
03/02/2007
Ano 10 -
Número 514
ARQUIVO ALBERTO COHEN
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Alberto Cohen
O GIGOLÔ E A POESIA
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As idéias vagam pelo mundo esperando que as
palavras venham desencantá-las. Às vezes, são dóceis. Ariscas e arredias,
quase sempre.
Pois bem. Aqui estou escrevendo mal traçadas linhas que, para surpresa
minha, algumas pessoas gostam. Eu não! Se pudesse estava nas festas, nas
boates, nos cinemas, ao invés de ficar olhando, horas, a cara quadrada do
computador.
Deus sabe o que faz. Destinou uns pobres coitados a serem coletores de
imagens que os outros só enxergam quando já estão escritas. E não existem
alternativas: quem nasce com o fado, é poeta ou poeta frustrado. Não
adianta correr. Os poemas voam e aguardam lá na frente, nas esquinas e
encruzilhadas, rindo ou chorando, a passagem do fujão para subjugá-lo.
Comigo foi assim. Passei anos escondido em diversas profissões, trocando
de automóveis, disfarçado com negras togas, até procurar, como último
recurso, refúgio nas delegacias de polícia. Tudo inútil. A poesia seguiu
meus rastros, encontrou-me e... “passa já pra casa!”.
Até dormindo, ela me chama com promessas de carinhos, tão logo eu escreva
“umas bobagenzinhas”. É bom que se diga que essas “bobagenzinhas” vão pela
noite afora e, quando volto para o quarto, a mulher de codinome poesia já
foi embora e só me resta tentar dormir novamente.
Que fazer? Se me incomoda, de outra forma sinto sua falta nas ausências. E
vamos vivendo a expensas de rimas e metáforas recolhidas numa transa e
outra com as letras, as palavras e o papel.
(03 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 514
Alberto Cohen
advogado,
poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@terra.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm
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