05/10/2012
Ano 16 - Número 807

OPINIÃO ACADÊMICA
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Marcos Antonio de Azevedo Monteiro


A Crônica carioca como fenômeno jornalístico-literário
 

 

 Resumo

O objeto de estudo neste artigo é a crônica brasileira como resultado do jornalismo literário arrolando experiência cultural, discursiva e histórica, além dos suportes como jornais, revistas e livros nos séc. XX e e-book, tablets, telefone celular e internet, no XXI; seus efeitos nos leitores, ambientes e meios sociais. Como objetivos estudar as crônicas cariocas desde seu aparecimento em meados do séc. XIX, no Rio de Janeiro, e suas deslocações no tempo e nos vários veículos de comunicação, até os dias atuais. Além de seus possíveis efeitos no mercado midiático industrializado envolvendo empresas, capital e tecnologias. E assim diferenciar o lugar da arte na crônica e desta na estética na mídia. A metodologia envolve pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, estudo dos textos. Os principais resultados da pesquisa apontam para o entendimento do que é mercado midiático no Brasil, dentro de um sistema de comunicação, abarcando a indústria cultural, com seus artefatos padronizados e o lugar da crônica nele.

Palavras-chave
Crônica, jornalismo, literatura, mídia, mercado.


Este artigo visa refletir sobre o processo de expansão da crônica no Brasil, dentro do universo jornalístico e da literatura, no Rio de Janeiro, considerando o sistema de comunicação, na perspectiva da Indústria Cultural, englobando a mercantilização da cultura, os meios de produção e os veículos midiáticos como rádio, jornal, revistas, TV, e-book e internet. Isto priorizando o jornalismo como sua área de comunicação factual e opinativa, onde a crônica encontra espaço essencial, e na literatura, quando adentra o terreno da arte, e avança enquanto linguagem. Portanto refletir sobre a crônica enquanto texto híbrido de jornalismo e literatura, dentro do processo de mercantilização midiática.

Desta forma, aproximar a crônica também no âmbito da historiografia, em sincronia com o jornalismo, cujo “produto notícia” constrói no cotidiano a perspectiva atualizadora da história, produzida por uma versão que apaga a história concreta para escrever uma outra, inclusa na primeira como sua região - a ideologia.

O cotidiano como periodicidade noticiosa surgiu no relógio maquinado pela sociedade contemporânea, com a finalidade de calcular o ritmo de suas forças produtivas. Mas a discursividade da crônica ultrapassa esse cerco estratégico de um plano objetivo cotidiano, onde hoje habita a historiografia. A crônica moderna tornou-se uma expressão artística híbrida e múltipla, com formas variadas (da alegoria a entrevista), ficando como o entre-lugar do conto e da poesia, combinando os gêneros sem perder seu traço singular. Ela tem uma concepção particular e intra-subjetiva dos fatos diários, exercendo a função re-criativa da realidade. Desta forma a atual crônica brasileira constituiu desde o contexto pós-urbano-industrial capitalista, uma pressão de identidades culturais pós-modernas ou de modernidade tardia, problematizando o silêncio histórico na estratégia imediatista da mídia e a resposta surpreendente, da arte na cultura performática e hedonista de hoje, via moderna crônica nacional.

A crônica é companheira dos jornalistas-escritores nas redações e presente durante parte do século XIX, e todo o séc. XX, adentrando o século XXI, interferindo na relação jornalista-texto em termos de produção periódica, e escritor-texto na produção artístico-factual-literária. Somando-se à cultura impressa, às tecnologias e à vida na cidade do Rio de Janeiro, que se inscreve na crônica, que é escrita para ser publicada em folhetins, jornais, revistas ou suplementos. E ela encontra no jornal diário seu melhor suporte físico. Este que é o veículo mais característico do séc. XIX e grande parte do séc.XX, quando atende aos leitores que aumentam em número nos principais centros urbanos brasileiros. Com destaque para o Rio de Janeiro, ex-capital federal e o principal centro produtor de crônicas. A cidade e a crônica cresceram juntas.

