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Affonso Romano de Sant'Anna
Senna: correndo para a morte
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Entre
1985 e 1993 Senna derrotou a morte 44 vezes. Mas à morte bastava uma única
vitória. E esta ocorreu, de repente, na manhã desse 1 de maio numa curva da
pista de Imola, na Itália.
Telefonou-me
um leitor: "Senna foi imolado. A pista queria sangue, estava inquieta. Na
véspera matara já o austríaco Ratzemberger e acidentara o brasileiro
Barrichello. Há anos liquidara com Piquet. A pista estava sedenta. Deve
ter-se acalmado agora."
Espero.
Mas não confio. As pistas querem sangue, suor e lágrimas. Risos também. Mas
o riso só não é suficiente. Assim, seria apenas um circo. As pistas de
corrida, certos espaços esportivos, apresentam-se mais como lugares onde se
realizam rituais de louvor à vida e à inarredável morte. Se tirarmos a
possibilidade da morte, a vida perderá sua tensão, cairá na banalidade.
É
a morte que dá sentido à vida, diziam os existencialistas no nosso século.
À primeira vista, essa frase soa meio estranha. Mas é como se disséssemos:
é o porto de chegada que dá sentido à viagem. E assim é, A pessoa vai
vivendo, vai vivendo; a sua vida parece ir numa direção determinada. De
repente, ocorre uma surpresa, um impacto, a morte. Essa morte nos obriga a
rever toda a vida do personagem. Então, a vida é isso: um romance que se lê
de trás para frente.
Isso
é o que ocorre, por exemplo, com os suicidas. Vivem ao nosso lado. Muitos não
nos parecem em movimento para o fim desastroso e espetacular. Ao contrário,
assemelham-se a nós. Acordam, tomam café, vão aos estudos e trabalho, têm
lá suas angústias, mas as achamos parecidas com as nossas. Nada denotava que
o fim, como uma bomba-relógio, estava já em movimento; como se a morte fosse
um bólido que viesse ao seu encontro, como se
o indivíduo ordenasse à sua morte: venha apagando toda a estrada que ainda
tenho pela frente, venha, colha-me no meio da pista, cansei das curvas, quero
a reta interminável a que chamam eternidade.
Em
32 anos de Fórmula 1, foram sessenta mortos. Quase dois por ano. É,
portanto, um esporte violento. Violentíssimo. Mas o público adora.
Conscientemente ninguém quer a morte. Aparentemente queremos só a
velocidade, a disputa, a ultrapassagem, como no futebol queremos o drible e o
orgasmo do gol.
No
entanto, no fundo, queremos mais. A indústria, sobretudo, quer mais. Quer
mais tecnologia, mais e mais desempenho. Por isso mete o piloto ali dentro
daquele caixão chamado cockpit e manda ele arrancar. Ele arranca. Dispara.
Zune. Nos emociona, cobre-se de champanhe, riqueza e glória.
Diz-me
alguém, comentando o desastre de Senna e apontando o absurdo: "Colocam
um homem dentro de uma banheira de gasolina e disparam-na a trezentos quilômetros,
e depois querem que ele sobreviva."
As
vezes, sobrevive. Às vezes não. Quando não sobrevive, então a morte alheia
desaba sobre nós num monte de exclamações e interrogações patéticas.
Quem
matou Ayrton Senna?
Todos
nós. E ele, inclusive.
Mataram-no
todas as firmas que colam uma etiqueta na sua roupa e no seu carro. (Estarão
as etiquetas no caixão, na última corrida para a sepultura?) Matamo-lo todos
os que ligamos a televisão para ver seu carro
deslizar entre a vida e a morte nas manhãs de domingo. Matou-se ele mesmo,
porque o corredor não pode senão correr.
Portanto,
se todos o matamos, ninguém o matou. E estamos todos absolvidos, inclusive
ele. Desde a Grécia, e antes mesmo dos gregos, já era assim. Queremos o
jogo, o ritual. A vida é esse amplo e variado exercício no palco da morte.
Tentando
ser lógicos, pensamos: Por que ele não parou no tri-campeonato? Por que não
se satisfez com toda a fama, riqueza e mulheres já obtidas e não foi morrer
de velhice na Suíça?
Ao
corredor, no entanto, compete correr. Não se pode dizer ao pássaro que pare
de voar.
"Ah,
eu teria parado lá pelas tantas depois de ter ganhado uma certa
fortuna!", diz o simples mortal. Mas o mortal complexo que é o her6i
pensa diferente. Ele é um competidor nato. Como Senna, que desde os dez anos,
ou antes, já estava nas pistas de kart carteando entre a vida e a morte.
Mesmo
queimados, danificados, meio aleijados, os corredores voltam para a pista,
como para o ringue volta o boxeador com o rosto cortado e sangrando.
E
assim o homem vai correndo desde cedo, transformando a vida em jogo e
brinquedo.
Os
heróis, como os semideuses, têm pressa. Estão indo a alguma parte. E sobre
a pista arremetem a vida, como o artista faz sua arte.
Algo
de nós corre neles em seus engenhos de aço, sob a armadura de anúncios
colados no peito e braços. Algo mais que aventura em sua fúria feroz. E
quando algum deles explode contra o muro, algo também morre em nós.
Morte
provisória, já se vê. Que noutra pista, outra disputa reacende do luto a
luta, outro herói refaz a história, nos arrebata a vista e a voz, iluminando
na vitória alheia a nossa ilusão de glória.
03-05-99
Affonso Romano de Sant'Anna
escritor e jornalista
Editora Rocco
santanna@novanet.com.br
Transcrição autorizada pelo
autor