24/08/2002
Número - 273


 

    

Affonso Romano de Sant'Anna
 

COMO SER FELIZ NO BRASIL

 

Descobri que há várias fórmulas para ser feliz no Brasil.

Não foi uma descoberta fácil. Levou-me anos de paciente estudo e observação. Isto se deu depois de muito amor febril sob o céu anil, deixando de lado o fuzil e o cantil até chegar à compreensão total da pátria amada idolatrada salve salve. E foi minha salvação.

Até hoje, digo, até ontem, era daqueles que tinham um pensamento simplista e, direi, maniqueísta: julgava que eu estava certo e o país errado. Que pretensão, meu Deus! Nisto era igual, talvez à média nacional. Cada um, individualmente, se julga certo e impecável, mas considera o conjunto dasastrado e inviável. Ou, o que é pior ainda: achando que o país era ruim e eu bom, eu era evidentemente melhor do que o país.

A situação não só não era nada poética, mas era patética e nada dialética. E o meu problema era um antiético dilema.

Aí estava a contradição: se cada um de per si era bom, por que o conjunto era tão ruim? Esse teorema não cabia em nenhuma matemática, ou como diz um amigo, "matemágica". Como é que a soma de tantos dados individuais positivos dava um resultado negativo? Seria esta nação um caso de perversão gestaltiana? Ora, segundo essa corrente da psicologia, um conjunto não é apenas a soma de suas partes, mas a soma de suas partes mais um. Ou seja, no final, aparece um elemento que não estava à vista, mas que dá sentido ao conjunto.

De qualquer forma a questão continuava insolúvel, porque não havia explicação para que a soma fosse negativa.

Chegou o momento, contudo, em que mudei minha postura diante desse quadro. Por exemplo: estava num jantar. De repente, começavam as conversas apocalípticas perfeitamente integradas (ver livro de Umberto Eco: Apocalípticos e integrados). O tom era catastrófico: a corrupção no governo, a inflação etc. E, de repente, surge um retardatário que contava que acabara de ser assaltado na esquina.

No princípio, caía nessa armadilha e arruinava o meu jantar. Mas com o tempo desenvolvi uma técnica de legítima defesa. Então, convido queridos à minha casa ou escolho com eles um belo restaurante para passar gostosos momentos e vou deixar que se instale o baixo astral? Vou deixar que derramem sangue no meu prato, fel na minha boca e azedem o vinho da noite? Afastem de mim esse cálice.

Um dia, como aconteceu a São Paulo no caminho de Damasco, desabou sobre mim uma iluminação: "Cai na real, cara! Se o país é o que é há quinhentos anos, como acusá-lo de não ser o que não é?"

Vejam vocês, bem que os chineses diziam: o homem sábio é aquele que descobre o óbvio. E a voz continuou: "É isso aí cara! O erro é seu, tá legal? O País é de uma fidelidade canina a si mesmo, você é que está por fora."

E estava eu ainda atordoado, quando a voz se afastou dizendo uma frase ao estilo zen tropical: "Não se pode estar num mangueiral querendo comer goiaba. Nem jabuticaba. Muito menos mangaba. Quanto mais graviola e açaí. É isso aí."
Não me entendam mal. Não estou propondo a volta do lema criado no tempo de Delfim-Médici: "BRASIL, AME OU DEIXE-O". Nem vê. Já que não posso elevar o salário mínimo sem minimizar a catástrofe que isto seria para a economia nacional, já que não posso elevar o piso salarial sem pisar no calo dos patrões, quero apenas elevar o nível teórico do desprazer.

Doc Comparato me disse uma vez, numa dessas crises nacionais das quintas-feiras, que sempre que a situação piora lhe acorria essa indagação: o que estarão pensando os mineiros? E só depois disto se tranqüilizava (ou não). Como mineiro, eu confio mais nos gregos. E toda vez que a situação fica de dar pena, certo de que a filosofia do vizinho é mais gorda, volto aos gregos. E lá encontro outra banal e segura orientação.

Tudo é questão de ponto de vista. Para alguns, o que existe é o real. Para outros o real não passa de puro reflexo do que pensamos sobre o real. Se você muda as idéias, muda imediatamente o real. É mais ou menos o que acontece com a criança. Ela tem que tomar aquele remédio horrível. Aí vem a mãe e diz a palavra: "É gostoso, neném, gostosinho, toma", e a criança toma convencida de que as palavras da mãe é que estão certas. "O dodói já passou, pronto, mamãe sopra e não dói mais." As palavras, como vêem, têm muita força.

Já que o leitor teve a paciente curiosidade de me acompanhar até aqui, adianto do que tratarei na próxima crônica. Chega de introdução e suspense. Para ser feliz no Brasil há três atitudes que o brasileiro pode assumir. Todas elas conduzem à felicidade, não direi cínica (não confundam), mas cívica: 1) a atitude alienada-lírica; 2) a atitude lógica-cética; 3) a atitude revolucinária-progressista.
Juntas ou separadas resolvem qualquer infelicidade.



(24 de agosto/ 2002)
CooJornal no 273


Affonso Romano de Sant'Anna
escritor, cronista e jornalista
Editora Rocco
santanna@novanet.com.br
Transcrição autorizada pelo autor


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