A crônica perecível no jornal torna-se permanente, quando eternizada em livro, adentrando o terreno da memória. A este suporte físico, não previsto inicialmente, cabe reunir crônicas e dar a elas um registro, situando-as no tempo e no espaço. Assim como a fatos e acontecimentos que extrapolam o universo das notícias e a historiografia. Espraiando-se, por exemplo, no terreno da rotina pessoal do carioca, assim como na vida pública, criando referências históricas, quando “costura” pequenos fatos e acontecimentos miúdos da rotina do dia a dia, que não são considerados pela historiografia.

Desta forma aglutina linguagens do campo da cultura de massa tradicional e suporte físicos também na área do universo virtual, hoje, com sua também, linguagem líquida. O jornalismo e a literatura, desta feita têm como resultado, nesta relação híbrida, o texto ficcional sobre a realidade noticiada ou não, misturando cultura de massa, arte e literatura. Porque a crônica abarca a linguagem factual de todo o dia e adentra a linguagem literária, quando envereda pela ficção: veredas.

A crônica vem de longe, não se limita a um território, mas é inegável que o tambor do Rio de Janeiro sempre foi o ponto de partida, ecoando por todo território brasileiro. Tivemos e temos crônicas produzidas por cronistas cariocas desde Machado  de Assis e Manuel Antonio de Almeida, dentre outros, fundamentais ao estudo literário, quando cada crônica produz a crítica, retirando o silêncio cotidiano ao reconstituir sua escrita. Invade a notícia em seu esquecimento histórico, depositando no dia, lado a lado, a memória e o desejo. Responde a problemática da leitura, com a complexa relação entre analisando e analisado, onde o objeto recorta o sujeito na inclusão de sua análise. 


Linhas teóricas

Para melhor refletir sobre o tema situamos algumas áreas do conhecimento para montar as linhas de forças teóricas a principiarem o processo, a saber: a origem da crônica, mídia, literatura, história e mercado, que ganham especificação na formas a seguir.

A origem da crônica. A crônica remonta os primórdios da era cristã no ocidente; praticando a função intermediária entre os anais e as historiografias. No apogeu feudal ampliou sua visão histórica com obras sobre acontecimentos pormenorizados. Nos países ibéricos apareceu como a crônica leve ou cronicão, baseada em anotações simples e impessoais. O contexto renascentista do século XVI na Europa Ocidental acentuou tanto a perspectiva histórica que a sua denominação deixou de ser crônica, tornando-se história.

 Somente no século XIX, com o folhetim, houve a recuperação da forma literária de sua origem, já sendo empregada nos textos jornalísticos. Isto em plena era da industrialização, quando se pode apontar a formação de um mercado consumidor. O século XX acelera essa tendência generalizando o uso da crônica na tecnologia comunicacional emergente, resgatando de vez a terminologia crônica.  

No campo teórico consideramos os estudos recentes, no século XX, do fenômeno da midiatização, com correntes distintas e conceituais. O pedagogismo receptivo empírico-sensorial de Marshall Mcluhan. E para situarmos a crônica, a arte e os meios de produção midiáticos, ainda neste campo receptivo, nascido da Escola de Frankfurt, a referência é a pioneira Teoria Crítica da sociedade moderna, de influência marxista que produziu a conceituação inicial e fundamental, por Teodor W. Adorno e Max Horkheimer com a Indústria Cultural. Desta forma aproximamos mídias como jornal e livro, até a internet que recebem a crônica, em um processo midiático de caráter virtual e espetacular.

A cultura do livro e sua mensagem. Ainda no campo da midiatização, vale incluir o livro “serial” e impressos, a partir da máquina de Gutemberg, que acarretaram profundas modificações sociais e antropológicas, enquanto envolvimento de conteúdos e como artefatos, afetando hábitos e costumes. Para refletir sobre este fenômeno vale ressaltar Marshall McLuhan com “Os Meios de comunicação com extensão do homem”. Aqui ele discorre sobre as consequências deste advento:  

O meio é a mensagem. Isto apenas significa que as conseqüências sociais de qualquer meio – ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos – constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos” 1 (McLUHAN, 2006, pág. 21)

     

Assim considerar não apenas as mensagens contidas nos impressos, mas partir do sentido primeiro dos suportes jornal e livro, como mensagens também, além de receberem as crônicas através dos tempos; porque afetam e transformas as sociedades em vários aspectos, transformando hábitos e necessidades, por exemplo.

