06/12/2013
Ano 16 - Número 869

OPINIÃO ACADÊMICA
ARQUIVO


 

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Luisa Trias Folch
 

Estudo das cartas de José de Anchieta

Universidade de Granada
(Espanha)

José de Anchieta chegou ao Brasil em 1553 e permaneceu ali até sua morte em 1597. Entre os seus inumeráveis títulos literários destaca ser o primeiro épico das Américas, tanto em latim, como em espanhol, pois o seu  poema “De Gestis Mendis de Sáa”, dedicado a Mem de Sá, irmão de Sá de Miranda, e libertador do Rio de Janeiro da efêmera dominação francesa, precede em 6 anos a Araucana de Ercilla. Foi também o primeiro lírico do Brasil em todas as línguas que ali se falavam: tupi, espanhol e português. A sua obra dramática, também escrita nestas línguas, inaugura o gênero nas Américas e será durante mais de um século o único referente do gênero dramático no Brasil. Como gramático escreveu a primeira gramática do tupi, publicada em Coimbra em 1595. Mas, por cima de todas estas coisas, Anchieta foi um evangelizador e a sua obra literária estava fundamentalmente dirigida a essa finalidade.
         Durante os 44 anos que permaneceu no Brasil, passou de irmão da Companhia a padre, até chegar a ser provincial, oferecendo, através da sua própria experiência, informações absolutamente únicas; suas cartas são, sem dúvida, a maior fonte de conhecimento que podemos ter de qualquer perspectiva sobre a realidade brasileira da segunda metade do século XVI. As suas informações abrangem diversos campos de interesse: das variantes do tupi à botânica, da medicina à antropologia cultural, da geografia à aplicação prática do direito de gentes, que sem dúvida conheceu na sua defesa dos indígenas brasileiros.
         O seu conhecimento da realidade brasileira não esteve circunscrito nunca a um único lugar de residência, pois quando chegou ao Brasil como simples irmão da Companhia ocupou o lugar de secretário do Padre Manuel da Nóbrega, primeiro provincial do Brasil e das Américas. Posteriormente, com as suas contínuas mudanças de lugar, segundo as necessidades da catequese, foi adquirindo experiências pessoais às vezes tão intensas como a de ser refém duma tribo indígena (os tamoios) para conseguir um armistício; também participou diretamente na conquista da cidade de Rio de Janeiro contra os franceses estabelecidos na chamada França Antártica, etc., razões pelas quais o seu legado é tão extenso que seria suficiente dizer que participou na fundação do primeiro Colégio nos campos de Piratininga, futura cidade de São Paulo.

Assim encontramo-nos com vários fatores de interesse para a investigação:
1º A transcendência da obra de Anchieta como monumento pluridisciplinar dominante e quase único da sua época. Nela encontram-se as origens de todos os gêneros da literatura brasileira. Foi o primeiro autor brasileiro, pois escreveu toda sua obra no Brasil, sobre o Brasil, e para o Brasil, índios ou colonos, e, aliás, em todas as línguas faladas então no Brasil.
2º A atividade epistolar de Anchieta começou com a sua chegada ao Brasil e é o único gênero que praticou sem interrupção durante os 44 anos que permaneceu em terras brasileiras.
3º Na atividade epistolar, Anchieta cultivou todos os subgêneros que a epistolografia manifesta da perspectiva jesuítica: como secretário do Padre Provincial, como irmão da Companhia que dá conta aos seus superiores das contingências do seu apostolado entre os indígenas, como provincial que se dirige tanto aos seus irmãos no Brasil como ao Padre Geral em Roma, como leal súdito que se dirige ao rei Felipe II com a mesma eloquência que aos irmãos doentes de Coimbra.
 

