16/11/2020
Ano 24 - Número 1.197
 


ARQUIVO ALBERTO COHEN

Alberto Cohen
em Expressão Poética

 

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Alberto Cohen


A SOLIDÃO DO CHEFE

 

 

Alberto Cohen, colunista - CooJornal

Aquela nação indígena tinha sempre dois chefes: um para os dias de paz, quando todos os conflitos haviam sido resolvidos, outro para a guerra, para o vencer ou vencer, para os atos de bravura e liderança. Um era o provedor, o outro o defensor. Cada qual absoluto, dependendo da época que atravessavam.

Ocorre que, durante a guerra, o chefe da paz não podia perder o ar pacífico e tranquilo, enquanto na paz o chefe guerreiro tinha que demonstrar ferocidade, como se ainda estivesse em combate. Imagine-se o conflito interior de cada um ao se tornar símbolo de uma expectativa.

Nos dias de importância meramente totêmica, na solidão de um comando sem seguidores, o chefe reserva (chamemos assim) costumava partir para grandes caminhadas, geralmente com destino desconhecido. Dizia-se que estava viajando para dentro dele mesmo. Na verdade o que buscava era somente a paz, ou a guerra (conforme o caso), que não podia vivenciar junto com os de sua tribo. O encontro com o momento histórico que lhe era negado.

Nessas peregrinações, ocorria, então, o absurdo de um chefe da guerra alimentar-se somente de raízes e frutos, para não molestar os animais, e cuidar de doentes e feridos encontrados, por acaso, no caminho. De outro modo, era comum um chefe da paz bestializar-se, transformando-se em sanguinário matador de qualquer ser vivo que avistasse. Apenas as respectivas formas de contraditarem a ambiguidade de seus destinos.

Assim, guerreiros tornavam-se, em determinado instante, monges e distribuidores da caridade, e pacifistas mudavam em cruéis assassinos seriais.

Ao voltarem para a aldeia, o da paz coberto de sangue e o da guerra com um acervo de atos de bondade, afivelavam, novamente, suas máscaras e assumiam os papéis de bons ou maus, que por algum tempo haviam abandonado.

Nota - Obviamente, tudo isso é fantasia e um amontoado de palavras sem objetivo ou moral da história.

 

Publicada, anteriormente, em 24/09/2005, edição nº 443


Alberto Cohen
advogado, poeta e escritor
Belém, PA
albertolcohen@yahoo.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm


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