No Brasil, o conto, como gênero literário, afirma-se
particularmente com o advento do Romantismo. E, no Brasil como na Europa, a
novidade relevante é neste século a descoberta da psicologia da personagem.
Machado vive culturalmente todas as experiências intelectuais do seu tempo de
transição de um Romantismo a um Realismo que, no Brasil como na Europa,
caracteriza a segunda metade do século XIX. Eis então a crítica religiosa, o
evolucionismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientismo, em todas as suas
possíveis valências, mobilizados em tirar das leis da experiência quotidiana
uma poética, no seu caso, de tal maneira original que chegou a ser considerada
“uma ilha” em relação ao novo como ao velho mundo[1].
Uma ars scribendi peculiaríssima, que se rege no desenho das
personagens, nas psicologias e numa série de pequenos acontecimentos
requintadamente transfundidos na matéria literária. Tanto o homem quanto o
escritor refugem do gesto trágico, elegíaco ou solene, assim como do tom
enfático, possuindo assim o dom da medida e da discrição, a sua linguagem
fluente e atenta, sem indulgências românticas nem ornamentações.
A
partir dos anos de 1950,
um fenômeno novo marcou a ficção brasileira: um
conjunto de relatos centrados no mundo rural, mas distantes dos padrões
convencionais de realismo, que se encontravam, por exemplo, no chamado romance
de 30. O crítico José Hildebrando Dacanal designou esses textos como "nova
narrativa épica brasileira". São obras que fixam o "desaparecimento do
interior caboclo-sertanejo, face o avanço vertiginoso da civilização
racionalista, capitalista e urbana." Esta civilização, nascida no litoral, e
que avançava rumo ao oeste, era o fruto da expansão burguesa ocorrida,
principalmente, durante a Era Vargas e a Era JK. Outros críticos referem-se a
tais obras como integrantes de um ciclo de "realismo mágico", pois eventos
extraordinários ( e inverossímeis do ponto de vista do racionalismo urbano)
ocorrem nas mesmas. Os personagens dos relatos vivem esses acontecimentos
estranhos sem que isso os surpreenda. Ou seja, a sua consciência de mundo
admite como real e natural o que julgamos inconcebível. O mais significativo
de todos estes romances - e que, ao ser publicado em 1956, abriu caminho para
a criação de um novo modelo narrativo no país- foi Grande sertão: veredas,
de João Guimarães Rosa. Mas, antes e imediatamente depois de Grande sertão:
veredas, Guimarães Rosa tinha publicado contos: Sagarana (1946) e
Primeiras Estórias (1964).
Dois escritores da
categoria de Machado de Assis e de Guimarães Rosa escreveram, com quase um
século de diferença, um conto de título idêntico: "O Espelho". Espelho, antes
de tudo diz respeito a olhar, ou mais ainda, de como nosso próprio olhar se
cruza consigo próprio, voltando-se sobre si mesmo. Embora a narrativa e a
abordagem de cada conto sejam distintas, podemos dizer que o tema em questão
focaliza a mesma problemática e seus avatares: o sujeito dividido em busca de
uma identidade.
Enfocaremos, seguindo o estudo
de Maria Lúcia Homem[2],
o desenrolar dessa questão e o tratamento dado a ela por cada um dos autores.
Quer essa identidade se encontre momentaneamente obliterada - e a estratégia
utilizada pela personagem seja a de se apoiar na imagem produzida pelo espelho
- como em Machado de Assis; quer se trate de um questionamento radical dessa
mesma identidade do sujeito - e a própria imagem seja colocada em suspenso -
como em Guimarães Rosa.
O tema do espelho,
como imitação da vida, cuja origem encontra-se na Antigüidade, esteve sempre
relacionado com o autoconhecimento. De fato, o espelho é um fenômeno cuja
fascinação consiste em reproduzir, em duplicar os seres. Cada ser, diante do
espelho, possui seu duplo, que o contempla, na medida em que é também
contemplado. Este duplo é um outro ser, semelhante ao original, mas silencioso
e mais
misterioso.
