15/09/2014
Ano 18 - Número 907

OPINIÃO ACADÊMICA
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Marcos Antonio de Azevedo Monteiro
 

REVOLTA DA VACINA E CIDADANIA     

 

Resumo

Este artigo reflete sobre o processo de “cidadania” que envolve os moradores da cidade do Rio de Janeiro no contexto da Revolta da Vacina, ocorrida em novembro 1904. O governo adotou um modelo de modernização da cidade, capitaneado pela urbanização, tendo como paradigma Paris. Neste contexto o grosso da população estava à margem da “ação civilizatória”, na medida em que a massa era considerada “bárbara” e incivilizada. A lei de vacinação obrigatória contra a varíola foi o estopim para a Revolta, mas não um motivo isolado. Um conjunto de fatores como fome, desemprego e falta de moradia somaram para a insurreição. Destaca-se ainda o Estado de Sítio, com a suspensão dos direitos e garantias constitucionais. Como resultado do conflito, além das punições duríssimas, as condições de vida da população ficaram a mostra. Mais de cem anos se passaram e hoje, o Rio de Janeiro é uma megalópole com perto de oito milhões de habitantes e possui 160 favelas. E a cidadania está longe de chegar a milhares de cariocas que habitam a Cidade Maravilhosa e presenciam um novo surto de modernização da cidade, que já deixa como legado um custo de vida alto, mais adequado para a elite e os turistas.

 

Abstract

This article reflects on the process of "citizenship" which involves residents of the city of Rio de Janeiro in the context of the Revolta da Vacina, which occurred in November 1904 the government adopted a model of modernization of the city, led by urbanization, with the paradigm Paris. In this context the bulk of the population was on the fringes of "civilization building", in that the mass was considered "barbaric" and uncivilized. The law of compulsory vaccination against smallpox was the trigger for the uprising, but not a single reason. A set of factors such as hunger, unemployment and homelessness amounted to insurrection. Note also the state of siege, with the suspension of constitutional rights and guarantees. As a result of the conflict, in addition to draconian punishments, living conditions of the population were the show. Over a hundred years have passed and today, the Rio de Janeiro is a megalopolis with nearly eight million inhabitants and has 160 favelas. And citizenship is far from reach thousands of locals who inhabit the Marvelous City, and witness a new outbreak of modernization of the city, which already leaves a legacy high cost of living, more just for the elite and tourists.

 

1- Apresentação

Este trabalho objetiva investigar o processo envolvendo os Direitos Humanos e a “cidadania”, no âmbito do evento Revolta da Vacina, ocorrida em novembro 1904, no Rio de Janeiro, arrolando como referências históricas imediatas a Libertação dos escravos (1888) e a Proclamação da República (1889). E considerando também o ideário positivista de Augusto Comte, a utopia progressista de Claude H. de Saint-Simon, que afetaram de forma efetiva o universo simbólico da vida carioca, envolvendo principalmente o paradigma do progresso. Seja na formação de uma mentalidade visível, por exemplo, nas repetições de “princípios” como civilização, ordem, higienização e racionalidade que deram o “tom” filosófico do início do séc. XX e marcaram presença na vida mental carioca durante as décadas seguintes e ressurgem redivivas na atual reforma da cidade; seja em ações concretas e sintomáticas como na derrubada do Morro do Castelo, na destruição do bairro da Praça 11, para abertura da Av. Presidente Vargas nos anos 40, na construção do metrô e Perimetral nos anos 70, no projeto Rio-Cidade e hoje no Rio-sede da Copa e Olimpíada, cidade “pacificada” e turística. Tudo em nome da “Ordem e progresso”, frase positivista e emblemática “encravada” na Bandeira Nacional.

Este panorama, em 1904, envolve o primeiro surto de modernidade que sacudiu a cidade do Rio de Janeiro alterando de forma marcante o modo de vida urbano, afetando o transporte público, as roupas, a culinária, o lazer, as artes etc. mudando a face arquitetônica da cidade, afetando também a área de saúde e somando na formação de um estilo de vida, opcional para os segmentos sociais privilegiados e imposto para a população menos favorecida.

