03-05-99



AFFONSO ROMANO
ARQUIVO

 

Affonso Romano de Sant'Anna


Senna: correndo para a morte

 

Entre 1985 e 1993 Senna derrotou a morte 44 vezes. Mas à morte bastava uma única vitória. E esta ocorreu, de repente, na manhã desse 1 de maio numa curva da pista de Imola, na Itália.

Telefonou-me um leitor: "Senna foi imolado. A pista queria sangue, estava inquieta. Na véspera matara já o austríaco Ratzemberger e acidentara o brasileiro Barrichello. Há anos liquidara com Piquet. A pista estava sedenta. Deve ter-se acalmado agora."

Espero. Mas não confio. As pistas querem sangue, suor e lágrimas. Risos também. Mas o riso só não é suficiente. Assim, seria apenas um circo. As pistas de corrida, certos espaços esportivos, apresentam-se mais como lugares onde se realizam rituais de louvor à vida e à inarredável morte. Se tirarmos a possibilidade da morte, a vida perderá sua tensão, cairá na banalidade.

É a morte que dá sentido à vida, diziam os existencialistas no nosso século. À primeira vista, essa frase soa meio estranha. Mas é como se disséssemos: é o porto de chegada que dá sentido à viagem. E assim é, A pessoa vai vivendo, vai vivendo; a sua vida parece ir numa direção determinada. De repente, ocorre uma surpresa, um impacto, a morte. Essa morte nos obriga a rever toda a vida do personagem. Então, a vida é isso: um romance que se lê de trás para frente.

Isso é o que ocorre, por exemplo, com os suicidas. Vivem ao nosso lado. Muitos não nos parecem em movimento para o fim desastroso e espetacular. Ao contrário, assemelham-se a nós. Acordam, tomam café, vão aos estudos e trabalho, têm lá suas angústias, mas as achamos parecidas com as nossas. Nada denotava que o fim, como uma bomba-relógio, estava já em movimento; como se a morte fosse um bólido que viesse ao seu encontro, como se o indivíduo ordenasse à sua morte: venha apagando toda a estrada que ainda tenho pela frente, venha, colha-me no meio da pista, cansei das curvas, quero a reta interminável a que chamam eternidade.

Em 32 anos de Fórmula 1, foram sessenta mortos. Quase dois por ano. É, portanto, um esporte violento. Violentíssimo. Mas o público adora. Conscientemente ninguém quer a morte. Aparentemente queremos só a velocidade, a disputa, a ultrapassagem, como no futebol queremos o drible e o orgasmo do gol.

No entanto, no fundo, queremos mais. A indústria, sobretudo, quer mais. Quer mais tecnologia, mais e mais desempenho. Por isso mete o piloto ali dentro daquele caixão chamado cockpit e manda ele arrancar. Ele arranca. Dispara. Zune. Nos emociona, cobre-se de champanhe, riqueza e glória.

Diz-me alguém, comentando o desastre de Senna e apontando o absurdo: "Colocam um homem dentro de uma banheira de gasolina e disparam-na a trezentos quilômetros, e depois querem que ele sobreviva."

As vezes, sobrevive. Às vezes não. Quando não sobrevive, então a morte alheia desaba sobre nós num monte de exclamações e interrogações patéticas.

Quem matou Ayrton Senna?

Todos nós. E ele, inclusive.

Mataram-no todas as firmas que colam uma etiqueta na sua roupa e no seu carro. (Estarão as etiquetas no caixão, na última corrida para a sepultura?) Matamo-lo todos os que ligamos a televisão para ver seu carro deslizar entre a vida e a morte nas manhãs de domingo. Matou-se ele mesmo, porque o corredor não pode senão correr.

Portanto, se todos o matamos, ninguém o matou. E estamos todos absolvidos, inclusive ele. Desde a Grécia, e antes mesmo dos gregos, já era assim. Queremos o jogo, o ritual. A vida é esse amplo e variado exercício no palco da morte.

Tentando ser lógicos, pensamos: Por que ele não parou no tri-campeonato? Por que não se satisfez com toda a fama, riqueza e mulheres já obtidas e não foi morrer de velhice na Suíça?

Ao corredor, no entanto, compete correr. Não se pode dizer ao pássaro que pare de voar.

"Ah, eu teria parado lá pelas tantas depois de ter ganhado uma certa fortuna!", diz o simples mortal. Mas o mortal complexo que é o her6i pensa diferente. Ele é um competidor nato. Como Senna, que desde os dez anos, ou antes, já estava nas pistas de kart carteando entre a vida e a morte.

Mesmo queimados, danificados, meio aleijados, os corredores voltam para a pista, como para o ringue volta o boxeador com o rosto cortado e sangrando.

E assim o homem vai correndo desde cedo, transformando a vida em jogo e brinquedo.

Os heróis, como os semideuses, têm pressa. Estão indo a alguma parte. E sobre a pista arremetem a vida, como o artista faz sua arte.

Algo de nós corre neles em seus engenhos de aço, sob a armadura de anúncios colados no peito e braços. Algo mais que aventura em sua fúria feroz. E quando algum deles explode contra o muro, algo também morre em nós.

Morte provisória, já se vê. Que noutra pista, outra disputa reacende do luto a luta, outro herói refaz a história, nos arrebata a vista e a voz, iluminando na vitória alheia a nossa ilusão de glória.



  


Affonso Romano de Sant'Anna
escritor e jornalista
Editora Rocco
santanna@novanet.com.br
Transcrição autorizada pelo autor

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