As imagens refletidas parecem oscilar entre dois pólos contrários: de um lado,
o puro-falso semblante, a sombra vã, a ilusão da realidade; de outro, a
aparição de um poder para além, de uma realidade incompreensível, mais forte
que aquilo que o mundo oferece aos olhos. No primeiro caso, será o reflexo do
mundo exterior? No segundo, será o do mundo interior? Este processo ante o
espelho é essencial para descobrir a relação “eu/mundo”. Pois é diante do
espelho, onde conhecemos os outros, e eles nos conhecem: no espelho cruzam-se
os olhares.
Estamos no reino
da metafísica e da transcendência - o início dos dois contos o confirma. Em
palavras de Maria Lúcia Homem: No enredo de Machado de Assis, cinco
"investigadores de coisas metafísicas" (MA, p. 71) discutem ao longo da noite:
trata-se de um debate de "questões de alta transcendência" (MA, p. 71).
Inclusive o subtítulo do conto o reitera: "Esboço de uma nova teoria da alma
humana". Vemos em Guimarães Rosa, também no primeiro parágrafo, a delimitação
desse campo do oculto e do transcendente. O mesmo significante utilizado por
Machado se repete: "Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um
mistério" (GR, p. 61). Assim, para ele, o conceito de transcendência toma uma
vasta amplitude: mesmo o real, o concreto do fato - e até sua ausência - é
englobado no domínio do misterioso: "Quando nada acontece, há um milagre que
não estamos vendo" (GR, p. 61).
“O Espelho” de Machado de Assis
encontra-se no volume Papéis Avulsos, de 1882[3].
Sua publicação é praticamente contemporânea à do romance Brás Cubas
(1881), conhecido pela crítica como o romance que deflagrou a chamada fase
realista do autor. “O Espelho”, pode ser considerado como um momento de
ruptura do autor na escrita.
A começar pelo
título, tem-se a postura sutilmente corrosiva e implacável na representação
dos desvios à norma ou da incapacidade de se estabelecer uma norma para uma
sociedade estruturada em bases contraditórias. O enredo do conto é simples: um
alferes da guarda nacional, ao visitar uma parenta no interior, percebe que,
sem a farda, não consegue ver com nitidez sua imagem refletida no espelho.
No entanto, uma série de
indeterminações enfumaçam a atmosfera do conto. Como assinala Ana Lúcia
Tettamanzy[4],
a própria frase inicial instaura duas atmosferas, uma numérica e outra
temporal: “Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de
alta transparência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor
alteração aos espíritos”. A indeterminação numérica é justificada pelo
narrador em virtude do caráter silencioso de um dos personagens. O ambiente
também aspira à indefinição, ainda que exista uma referência espacial: “A casa
ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja
luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade,
com suas agitações e aventuras, e o céu, [...] estavam os nossos quatro ou
cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais
árduos problemas do universo” (MA, p. 71). Outro aspecto que gera indefinição
é que na cena inicial – os rapazes na sala – é interrompida com a inserção do
relato do quinto participante, que vem a ser o alferes Jacobina. Ele começa a
contar seu caso justamente “no meio da noite”, considerando a “inconsistência
dos pareceres” dos amigos sobre a natureza da alma e sua opção por não
discutir, mas por dar “a mais clara demonstração acerca da matéria de que se
trata” (MA, p. 71).
Em realidade,
entre quatro amigos, reunidos em uma casa do velho Rio, em pleno século XIX,
encontra-se Jacobina, o quinto homem, que, por seu lado, recusa-se a entrar em
torneios intelectuais, para os quais está evidentemente convidado nesse
contexto. Instado a participar dos debates, Jacobina somente o aceita com a
condição de não ser contraditado. Isto é, poderíamos dizer, de não haver
resistências sobre o seu dizer, o que não deixa de ser uma espécie de olhar
—sobre aquilo mesmo que conta— e especular, visto que, sem resistências (sem a
interposição da imagem do outro em si mesmo) esse “olhar-dizer” acaba sendo de
si para si.
É interessante
que, mantida a solidão especular, surge o monólogo e, bem para além do
debatedor, Jacobina torna-se narrador. Recusando-se a debater, recusando-se à
intervenção do outro, tem-se o efeito técnico de Jacobina tornar-se um
narrador em primeira pessoa. Narrador interno, pois o conto continua a ser
narrado em terceira pessoa pelo autor – são, portanto, dois narradores.