A elite diretora da cidade traçou um projeto de mudanças radicais norteada pelo ideário europeu, com foco em Paris. Mas esqueceu de consultar a população majoritária de desassistidos, alheios ao curso da modernidade mundial. O projeto civilizatório moldado a partir dos valores europeus só atendia a elite dominante escolarizada e bem alimentada. Em alguns aspectos a cidade do Rio ainda apresentava características coloniais, como por exemplo, na maioria das construções do Centro, abastecimento de água e saneamento básico. O que colocava a grande maioria da população em difíceis condições de vida, para viver dignamente como cidadãos dignos, sem os direitos mais básicos como educação, saúde e moradia.

Desta forma o projeto capitaneado pelo prefeito Pereira Passos desalojou milhares de habitantes, expulsos de suas moradias e obrigados a subir os morros ou procurarem os subúrbios, impulsionando a favelização e inaugurando o arbitrário processo de “remoção” que retorna de forma cíclica à cidade.

Após 1904 o “bota abaixo” continuou com o alcaide Carlos Sampaio (derrubada do Morro do Castelo em 1922). Em 1940 com a destruição do bairro da Praça 11, sob os auspícios do prefeito Henrique Dodsworth, nos anos 60 a demolição das favelas da Catacumba, na Lagoa (os moradores foram deslocados para a Barra da Tijuca e fundaram nova favela: a do Autódromo), e a do Esqueleto (Maracanã/UERJ) a cargo de Carlos Lacerda. O que estabelece uma “tradição” de “bota abaixo”, a cada surto de modernização, envolvendo reformas urbanas polêmicas, remoções arbitrárias e forçadas, e aumento da população de excluídos sociais.

Observa-se então que a Revolta da Vacina não ocorreu apenas por causa da obrigatoriedade da vacinação imposta pelo Estado, mas por um elenco de razões, onde a Lei da vacina foi o estopim, como aponta Marco Antonio Pamplona[1]:

O prefeito do Rio de Janeiro quis impingir novos hábitos à população, como uma série de proibições: a venda de comida na rua, feita por ambulantes, quiosques ou frèges, o hábito de cuspir no chão dos bondes, a venda de leite ordenhado na hora por vacas puxadas de porta em porta, a criação de porcos nos limites urbanos, a exposição de carnes á entrada dos açougues, a vadiagem de cachorros soltos pelas ruas, a falta de pintura nas fachadas dos prédios, a presença de entrudos e cordões de carnaval. Ora foi nesse contexto de intensa repressão aos hábitos da população que as “brigadas de mata mosquitos”, como ficaram conhecidas, resolveram atacar a febre amarela e a peste bubônica.  

   Quando os comportamentos dos revoltosos, e pensamos nos alvos mais atingidos nas ações de rua, percebemos mais uma vez que a vacina, isoladamente não constituiu o principal motivo da revolta (PAMPLONA, 81 e 82).

O texto lança uma luz esclarecedora a respeito do evento Revolta da Vacina, apontando o processo paulatino de imposição de modelos de costumes “civilizatórios” importados, com a repressão à cultura local, envolvendo costumes antigos e arraigados no imaginário da cidade. E principalmente a realidade de uma população analfabeta e desinformada, na sua maioria.
 

2- Projeto de urbanização, vacina obrigatória e Revolta

No início do século XX, a população cresceu muito no Rio de Janeiro, principalmente devido ao grande influxo de população, vindas das fazendas arruinadas após a abolição da escravatura, à procura de trabalho, e a entrada maciça de estrangeiros na cidade.

O aumento populacional da massa desassistida pelo Estado acelerou o processo de metropolização da capital. A consequência direta foi a rápida degradação da cidade, com diversas moradias centrais transformadas em cortiços de aluguel barato e com higiene precária, onde os moradores se amontoavam e lutavam por emprego. A reforma financeira do ex-presidente Campos Sales (1898-1902), reforçada por Rodrigues Alves, em favor do monopólio do café, influíram diretamente na diminuição de empregos e a disparada dos preços. A crise econômica interna atingiu em cheio a população mais pobre da cidade, e o resultado foi uma situação social cada vez mais tensa. Este estado de coisas gerou insegurança social mesmo entre a elite, pois o Centro da cidade era o local de maior circulação de pessoas e o aumento de furtos e assaltos cresceu de forma significativa para a época. O corpo policial insuficiente não dava conta da segurança e a massa de excluídos estava sempre a ponto de explodir.

O governo, por sua vez, era diariamente criticado por parte da imprensa, devido aos homicídios, vadiagem, latrocínios, prostituição, roubos, arrombamentos, mendicância e alcoolismo na cidade.