A crônica como arte reprodutiva. Neste campo localizam-se os estudos filosóficos da Estética e seus tratados mais recentes, com influências das Ciências Sociais e Humanas. Destacamos o precursor do debate contemporâneo da arte de vanguarda, Walter Benjamin, cuja tematização tratou da arte reprodutiva na última fase de sua estética. E assim pensar a crônica como arte, mas inseparável dos meios de comunicação reprodutivos, porque ela é “filha do jornal” e do processo industrial. Para tanto a referência nodal é o ensaio “A Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, contida no livro Magia e técnica, arte e política (Obras escolhidas vol.1), de Walter Benjamin.

Ainda para pesquisar a crônica no terreno da memória, tendo como referência a obra Rua de mão única (Obras escolhidas vol.2), de Walter Benjamin. Com especificidade no capítulo Imagens do Pensamento quando o conceito de história, ganha direção diversa e a crônica, pode refletir aspectos de trajetória temporal enquanto entre-lugar da história oficial ou linear, e o factual jornalístico. O texto, enquanto memória pode servir para uma aproximação do passado, é “o meio de onde se deu a vivência, assim como é o solo de cidades soterradas” (BENJAMIN, 1995, p.239) e pode ser escavado revelando insuspeitas significações soterradas.

Linguagem digital e plataformas da cultura impressa. Para receber os textos percebe-se, com o decorrer do tempo, o surgimento de suportes físicos notáveis, desde o papiro, passando pelo papel e desembocando hoje nas plataformas virtuais. Para dar conta deste processo vale considerar a passagem da cultura de massa para a “cultura das mídias”, envolvendo o campo sociocultural e o terreno da cultura digital, ora em curso, com suas plataformas específicas, seja o telefone celular, a internet, o notebook ou o tablet.  Envolvendo o sistema de comunicação e o capitalismo ora em curso.    

Desta forma, refletir sobre a crônica como um fenômeno que abrange a área de jornalismo e a literatura, no âmbito da midiatização, envolvendo a formação de um mercado que a recebe e consome. Considerar também seus suportes e veículos midiáticos como rádio, jornal, revistas, TV, e-book e internet, priorizando o jornalismo como sua área da comunicação factual e opinativa, e a literatura, quando a crônica enquanto texto híbrido, que cresce como linguagem e avança enquanto gênero literário, adentrando o terreno da arte.


Origem no Brasil, fixação com gênero e mercado misiático
 

A crônica carioca tem suas bases lançadas em meados do século XlX. Aparece no Brasil com a designação genérica de folhetim, ocupando o rodapé da folha do jornal e abarcando temas com comentários ligeiros e despretenciosos. Em 1854 surge no jornal Correio Mercantil a “crônica-folhetim” da série Ao Correr da Pena, de José de Alencar, na sua estréia literária. Autor que se notabilizaria como romancista, Alencar comentava fatos da semana de fundo jornalístico, mas de inegável valor literário, apurando assim seu estilo e proporcionando a fusão definitiva do jornalismo com a literatura. Estes textos marcam a vida carioca quando envolvem a história da cidade-capital, jornalismo e literatura. Abrindo caminho para a formação de um mercado de jornais ainda incipiente, mas definitivamente deixa marcado um lugar para a crônica, na sua função de re-criação da realidade. 

Em 1861, outro escritor notabilizado com romancista, Joaquim Manoel de Macedo, autor do clássico A Moreninha, traduz através das crônicas um pouco da vida carioca de então. Macedo flanava pelas ruas da cidade recolhendo informações, casos e dados para transformar em texto na sua coluna Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, editada no Jornal do Commercio. Abrindo assim a trilha que muitos cronistas vão seguir dali para frente, ocupando o espaço deixado pelas notícias e a historiografia. Situando a crônica como este entre-lugar entre notícia e prosa literária.