Jacobina afirma
existirem duas almas no sujeito, a interior e a exterior; essa existência
interior é submetida às flutuações da vida exterior e dos costumes. Inclusive
afirma, ironicamente: “[...] conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima,
- que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação
lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra:
um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... [...] Esta
senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião...” (MA, p.
72).
No conto de
Machado, a teoria das almas parece ser a premissa sobre a qual a narrativa vai
se desenvolver e prosseguir. Ao mesmo tempo, ela é a tese a ser demonstrada,
e sua demonstração justifica a narrativa de Jacobina. Agora, técnica e
conteúdo vão-se conjugar. Do narrar em terceira pessoa, passa-se à uma
narrativa em primeira pessoa, e é a personagem, descrita em terceira pessoa,
quem irá tomar o relais e conduzir a narrativa a partir de seu próprio
e único ponto de vista.
Não haveria grande coisa aí a
ressaltar, nessa mudança de ponto de vista, se entre um e outro não houvesse o
pedido de Jacobina de não ser argüido e nem interrompido, principalmente por
disputas; e, ainda, se não houvesse um espelho no título. Em palavras de
Gustavo Adolfo Ramos Mello Neto[5],
“é como se alma de fora e alma de dentro se bastassem num falso diálogo, um
diálogo fusional. Uma parece existir somente para a outra, apenas nas posições
que se colocam mutuamente, uma para outra, evitando a todo o custo a
existência da negativa e da contradição”.
O narrador agora
constituído, Jacobina, relata então que, aos 25 anos, mesmo sendo muito pobre,
fora nomeado alferes da guarda nacional: um grande acontecimento em sua
família. Comenta o narrador que tudo fora alegria sincera, mas mesmo assim,
note-se bem, diz, "houve despeito e rancor e ranger de dentes pela vila [...]
Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de
revés " (MA, p. 72). E faz notar que esse mesmo olhar não deixa de ter algo
que se relaciona com espelho. Vejamos que os rapazes, agentes do olhar de
revés, são pois os semelhantes, os iguais do sujeito que se faz notar invejado.
É por esse caminho que a glória de nosso recém-patenteado alferes se faz ver,
pelo espelho invejoso e hostil de seu semelhante. De outro lado, além de
hostilidade, "em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com
a nomeação " (idem). Entre essas, encontram-se novamente os iguais: "e a prova
é que todo o fardamento me foi dado por amigos..." (idem). Além do mais, a mãe
"ficou tão orgulhosa! tão contente!"(idem) E nossa personagem, então,
metamorfoseia-se em sua própria farda, sua apresentação.
O espelho, por seu
turno, vai surgir bem depois na seqüência linear do conto. Entretanto, ele
está aí de forma bem óbvia nas duas almas que (se) olham. A alma exterior
seria algo muitíssimo investido, tão investido que organiza-se segundo a nossa
própria forma e passa a nos olhar de fora. Isso quer dizer que o olhar, o
observar, jamais é neutro, está marcado pela posição do observador.
Na visita à casa
de uma tia do interior, Jacobina percebe que sua existência ficara reduzida ao
título que ele obtivera: “ao tempo em que a consciência do homem se obliterava,
a do alferes tornava-se viva e intensa” (MA, p. 76). Tudo isso chegou ao ponto
de tia Marcolina instalar no quarto de nosso protagonista, o então jovem
Jacobina, um espelho.
O espelho recebe
no texto a marca do especial. Ele é destacadamente diferente dos outros móveis:
"obra rica e magnífica que destoava do resto da casa" (MA, p. 77). Frente a
isso, ele é chamativo e o é de forma redundante. Isso porque, além de
diferente, é muito (para a época e para a percepção de nosso herói) cheio de
atavios, tais como delfins esculpidos e enfeites de madrepérola. Mais que tudo,
espelho grande, até ao extremo de reconhecer-se só como alferes. Diz Jacobina:
“Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a
primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade (MA, p.
76)”.
O problema
complica-se quando Jacobina defronta-se com a solidão na casa da tia (esta
fora chamada para atender uma emergência, e os escravos da casa fogem). “Minha
solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o
sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de
século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac,
feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. (MA, p. 76)
) Era como se ele “houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse
consciência da ação muscular; [...] Era como um defunto andando, um sonâmbulo,
um boneco mecânico” (MA, p. 77).