O Rio de Janeiro, com quase um milhão de habitantes, era conhecido como cidade pestilenta onde campeavam a varíola, febre amarela, peste bubônica e gripe espanhola. O Centro da capital federal fedia e multiplicava doenças. Em 1904 morreram 3.500 pessoas somente de varíola. Neste período percebe-se que as condições para a cidadania mínima era improvável.

Desta forma elite diretora da cidade do Rio adota em 1904, Paris, como modelo civilizatório. A capital francesa ditava moda e costumes. Desta forma o presidente Rodrigues Alves, Francisco de Paula (1902-1906) encarregou o prefeito Pereira Passos, Francisco (1902-1906) de planejar e chefiar a reforma urbana na cidade. Passos estudou na França de 1857 a 1860, onde assistiu a transformação urbanística de Paris promovida por HAUSSMANN, Georges-Eugène.

O projeto de modernização da cidade expandiu-se ao longo de três eixos: reforma do Porto do Rio, remodelação urbana e saneamento. Esta última ficou a cargo do médico e sanitarista Oswaldo Cruz. As mudanças que começaram pelo velho Porto do Rio demonstraram a pressão do setor cafeeiro e comercial, já que a exportação era dificultada, porque os navios estrangeiros evitavam atracar aqui por medo de contrair doenças e optavam pelo Porto de Santos, no estado de São Paulo.

A reforma teve curso com a demolição imediata de 600 casas e 800 habitações coletivas, deixando sem teto, de uma vez, perto de 15 mil pessoas. O que denota a falta de um direito humano universal básico: a moradia. Como ser cidadão sem ter onde morar?

Este “bota abaixo” empurrou centenas de pessoas para a periferia e para os morros, alimentando o crescimento significativo das favelas, que hoje chegam 160 só no município. O Rio de janeiro era conhecido com “túmulo de turistas” e a meta era transformar o Rio em “cidade maravilhosa” e turística. No lugar dos cortiços avenidas, jardins e prédios. Eliminando sujeira e esgoto a céu aberto. Os problemas provocados pelas remoções feitas de forma violenta e autoritária revoltaram a população.

Durante o “bota abaixo” as Brigadas Sanitárias de Oswaldo Cruz invadiam qualquer residência, sem mandato e davam o “veredicto” para a derrubada, bastava a suspeita de ter foco de mosquitos ou de ratos, em desrespeito flagrante aos direitos civis. A destruição das moradias foi executada pelos agentes da prefeitura da Pereira Passos e as “brigadas” de Oswaldo Cruz.

Neste contexto onde a cidadania não tinha espaço para as populações mais pobres, foi aprovada a regulamentação da lei da vacina obrigatória, que vazou e foi veiculada pelo jornal A Notícia em 09/11/1904. A fagulha que faltava para acender o estopim da revolta, como atesta Nicolau Sevcenko:

O fator imediatamente deflagrador da Revolta da Vacina foi a publicação, no dia 9 de novembro de 1904, do plano de regulamentação da aplicação da vacina obrigatória contra a varíola. O projeto de lei que instituía a obrigatoriedade da vacinação tinha sido apresentado cerca de quatro meses antes no Congresso, pelo senador alagoano Manuel José Duarte. Desde então se desencadeara um debate exaltado, que transpôs as dimensões do Legislativo, para empolgar com fervor as páginas da imprensa e a população da Capital Federal. A medida era de interesse do governo, que dispunha de ampla maioria no Congresso e que lançou todos os seus organismos técnicos e burocráticos na sua defesa (SEVCENKO, p.7)[2].
 

O contexto de insatisfação era crasso e a distância entre o projeto do governo e as necessidades da maioria da população evidente, que elegeu como alvos mais visíveis: a polícia, Oswaldo Cruz, os mata-mosquitos, a Brigada da Vacina e Rodrigues Alves.

Neste ambiente é notável a ausência dos direitos humanos mais básicos como direito à moradia, escola, alimentação e segurança. Obrigações do estado republicano recém constituído.

No dia 10 de novembro de 1904 começa a aglomeração de pessoas no Catete, Largo do São Francisco e Praça Tiradentes, protestando contra a obrigatoriedade da vacina para casamento, passaportes, identidade, inscrição em escolas, ou qualquer situação legal. A polícia investe contra os grupos e a população revida com pedras.

Os revoltosos viram bondes, queimam lojas e fazem barricadas em várias ruas do centro. A polícia usa a cavalaria. Políticos de oposição com Lauro Sodré discursam no Senado apoiando a revolta e insuflando a população para a desobediência civil e o enfrentamento com as autoridades.