Vale lembrar que o maior expoente da literatura nacional, Machado de Assis teve uma fértil contribuição literária, com um discurso cético e corrosivo da conjuntura brasileira do final do séc. XIX. Enveredou pela crônica, construindo um verdadeiro panorama da vida carioca, da então capital federal. Machado além de consagrado romancista teve longa relação com a imprensa do Rio de Janeiro, produzindo crônicas, que abrangem o período de 1855 a 1897. Como exemplo marcante temos editados na Gazeta de Notícias: o bloco de crônicas Balas de Estalo e Crítica, e na Semana Ilustrada “Bons Dias” e “Notas Semanais”.

Machado de Assis também especulou a respeito da origem da crônica, assim como as estratégias utilizadas na observação, apuração e julgamento dos fatos da semana. Buscou também compartilhar com o leitor o seu estilo de fazer crônica, apresentando certas particularidades no trato com o público, deixando explícitas suas preferências temáticas, pois nem tudo o que era destaque no noticiário era de seu agrado. Como exemplo pode-se citar O Nascimento da crônica2, quando Machado, consciente já de seus leitores e de um mercado que surgia, trata de aspectos típicos da vida carioca e envereda pelo campo da estética, apontando o que seria um ideal de crônica:

Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica.

Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. (...).

Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopando que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.

Que eu, sabedor ou conjeturador de tão alta prosápia, queira repetir o meio de que lançaram mãos as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.

Não afirmo sem prova.

Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!

Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?

(ASSIS, 1877)

 

Aqui Machado escreve para um leitor de um mercado de editorial de jornais que se formava com leitores cativos e com uma condição essencial para estes: saber ler e deixar levar-se pelo prazer intelectual. Estabelece alguns princípios que vão servir de referência para a moderna crônica de caráter literário: não se atrelar obrigatoriamente à notícia, abordar fatos aparentemente sem importância do cotidiano, apuração da linguagem, humor, sátira dentre outros. Aqui os jornais já começavam a definir hábitos. Como a leitura periódica e a influenciar nos temas escolhidos nas conversas.

 
A moderna crônica

Inúmeros cronistas vão surgir durante o século XX, com destaque para o jornalista Paulo Barreto (João do Rio), com sua crônica de “espírito urbano”, incorpora uma galeria de personagens cariocas como o policial, o folião, a mãe de santo, a prostituta, mostrando uma cidade heterogênea, de cores e raças. João do Rio aumenta o arco de abrangência dos limites da cidade e sua cultura, muitas vezes encoberta. Sobe morros como o da Providência, Castelo e Santo Antonio; mistura-se com o povo no carnaval do Centro na Rua do Ouvidor, vai à macumba mostra o Rio de Janeiro que se moderniza, com ruas calçadas, bares, eletricidade e água encanada. Com ele a crônica ganha singularidade como gênero, formando e mantendo público leitor. Em 1904 publica uma série de reportagens com o título de Religiões do Rio. Que devido ao sucesso ganha publicação em livro, vendendo oito mil cópias, um fenômeno para a época. O tema religião também frequentava suas crônicas.

Trabalhou em diversos jornais como A Tribuna, Correio Mercantil, Gazeta de Notícias. No início da séc.XX o Rio já era uma cidade grande. Apresentava sinais também de uma industrialização emergente e contínua. O jornal já era então um produto típico da Indústria Cultural3 com característica serial-reprodutiva que atendia um público e contava com as tecnologias da época. A notícia é o produto principal do jornal. Mas os leitores já demonstravam interesse pela crônica, que já subvertia a ordem factual e historiográfica, dentro do sistema capitalista. João é o primeiro cronista de larga aceitação popular. Morre em 13 de junho de 1921, em um táxi, na Rua do Catete, na cidade que incorporou ao seu nome. Ao seu enterro acudiram por volta de 100 mil pessoas.