A Companhia de Jesus nasceu e se estendeu no século XVI a quatro continentes sob o domínio da escrita. A Companhia de Jesus nasce como uma ordem missionária, com o voto de obediência direta ao Papa (Fundada por Paulo III, em 1540). Loyola compreendeu que a dispersão poderia ameaçar a união e para se manterem unidos em Jesus Cristo nasceu o Instituto.
         Como resposta ao desafio da dispersão foi prescrito por Loyola um vínculo entre súditos e superiores não só através da obediência, mas também através da comunicação permanente; isto é, através da correspondência, através da escrita. Santo Ignácio determinou que, em certos momentos do ano, o Prepósito Geral receberia cartas ou escritos dos Provinciais e Reitores; os Provinciais deviam recebê-las dos Reitores sujeitos à sua autoridade, e estes últimos dos seus subordinados. Pode-se falar duma Formula Scribendi, reformada ao longo dos anos, que estabelecia os modos e os tempos durante os quais se devia de manter a correspondência entre os membros da Companhia.
        Foi traçado assim, nas Constituições, um conjunto de operações de comunicação que compunha um sistema de informações. Foram fixados prazos, determinada a produção de cópias, definida a circulação destas, consideradas as línguas e apontados os temas a serem tratados nas cartas. Coerente com o entendimento hierárquico de Loyola, a comunicação deveria existir de forma vertical para o governo, e horizontal para a união dos ânimos.
         Tudo isto para garantir a função das cartas: consolar e edificar, dando a conhecer as obras feitas em nome de Deus: escrever para que outros lessem, copiassem, difundissem e guardassem.
         Ignácio de Loyola, como primeiro Superior Geral, teve muito claro que tinha de produzir uma imagem da Companhia através das letras. Qualquer notícia deveria em primeiro lugar edificar, e para conseguir a consolação nada melhor que mostrar os avanços da glória divina nas obras e ações apostólicas dos padres e irmãos. Sendo este o objetivo, a missiva não poderia ser deixada ao acaso das impertinências quotidianas dos padres ou à intensidade de seus sentimentos espirituais. Escrevendo para serem lidos por muitos outros, os padres deveriam ter a consciência de que estavam produzindo um texto para ser interpretado e lembrado.
        Agora bem, a distinção, feita pelo próprio Santo Ignácio, entre “carta principal ou de edificação” e as cartas chamadas de “hijuelas” ou “letras para não serem mostradas”, indica como estes escritos foram em muitas ocasiões corrigidos ou emendados pelo responsável da correspondência jesuítica em Roma, o padre Juan Afonso Polanco. As cartas procedentes de fora da Europa eram tidas em grande estima e procurava-se que chegassem a todas partes: chegavam primeiro a Portugal e dali passavam para os Colégios antes de serem enviadas para Roma. Cada Colégio fazia as suas próprias cópias, que eram guardadas para a edificação dos seus membros, e omitia-se aquilo que não era considerado digno para a edificação.
         As informações das missões nas novas terras despertavam grande interesse e ante o perigo, por causa da distância, de não chegarem ao seu destinatário, o padre Juan Alfonso Polanco inventou um sistema para confirmar que a carta tinha chegado ao seu destino. Consistia em indicar, na carta que escrevia desde Roma, a data em que se tinha recebido, informando-se também do tempo que tinha demorado em chegar; e pedia que se duplicassem ou triplicassem para maior segurança. Trata-se das famosas “duas vias”: das cartas recebidas e escritas da Índia e do Brasil; delas faziam-se cópias antes de enviá-las para Roma, contra sua possível perda, e cada cópia levava o rótulo de “1ª via”, 2ª via”, etc. segundo os diferentes navios.
         Loyola percebeu o valor destas cartas, não só como sistema de manter comunicação e união, mas também como instrumento de propaganda dos êxitos da expansão do cristianismo. O labor de cópias multiplicava-se com o aumento das missões e, para solucionar este problema e satisfazer o interesse pelas novidades, algumas dessas cartas começaram a ser publicadas em Portugal a partir de 1550, em princípio separadamente e depois em grupos ou coleções. As primeiras edições das cartas jesuíticas foram as primeiras obras impressas em Portugal sobre o Brasil e o Japão. A popularidade dessas edições foi enorme.
         Muitas cartas foram traduzidas e, para a sua impressão, às vezes, foram revisadas, corrigidas ou resumidas por vários motivos. 

O problema principal que apresentam as cartas jesuíticas em geral, e em particular as de José de Anchieta, centra-se na necessária revisão dos diversos textos, tanto impressos como manuscritos. É necessário um critério de seleção das cartas manuscritas e das formas que apresentam, verificando se foram ou não reproduzidas mais de uma vez. Além disso, é imprescindível estudar o problema das traduções para outras línguas e das edições noutros países (especialmente Espanha e Itália); algumas delas simples cópias das edições portuguesas, outras baseadas em traduções de manuscritos.
       
No relativo a tradição manuscrita, as cartas de Anchieta podem ser classificadas em autógrafas; “originais”, escritas por um amanuense ou secretário com firma autógrafa; “registros”, transcrição em livros oficiais; e apógrafas, cópias de autógrafas, cópias de “originais” ou de outras cópias.
       
Sem dúvida alguma, durante os quase 44 anos que viveu no Brasil, escreveu muitas e variadas cartas. Conservam-se cartas de edificação, negócios e notícias; trimestrais, quadrimestrais, semestrais e anuais; dirigidas aos seus Superiores e irmãos em religião, aos seus filhos espirituais e aos seus amigos. Escritas em latim, português e espanhol segundo o destinatário; as cartas de Anchieta devem ser inseridas, evidentemente, no contexto geral das cartas jesuíticas e cada uma delas deve ser estudada de forma adequada e específica.
        
Para o estudo das cartas de Anchieta é de grande interesse também a tradição impressa.
          Em primeiro lugar, vamos salientar uma das maiores compilações, realizada por Afrânio Peixoto, em 1933, no Rio de Janeiro, sob o título de Cartas Jesuíticas III; o problema desta edição é que apresenta as cartas em língua portuguesa, sem respeitar a língua original em que foram escritas.  
         Em segundo lugar, é da maior importância obra do historiador  da Companhia de Jesus no Brasil, Serafim Leite, que nos volumes II, III e IV da Monumenta Brasiliae, reproduz o texto mais antigo de cada documento na sua língua original, seja latim, espanhol ou português das cartas anchietanas, mas unicamente aquelas escritas por Anchieta quando era irmão da Companhia; isto é cartas escritas entre 1554 e 1565. (+ em 1597)
         Para a correspondência completa (1554-1596) dispomos duma edição moderna, obra do padre Hélio Abranches Viotti, Cartas. Correspondência Ativa e Passiva, São Paulo, 1984. Um dos problemas desta edição é que apresenta todas as cartas em português.
         Os manuscritos das cartas de Anchieta encontram-se nos seguintes arquivos:
- Archivum Romanum Societatis Iesu (ARSI)
- Archivum Pontificia Universitatis Gregoriana (APGU)
- Archivo de Simancas. Sección de Guerra Antigua (também demoninada Mar y Tierra) Legajo 148, documento 166.
- Archivo Histórico de la provincia de Toledo. Códice de Alcalá de Henares. (Madrid).
- Códice del Livro copiador de S. Roque. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
        
Só respeitando as línguas em que as cartas foram escritas, procurando-as nos arquivos e comparando-as com os textos impressos, será possível realizar a edição mais próxima das cartas que Anchieta escreveu.

 


Luisa Trias Folch, Universidade de Granada, (Espanha)
Contato com a autora:
 ltrias@ugr.es


 

(06 de dezembro/2013)
CooJornal nº 869


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