16/06/2007
Ano 11 - Número  533

AFFONSO ROMANO
ARQUIVO

 

    

Affonso Romano de Sant'Anna
 

Simplesmente olhando o mar

 

Ficar assim à beira-mar marulhando a alma.

Um dia, fiz isto: passei duas horas sobre as pedras do Arpoador marulhando o corpo, maravilhando a alma.

Duas horas, direis, é muito tempo. Se estivesse aplicando em ações, quanto poderia ter ganho? Se estivesse construindo uma casa, quantos tijolos poderia ter erguido? Se estivesse plantando sementes no campo, quantos frutos colheria?

E, no entanto, passei duas horas à beira-mar apenas marulhando a alma.

Do outro lado, o mundo, o mundo urgia velocidades, buzinas, papéis nos escritórios, aflições ao telefone e decomposições hospitalares.

Mas eu o ignorava.

Minh’alma estava ali apenas, olhando as ondas e marulhando silêncios. Digo minh’alma, como os antigos, porque ocorreu uma fusão anímica e sonora: eu era a pedra, eu era o mar: três coisas numa só.

Às vezes, é necessário fazer isso. Nem todos têm coragem, é claro. Acham que, se não estiverem apertando um parafuso, a máquina não funcionará: que se não estiverem costurando, bordando, remendando o mundo, o mundo ficará inacabado. No entanto, eu lhes garanto, se tirarmos os ombros, o mundo não desabará.

É preciso muita coragem para, de repente, não fazer nada: ficar duas horas contemplando o mar é a suprema audácia. Sabiam já os antigos que o mar contém seres fabulosos e ingovernáveis, que o mar é um dragão, o mar exterior, o mar interior. É preciso ter têmpera de pedra e ficar ali ante as baforadas de suas ondas e espumas, sem tremer, sem regatear.

Sei que isso às vezes ocorre quando a gente está muito triste. (Não foi o caso). Quando uma melancolia qualquer, uma sem-saída cinzenta desaba como um nevoeiro sobre a alma da gente, aí saímos vagando, perambulando, a dar com a cabeça no vento, arrastando invisíveis bolas de chumbo.

Não foi o caso.

Joguei ao mar duas horas de minha vida com uma tranqüilidade absurda. Quase como se eu devesse um encontro ou tivesse que restituir alguma coisa a alguém. Restituir, não ao mar, percebo, senão a mim mesmo.

Simplesmente olhava em torno, mas não via o que eu via. Adiante, não via um casal deitado na pedra se beijando. Mais abaixo, não via três moças americanas guiadas por uma brasileira, conversando e olhando um ou outro macho tropical que nos cercava. Do outro lado, não via um homossexual, como um gamo de orelhas em pé, na campina, atento a qualquer chamado. Não via também os barcos que no horizonte via.

Aos poucos via que me ia fundindo ou confundindo com a pedra em que me assentava e o que o mar não era senão uma extensão de meu sangue nesse vai-e-vem ritmado e obsessivo. Não sei se era a pedra que se humanizava ou se era o mar que se corporificava.

Nunca fui tão crustáceo em toda minha vida.

Sim, um mexilhão, uma ostra, um ser daqueles que se agarram à pedra e à água e não se afogam. Não, o silêncio não me afogava. O azul me tripulava. Eu era um peixe na pedra. Eu era um homem na água. Eu era uma onda parada.

As seitas orientais devem ter algum exercício de concentração por meio do qual isso ocorre. Me disseram que, mesmo na altas neves do Himalaia, um monge, embora nu, pode aquecer-se concentrando-se no próprio umbigo.

Possivelmente estava no umbigo de alguma coisa. Do mundo, de mim. O fato é que estava imensamente fora de mim, integrado no todo, e nem sei se pensava. Simplesmente sentia, e, possivelmente, fui feliz.

Aquelas duas horas inteiras foram as mais úteis de quantas apliquei ao nada.

Aplicar-se ao nada, sinal de humilde sabedoria.

Certa vez, li que o homem somente entenderia o “tudo” depois que exausto e falido diante desse “tudo”, começasse a construir o “nada”. Esta não é uma frase que se entende assim de uma hora para outra. Por isso, quem não a entender agora, guarde-a para o futuro, que o nada do tudo florescerá.

Ficar marulhando a alma à beira-mar maravilhada, eu lhes digo, é um ritual, às vezes, urgente e necessário. Nenhum ganho a isto se equipara. Voltamos para casa acrescentados. Como o marinheiro que volta com seu barco. Como o pescador que volta com seus peixes, invisíveis, é claro, mas que vão me alimentar.



(16 de junho/2007)
CooJornal no 533


Affonso Romano de Sant'Anna
escritor, cronista e jornalista
santanna@novanet.com.br
Transcrição autorizada pelo autor


Direitos Reservados