Não menos importante é Lima Barreto jornalista e escritor, que nas suas crônicas mostra a demolição do Rio antigo, por prefeitos como Carlos Campos e Pereira Passos, que dá lugar ao Rio urbano e moderno. Barreto faz críticas constantes, de forma satírica e mordaz, apontando as consequências do processo de modernização da cidade, com a desocupação desordenada, com massas de cariocas indo para os subúrbios, subindo morros e criando favelas. Além da destruição da paisagem natural da cidade, como o Morro do Castelo e o morro de Santo Antonio, monumentos, igrejas e casas históricas. Com uma linguagem cáustica, Lima é um crítico da modernidade em suas crônicas. É o primeiro cronista a mostrar os subúrbios e suas mazelas. Várias de sua reportagens foram reaproveitadas e transformadas em crônicas, neste patamar híbrido que envolve jornalismo e crônicas.

Em 1922, a crônica, que para Antonio Cândido “não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa4, adquire traços da modernidade e encontra de vez, na metrópole Rio de Janeiro terreno ideal para frutificar. A cidade cresce e os jornais se multiplicam, em um processo de industrialização constante.

 A partir de 1924 surge no cenário da comunicação de massa no Brasil o jornalista e empresário Assis Chateaubriand com O Jornal, que dá início ao maior conglomerado de meios de comunicação da América latina, até início dos anos 60. Adquiriu ainda  Diário de Pernambuco, o jornal diário mais antigo da América Latina, e o Jornal do Comércio, o mais antigo do Rio de Janeiro e o Diário da Noite, de São Paulo. O Conglomerada que ganhou o nome de Diários Associados, a partir de 1936, incorporou revistas como O Cruzeiro, várias rádios e criou a TV Tupi. Assim se descortinou a criação de um monopólio de comunicações, que define o cenário midiático e uma estética de mídia, paulatinamente. A notícia passa a ser o “pão nosso de todo dia” que não pode faltar na mesa do carioca. E acrônica o contraponto desta, a válvula de escape do leitor. A notícia entretém e informa. A crônica satiriza, faz humor, dá voz ao que a mídia silencia.
 

Alguns dos principais cronistas a partir de então trabalharam nos diários, produzindo periodicamente. Desta galeria de cronistas pode-se citar Aníbal Machado, Vinicius de Moraes, Ribeiro Couto, Eneida, Manuel Bandeira, Álvaro Moreyra, Benjamim Costallat que escreve para o Jornal do Brasil e vem a ser o mais popular dos anos 30. E é justo na década de 1930, que segundo Antonio Cândido, “a crônica moderna se definiu e se consolidou no Brasil, como um gênero bem nosso” 5 e nas décadas seguintes consolida-se como gênero definitivo no país, adquirindo sua cores e personalidade própria, e tem na cidade do Rio de Janeiro o seu cenário adequado, como aponta Angela Maria Dias: “Durante as décadas de 1930, 1940 até 1950, a migração de alguns escritores mineiros e capixabas torna decisiva a afirmação da crônica no cenário mundano da cidade carioca 6 (DIAS, 1995, p. 60).
 

A indústria cultural brasileira está a pleno vapor. No terreno da mídia a “produção industrial midiática” é capitaneada pelos Diários Associados de Chateaubriand. O cenário está formado para entrada do lead nos final dos anos 50.
 

Entra em cena o jornalismo empresarial de modelo americano e tem origem a hegemonia do factual noticioso. Mas é nesta década que a crônica encontra seu momento mais denso e ocupa grande espaço. Na virada para os anos 60, a maioria dos escritores de renome público, publicaram crônicas como Marques Rebelo, Eneida, Otto Lara Resende, Mário Filho, José Candido de Carvalho, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Sérgio Porto, Fernando Sabino, Clarice Lispector, José Carlos de Oliveira e Nelson Falcão Rodrigues. A crônica, que originou-se no folhetim, e aos poucos, com sua periodicidade nos jornais, consolidou-se como um gênero, que espelha o rotineiro e o transitório, desentranhando a poesia contida na rotina diária do cidadão, na agitada vida da cidade, pode ser lida, bastando abrir-se os jornais todos os dias. Assim, o cronista transforma-se no escritor do cotidiano, situado na fronteira entre o factual, o histórico e o poético. E funde o literário com a cultura de massa.