No dia 11 de novembro os protestos repercutem e o número de civis aumenta na refrega. Gente de todo tipo dentre jovens, crianças e adultos participam das manifestações por todo Centro onde o número de moradores era grande e o fluxo de transeuntes enorme.

A revolta espalhou-se por vários bairros da periferia da cidade como Méier, Encantado, Inhaúma, Aldeia campista Vila Isabel. Três mil pessoas participam diretamente do conflito, reunindo gente de todo tipo, principalmente os mais pobres. Trezentos cadetes da Escola Militar da Urca aderiram e partiram para o enfrentamento. A polícia reagiu com a cavalaria e tiros.

Em 13 de novembro o exército entrou em cena, junto com o corpo de bombeiros, a brigada policial e a Marinha. A malta a base de paus e pedras destruiu a iluminação pública. Os bombeiros se desdobraram para apagar incêndios nos bondes virados. O tráfego de veículos no Centro foi interrompido. A Companhia de Gás no Mangue foi atacada. As linhas telefônicas foram destruídas.

A Gazeta de Notícias noticiou o evento assim[3]:

Houve de tudo ontem. Tiros, vaias, gritos, interrupção do trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados a pedradas, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados.
 

Em 14 de novembro a cidade amanheceu em clima de guerra. O cenário era de destruição. Delegacias e hospitais foram invadidos. O chefe de polícia solicitou à população que não saísse às ruas. Novos contingentes do Exército foram às ruas para combater os revoltosos. O bairro da Saúde se tornou o principal foco da Revolta, com dezenas de barricadas que impediram as forças de repressão de entrarem. Casas de armas foram saqueadas. O confronto que se dava a base de pedradas por parte pela população, recrudescia em um novo capítulo, com armas de fogo de ambos os lados. Com isso o número de vítimas aumentou.

No Clube Militar o senador Lauro Sodré e os generais Sylvestre Rodrigues e Olympio da Silveira, aproveitaram o contexto e resolveram botar em curso o golpe para derrubar o governo.

Em Botafogo os trezentos cadetes se puseram em marcha, com o auxílio de um canhão, contra o regimento de infantaria do governo. O confronto foi chamado de “O combate da Rua da Passagem”. Baixas de ambos os lados. O número de mortos não foi informado.

Em 15 de novembro o presidente Rodrigues Alves foi aconselhado a sair da cidade e ficar em um navio da Marinha de Guerra na Baía de Guanabara. Ele recusa. Um encouraçado e lanchas torpedeiras abriram fogo contra a Escola Militar na Urca. Dois generais morreram. Os cadetes se renderam e a tentativa de golpe foi debelada.

O Exército agiu em vários pontos da cidade, foram recebidos à bala e os revoltosos usaram até dinamite. O governo unificou as forças de defesa envolvendo Marinha, Corpo de Bombeiros e Guarda Nacional. Declarou “estado de sítio” com a suspensão dos direitos civis. Vários pontos do Centro da cidade foram bombardeados.

O poder público visando controlar a Revolta, que se transformara numa guerra, dividiu a cidade em três zonas militares: a primeira o litoral; a segunda a Praça Tiradentes, as ruas Haddock Lobo, Frei Caneca, Sacramento e Barão de São Felix; a terceira a Rua Marechal Floriano, a Praça da República, os bairros de São Cristóvão e Vila Isabel.

No dia 16 de novembro uma operação de guerra é desencadeada pelas forças de repressão capitaneadas pelo Exército, tendo como alvo o bairro da Saúde, onde havia a maior concentração dos revoltosos. A coincidência é que a população desta área era uma das mais pobres da cidade e o Morro do Livramento uma das primeiras favelas do Rio.

Sob estado de sítio, de trinta dias, a área é invadida por terra e bombardeada por um encouraçado da Marinha. Nesta altura do conflito o número de mortos e feridos foi grande, mas as autoridades se encarregaram de omitir, inclusive censurando jornais. Horácio José da Silva, o Prata Preta considerado o mais ousado dos líderes populares da Saúde, depois de matar e ferir, foi preso. Outros destaques da rebelião como Manduca Pivete, Bombacha, Chico Baiana, Valente, Rato Branco, Truvisco, Machadinho e Almeidinha foram presos e “julgados” a revelia.

