avós" que são um "lastro evolutivo residual" (GR, p. 70). É nesse momento que Guimarães Rosa deixa escapar uma de suas frases lapidares: "Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto" (idem). Em seguida, a personagem tenta livrar-se do contágio das paixões, todas, "manifestadas ou latentes" (GR, p. 66); seguidas das idéias e sugestões de terceiros, dos efêmeros interesses e demais "pressões psicológicas transitórias" (idem).

No entanto, como a transparência não vinha, o personagem desiste por um tempo; é justamente nesse estado distraído, quando já havia esquecido do problema, que o olhar flagra o espelho vazio, sentindo-se “des-almado”. Como no conto machadiano, acontece o mais temido pelo homem: não ver a sua imagem no espelho, perder sua identidade: “Um dia...[...] Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O Ficto. O sem evidência física. Eu era –o transparente contemplador?... Tirei-me, aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona. [...] Voltei a querer encarar-me. E, o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me espelhavam nem eles! [...] Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um...des-almado?. [...]Seríamos não muito mais que as crianças –o espírito do viver não passando de ímpetos espasmódicos, relampajados entre miragens: a esperança e a memória”( GR, p. 67). Sem substrato algum, a imagem esvai-se, não há mais objeto a ser visto, mas somente o sujeito atônito, o "transparente contemplador". E, o que mais estarrece a personagem é que, além da imagem perdida, eclipsa o seu próprio olhar. Ele não mais vê os seus olhos, nem eles: "E o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos" (idem).

“O medo ante o desconhecido, fez com que abandonasse o caso, lembrando-se de Terêncio e da representação da Prudência nos antigos: “[...] os antigos; acudiu-me que representavam justamente com um espelho, rodeado de uma serpente, a Prudência, como divindade alegórica. De golpe, abandonei a investigação. Dexei, mesmo, por meses, de me olhar em qualquer espelho.[...]” (GR, p. 68).

Finalmente, já no mundo irreal e mágico dos contos roseanos, a experiência conclui com uma nova realidade possível, que daria sentido ao semsentido da existência humana. “Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei –não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância. [...] Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava –já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E... Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto –quase delineado, apenas- mal emergindo qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só. Será que o senhor nunca compreenderá?”. (GR, p. 67-68)

A imagem não se define, assim como a resposta sobre o que o espelho revela sobre a alma e seu estar no mundo é uma pergunta irrespondível, que o narrador faz questão de deixar em aberto, para que o ouvinte ou leitor devolva a pergunta:: “Será este nosso desengonço e mundo o plano –intersecção de planos –onde se completam de fazer as almas? [...] Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria; sua técnica –ou pelo menos parte- exigindo o consciente alijamento. o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? depois, o “salto mortale”...digo-o, do jeito, não porque os acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisamente de toque e timbre novos as comuns expressões, amortecidas... E o julgamento-problema, podendo sobreviver com a simples pregunta: -“Você chegou a existir?”. (GR, p. 68)

Assim como o rosto finalmente descoberto remonta à memória, a um menos-que-menino, registro arcaico do que já foi, imerso nas profundezas abissais do inconsciente, também as palavras remetem a novos significados, que precisam ser reinventadas para movimentarem o que está atrofiado.

Guimarães Rosa, apesar de referir em “O Espelho” a origem do narrador de não-urbana – “sou do interior, o senhor também” (GR, p. 67) –, o que explica as referências a episódios da cultura popular, como o medo dos espelhos e das assombrações, o narrador desfila referências próprias do conhecimento letrado, como experiências de matemáticos com a quarta dimensão ou o mito de Narciso: “[...] a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagos, lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos”.( GR, p. 62)

Narciso é o herói da consciência, já que trava com as forças da alma uma luta interior arquetípica em procura de si mesmo. Para compreender, porém, a importância deste personagem entre os antigos, é necessário compreender que entre eles não havia introspeção no sentido que modernamente se dá a essa palavra: elaboração de um mundo interior, íntimo, secreto, complexo, como é o mundo do “eu”. Na Grecia antiga, pelo contrário, o homem procurava-se a si mesmo, encontrando-se no outro, neste espelho que para ele é todo aquele que constitui aos seus olhos seu “alter ego”. Na medida em que é um desvio a este comportamento geral, o olhar de Narciso para si mesmo representaria o primeiro olhar do homem lançado em sua própria direção. Como ato fundador da autoconsciência, tal como hoje se concebe, a reflexão narcisista constitui o princípio de individualidade. No centro do mito encontra-se o olhar, em sua função de ilusão e ambigüidade. Entre os gregos os olhos eram como espelhos: o que olha vê sua imagem reflexada nos olhos do outro, vendo-se a si mesmo.

Em Machado de Assis, a máscara social reconhece-se na imagem do espelho, em Guimarães Rosa tem-se a necessidade de desfolhar as camadas de ilusão sobre o mundo, coisas que nos sonhos, na loucura e na ingênua espontaneidade das crianças sobrevivem, como bem atestam os demais personagens dos contos de Primeiras Estórias.


[1] Cfr. Amina Di Munno, “Paradoxo, ironia e loucura em alguns contos de Machado de Assis”, Versão do posfácio publicado em: J. M. Machado de Assis, La Cartomante e altri racconti, Einaudi, Torino 1990
[2] Vid. Maria Lúcia Homem, “Reflexos de Espelhos”, in Estados Gerais de Psicoanálise de São Paulo.
[3] Vid. Machado de Assis, "O Espelho", Contos, São Paulo, Ed. Moderna, 1984, pp. 71-81 (doravante abreviado MA);
[4] Vid. Tettamanzy, Ana Lúcia, “Luz e sombra na vida nacional”, Doutoranda PPGLetras/Ufrgs.

[5] Vid. Mello Neto, Gustavo Adolfo Ramos,  “Espelho e Ideal. Machado de Assis e um pouco de psicoanálise”, in Acheronta. Revista de Psicoanálisis y Cutlura, nº 17, julho 2003.

[6] Vid. “Espelho e Ideal. Machado de Assis e um pouco de psicoanálise”,

Paraná/Santa Catarina, dezembro de 2002 à 23 de janeiro de 2003.
[7] Guimarães Rosa nasceu em 1908, no mesmo ano em que morreu Machado de Assis. Em 1961, recebeu o Prémio Machado de Assis. Vid. Guimarães Rosa, J., "O Espelho", Primeiras Estórias, Rio de Janeiro, Liv. José Olympio Ed., 1981, pp. 61-68 (doravante abreviado GR).
[8] As palavras são sublinhadas pelo próprio autor.

 


Luísa Trias Folch
Professora Doutora da Universidade de Granada
netapia@ugr.es