Esse estado de
inação melancólica só era amenizado durante o sono. “Acho que posso explicar
assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior,
deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio
da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes;
vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de
capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver” (MA, p. 78). Mas, aí se percebe
algo mais grave: o próprio sujeito, embora sonhando, só se reconhecia como
alferes, e não mais como homem.
O alferes eliminou
o homem: “Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o
campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os
rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem.
A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o
exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. [...] Tudo
silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno
tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...”.( MA, p. 78) O
tempo humano, marcado primeiro pelo relógio, é também simbolizado depois pela
luz do dia, será, finalmente, recuperado pela imagem dele no espelho, mas não
como homem senão como alferes.
Conta, então, Jacobina que,
desde que ficara só, nenhuma vez olhara no espelho. E veja-se que não deixara
de fazê-lo por alguma espécie de resolução, mas porque "não tinha motivo". Não
tem motivos para olhar no espelho por que o espelho não está ali para
representar-se a si mesmo, mas representar outros olhares. Ao fim de oito dias,
vê-se Jacobina, contudo, frente ao espelho, justamente "com o fim de achar-se
dois ". Evidentemente, para quebrar a solidão. Mas, acontece que, quando
decide olhar-se no espelho, tem uma revelação: “O próprio vidro parecia
conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira,
mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra” (MA, p. 80). Ante esta situação,
será o próprio espelho que lhe sugere a solução: “Estava a olhar para o vidro,
com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições
derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o
pensamento... Lembrou-me vestir a farda de alferes”. Ao fazê-lo, achava, enfim,
sua alma exterior: "Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida
com os escravos, ei-la recolhida no espelho" (idem). E todos os dias, num
momento escolhido, nosso herói postava-se frente ao espelho, olhava,
gesticulava, falava, era, pois, outro. Mas não sem a farda. E foi assim que
pode, então, suportar mais seis dias naquela solidão. E, como afirma Gustavo
Adolfo Mello Netto[6],
“a farda é o complemento do espelho —é ou está para ele – e o conjunto todo é
o que dá forma ao sujeito, entenda-se sentido. Alferesfarda, eis o nome do
objeto para o desejo, na verdade de ser desejado”.
O trágico nessa
história é a revelação de um mecanismo perverso de condicionamento social, em
que o homem não lamenta ter perdido a si, mas ter perdido o olhar do outro:
sem o olhar do outro, a imagem dele socialmente aceitada, não é nada. Assim,
vestindo de novo a farda de alferes, tudo volta ao que era antes: “Assim foi
comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava,
sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado.
Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e
sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três
horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de
solidão sem os sentir...” (MA, p. 81)
A moral da
história é evidente: a essência do ser opõe–se à sua aparência ou, ainda, a
existência interior encontra-se subordinada à existência social do indivíduo –
representada pela farda – ao olhar do outro sobre si. Além da gravidade do que
foi relatado, o final do texto permanece em aberto, pois o narrador sai rápida
e furtivamente do recinto, deixando os outros sem reação. E, diz-nos
finalmente o autor, "quando os outros voltaram a si [da surpresa], o narrador
tinha descido as escadas" (MA, 81). A narração se dá de tal maneira que a
narrativa é impermeável ao testemunho, ao terceiro. É dessa forma que Jacobina
desce as escadas antes que alguém possa questionar a veracidade de sua estória
e o acertado de suas teorias.
O conto, intitulado “O espelho”,
de Guimarães Rosa[7],
que se encontra em Primeiras Estórias (1964), dialoga com o de
Machado de Assis, ainda que subverta certos conceitos. O que está em jogo aqui,
parece ser a inversão de valores, que a sociedade contemporânea vivencia como
verdade pelos cânones de ciência e das instituições que a representam. Se, em
Machado, a denúncia da máscara era sutil, expressa no comportamento em
sociedade, em Guimarães Rosa muda o cenário.