      O fascínio exercido pela crônica nos muitos escritores, nos anos 50 e 60 é notório. A crônica carioca serve como exemplo de discussão cultural contemporânea através da mídia, enriquecendo tanto a fundamentação teórica, quanto o debate a respeito da supremacia da mídia na cultura atual. A literatura aproximou-se do jornalismo, e posteriormente da mídia em geral, ganhando público e mercado, através das décadas seguintes, desenhando sempre novas configurações, que envolvem veículos como cinema e televisão. Criando um contraponto para a padronização e a previsibilidade, de uma mídia marcada pela ideologia.

Além dos canais mais tradicionais como jornais e revistas, a literatura encontra num dos “braços” da mídia, o mercado editorial, um aliado, que produz livros, reunindo textos de vários autores, e um sem número de entrevistas e matérias.

Dentro deste panorama, considerando as crônicas dos anos 50 e 60, num Rio de Janeiro, nacionalista, efervescente culturalmente, urbano, desenvolvimentista, e depois agitado pelas vanguardas, contracultura e assombrado pela repressão, esta fecunda fase da crônica carioca, quando já hegemônica enquanto discurso literário de eficácia midiática. Assim a crônica nos anos 60 encontra uma grande fase como “arte reprodutiva”7 ver nota, tendo os jornais como suporte físico. No início dos que é como “filha”..............

Mas o jornal é o veículo ideal para as crônicas. Este meio que se incorporou de vez aos hábitos do brasileiro e do carioca.  Vale citar novamente McLuhan porque entendemos aqui que o jornal em si é uma mensagem. E seus efeitos foram definitivos na rotina dos cidadãos cariocas durante um século. Criando novos hábitos a começar pela leitura diária. Interesse por fatos da cultura comuns a todos. E a crônica adaptou-se à vida nacional e ganhou um desenvolvimento notável. Alguns escritores como Nélson Rodrigues e Rubem Braga eram disputados por jornais e revistas, porque alavancavam as vendas dos veículos. Seguindo assim a trilha aberta por João do Rio,  Lima Barreto, Benjamin Costallat. Curiosamente  crônica com seu poder corrosivo, inclusive colocando em cheque os próprios jornais, com faz diretamente Rubem Braga em Os Jornais8, no contrapasso do factual, previsível e informacional:

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenha conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime "Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz..." Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
"Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: "Meu amor", ao que ele retorquiu: "Deolinda".
Na manhã seguinte Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7:45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal".
A impressão que a gente tem, lendo os jornais - continuou meu amigo - é que "lar" é um local destinado principalmente, à pratica de "uxoricídio". E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
"Ontem, certa de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar "Flor Mineira", à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amância de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio Encantado, e a noite bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciante Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegando a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada".
E meu amigo:
- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiaram tudo, tudo, menos, uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...

Esta crônica de Braga reflete sobre a condição da notícia, seu suporte o jornal, isto dentro do âmbito de um mercado midiático.

A crônica carioca serve como exemplo de discussão cultural contemporânea através da mídia, enriquecendo tanto a fundamentação teórica, quanto o debate a respeito da supremacia da mídia na cultura atual. A literatura aproximou-se do jornalismo, e posteriormente da mídia em geral, ganhando público e mercado, através das décadas seguintes, desenhando sempre novas configurações, que envolvem veículos como cinema e televisão.

Além dos canais mais tradicionais como jornais e revistas, a literatura encontra num dos “braços” da mídia, o mercado editorial, um aliado, que produz livros, reunindo textos de vários autores, e um sem número de entrevistas e matérias. 
 