Em 17 de novembro o governo revoga a lei da vacina, mas os distúrbios continuam.

No dia 20 a revolta foi quase sufocada. As autoridades propuseram anistia para os presos. O que na verdade não ocorreu. Foram maltratados nas delegacias, levados para a Ilha das Cobras e torturados.

Nas ruas a resposta do governo foi dura e qualquer pessoa era presa. Bastava a alegação de vadiagem ou estar mal vestido. De fato a maioria dos prisioneiros sequer passou nas “casas de detenção”, e não houve registro. Foram deportados para Fernando de Noronha e até o Acre. Grande parte dos jornais da época nomeavam os revoltosos apenas como marginais, desocupados, criminosos e assassinos, na tentativa de esvaziar o caráter político do evento, mascarar as condições de vida da população e omitir as punições fora das leis civis.

A conclusão é que a população ao reagir à repressão governamental, tentou dar um basta à invasão de suas casas, espancamentos da polícia, vacina obrigatória e medidas “civilizatórias” com as quais não se identificavam. A República assim como o Império deu continuidade a um Estado arbitrário e excludente, privilegiando apenas segmentos da elite aos direitos de cidadania.

A Revolta por ter acontecido na capital teve repercussão em vários estados de maneira mais branda e até em países da Europa.

Na verdade a oligarquia do tempo do Império não tinha mudado. A idéia era que ex-escravos e os “bárbaros” pobres não estavam preparados para os princípios norteadores da civilização, da nova “ordem e progresso”. Esta população precisava ser “endireitada” e civilizada. Portanto a reforma urbana estava a serviço de uma ideologia de exclusão. E esta opinião pública elitista apoiou a forte repressão que se deu após a Revolta. A idéia era eliminar qualquer foco de resistência ou tentativa de repetição de insurgência.
 

3- A Insurreição no jornalismo e na literatura

O jornalismo e a Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina também ocupou espaço óbvio na imprensa da época ganhando as páginas dos muitos jornais que contribuíram para a formação de opinião da população, contra e a favor. O meio de comunicação jornal era hegemônico enquanto veículo de massa na cidade do Rio de Janeiro. Quanto à população analfabeta, o acesso às informações noticiosas se dava através de cariocas alfabetizados que liam jornais em voz alta para os outros, principalmente no Centro da cidade, criando um tipo popular de clube da leitura comunitário, lembrando o centro de Paris no séc.XIX. Ou seja, havia ainda um forte caráter oral na circulação de notícias, porque uns contavam aos outros o que tinham ouvido, multiplicando as informações.

Os jornais de maior destaque eram A Notícia, Gazeta de Notícias, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, A Tribuna, Jornal do Commercio, O País, O Malho e O Degas, além da Revista da Semana.

Os jornais se dividiam basicamente em governistas, monarquistas e os que ficavam a serviço do interesse de grupos. O destaque governista era o jornal O País e o representante do bloco “oposicionista”, era o Jornal do Commercio, que na verdade era a favor da vacina, mas não obrigatória e também compactuava com a idéia que a plebe deveria ser “civilizada”.

Durante a Revolta a influência ideológica expressa pelos jornais sofreu um impacto, pois os fatos ocorreram de forma contínua e simultânea. Bastava estar nas ruas para ver. Ou ouvir as narrações de quem presenciou as dezenas de mortes e centenas de feridos. Não dava para esconder que a cidade tornou-se um a praça de guerra.

A Revolta da Vacina foi veiculada em jornais de todo o mundo, isto com a utilização do telégrafo para a divulgação das informações, que ganharam as páginas dos jornais estrangeiros. A cobertura jornalística é um capítulo a parte durante a revolta.
 

A Revolta no universo da literatura

Na literatura brasileira o Evento não passou em branco, despertando interesse de escritores contemporâneos aos acontecimentos como Olavo Bilac, João do Rio e Lima Barreto. João foi um jornalista muito popular, além de contista e cronista. Já Barreto trabalhou como repórter em vários jornais da época, com destaque para o Correio da Manhã. Desenvolveu uma vasta obra no campo da literatura, entre romances, crônicas e contos. Dentre os fatos importantes em relação a sua obra, ele destaca-se como pioneiro no que hoje é conhecido como “jornalismo literário”. Isto porque Lima usou sua vivência na cobertura de notícias, para alimentar seus textos literários.