Na estória
nº 11 (estória: neologismo de sabor popular, destinada a absorver um
dos significados de “história” ou de “conto”, que designada em uma “história”
oralmente relatada ou uma narração), intitulada “O Espelho”, o narrador
apresenta-se como protagonista: trata-se de um sujeito que se coloca diante de
um espelho, procurando reeducar seu olhar, apagando as imagens do seu rosto
externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo,
conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.
A estória, narrada
em primeira pessoa, começa com essas palavras: “Se quer seguir-me, narro-lhe;
não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries
de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo,
sem vanagloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos,
penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo,
que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade-um espelho?”
(GR, p. 61)
Nas Primeiras
Estórias de Guimarães Rosa, à primeira pessoa da narração pode
corresponder o eu, –não do autor, e, sim de um relator nominalmente designado,
cuja personalidade se vai delineando paralelamente ao desenrolar-se da ação,
ou a pessoas sem nome mas possuidores de personalidade, como o narrador de “O
Espelho”. Neste narrador vamos identificando um desses solitários autodidatas
da província que se emaranham nos fios de suas infindáveis especulações. Assim
é que começa a explicar ao seu ouvinte ou leitor (e não interlocutor, porque
nunca aparece a sua fala) sua experiência e, em conseqüência, suas reflexões:
“O espelho, são muitos,
captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com
aspecto próprio e praticamene imudado, do qual lhe dão imagem fiel. [...] Como
é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?. O senhor dirá:
as fotografias o comprovam. [...] Ainda que tirados de imediato um após outro,
os retratos sempre serão entre si
muito[8]
diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível,
distraídos das coisas mais importantes”.(GR, p. 61)
Mas, embora o
narrador dê a entender a imediata réplica do seu ouvinte ou leitor, que seria
que qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no
espelho, esta hipótese é refutada do modo seguinte: “o experimento, por sinal
ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista
das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Tente, aliás, fazê-lo, e
terá notáveis surpresas. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no
fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições
[...] E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem,
defeitos que cresceram e que se afizeram, mais e mais. [...] Os olhos, por
enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim.” (GR, p.
62) Para o narrador, “o universo é, ao mesmo tempo, ordenado e caótico. Sua
ordem, inacessível, à nossa percepção, pauta nossas existências, pre-estabelecidas,
imutáveis. Necessitados de segurança, pelejamos “para impor ao latejante mundo
um pouco de rotina e lógica”. Nesse esforço inventamos as três faces do tempo:
ora, a nossa duração é indivisível e cada um dos instantes sucessivos que
rotulamos de presente contém todo o passado e todo o futuro. Ignorando-o,
agitamo-nos e procuramos reverter o tempo, livrar-nos do passado ou desviar o
futuro, trocar de destino, iludir-nos com a idéia de optar, quando apenas
estamos trilhando a senda “dos futuros antanhos”. Fazendo planos, tomando
decisões, organizando a nossa vida, não notamos que “algo ou alguém de tudo
faz frincha para rir-se da gente” (idem).
Os homens
primitivos pensavam que o reflexo de uma pessoa fosse a alma; outros, aliás,
identificavam a alma com a sombra do corpo. Antigamente costumava-se tapar os
espelhos, ou votá-los contra a parede, quando morria alguém da casa. Também os
videntes servem-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo
esboços de futuros fatos, “não será porque, através dos espelhos, parece que o
tempo muda de direção e de velocidade?”, pergunta o narrador.
A experiência do
narrador continua com o seguinte acontecimento: “Foi num lavatório de edifício
público, por acaso. Eu era moço, comigo conente, vaidoso. Descuidado, avistei...
Explico-lhe: dois espelhos –um de parede, o outro de porta lateral, aberta em
ângulo propício- faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura,
perfil humano, desgradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me
náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era
–logo descobri...era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer
essa revelação?
Desde aí, comecei
a procurar-me –só eu por detrás de mim- à tona dos espelhos [...]”(GR, p. 64)
Quem se olha em
espelho, o faz partindo de preconceito afetivo; ninguém se acha na verdade
feio. “ O que se busca, então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo
subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas
novas capas de ilusão. Eu, porém, era um perquiridor imparcial, neutro
absolutamente. O caçador de meu próprio aspecto formal, movido por curiosidade,
quando não impessoal, desinteressada; para não dizer o urgir científico” (idem).