Conclusão

Com o golpe militar de 1964 a crônica sofre abalo porque alguns veículos (e seus cronistas) que as recebiam como Correio da Manhã, Última Hora, O Cruzeiro, por exemplo, são alvo do regime de exceção e incomodavam o sistema vigente de então. Alguns cronistas morreram, outros exilados, outros sumiram. Há de destacar a crônica esportiva do jornal dos esportes com Nélson Rodrigues dentre outros. Também o Jornal do Brasil que se manteve na ativa (apesar da censura prévia dos militares) cronistas do porte de Carlos Drummond de Andrade, José Carlos de Oliveira, João Saldanha e Sandro Moreira.

Também O Pasquim abriu espaço para diversos cronistas tradicionais e da nova geração como Paulo Mendes Campos, Marques Rebelo, Millôr Fernendes, Sergio Porto, Caetano Veloso, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony entre outros. Com isto o mercado midiático funcionava no ritmo imposto aos jornais pela ditadura, com tremendos limites. Com o desaparecimento do Correio da Manhã, nos anos 60, morre uma parte da memória jornalística e da cidade também. Neste mercado cheio de limites, durante anos 70 e parte dos 80, a crônica segue, não mais com o fôlego de outrora e nem aquela constelação de cronistas de naipe.

Segue os anos 90 com novidades tecnológicas como os microcompudadores e a internet que ajudam a mudar o cenário midiático, para uma cultura empresarial-tecnicista e materil-racionalista. No campo da crônica não aconteceram mudanças significativas, e nem reservou-se um espaço para o texto “crônico” e combativo. Nos anos 2000 o Jornal do Brasil desaparece (fica somente uma versão on-line fantasmática) e no Rio de Janeiro somente o Globo ainda recebe cronistas notáveis como João Ubaldo Ribeiro, Joaquim Ferreira dos Santos, Arnaldo Bloch, Martha Medeiros, Luis Fernando Veríssimo, Arthur Xexéo e Arthur Dapieve, que entrincheirados cumprem a vez de fazer manter o fôlego da crônica até a próxima virada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 McLUHAN, Marshall. Os Meios de comunicação com extensão do homem. Pág. 21.
2,   ASSIS, Machado. O Nascimento da crônica. Jornal Correio Mercantil  1877.

3 ADORNO, T.W e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Pág.113. Conceito de T. W. Adorno e M. Horkheimer , produzido em 1948, durante a fase de exílio nos EUA.  O conceito que tornou-se um capítulo do livro, é uma auto-crítica, mudando a fonte teórica do marxismo para O Capital e respondendo ao mesmo tempo os integrados norte-americanos e a arte reprodutiva do mestre Benjamin.  Significa o sistema de comunicação de massa no capitalismo, em sua etapa oligopolista.

4 Cândido, Antonio. A Vida ao rés do chão. A Crônica, o gênero, suas fixações e transformações no Brasil. Campinas: UNICAMP/ Rio de janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 14         

5 Idem. p. 17.

6 RESENDE, Beatriz (org.). Cronistas do Rio. p 60.

7 Arte Reprodutiva - Conceito de Walter Benjamin no artigo denominado A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, no início da terceira fase de sua estética, voltada para a arte de vanguarda.  Sua concepção se opõe ao de Aura (ganga mística do real enquanto recepção social da arte na fase pré-máquina), como tendo o papel de sua eliminação, ao extinguir o produto único e seu conservadorismo.  É anônima, de elevado índice reprodutivo e democrática.

8 Cônica de Rubem Braga para o jornal Última Hora em 1951.
 


MONTEIRO, Marcos Antonio de Azevedo. Professor. Graduação: Letras, Português/Literaturas: Portuguesa e Brasileira  (UERJ-1983). Pós-graduação Lato-Sensu: Mídia e Gestões Comunicacionais; e Docência Superior (UNISUAM). Mestrado: Letras, Ciência da Literatura (UFRJ-2000). Leciona nos Cursos de Comunicação Social, Letras e Direito (UERJ e UCAM). mamprofessor@gmail.com
 

(05 de outubro/2012)
CooJornal nº 807


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