Vale destacar de Lima Barreto as famosas reportagens sobre o Morro do Castelo, que foi demolido na gestão do Prefeito Carlos de Campos em mais um surto de reforma da cidade.

Para descrever as condições de moradia da época, destaca-se um trecho da crônica de João do Rio envolvendo um cortiço típico do Centro da Cidade[4]:

“O encarregado, trêmulo, seguiu à frente, erguendo o castiçal. Abriu uma porta de ferro, fechou-a de novo, após a nossa passagem. E começamos a ver o rés-do-chão, salas com camas enfileiradas como nos quartéis, tarimbas com lençóis encardidos, em que dormiam de beiço aberto, babando, marinheiros, soldados, trabalhadores de face barbuda. Uns cobriam-se até o pescoço. Outros espapaçavam-se completamente nus (...).

Trepamos todos por uma escada íngreme. O mau cheiro aumentava. Parecia que o ar rareava, e, parando um instante, ouvimos a respiração de todo aquele mundo como o afastado resfolegar de uma grande máquina. Era a seção dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os quartos estreitos, asfixiantes, com camas largas antigas e lençóis por onde corriam percevejos. A respiração tornava-se difícil.

Quando as camas rangiam muito e custavam a abrir, o agente mais forte empurrava a porta, e, à luz da vela, encontrávamos quatro e cinco criaturas, emborcadas, suando, de língua de fora; homens furiosos, cobrindo com o lençol a nudez, mulheres tapando o rosto, marinheiros “que haviam perdido o bote”, um mundo vário e sombrio. Alguns desses quartos tinham entrada pela sala das esteiras, em que se dorme por oitocentos réis, e essas quatro paredes impressionavam como um pesadelo. Completamente nua, a sala podia conter trinta pessoas, à vontade, e tinha pelo menos oitenta nas velhas esteiras atiradas ao soalho. (RIO, p.74 e 75)
 

João do Rio um escritor e jornalista apaixonado pela cidade, traduz neste texto o horror das moradias miseráveis da cidade. Como ser cidadão em um ambiente desses?

Já Lima Barreto fez críticas constantes, de forma satírica e mordaz, apontando as consequências do processo de desocupação desordenada, com massas de cariocas deslocando-se para os subúrbios, subindo morros e criando favelas. Além da destruição da paisagem natural da cidade, monumentos e casas históricas. Com uma linguagem cáustica, Lima é um crítico da modernidade em suas crônicas. É o primeiro a mostrar os subúrbios e suas mazelas. Várias de suas reportagens foram reaproveitadas e transformadas em crônicas, neste patamar híbrido que envolve jornalismo, romance, contos e crônicas.

A Revolta também encontra espaço no romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, como pode-se observar a seguir[5]:

Não vi a destruição dos combustores de iluminação, que os populares tinham levado a efeito. Só a notei de manhã, já pelas oito horas, descendo a ladeira. Na rua, o trânsito era ralo e o tráfego dos bondes parecia ter cessado completamente. Nas esquinas havia patrulhas de infantaria e cavalaria e de distância em distância, à porta de estalagens afastados da polícia, havia grupos compactos de populares (...).

Tínhamos deixado a estação do mangue quando de todos os lados, das esquinas, das portas e do próprio bonde partiam gritos: vira! Vira! Salta! Salta! Queima! Queima!

Num ápice o veículo foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu (...). (BARRETO, P. 239).

Uma força passava, era vaiada; se carregava sobre o povo, este dispersava-se, fragmentava-se, pulverizava-se, ficando um ou outro a receber lambadas num canto o portal fechado. O Largo de São Francisco era mesmo uma praça de guerra (...) (idem p. 240).

Um pobre tipógrafo que morava para a Saúde onde o trânsito se fazia com os maiores perigos, ficou todos os três dias no jornal. Temia ser morto por uma bala perdida. Houvera muitas mortes assim, mais os jornais não as noticiavam. Não queriam abater a coragem do povo com a imagem aterradora da morte. A polícia atirava e não matava; os populares atiravam e não matavam. (idem p. 242)

Neste trecho do romance o jornalista Isaías Caminha, personagem, é testemunha ocular dos combates de rua, relatando, na verdade o testemunho do próprio Lima Barreto, que vivenciou alguns destes confrontos pelas ruas da cidade. Destaca-se aqui o medo das balas perdidas, rotina na cidade do rio de Janeiro, hoje; e omissão do número de mortos e feridos.