Os contos de
Guimarães Rosa, em geral, representam, de uma ou outra maneira, sondagens no
inconsciente; assim a evocação e reconstrução, pelo adulto, de vivências,
neste caso de juventude, constitui um monólogo do introspectivo à procura do
próprio eu sob as camadas superpostas pelas contingências do viver. Por isso o
narrador continua dizendo:
“O senhor, como os
demais, não vê que seu rosto é apenas um movimento deceptivo, constante.[...]
Sendo assim, necessitava eu de transverberar o embuço, a travisagem daquela
máscara, a fito de devassar o núcleo dessa nebulosa –a minha vera forma.
Tinha de haver um jeito. [...] Concluí que, interpretando-se no disfarce do
rosto externo diversas componentes, o problema seria o de submetê-las
a um bloqueio “visual” ou anulamento perceptivo, a suspensão de uma por uma,
desde as mais rudimentares, grosseiras, ou de inferior significado”. (GR, p.
64-65)
Temos aqui o
processo inverso ao da personagem do conto de Machado de Assis. Enquanto
Jacobina eclipsou-se como sujeito frente à imagem, e a solução encontrada por
ele, sua "salvação", foi justamente a identificação com o ideal transmitido
pelo espelho; a personagem de Guimarães Rosa busca justamente despojar-se
dessas falsas peles e falsas imagens que são as identificações especulares -
"capas de ilusão".
Em primeiro lugar,
a personagem busca desvencilhar-se de seu "elemento animal" (GR, p. 65) - a
identificação com o "atávico em nós", o que há de primitivo e animal, o reino
da natureza. Em segundo lugar, busca "deixar de ver" em seu rosto os traços
hereditários - a família que nos educa e com a qual certamente estabeleceremos
pactos identificatórios: "as parecenças com os pais e avós" que são um "lastro
evolutivo residual" (GR, p. 70). É nesse momento que Guimarães Rosa deixa
escapar uma de suas frases lapidares: "Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está
intacto" (idem). Em seguida, a personagem tenta livrar-se do contágio das
paixões, todas, "manifestadas ou latentes" (GR, p. 66); seguidas das idéias e
sugestões de terceiros, dos efêmeros interesses e demais "pressões
psicológicas transitórias" (idem).
No entanto, como a
transparência não vinha, o personagem desiste por um tempo; é justamente nesse
estado distraído, quando já havia esquecido do problema, que o olhar flagra o
espelho vazio, sentindo-se “des-almado”.
Como no conto machadiano,
acontece o mais temido pelo homem: não ver a sua imagem no espelho, perder sua
identidade: “Um dia...[...] Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e
não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água
limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto?
Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O Ficto. O sem evidência física. Eu era
–o transparente contemplador?... Tirei-me, aturdi-me, a ponto de me deixar
cair numa poltrona. [...] Voltei a querer encarar-me. E, o que tomadamente me
estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me
espelhavam nem eles! [...] Tanto dito que, partindo para uma
figura gradualmente
simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E
a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal,
autônoma? Seria eu um...des-almado?. [...]Seríamos não muito mais que as
crianças –o espírito do viver não passando de ímpetos espasmódicos,
relampajados entre miragens: a esperança e a memória”( GR, p. 67). Sem
substrato algum, a imagem esvai-se, não há mais objeto a ser visto, mas
somente o sujeito atônito, o "transparente contemplador". E, o que mais
estarrece a personagem é que, além da imagem perdida, eclipsa o seu próprio
olhar. Ele não mais vê os seus olhos, nem eles: "E o que tomadamente me
estarreceu: eu não via os meus olhos" (idem).
“O
medo ante o
desconhecido, fez com que abandonasse o caso, lembrando-se de Terêncio e da
representação da Prudência nos antigos: “[...] os antigos; acudiu-me que
representavam justamente com um espelho, rodeado de uma serpente, a Prudência,
como divindade alegórica. De golpe, abandonei a investigação. Dexei, mesmo,
por meses, de me olhar em qualquer espelho.[...]” (GR, p. 68).
Finalmente, já no
mundo irreal e mágico dos contos roseanos, a experiência conclui com uma nova
realidade possível, que daria sentido ao semsentido da existência humana.
“Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes,
de novo me defrontei –não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um
certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto
como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação,
radiância. [...] Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava –já aprendendo, isto
seja, a conformidade e a alegria. E... Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu
rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto
–quase delineado, apenas- mal emergindo qual uma flor pelágica, de nascimento
abissal... E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só.
Será que o senhor nunca compreenderá?”. (GR, p. 67-68)
A imagem não se
define, assim como a resposta sobre o que o espelho revela sobre a alma e seu
estar no mundo é uma pergunta irrespondível, que o narrador faz questão de
deixar em aberto, para que o ouvinte ou leitor devolva a pergunta:: “Será este
nosso desengonço e mundo o plano –intersecção de planos –onde se completam de
fazer as almas? [...] Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria;
sua técnica –ou pelo menos parte- exigindo o consciente alijamento. o
despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e
soterra? depois, o “salto mortale”...digo-o, do jeito, não porque os
acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisamente de toque e timbre
novos as comuns expressões, amortecidas... E o julgamento-problema, podendo
sobreviver com a simples pregunta: -“Você chegou a existir?”. (GR,
p. 68)
Assim como o rosto
finalmente descoberto remonta à memória, a um menos-que-menino, registro
arcaico do que já foi, imerso nas profundezas abissais do inconsciente, também
as palavras remetem a novos significados, que precisam ser reinventadas para
movimentarem o que está atrofiado.
Guimarães Rosa,
apesar de referir em “O Espelho” a origem do narrador de não-urbana – “sou do
interior, o senhor também” (GR, p. 67) –, o que explica as referências a
episódios da cultura popular, como o medo dos espelhos e das assombrações, o
narrador desfila referências próprias do conhecimento letrado, como
experiências de matemáticos com a quarta dimensão ou o mito de Narciso: “[...]
a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagos,
lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou
cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria
enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos”.(
GR, p. 62)
Narciso é o herói
da consciência, já que trava com as forças da alma uma luta interior
arquetípica em procura de si mesmo. Para compreender, porém, a importância
deste personagem entre os antigos, é necessário compreender que entre eles não
havia introspeção no sentido que modernamente se dá a essa palavra: elaboração
de um mundo interior, íntimo, secreto, complexo, como é o mundo do “eu”. Na
Grecia antiga, pelo contrário, o homem procurava-se a si mesmo, encontrando-se
no outro, neste espelho que para ele é todo aquele que constitui aos seus
olhos seu “alter ego”. Na medida em que é um desvio a este comportamento geral,
o olhar de Narciso para si mesmo representaria o primeiro olhar do homem
lançado em sua própria direção. Como ato fundador da autoconsciência, tal como
hoje se concebe, a reflexão narcisista constitui o princípio de
individualidade. No centro do mito encontra-se o olhar, em sua função de
ilusão e ambigüidade. Entre os gregos os olhos eram como espelhos: o que olha
vê sua imagem reflexada nos olhos do outro, vendo-se a si mesmo.
Em Machado de
Assis, a máscara social reconhece-se na imagem do espelho, em Guimarães Rosa
tem-se a necessidade de desfolhar as camadas de ilusão sobre o mundo, coisas
que nos sonhos, na loucura e na ingênua espontaneidade das crianças sobrevivem,
como bem atestam os demais personagens dos contos de Primeiras Estórias.
[5]
Vid. Mello Neto, Gustavo Adolfo Ramos, “Espelho e Ideal. Machado de Assis
e um pouco de psicoanálise”, in Acheronta. Revista de Psicoanálisis
y Cutlura, nº 17, julho 2003.
[6]
Vid. “Espelho e Ideal. Machado de Assis e um pouco de psicoanálise”,
Paraná/Santa
Catarina, dezembro de 2002 à 23 de janeiro de 2003.
[7]
Guimarães Rosa nasceu em 1908, no mesmo ano em que morreu Machado de Assis.
Em 1961, recebeu o Prémio Machado de Assis. Vid. Guimarães Rosa, J., "O
Espelho", Primeiras Estórias, Rio de Janeiro, Liv. José Olympio Ed.,
1981, pp. 61-68 (doravante abreviado GR).
[8]
As palavras são sublinhadas pelo próprio autor.