Mais recentemente, no ano de 2007, Joel Rufino dos Santos traz a baila o  a história romanceada da Revolta da Vacina no romance "Quatro Dias de Rebelião" quando narra a Vacina Obrigatória. Durante quatro dias, em novembro de 1904, a população pobre do Rio de Janeiro tomou conta das ruas da cidade, surrando vacinadores, invadindo prédios públicos, destruindo os lampiões da iluminação pública e as obras da nova avenida. Os políticos de oposição e militares florianistas tentaram se valer da rebelião popular para derrubar Rodrigues Alves. A vacina foi o pretexto. As ruas estavam repletas de desempregados e desabrigados, enquanto a polícia monetarista do presidente anterior provocava recessão.
 

4- Conclusão

Ao completar 16 anos como República a capital federal foi sacudida pela mais aguerrida e violenta revolta urbana da sua história. O Brasil republicano ainda apresentava as velhas mazelas do período monarquista. Fome, desabrigo, falta de educação regular, desemprego e respeito do Estado, para tratar os brasileiros como cidadãos. Em 1904 a situação se agravou com o aumento desordenado da população urbana desassistida, engrossada por imensos contingentes de ex-escravos sem nenhuma assistência em qualquer campo social, político e cultural. Estas fileiras foram multiplicadas com milhares de estrangeiros, na sua maioria pobres, que deixavam seus países para tentar melhor sorte no Brasil. Destacavam-se em número italianos, japoneses, portugueses, árabes, turcos, poloneses e franceses.

O Rio tornava-se uma capital metropolitana com uma população gigantesca e heterogênea, brigando no mesmo espaço, por condições mínimas de sobrevivência. Comer e morar tornou-se uma guerra.

Quando estoura a chamada Revolta da Vacina, o que tornou-se público foi esta situação que colocava os habitantes da cidade, na sua maioria, distante dos direitos humanos essenciais. A insurreição ganhou um forte teor político, a lei da vacina obrigatória foi apenas a gota de d’água que faltava para a massa se sublevar e sair destruindo tudo o que encontrava pela frente e enfrentar as forças de repressão.

Como resultado do conflito, além das punições duríssimas, as condições de vida da população ficaram a mostra, deixando ver que a civilidade à francesa, não acontecia além da Confeitaria Colombo e só envolvia uma pequena parte da população. Esta sim tinha seus Direitos Humanos garantidos.

Mais de cem anos se passaram e a cidade, ao logo das décadas, recebeu ainda milhares de nordestinos frutos do êxodo rural, fugidos de regiões precárias. Hoje, o Rio de Janeiro é uma megalópole com perto de 8 milhões de habitantes e possui 160 favelas, espalhadas pelo município. E sofre um novo surto de modernidade civilizatória, com reformas milionárias e polêmicas; além do velho e conhecido “bota abaixo”. As ruas viraram praça de guerra em junho de 2013, com direito a quebra quebra de lojas, carros e ônibus incendiados, ataques à polícia e desobediência civil. Quando a população demonstrou para o Estado a sua insatisfação com o atual estado de coisas, na cidade e no país.

As várias classes sociais, hoje, têm como legado da gigantesca reforma urbana, um custo de vida altíssimo. E considerando a guerra para morar, estudar, viajar e comer, o Rio de Janeiro atual, guarda semelhanças com a Capital federal de 1904.

 

Bibliografia
 

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. http://www.direitoshumanos.usp.br (Biblioteca virtual de direitos humanos no Brasil).

.http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/declaracao-dos-direitos-do-homem-e-do-cidadao-integra-do-documento-original.htm (Declaração dos direitos do homem e do cidadão).

  


[1] Artigo: A revolta era da vacina? PAMPLONA, Marco Antonio (et AL.). Saúde pública, história, política e revolta. Pag. 81 e 82.

[2] SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasilense, 1984.

[3] Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1904.

[4] Crônica Sono Calmo. RIO, João do. A alma encantadora das ruas. p.74.

[5] BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha.

 


Marcos Antonio de Azevedo Monteiro. Graduação: Letras, Português/Literaturas (UERJ-1983). Pós-graduação Lato-Sensu: Mídia e Gestões Comunicacionais; e Docência Superior (UNISUAM). Mestrado: Letras, Ciência da Literatura (UFRJ-2000). Leciona nos Cursos de Comunicação, Letras e Direito (UERJ e UCAM). mamprofessor@gmail.com


 

(15 de setembro/2014)
CooJornal nº 907


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